13.12.10

EM QUE (NÃO) ACREDITAMOS

O que se comemora no Natal? E em que acreditamos nós? Esta reflexão parece-me importante quando uns morrem em nome de 70 virgens num paraíso, outros acreditam solenemente na reencarnação e outros acreditam no Deus Menino que agora se celebra como se manifestou na tradição cristã. Outras religiões e crenças tendem a personalizar Deus tornando-o simplesmente deus, e perigosamente demasiado parecido com as convicções que cada um acolhe para acreditar nele. Claro que existe toda uma ascese de revelação como aquela em que Deus se manifesta aos simples e não aos grandes, e talvez daí o dom da fé.

Nas minhas formulações sobre esta data, ocorre-me pensar, mesmo que acredite de forma vacilante, naíve ou frágil, na Sua existência. E o que penso é que Deus está acima da razão, para além dela, pelo que não pode ser esse o caminho. Dizemos que não sendo possível provar Deus, logo não existe, e então a sua validade será igual à do Pai Natal, dos duendes ou das fadas madrinhas, mas acreditar nestes entes faz parte do crescimento psico-afectivo da criança (e mal das que não sonham o mistério), mas uma vez tornada adulta, a criança discerne pela razão, não o absurdo da crença, mas a efabulação necessária que houve, com elementos constitutivos do crescimento como os seres mágicos. Transmitida embora de forma diferente em criança e em adulto, a ideia de Deus não deixa de ser racional, o que já não acontece com os seres míticos das fadas ou duendes.

Não há qualquer lógica em concluir que por Deus não ser uma realidade científica, i.e., mensurável, quantificada, experimentada, não exista. Cientificamente não existe a beleza de uma sinfonia, mas um debitar de decibeís. Não existe estética, nem amor, nem arte. A ciência é amoral. É-lhe indiferente que amemos ou repudiemos alguém. Logo, não podemos legitimar a ciência naquilo que não é seu.

Não podemos forçar a razão para além dos seus limites. O Homem está para além de si. E ironicamente até pela mecânica quântica a probabilidade de algo ter surgido do nada é muito remota, mesmo com as convicções já contrariadas de Stephen Hawkings. Decididamente, Deus não se alcança pelo esforço intelectual que dele possamos fazer. A razão é um simples instrumento que não percebe nada de amor. Aceita-o, porque se compreende racionalmente, mas não entende. Razão e emoção são por natureza antagónicas, e no entanto,  não apenas não se invalidam como coexistem em cada um de nós. Entra, então, a fé que mais uma vez supera a razão. E então tenho de aceitar a minha limitação de que não consigo chegar a Deus pela razão. Se um homem numa ilha não pescar por desconhecer a existência de peixes, tal não invalida a sua existência.

Um Menino Deus “escandaliza” e baralha todas as noções filosóficas e religiosas de Deus e revela que Deus, afinal, é próximo. E quando me ponho a pensar assim, sem fanatismo e apesar de uma vacilante fé pintada com vazios, percebo melhor esta coisa do Natal, porque nós próprios somos algo mais do que meros seres fisico-químicos. E é nesta tentativa de compreensão de Deus, e com Ele do Natal, que acabo por acreditar nele, apesar de saber que cada dia a razão me assola e quer tomar de assalto aquilo que não lhe compete. Para mim não basta acreditar, mas dar sentido a essa crença.

Desejar Feliz Natal é tornar em gestos concretos a imitação do amor de Deus, hoje poderosos, amanhã rebaixados, nos loopings da vida e na nossa capacidade para nos mantermos na linha de água, na linha do horizonte, sem nos afundarmos em estéreis convicções nem em falaciosos racionalismos. E talvez a minha dúvida sobre Deus seja, afinal, a minha fé...

 
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