
A raposa pede ao Principezinho para ser domesticada por ele. Num primeiro momento ele nega, mas ela diz: "Se me domesticares, teremos necessidade um do outro. Serás para mim, único no mundo. Eu serei, para ti, única no mundo... A minha vida encher-se-á de sol... Olha, vês aquelas searas? Eu não como pão, para mim, o trigo não tem nenhum valor. Os campos de trigo não me lembram nada. É bem triste! Mas tu tens os cabelos de ouro. Quando me tiveres domesticado será maravilhoso, pois o trigo também é dourado e, quando o vir, ele evocará em mim lembranças de ti e amarei ouvir o ruído do vento nos campos de trigo". O Principezinho domesticou a boa raposa, mas um dia teve de partir.
"- Ah... - disse a raposa - Vou chorar.
- A culpa é tua - disse o Principezinho. - Não queria fazer-te mal, mas tu querias tanto que eu te domesticasse...
- Sim - disse a raposa.
- Então não te serviu para nada.
- Sim, serviu - respondeu a raposa -, porque agora tenho a cor dos campos de trigo"...
Esta é já, em si, uma pequena história de amor. A fragilidade da condição humana toca-nos mais quando a sentimos em nós mesmos ou no tecido humano de quem mais amamos. Repensa-se o sucedido à luz de uma experiência vivida e não teorizada. E guarda-se no nosso património imaterial, conferindo-nos maior sapiência de vida. O Amor não se define e muito menos se restringe à genitalidade. E vai desde o simples gesto para com quem está ao nosso lado, ao mais rubro coração de namorados. É um tratado de alma. É um cativar. "Eu não preciso de ti e tu não precisas de mim, mas se tu me cativas nós precisaremos um do outro" - disse a raposa ao Principezinho. Na primeira parte fala-se do óbvio, de que um não precisa do outro; na segunda, introduz-se este elemento do Amor. Todos precisamos uns dos outros. "Precisamos de mãe e de pai para nascer; são outras mãos que nos enterram". Mas não é deste "precisar" que fala o Amor. O Amor é muito mais do que um serviço. É entrega, doação. É dar a minha parte que acredita, que investe, que suaviza, que partilha, para também eu me completar.
Quando as pessoas se estendem nos consultórios, só quase a falar dos seus problemas pessoais, com a desculpa da gripe ou de uma qualquer comichão, estão a pedir amor. Quando os sem abrigo parecem zangados com o mundo, e atiram um piropo que nos deixa escandalizados, estão apenas a pedir amor. Quando a criança chora, não é só de birra. Mas parece, por outro lado, que hoje só valemos pelo que formos amanhã. Maximiza-se o valor de tudo o que é sensorial, dinâmico, quantitativo. Esvazia-se a pessoa da sua interioridade num mundo de estímulos alienantes consecutivos, a cada nano segundo. Também valemos pelo que somos hoje, agora. Valemos pelas mãos cheias de nada, também, porque o nada é quanto baste para tantos outros. Muitas vezes não sabemos o bem que fizemos ao Outro. Nem o Outro se apercebe do bem que nos fez a nós. Valemos pelo que pensamos, sentimos e somos, pelo que cativamos e deixamos cativar. Temos necessidade de amar, e até o mais intrépido homem tem dentro de si um lençol freático onde crê, mesmo que não apreenda no esgazeamento de existir, essa capacidade de amar e de dar.
Uma história de amor pode ser a da raposa com o Principezinho, que passou a olhar para os campos de outra forma, e por isso valeu a pena. É o mesmo que dizer "a minha vida ganhou sentido". É o Outro a chave da existência. É o Outro que lhe confere significado e, por isso, é no Outro que nos realizamos. Precisar, cativar, amar. É a chave homóloga da razão da existência. Com sorrisos ou com lágrimas, no fim, é sempre o Amor que vence, mesmo que chegue trilhado, espezinhado, sofrido. Porque foi amassado no coração do homem, simultâneamente pedra e folha. E o pior de tudo, é que muitas vezes leva-se quase uma vida inteira para se perceber que a não houve. E é o Amor o nosso rasto, mesmo depois de morrer. Precisamos, como a raposa, de olhar os campos e recordar algo ou alguém. HOIuve razão de existir. Ou, como escreveu Charles Dickens, "Ninguém pode achar que falhou a sua missão neste mundo, se aliviou o fardo de outra pessoa." Precisamos de nos sentir amados, e é por isso que só o Amor dá razão à existência!


20 comentários:
"O Principezinho" ainda é um dos livros da minha vida.
Exatamente pelo que se lê aqui, pela necessidade de cada um de amar e de ser amado.
Saint-Exupéry di-lo, como ninguém.
Um beijo
Oi, Lobinho!
Muito bom, como sempre. Para mim há uma frase que escreves que diz tudo: "E o pior de tudo, é que muitas vezes leva-se quase uma vida inteira para se perceber que a não houve."
esse é que é op drama.
Abração :)
P.S. - Gosto da musica, super calma, e bela foto :)
Gostava muito de deixar um comentário que completasse este post, mas, sinceramente, não consigo.
Disse tudo o que eu sinto, o que eu entendo por Amor, por razão de Viver.
Lindo texto!
Sempre muito belo o que se lê aqui.
Tal como para a Lídia "O Principezinho" é um dos livros da minha vida, ou até mesmo O LIVRO, como o é o "Papalagui" e "Não há longe nem Distância", livros que nos falam do essencial da vida e como dizia Saint-Éxupery no Principezinho " O essencial é invisível para os olhos. Só se vê bem com o coração".
"Foi o tempo que dedicaste à tua rosa, que fez tua rosa tão importante."
Senti-me bem aqui. A música também é muito bonita e relaxante.
Obrigada Daniel pela amizade e por tudo o que nos transmites.
Beijos.
Branca
Lobinho, adorei, lindo, lindo, lindo!!
beijinhos
Há muitas formas de pedir amor...e muitas formas de o dar. Que bom recordar o "Princepezinho", que bom conhecer a frase de Dickens.
Olá Daniel!
Embora por aqui a qualidade não seja de estranhar, isto está mesmo muito bom.
Um abraço de parabéns também :)
"Muitas vezes não sabemos o bem que fizemos ao Outro. Nem o Outro se apercebe do bem que nos fez a nós. Valemos pelo que pensamos, sentimos e somos, pelo que cativamos e deixamos cativar..."
Daniel, como sempre, escreves, e nós, que temos um previlégio ímpar em poder fazê-lo, ler-te, vamos embora (para mais tarde voltar) sempre com a alma mais bonita.
Lindas as palavras de tão tão certas..
Obrigada.
Um grande beijinho num ainda maior abraço.
Dulce
Olá Bondoso Daniel.
«"Ninguém pode achar que falhou a sua missão neste mundo, se aliviou o fardo de outra pessoa."» E não é tão bom saber que um simples gesto, ou um enorme esforço talvez, contribuiu para a felicidade, para o alivio, de outro alguém? Que seja um sorriso de leve ou um grande amor profundo e verdadeiro. Que seja, o que for! Desde que seja verdadeiro. Essa história que aqui colocaste ainda não li mas oiço falar muito bem dela! E é maravilhoso como os contos de crianças, que para crianças parecem não ser, têm uma mensagem tão límpida. Tão maravilhosa? «O Amor dá razão à existência.» Não diria melhor.
Muito agradecido por toda a companhia, todas as leituras e todos os teus escritos Daniel, que são puros e transparentes como a água. Lindos.
Abraço, Teu.
Olá Amigo Daniel,
Bem-haja por este Tratado de Alma em que o Amor é descrito de uma forma tão bela e sublime que não tenho palavras para comentar como gostaria para não desvirtuar tudo o que está escrito. E está mesmo tudo. O amor é uma dádiva como refere: “O Amor é muito mais do que um serviço. É entrega, doação. É dar a minha parte que acredita, que investe, que suaviza, que partilha, para também eu me completar”.
Muito obrigada por me dar o privilégio de poder lê-lo neste seu fabuloso Sair das Palavras.
Um beijinho com a minha imensa admiração e amizade.
Ailime
Excepcional visão do amor.
"O Amor não se define e muito menos se restringe à genitalidade"
Muito bom, Daniel! Muito bom mesmo!
Um ótimo final de terça feira para você!
Parabéns pelo texto! O grande segredo é amarmos, simplesmente amarmos. Hj em dia parece um pouco fora de moda este amor,mas só assim não poedemos nossa essência. Bjs
Obrigada, meu amigo, por ir parabenizar meu canto hoje em festa!
Grande abraço e meus sinceros parabéns ao teu espaço sempre cheio de reflexões.
Sem dúvida, o Amor é um tratado da alma e uma disponibilidade do coração!O Principezinho ( o livro que eu mais gosto) ensina tão bem o que é o amor!
Quando tudo é dirigido pelo amor, tudo nos levará ao amor. O amor deu-me o rumo certo na vida. Cada palavra foi o carinho que eu precisava e cada gesto, a ternura esperada.
Beijo amigo.
Graça
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. o amor . tantas vezes dito e re.dito por tantos e por todos . o amor . é um sentimento universal . vivido na individualidade de cada alma . una . que assim se esventra . e assim se complementa .
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. ou assim se alimenta .
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. um abraço .
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"O Principezinho" ficará para sempre em minha memória esse livro.
Perfeito, maravilhoso como sempre Daniel.
Bom fim de semana.
beijooo.
Concordo, muita gente vai a o médico não por causa de dores ou tremores, mas sim para desabafar com alguém.
Meu amigo, como sempre um texto completo e reflectivo.
"Precisar, cativar, amar."
As três palavras chaves para uma boa relação humana.
Quando falha uma delas o resultado final não pode ser positivo.
Mas é tão difícil alcançar esta plenitude...
beijinhos e bom fim de semana
Li o Principezinho e, de qaundo em vez, leio de novo...aí está:essa capacidade de cativar, amar...
o teu texto é excelente. Parabéns.
BJ
Lindo.
Adoro o Principezinho :)
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