A intensidade do presente revela-se de particular importância quando há muito se vive hipotecado no futuro, almejando mais e melhor, mundos idílicos e sonhos que tantas vezes não acontecem. Existe um consentido abandono no presente que começa logo em criança. Que queres ser quando fores grande? E que, quando já adolescente, se pergunta mais a sério: tens namorad@? E depois, quando casas, e depois de casado quando vem um nené, e depois do filho, quando vem outro? e depois de outro, quando é avô/avó? e assim sucessivamente fazendo com que cada etapa valha nada e colocando sempre no futuro o real interesse (que, obviamente é fictício e não passa de curiosidade).
No dia a dia, no presente de cada um, deve valorizar-se o que somos, o que temos, como amigos, família, trabalho..! E, todavia, descartamos sempre para um futuro mais ou menos próximo, a plenitude de qualquer coisa, no status, na pessoa, no poder, no que quer que seja. Isto é, demitimo-nos de viver cada dia com maior intensidade, de sermos em plenitude a cada dia, a cada instante, a cada agora, e não remeter para amanhã (que quase sempre não chega a acontecer como sonhado) o que podemos já fazer hoje! Um ideal é isso mesmo: algo inalcançável, de uma perfeição tal que não se obtém. É por isso que a melhor definição de felicidade é aquela em que vivemos e sentimos o momento, o agora (que pode ser mais eterno ou menos eterno, como dizia o Coelho na Alice dos País das Maravilhas). A ideia de uma felicidade próxima ou distante, mais como fruto de sonhos do que propriamente de real concretização, por um lado desresponsabiliza-nos (pensamos nós) e por outro relega para uma suposta melhor altura aquilo que queremos ser e fazer. Ora isto só pode ter a ver com as condições ideais, mas cada dia gera em si a condição ideal correspondente que tem de ser agarrada, percebida, interiorizada, sob pena de vivermos sempre emprestados ao mundo e à vida, aguardando o tal momento que nunca chegará, pelo menos da forma como foi idealizado!
É hoje, aqui e agora, pelo uso de tudo o que somos, que nos devemos manifestar, realizar e ser. E o mundo seria com certeza bem melhor, se das intenções se passasse à efectivação prática da amizade, da inteligência emocional, da simpatia, da entreajuda, dos valores universais do bem, e até as depressões seriam muito mais debeladas porque havia o abraço, uma descontrução do anonimato, uma partilha digna de pessoa, e não de um ser amorfo e distante metido nos seus pensamentos.
Quando chegar uma idade maior, é nesse outono de vida que vamos buscar as lembranças, não de ontem, mas de toda uma vida. E tê-lo-á sido? Como justificaremos a vida? Claro que nessas idades continua a dar-se muito, mas já não se vai a tempo de atalhar aos 30 e deixar a sua marca, o seu alcance de entreajuda mesmo que apenas psicológica e moral. Eu não sei o que vai ser de mim. De resto, confesso, nunca soube. Uma espécie de viver naífe, proporcionalmente inverso ao futuro que hipotecamos. Dou-me por inteiro, sou por inteiro. Recebo admiração, carinho, amizade e inveja. Muita. Mas se cada um é o seu próprio potencial de felicidade, porque invejar? Colocar em cada dia toda a sua presença, sorrindo, sendo, amando, deixando para os chateados da vida as recriminações de que está sempre tudo mal (mesmo quando está) e para outros tantos, que só descansam quando vêem o outro aparentemente deitado abaixo, numa traída confissão de que estão dependentes do valor dos outros para se darem a si importância.
Aquela frase que diz que devemos fazer tudo como se o amanhã não existisse, não é de forma alguma populismo ou despeciendo. É já a mão da vida a avisar diacronicamente que somos melhores e nos realizamos mais se o fizermos a cada dia, a cada momento, e não em intermináveis planos que nunca se concretizarão nesse êxtase e idílio com que é sonhado. Dois, três ou quatro grandes projectos para o futuro, (para uns será o curso, o carro, constituir família, uma diferenciação profissional, para outros será outra coisa) e pouco mais, porque os outros projectos são compagináveis no presente, neste tempo, no agora, mas de tão habituados a termos de ser sempre tristes e cinzentos, e porque o totoloto não nos sai, pendura-se ali numa prateleira de pendentes as gratificações emocionais que, afinal, podemos ter já! Adiar a dita felicidade para pequenos sonhos, fazendo deles a gaiola do-que-não-se-é e/ou do-que-há-de-vir-a-ser, é resvalar para a existência aquilo que, obrigatoriamente, tem de ser vivido. Caso contrário, damos por nós sem património próprio e em luta contínua quando, olhando para trás, não virmos as pegadas na areia...
Deixo um poema que sempre gostei muito, e ilustra de alguma forma a falta de atenção que temos connosco mesmos, nos momentos que não fazemos de relaxamento, de silêncio e de interioridade numa sociedade onde o redutor passou a ser o essencial, e o poema diz assim:
"Em nenhuma esquina do teu bairro
encontrarás o domingo da tua infância,
povoado de pássaros e melodias.
Hoje, és um ser penetrado de ruídos
e em redor da tua angústia
desfilam máquinas estranhas e a multidão de rostos que não conheces"...


17 comentários:
Gosto tanto da música! Mas tanto...
É linda!
Olá Daniel. Boa noite! Belíssimo texto! Escreves a páginas tantas: "Eu não sei o que vai ser de mim. De resto, confesso, nunca soube. Uma espécie de viver naífe, proporcionalmente inverso ao futuro que hipotecamos". - Deixa-me dizer-te, mas também deves saber disso, que não há pessoas assim, desimportadas com o ter e olhando mais ao ser e à felicidade nos moldes em que nas apresentas! Mas é essa diferença que dfaz de ti alguém francamente especial, aopareentemente tão dado ao pragmatismo quanto à introspecção.
A foto está belíssima! Duvido que tenha sido por cá :)
Um abraço com a minha admiração e amizade
olá Lobinho,
concordo contigo inteiramente. a sociedade vive muito para um tempo que não existe e não nos é garantido. o amanhã, além de quase nunca ser como o imaginámos, para muitos não existe. esta vida é muito efémera, nada é garantido, num momento estamos bem e no outro não somos nada.
quanto aos óscares não vi, há muito que me desliguei, além de darem muito tarde (até estava acordada nessa noite mas aproveitei para colocar algumas séries em dia)também se perdeu aquele glamour cinematográfico, é com tristeza que vejo que a cerimónia dos óscares não é mais do que um desfile de moda e ostentação....
beijinhos
{mas de tão habituados a termos de ser sempre tristes e cinzentos, e porque o totoloto não nos sai, pendura-se ali numa prateleira de pendentes as gratificações emocionais que, afinal, podemos ter já!}
Muito bom o teu texto, mas muito bom tambem pela forma como interiorizas e descreves o teu olhar pela vida. Parabens pelo excelente e continuo trabalho que nos ofereces aqui.
Obrigado pelo teu comentario.
Uma boa semana
Fernanda
{mas de tão habituados a termos de ser sempre tristes e cinzentos, e porque o totoloto não nos sai, pendura-se ali numa prateleira de pendentes as gratificações emocionais que, afinal, podemos ter já!}
Muito bom o teu texto, mas muito bom tambem pela forma como interiorizas e descreves o teu olhar pela vida. Parabens pelo excelente e continuo trabalho que nos ofereces aqui.
Obrigado pelo teu comentario.
Uma boa semana
Fernanda
Vim só deixar-te um beijo! Volto amanhã...
E agradecer-te o link do vídeo (sabes como aquele concerto me toca na alma!)
Bom dia, querido amigo!
Daniel, boa tarde! "demitimo-nos de viver cada dia com maior intensidade, de sermos em plenitude a cada dia, a cada instante, a cada agora"... Está brutalíssimo! É que é mesmo isso. E se uma doença nos apanhar ou nos cair o tecto em cima? Uma vida incompleta porque estava hipotecada, como dizes... Love your words :) Abração
Meu querido amigo Daniel,
O teu texto como tantos outros que escreves traduz uma realidade presente em nossas vidas.A expectativa que deitam sobre nós anula.nos por vezes a vontade de sermos diferentes.
O grau elevado da fasquia impede que soltemos amarras e libertarmo-nos dos preconceitos.
Por vezes é mais facil falar que actuar.
Eu pessoalmente(embora sinta que ultimamente tens tido uma preocupaçao com o meu estado interior.Obrigada)tento viver um dia de cada vez.Despromovida da importancia que isso possa ser para outros,agarrando cada segundo do tempo e retirando quanto me é possivél, aquilo que mais me faz sorrir.
Tenho bons motivos para isso,acredita.
Depois cá dentro...numa daquelas gavetinhas(que eu abro,tantas vezes)guardo um mundo paralelo onde sou escuridão.
Amanhã....será apenas e só mais um dia...
Bjinho cheio de luar e carinho
Meu amigo:
Li e reli mais um excelente texto seu, que me deixou extasiada com a dimensão humana nele contida.
Todos os seus parágrafos podiam ser salientados, mas escolhi este:
«E o mundo seria com certeza bem melhor, se das intenções se passasse à efectivação prática da amizade, da inteligência emocional, da simpatia, da entreajuda, dos valores universais do bem...»
Vivemos centrados no nosso pequeno mundo,nos nossos problemas, esquecendo que somos um pequeno grão de areia no imenso areal humano,e que bastava só mudarmos um pouco a nossa atitude para o mundo ser bem melhor.
Viver um dia de cada vez com a consciência tranquila é também o meu lema de vida.
beijinhos
Há quem diga que o melhor que podemos fazer na vida é criar boas recordações para entreter a velhice...
Gostei do poema, muito.
OLá Daniel. Deixo um poema de Joaquim Pessoa que traduz bem o que pretendo dizer ao ler este seu "Sair das Palavras".
Um beijinho de boa noite...
"São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se interrogam, e encontram a resposta para todas as perguntas nos nossos olhos e no nosso coração. As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para que ela possa levar beleza e ternura a outras mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, a escutar um violino. São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo.
Joaquim Pessoa, in 'Ano Comum'
Sabe bem em final de noite, raiar do dia, vir meditar sobre a palavra dos sentimentos e afectos que são parte intrínseca de ti.
Sim, o mundo seria bem melhor... ah! não fora a meditação e o apego dos raros momentos de partilha.
O excerto do poema é lindo! Quanta sageza:
"Em nenhuma esquina do teu bairro/
encontrarás o domingo da tua infância," (...)
Um beijo muito fraterno, Daniel!
(melodia terna que induz à meditação...)
um excelente texto que merece a nossa reflexão.
obrigada!
Amei seu texto. A mais pura verdade! Deus quando criou o tempo dividido em dias foi pra vivêssemos inteiramente um dia de cada vez...Daí, em cada dia vivemos uma vida vida inteira.
Olá Daniel,
Seria impossível não concordar o escrito e descrito. Infelizmente não damos tanto valor ao presente mas demasiado ao futuro. Como Shakespeare escreveu: «E aprende a construir todas as tuas estradas no hoje porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos e o futuro tem o costume de cair em pleno voo.»
Abraço.
Olá Daniel boa tarde,
Que texto! Excelente!
Vejo-me espelhada em tantas realidades que aqui nos relata na antecipação de futuros que não aconteceram ou não acontecerão, porque na verdade como afirma e muito bem “É hoje, aqui e agora, pelo uso de tudo o que somos, que nos devemos manifestar, realizar e ser.”
O maravilhoso poema no final do seu texto é bem elucidadivo do que partilha de uma forma tão generosa e que me ensina tanto.
Muito obrigada, Daniel, por mais uma vez Sair das Palavras de uma forma sublime, perfeita.
Continuação de um bom domingo.
Beijinhos com a minha amizade e enorme admiração.
Ailime
Adorei este texto, com o qual me senti identificada desde as primeiras palavras e até sorri porque tenho uma filha que sempre detestou aquelas perguntas de circunstância que aqui referes "Que queres ser quando fores grande? Tens namorado?", gozava imenso com isso quando virava costas, com o sentido crítico com que o escreves aqui.
Os meus dois filhos são um bocadinho "outsiders", no bom sentido, muito responsáveis, mas muito assim, vivendo para o essencial, para serem mais que para terem e o terem é sempre no sentido do que os faz crescer...
E assim vamos vivendo, um dia de cada vez.
A tua reflexão final e o poema são fantásticos e é algo em que penso muito, no potencial da nossa vida, no que vivemos, isso sim é que será o grande tesouro dos possíveis dias futuros.
Quis vir cá na sexta-feira, mas tive que fazer malas para viver momentos que me apeteceram e que levaram felicidade a alguém, alguém que tem uma doença crónica(doença de Crohn) e que tem aprendido a viver com ela e através dela a aproveitar da vida tudo que a vida tem de bom.
Ainda cheguei a tempo para viver este momento, que receei perder e que me encheu a alma.
Obrigada pela partilha das tuas belas reflexões.
Beijos
Branca
Enviar um comentário