6.6.14

A IDENTIDADE HUMANA É O AMOR

 
 
Celebram-se os 25 anos do "Clube dos Poetas Mortos", um filme exemplar de arrojo e emoção, onde a lição é a de nos desinstalarmos da pequenez, das vistas curtas do egoísmo, e de planar com asas intemeratas além do politicamente correcto, esse impedimento odioso, que trata com cortesia o desprezível e com desprezo o sentido humanista de qualquer sentido de bem. E a loucura de ir contra o instituído, não por libertinagem, mas por dever de ser! Gosto do sério, do culto, da erudição, como gosto do humor desbragado, do sentido de entrega, do riso amigo e descomplicado, da capacidade de nos empatizarmos com quem morre na solidão desconhecida mesmo com sinais opostos, ou de quem se alegra porque o dia ou o momento lhe correu bem...
 
Andamos todos à procura de algo, impacientes e insatisfeitos, mas vida não se faz numa determinada altura, como quando se namora, casa ou tem uma promoção! A vida faz-se em cada dia, como se ele fosse a estação alfa e ómega, mesmo sabendo que é com sonhos que continuamos, não para nos descomprometermos com o Hoje, mas para nos relançar em novas epopeias, cientes, porém, de que é sempre no Agora, no Momento, no instante, que devemos dar o que somos, sem medos de preços humanos, respeitos sociais ou cotações de credibilidade. Precisamos de ir além de nós.
 
Mas o amor, independentemente do sentido que se lhe dê, obriga também a outras reflexões, algumas que já aqui trouxe em tempo. Existem falsas ideias sobre o amor: o íntimo, o universal, o da amizade... Que nos tornamos dependentes, que deixamos de racionalizar... Ora o amor envolve circuitos cerebrais responsáveis pelo pensamento racional, por isso falar do amor não apenas é nobre como inteligente. É importante sabermos precisar daquele(s) que amamos, e quando o não sabemos fazer, caímos nas armadilhas da razão que nos dizem que ficamos excessivamente dependentes, mas não se trata de excesso, mas de salutar dependência, como quem cria laços, como quem partilha, e assim se percebe que é finito e humano, mas que essa limitação de super-homem (se é que é uma limitação) é que nos realiza com os outros, porque na realidade o que estamos a fazer é a evitar envolvimentos profundos com pessoas, com a sociedade e com a vida em geral.

Não falo aqui, obviamente, dos que escarnecem, dos que traem, abandonam, ou se recusam a aceitá-lo! Existe em tais casos uma fuga profunda e isso apenas revela a incapacidade de levar por diante o seu próprio medo, muitas vezes com histórias densas que projectam sem saber numa espécie de parasitas, não da sociedade, mas da exacta incapacidade de amar, que mais não é do que a recusa em se aceitar a si mesmo, como se tivessem de carregar um fardo a que já estão habituados e que por isso os legitima, quando, afinal o que precisam é exactamente de amor! A razão tem alçapões que nem a maior ilusão concebe.

Facto é, que, não raras vezes, à força de nos querermos tão independentes, criamos zonas de revolta, amargura e frustração nem sempre conscencializadas, quando essa liberdade existe no respeito e confiança, e não na ilusão da independência suprema. Só quem consegue harmonizar a doação com tudo o resto que nos realiza, estará a viver como homem, como pessoa integral, e não como cliente da vida em menus a la carte que ficarão sempre aquém da totalidade do nosso próprio ser... E quando finalmente conseguimos perceber que é na própria fragilidade que nos revelamos e somos, o sorriso abre-se grande, o coração descansa, e a paz faz-se presente, não porque se fez um paraíso pleno sem constrangimentos, mas porque antes de encetar a boa luta, soubemos que afinal é na entrega que reside a plena realização do ser, com tudo o que implica de sacrifícios, num projecto de vida que esse amigo, amor, causa ou desconhecido nos levou a reflectir sobre a anterior autossuficiência que partia de um pressuposto errado e por isso não se realizava... qual final do filme acima referido, numa estatura humana elevada de valorização pessoal, que não se importando sequer consigo (e só quem morre para si nasce para o outro), soube, afinal, ser Homem!...