22.6.18

REALIDADE E ESPELHO

 
 
 
 
O excesso de confiança é proporcionalmente negativo a quem tem falta dela! Mas se no segundo caso requer a consciência do valor pessoal e intrínseco que cada um tem, mesmo que pense que não e que é algo que se deve trabalhar, é o primeiro caso que mais grassa.
 
Cheios de nós, presunçosos de que conseguimos muito e sabemos tudo, endeusada a razão e o ego, facilmente se cai na vanidade, na soberba intelectual e na arrogância, mesmo que facilmente se disfarce a coisa.

A formação humana será sempre a melhor forma de aferir do valor de uma pessoa. Sem um sobrecentramento narcísico, importa reconhecermos que a realização pessoal passa sempre pelo Outro, mesmo os desconhecidos. Caso contrário, seremos egos balofos, julgando encontrar no espelho a realização que só a partilha pode dar!

13.6.18

SANTO ANTÓNIO, FESTA E SOLIDÃO

Instintivamente somos impelidos ao Outro, somos impelidos à comunhão, está inscrito na nossa consituição como seres humanos que só somos com o Outro! É natural que, para além dos pregões,  santo António receba tantcartas e pedidos! De amor e de amizade!
 
 
Santo António já cá está, segue-se o São João no Porto e em Braga, São Pedro em Sintra e, claro está, um arraial colectivo um pouco por todo o país. As Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música e...rudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de carnaval after hours, mas são diferentes. Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado, é o lado alegre que o português não tem. Mas é também a Partilha.
 
"O meu bairro é liiiiiindo" não cheira a competição mas a partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas, convocando do fundo de nós a saudável abertura de um abraço a um desconhecido, como um único coração na praça grande que são as ruas e a vida.
 
É assim que a humanidade se humaniza. Na partilha!
 
Mas voltemos ao início: a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade, é sempre maior do que supomos; a vida é dinâmica, uns casam, outros namoram, outros suspiram, outros acham que têm muitos amigos, outros simplesmente não têm nenhuns, outros gostam de estar sós, mas não é desse silêncio salutar que falo, mas da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos que serão sempre insuficientes para uma maior doação e realização como pessoas.
 
Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, reconhecer e intuir as dores escondidas, perceber que nem todas as alegrias são alegres mas que também nem todo o sofrimento é dramático, e com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, há sempre alguém que está só...

5.6.18

CLUBE DOS POETAS MORTOS FOI HÁ 29 ANOS

Celebram-se 29 anos do "Clube dos Poetas Mortos", um filme exemplar de arrojo e emoção, onde a lição é a de nos desinstalarmos das vistas curtas do egoísmo, e de planar com asas intemeratas além do politicamente correcto, esse impedimento odioso que trata com cortesia o desprezível, e com desprezo o sentido humanista de qualquer sentido de bem. E a loucura de ir contra o instituído, não por libertinagem, mas por dever de ser! Gosto do sério, do culto, da erudição, da estética e da beleza, da elevação e da justiça, como gosto do humor, do sentido de entrega, do riso desbragado, amigo e descomplicado, da capacidade de nos empatizarmos com quem morre na solidão mesmo revelando sinais contrários, ou de quem se alegra porque o dia ou o momento lhe correu extremamente bem... Andamos todos à procura de algo, impacientes e insatisfeitos, mas a vida não se faz numa determinada altura, como quando se termina um empreendimento, se casa ou se tem uma promoção! A vida faz-se em cada dia, como se ele fosse a estação alfa e ómega, mesmo sabendo que é com sonhos que continuamos, não para nos descomprometermos com o Hoje, mas para nos relançarmos em novas epopeias, cientes, porém, de que é sempre no Agora, no Momento, no instante, que devemos dar o que somos, sem medos de preços humanos, respeitos sociais ou cotações de credibilidade. E quando soubermos rasgar a vergonha de ser, e ultrapassarmos o medo de depender do crédito que nos possam dar, estaremos a cumprir com valor a mensagem do filme em ousarmos ser simplesmente nós...

1.6.18

SER CRIANÇA PRECISA-SE

Celebra-se hoje o dia da criança! Ora da infância nunca perdi a inocência (que não se confunde com ingenuidade), e se me perguntarem quão adulto sou, responderei que é sempre no gesto da verticalidade humana que não se verga aos interesses, imediatismos, ou aos mais fortes, que reside a nobreza de viver! Depois, precisamos de saber que uma pessoa não vale pelo fato que usa, pelos títulos académicos que tem, ou por um austero ou pomposo ar que possa colocar! Ou era Guerra Junqueiro ou Camilo Castelo Branco que dizia que "crescer é tornar-se adulto sem se adulterar"! E, sendo isso tão verdade, então quantos anões não há por aí... Valemos pelas nossas atitudes e pela formação humana, e obviamente precisamos de liberdade e maturidade para entender o essencial e não nos importarmos com o socialmente correcto! Crianças não são só elas: os adultos também precisam saudavelmente de o ser…

28.5.18

A ILUSÃO DA OMNIPOTÊNCIA

 
 
Inculcámos em nós esta convicção do mais, da eficácia e da força, do fazer mais e ter mais, da competição tácita e descarada, do tempo ocupado! Confundimos luta com competição, progresso com show off, felicidade com aparência! Mas não há qualidade de vida nem de tempo sempre que o ramerrão nos escraviza em baratas tontas que já nem sabem que o são! É isto que nos traz ocupados e interiormente indisponíveis, esgotando-nos até ao limiar do precipício. Somos vítimas de nós mesmos sempre que não sabemos respirar a alma. E viciosamente encontramos argumentos e desculpas para o nosso próprio vazio!

22.5.18

ABRAÇOS GRÁTIS

Um abraço! Hoje é o dia do abraço. Na realidade, a linguagem dos afectos é relegada com vergonha pelos cânones sociais mas também pessoais! O abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Um estar cura! Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas não. A ostentação obtusa do self made man leva ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está ...sempre a fragilidade de um amor interrompido!
 
Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que de outra forma ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana.
 
Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes.

17.5.18

O AMOR NÃO TEM SEXO

O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia. Ora é muito claro que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas no género do objecto do desejo. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar uma pessoa por ter um metro e oitenta. Estúpido, não é? Só os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e com ele a capacidade de uma vida livre e feliz. De novo, cabe perguntar: estúpido, não é?
 
Somos fruto de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.
 
Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem parece fugir à norma. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação, e confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.
 
Somos ignorantes da própria condição humana e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus, ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é também a sua identidade e razão de estar ali, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que não se assumem sequer para si mesmos, deprimem e se suicidam precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de desprezo e marginalização. E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se criminosos por simplesmente amarem!
 
Não podemos ostracizar quem difere no seu modus vivendi, sobretudo quando é determinado pelo seu próprio código genético, mas aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que sendo de raça diferente deviam ser toleradas na comunidade.
 
O senso comum é o pior inimigo que conheço, e é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.

11.5.18

VIVER O PRESENTE

Ninguém é feliz todos os dias, e muito menos se não tiver e souber ser alma! É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim sem termos tido, sequer, uma vida!

Aquela coisa do futuro para cá, futuro para lá, é também uma ilusão, porque nos descompromete no momento presente, onde cada gesto, cada acto fazem tão mais sentido do que adiar o viver para um futuro que somos nós que criamos e não um destino onde temos de chegar. 

Só valorizando o presente e fruindo o momento, podemos pacificar essa idealização abstracta de um dia acontecer qualquer coisa espectacular. Mas as coisas espectaculares são as de agora, se soubermos fazer tempo e espaço para nós e com os outros, porque espectacular será sempre a abertura, o encontro e o amor, nos pequenos prazeres da  vida que diariamente alimentam a verdadeira felicidade, e não a ideia que dela temos, como banquetes ocasionais  que só valem nessa  altura! O resto, é deslocar o verdadeiro objecto da felicidade e com isso nos queixarmos de nunca a encontrar...

6.5.18

FREUD E O (DES)AMOR

Freud faria hoje anos. "A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia ele. Na realidade, muitos dos nossos problemas são fruto de solidão, de aguentar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor, de nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras. Mas nada disso é inteligente!
 
A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não é a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autosuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta.
 
Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que rega as emoções e se abre ao amor, essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro admitindo também a falha em nós! Ser humano não é ser perfeito, e endeusar a razão é alimentar a solidão!
 
Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor; não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso, quando se esgotaram as hipóteses de concedermos a nós mesmos a capacidade de amar...

QUEM É MÃE?

 
 
 
 
Será sempre Mãe, aquele ou aquela que suaviza na alma a dor e fortalece na prossecução da caminhada, mesmo até que os não unam laços biológicos de sangue, mas o abraço interior desse despojamento humano e divino, que geralmente se encontra em quem sabe reconhecer no Outro, a sua própria Humanidade!

20.4.18

LUCIDEZ HUMANA

 
 
Vivemos numa sociedade de competição permanente, a escolher sempre o melhor de tudo, mas esquecemo-nos que muitas das supostas necessidades, somos nós que as criamos, e são perfeitamente dispensáveis.
 
Os nossos pensamentos criam a nossa realidade, e os pensamentos automáticos são produtos de crenças e preconceitos que interiorizámos, muitas vezes sem nos apercebermos disso.
 
Saber ter tempo para entrar em contacto com as nossas emoções, é um trabalho acessível a qualquer um evitando muitas fases depressivas que, de outra forma, nos levará a cair, ciclicamente, nos mesmos erros e problemas.
 
Reflectir e alterar o padrão comportamental, a forma de lidar connosco mesmos e com os outros, é perceber que "só na escola dos baldões da vida se faz o doutoramento para a tarefa de viver".
 
Porque só assim nos realizamos como pessoas, e não como servidores do ego, do socialmente correcto ou de competições inibidoras de liberdade interior e saudável convivência e, dessa forma, saber que um dia quando olharmos para trás, foi sempre o Amor e a autenticidade que valeu a pena e deu razão à existência...

13.4.18

DIA INTERNACIONAL DO BEIJO

Hoje é o dia internacional do beijo, mas o beijo, tal como o sorriso, é só outra forma de abraçar!
 
Devemos dar gratuitamente o que gratuitamente recebemos (muito pouco é verdadeiramente nosso), e o contacto físico, menorizado e dissolvido ao longo da evolução humana, é tão importante que, inclusivamente, existem terapias baseadas precisamente no abraço, tal como no grito, porque uma e outra coisa (abraçar, beijar, tocar... e pôr cá fora a raiva ou o choro) foram socializados para comportamentos ditos correctos, cortando essa possibilidade de transmissão de energia, alento, apreço e vida, sem falar na necessidade psicológica de exprimir as emoções básicas, como algumas destas...
 
É muito importante passarmos por cima das convenções sociais sempre que elas não passem disso, e de alguma forma forem tampão daquilo que devia ser natural, genuíno e espontâneo: darmo-nos! Aqui ficam beijos e abraços apertados, antes que nos robotizemos sem dar por isso...

9.4.18

FORMA E ESSÊNCIA

Habituámo-nos à personagem e não à pessoa. Falta humildade e serviço, bondade e modéstia; prevalece o ego, o endeusamento da finita razão e o socialmente correcto. Vivemos amassados por tanta informação, anestesiados no poder tecnológico, no bramir do dinheiro, a angústia do futuro, e mal sabemos o que é a comunicação da alma. Ridicularizamos quem caminhe em sinal contrário, somos cordiais mas pouco autênticos, julgamos sem receios e tornamo-nos menos pessoas.
 
Falta-nos conduzir o Tempo e não de ser levados animalescamente por ele. Falta-nos soltar as palavras belas e inconfundíveis como se fossem pequenas fontes de água fresca, e não uma sucessão verborreica a imitar um esgoto que a espaços convulsos deita água suja ao mar. Falta o Encontro. Aquele em que saímos de nós para o podermos ter verdadeiramente!
Falta-nos a leveza do ser. Não estar só ao lado dos grandes ou dos fortes, do socialmente giro ou da moda. Dar muito crédito a quem já o tem, por moda ou mérito, relegando a essência dos anónimos! É aí que me revejo. Em encontrar por dentro e não por fora, em credibilizar quem é ostracizado ou fingidamente elogiado.
 
Precisamos de amor e de partilha. Verdadeiros, não sociais. De cortar silêncios e empreender caminhos. Não bajulação. Precisamos de renovar a alma e tirar o bolor racional que nos corrompe. Há muito azul por conhecer debaixo da cinza vulcânica com que maceramos os dias.
Estamos muito habituados a erguer camadas e camadas de defesas, a ser adultos e bem parecidos nas palavras, nos sítios que frequentamos, no crédito que damos e queremos ter, mas falta tanta vez a simplicidade espontânea da alma, que manda o socialite dar uma volta, e não cuida se é um gesto censurável socialmente ou se apenas aplaudimos os grandes.
 
Viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do eu social numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir, não como quem passa, mas como quem escuta... e fica... Porque sem entrega e sentido de humor, simplicidade e sorriso, sem saber ser criança em adulto, desumanizamo-nos!
 
 

4.4.18

EM TUA CASA

Quando me deixares entrar em tua casa com o pó por sacudir, saberei que não é na geometria das coisas que vives, mas na diária tentativa de ergueres na alma o aprumo que te falta. E se o sorriso te esconder a vergonha, não confundirei com negligência a prisão do ser, que hipotecado em cíclicos desencantos e abúlica energia, aguarda que a chama se acenda num frágil pavio, sustendo os serviços mínimos do ânimo, até que os grilhões te libertem, dando à vida novo rumo e nova cor, vestindo de alegria o cheiro a mofo de uma vida anémica. 

Mas se me convidares para tua casa reluzente e bela com jardins e mesa para os convidados...! Se me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...! Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...! Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou desconfiar que estejas bem, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.

Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos e postais a forrar lembranças, ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala tanto e não se diz nada, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.
 
Mas o festim simples e libertador da alma não é este, e pode durar uma noite inteira. Não teve convivas nem flutes, nem roupas de ocasião. Se calhar tinhas até o cabelo por lavar ou uma nódoa antiga, como os livros amarelados de serem lidos e mexidos, ou os objectos puídos pelo uso emocional que só tu vês! Mas é quando os outros regressam com portos de honra, para desembrulharem durante a semana toda a frustração e infelicidade, que metidos em fatos Armani ou vestidos Prada, não puderam desencarcerar numa festa que devia ser Encontro.

Convida-me só quando tiveres pó em tua casa, e saberei que o quarto fechado onde mais ninguém entra, para iludires nas restantes divisões da alma a felicidade que não tens, é exactamente aquele onde verdadeiramente és e te libertas, e onde me deste a honra de entrar até à festa onde a alegria é já sentida e a harmonia das coisas são mimos que ofertas, e tudo é então belo, e não já como o príncipe que recebe duzentos convivas no castelo sabendo que na verdade não teve lá ninguém...
 
 

30.3.18

SEXTA FEIRA SANTA

Por volta das três da tarde, Jesus morre na cruz, vítima de uma trama política e religiosa, e com um grau tão grande de stress que o suor é sanguinolento (hematidrose, uma situação rara provocada por um violentíssimo stress).
 
Porém, é a atitude que tem, vendo sempre mais além dos acontecimentos, nomeadamente durante a sua pregação pública durante três anos, que ensina a estar.
Tal como se aprende em inteligência emocional, já Jesus protegia as suas emoções, sabendo que são ...elas que despoletam todo o nosso agir, e por isso, mesmo quando os carrascos o crucificavam, ele sabia que eram vítimas da cultura tirânica do império romano, cumpriam ordens, não eram donos do seu destino, e que por trás de uma pessoa que fere, há sempre uma pessoa ferida. Isso não resolvia o problema dos opositores, mas resolvia o dele, protegia a mente e as emoções.
 
Num plano divino, a Deus não se chega pelo esforço intelectual que dele possamos fazer. Fé e razão são planos distintos e não se invalidam. Dizia um paleontólogo que "o problema de muitos é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer".
 
Curiosamente, Einstein faz também aqui um paralelismo quando dizia que "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade".
Seja como for, é sempre um caminho pessoal, de interioridade e fé onde o significado da Páscoa vai além da metafísica e de elaborados argumentos, num processo único de caminhada individual na espiritualidade do que somos, ao encontro de certezas que só a dúvida desfaz...
 

29.3.18

O MOMENTO PRESENTE

Descartamos sempre para um futuro mais ou menos próximo o que podemos ser como pessoa, demitindo-nos de viver cada dia com maior intensidade, de sermos em plenitude a cada dia, a cada instante, a cada agora, e não remeter para amanhã o que podemos já fazer hoje! 

Um ideal é isso mesmo: algo inalcançável, de uma perfeição tal que não se obtém. É por isso que a melhor definição de felicidade é aquela em que vivemos e sentimos o momento,  o hoje! 

A ideia da felicidade como fruto de sonhos, por um lado desresponsabiliza-nos (pensamos nós), e por outro relega para uma suposta melhor altura aquilo que queremos ser e fazer. Ora isto só pode ter a ver com as condições ideais, mas cada dia gera em si a condição ideal correspondente que tem de ser agarrada, percebida, interiorizada, sob pena de vivermos sempre emprestados ao mundo e à vida, aguardando o tal momento que nunca chegará, pelo menos da forma como foi idealizado! 

É hoje, aqui e agora, pelo uso de tudo o que somos, que nos devemos manifestar, realizar e ser. E o mundo seria com certeza bem melhor, se das intenções se passasse à efectivação prática da amizade, da inteligência emocional, da simpatia, da entreajuda, dos valores universais do bem, e até as depressões seriam muito mais debeladas porque haveria o abraço, uma desconstrução do anonimato, uma partilha digna de pessoa, e não de um ser amorfo e distante metido nos seus pensamentos e centrado no seu ego.

É muito importante colocar em cada dia toda a presença, sorrindo, sendo, amando, deixando para os chateados da vida as recriminações de que está sempre tudo mal!

Há projectos compagináveis no presente, neste tempo, no agora, mas de tão habituados às rezinguices e maledicências e porque o totoloto não nos sai, pendura-se ali numa prateleira de pendentes as gratificações emocionais que, afinal, podemos ter já!  Caso contrário, damos por nós sem património  humano e em luta contínua quando, olhando para trás, não virmos as pegadas do que, afinal, podíamos ter sido...

20.3.18

DIA INTERNACIONAL DA FELICIDADE

Comemora-se hoje o Dia Internacional da Felicidade, mas embora o dinheiro dê muito jeito, não é nele que a felicidade reside. Confunde-se com dinheiro, mas felicidade é outra coisa! É fazer uma festa a um cão, é ter o rosto estampado de alegria, é abraçar o Outro, é sentir que somos amados, é ter o coração cheio de esperança, é ver o nascer do sol, secar uma lágrima, rirmos loucamente inocentes, ajudar o Outro, partilhar... 

Para quem ache que é poesia, vamos a alguns dados científicos: uma pessoa, que por. ex. tenha um índice de felicidade de 45, e que por força de algum euromilhões passe para 90, ao fim de três ou seis meses tende a voltar ao 45; da mesma maneira, uma pessoa com um índice muito baixo, por força de alguma doença, desemprego, desamor, etc., ao fim de outro tanto tempo, tende a voltar ao seu índice médio. 

Isto acontece porque não estamos constantemente com descargas de serotonina ou dopamina responsáveis pela sensação de bem-estar e prazer, e precisamente porque não se costuma viver no limite, necessariamente voltamos à nossa média. 

É sempre na autenticidade que reside o núcleo da felicidade. E geralmente a felicidade é-nos propiciada por tudo aquilo que é gratuito, as melhores coisas são sempre insusceptiveis de avaliação pecuniária, e é por isso que não se pode dizer que os ricos são pessoas extremamente felizes: porque a felicidade não se compra, e aquilo que o dinheiro proporciona é apenas conforto!

Muitos há que trabalham e lutam pelo sucesso, mas esquecem-se de que este é apenas uma componente da felicidade, essa que se encontra sempre na presença, na partilha e no amor...

19.3.18

AUSÊNCIA


 
 

 
 
 
 
Na saudade
de quem fica,
o gesto indelével
do amor,
como mãos
que se tocam
mesmo na ausência!

8.3.18

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

 
 
 
O Dia Internacional da Mulher acontece pela luta de mulheres que reivindicavam melhores condições numa fábrica onde acabaram por morrer queimadas, tendo este dia sido instituído em sua homenagem!
 
Todavia, tecnicamente não devia existir o Dia da Mulher, porque antes de mais a igualdade é intrínseca ao género humano, como a cor, a raça, orientação sexual, condição social!
 
Mas já que ainda estamos atrasados em preconceitos (a desigualdade é um preconceito, apenas) então que se ...usem estes dias para o lembrar.
Sobre a mulher acho lapidar esta frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher! Torna-se!" Ainda assim, acrescentaria que podem sempre ser senhoras!
 
O resto, ter de haver "dias de..." são resquícios de uma sociedade no seu lento processo de civilidade e humanização...

28.2.18

REALIZAÇÃO OU CULTO PESSOAL?

Nos tempos do culto do eu, da auto estima, do sucesso pessoal, o que sobra do amor? Nos tempos em que o Outro é secundário, em que tudo deve girar à volta do bem estar pessoal, o que temos de verdadeiramente importante? Que valores, afinal, nos guiam, que rumos tomamos como ilhas vaidosas em luzes de néon disfarçadas de amor? 

Que restará de coisas simples como a simplicidade da entrega, a entreajuda, o amor desinteressado, a gratidão, os gestos simbólicos, as atitudes singelas, o agradecimento, a oferta e não o preço, o elogio e não a mera crítica, o enlevo, a preocupação pelo que não é apenas "eu", o abraço gratuito, a justiça em vez do populismo, a ética em vez da moda, a verdade em vez da realidade aumentada?

Nos tempos do culto do eu, da programação neurolinguística e do sucesso pessoal, torna-se ainda mais importante a capacidade da sageza e desse valor que reputo ainda mais importante do que a própria inteligência cognitiva: a lucidez, o discernimento, para aferir da verdadeira importância das coisas e do verdadeiro significado do que é ser humano!

É muito fácil inebriarmo-nos com o mero bem estar pessoal, mas é sempre e só na relação com o Outro, que o Homem verdadeiramente se faz, até com o sacrifício esporádico que, por amor, deixou de o ser...