5.12.18

DIA INTERNACIONAL DO VOLUNTÁRIO

Comemora-se, hoje, o dia internacional do voluntário. Precisamos de tempo! E, é isso, o que hoje, se comemora! Darmos ao outro o nosso tempo, é uma das maiores dádivas, mas tê-lo também para nós, é imperativo! Só quando estamos connosco mesmos, alimentamos a alma, ordenamos os pensamentos e ficamos com outra perspectiva!
Aquietar a mente, abrandar a azáfama louca de tudo e de nada, e reorganizar o espaço interior, é tão importante como respirar, sob pena de já não entendermos nada e não fruirmos o mundo nem a vida, enclausurados em arritmias com a capa do ritmo certo!
A higiene mental e o revigoramento anímico passam por aqui. Negarmos este espaço diário de silêncio connosco, é diminuir a capacidade de ouvir o Outro e de percebermos como vai o nosso próprio valor... Darmo-nos tempo, é também darmos tempo ao outro sem as desculpas de o não termos... Porque mais importante que uma prenda bonita, um jantar imaculado ou uma roupa cara, é o tempo que damos na simplicidade da alegria e do encontro interior.
Quando a aparência se sobrepõe e o tempo é artificial, está tudo enquinado, e cabe-nos a nós interromper o ciclo do vazio! Porque argumentos para não termos tempo, encontraremos sempre, e é também aí que importa priorizar! Hoje, que se comemora o dia do voluntariado, é tão louvável e meritório o que cada uma dessas pessoas faz, além do seu próprio tempo, quanto a higiene mental e o arejar de alma que connosco e com os outros possamos ter... Para podermos ver mais longe, para podermos respirar vida e não existência, para alcançarmos outras dimensões...

3.12.18

DIA INTERNACIONAL DOS DEFICIQUÊ?

Hoje, dia 3, comemora-se o Dia internacional do Deficiente! Ora, eu, não confio nas pessoas perfeitas, nas que se arrogam certezas que não têm, nas que salivam fel, nas que não sabem rir, nas que lhes falta liberdade interior, nas que não sabem actualizar decisões, nas que trocam a simplicidade pelo orgulho, a sabedoria pela arrogância, a humildade pela soberba intelectual! Gosto dos simples e bem dispostos, dos que sabem apreciar o pormenor, dos que falam com o coração e têm a sensibilidade de viver, ao invés de competir! Geralmente é o ego a fonte do desamor, que caminha a par com a vaidade e a superficialidade! É o Dia Internacional do Deficiente? Está bem visto! Precisamos sempre de saber, que há espelhos que se negam a validar as nossas suposições, ou, dito de outra forma, que em todas estas situações os deficientes somos nós!

1.12.18

HOMOS FINALIS

Estamos na geração Internet, self made e dantescamente só. Cada um esgota-se em si mesmo, deificando a razão e endeusando o ego. Somos tão cerebrais, que matamos o encanto e o deslumbre, racionalizamos tudo, e estamos sempre impreterivelmente certos, mas a verdade é, que, perdemos a verdade, porque a vida é feita de outras dimensões! 

Precisamos de estar uns centímetros acima do chão, da vulgaridade, das falsas certezas. Falta o abraço amigo e não o dente afiado, a delicadeza do gesto e saber precisar do Outro, o acolhimento e não a ostracização do fracasso, a entreajuda e não a competição feroz! Os estímulos matam a interioridade, e confundimos barulho e ocupação com realização! 

Dizia alguém que só quem acredita na magia a encontrará! Reconhecer outras perspectivas para além do nosso limitado conhecimento da vida e do mundo, é fazer respirar a alma, sempre tão refém de uma matemática existencial tão diferente do viver!

É, que, sem compreender que não é um fim em si mesmo, o Homem continua ignorantemente só, fazendo dos troféus aquilo que cabe ao Amor, e daquilo que conhece, o mundo todo (quando, obviamente, há tanto mais para além do que alcançamos), e, assim, vai, carrasco e vítima de uma condição que o subtrai da verdadeira experiência de viver...

26.11.18

IN & OUT

Vivemos na feliz contemplação do desencanto. Uns porque são magoados, outros porque esperam para além do possível, outros ainda porque não encontram nada que lhes outorgue a felicidade. 

A vida é uma viagem insuportável para uns, um fardo consentido para outros ou uma ilusória aceitação de quotidiana alegria. 

Somos muito mais do que somos, mas afunilamo-nos em imperativos sociais e jogos de poder, mesmo os subreptícios e pessoais, e invariavelmente perdemo-nos labirinticamente em espaços que pintamos com cores garridas e sorrisos que só a mecânica dos maxilares legitima. 

Outros, porém, convivem com realidades tão pessoais que se endeusam e auto satisfazem até à assunção, muita vezes tardia, de uma vida inautêntica e frívola.

Carl Jung, colega de Freud, dizia que não aguentava excessos de realidade, e muito embora calhe tão bem dizê-lo mesmo não tendo outro remédio que não aceitá-la, certo é que são estas cores com que pintamos abismos interiores e estados de alma que protegem do já frágil tecido de auto preservação, donde inventamos sóis na pior das noites...

Vivemos sozinhos juntos, e é por isso que os paradigmas existenciais se acentuam ainda mais. Mas é também na capacidade de aceitação da vulnerabilidade e solidão pessoais, que todo o resto se ergue e alavanca. Na natureza humana a camuflagem convive directamente com a autenticidade, qual homem prepotente ou arrogante cuja raiz do mal está na inferioridade que se reconhece, mesmo não o admitindo.

Vivemos encantadoramente felizes no desencanto que também nós criamos, e só estendendo as mãos e os braços ao Outro, fazemos brilhar o sol prisioneiro nas nuvens despóticas do eu! O resto é vaidade e desconhecimento de que somos finitos, limitados, mesmo com portais de sabedoria que só a experiência humana da partilha e da humildade poderá dar...

20.11.18

E OS ADULTOS, SENHOR?

E os adultos, Senhor? Houve um tempo em que ser criança era quase sinónimo de sub humano, vergadas às imposições dos adultos e quase equiparadas a coisas! Hoje é o Dia Universal dos Direitos da Criança, mas fez-se uma tão grande apologia em contraposição a outros inglórios tempos, que o paradigma quase muda, e além de já nascerem numa época ainda mais globalizada e tecnológica, só falta virem com livro de reclamações.
 
A pedagogia educacional reveste-se sempre de uma importância maior, quando se acentuam declives onde ter é um direito adquirido e reclamar é uma consagração! As crianças merecem tudo, e educar é sempre uma tarefa difícil, mas igualmente um tremendo desafio numa era de convulsão de valores, onde, paradoxalmente, os pais e adultos em geral, se tornaram os escravos dos capricho das crianças, endeusando muitas vezes egos em construção, sem se aperceberem que agora, os oprimidos são eles...

9.11.18

VIDA EXISTENCIAL

Vivemos numa sociedade de competição permanente, a escolher sempre o melhor de tudo, mas esquecemo-nos que muitas das supostas necessidades, somos nós que as criamos, e são perfeitamente dispensáveis.
 
Os nossos pensamentos criam a nossa realidade, e os pensamentos automáticos são produtos de crenças e preconceitos que interiorizámos, muitas vezes sem nos apercebermos disso. Saber ter tempo para entrar em contacto com as nossas emoções, é um trabalho acessível a qualquer um, evitando muitas fases depressivas que, de outra forma, nos levará a cair, ciclicamente, nos mesmos erros e problemas.
 
Reflectir e alterar o padrão comportamental, a forma de lidar connosco mesmos e com os outros, é perceber que "só na escola dos baldões da vida se faz o doutoramento para a tarefa de viver".
 
Gosto mais de quem me mostra o coração dorido, em vez de o embrulhar em brilhante papel celofane social, porque também eu assim posso mostrar a minha dor, da mesma maneira que gosto da efusiva alegria de quem quer partilhar esse momento, porque simplesmente está feliz e não se importa do que pensem...
 
Porque só assim nos realizamos como pessoas, e não como servidores do ego, do socialmente correcto ou de competições inibidoras de liberdade interior e saudável convivência e, dessa forma, saber que um dia quando olharmos para trás, foi sempre o Amor e a autenticidade que valeu a pena e deu razão à existência...

21.10.18

OTHER SELF MADE MAN

O nosso crescimento é mais interdependente do que supomos. A ideia da independência e autonomia, é apenas uma projecção no espelho relacional, já que, para sermos livres, precisamos de não sermos prisioneiros do eu. Quem se julga um selfmademan, não vive, nem progride, nem se realiza como pessoa, se apenas olhar para o seu umbigo, até porque mesmo para o mero hedonismo de uma vida com tudo ao seu dispor, necessitaria sempre do(s) outro(s), e de alguém que o conheça em toda a sua interioridade, e o respeite e aceite por isso, (sob pena de não ter uma verdade existencial) e, nessa liberdade, seja ele mesmo, porque alguém lhe legitima a existência...

2.10.18

DESCONSTRUÇÃO DO EU

A desconstrução do eu requer muitos recursos. Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder! O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!
 
Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erradas da realidade, é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.
 
A resiliência é outro recurso indispensável à mudança na dsconstrução do eu, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção do eu, na sua fragilidade e no seu vigor.
 
Sem a noção de que sem uma atitude constante de autocrítica seremos balofos a massajar o ego, a mudança não se faz, e o crescimento fica comprometido. Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos...

24.9.18

AMOR OU PROZAC

Há muitas luzes de néon, muito movimento, muito ruído e também muito vazio! Muitas palavras debitadas de cor, muitos clichés, muita superficialidade. Faltam os coches da sinceridade e nobreza de espírito em vez dos bólides topos de gama. Falta o significado do gesto, de cada gesto, em vez dos rituais cegos e automáticos sem cumplicidade e sem encanto, sem delicadeza e sem amor!

Vivemos amassados por tanta informação, anestesiados no poder tecnológico, no bramir do dinheiro, na angústia do futuro e mal sabemos o que é a comunicação da alma. Falamos sobre tudo mas não sabemos nada. Somos ignorantes da nossa própria condição. Habituámo-nos à personagem e não à pessoa. Falta humildade e serviço, bondade e modéstia; prevalece o ego e o endeusamento da finita razão. 

A sinceridade passa a irrefutável certeza, o amor a orgulho, a ideia que fazemos de algo a convencimento, e rasgamos as estrelas até perdermos a mão no Infinito onde nem a noite nem a luz nem nada nos abre os olhos para a obesidade de seres informados mas pouco formados.

Falta-nos a leveza de um pensamento leve. De não sermos mirabolantes a cada gesto, a cada ideia, a cada situação, como se tudo tivesse de ter segundas intenções ou se todos desejassem fazer mal ao próximo. 

Mas existe um remédio. Um remédio natural. Só se perde quem não sabe, não quer ou não pode amar. O amor universal, desinteressado, oblativo. Um amor que preencha e complete a essência que somos e para a qual fomos destinados, que nenhum Prozac, nenhuma experiência de vida, nenhum deus pessoal, nenhuma filosofia, nenhum ego nem nenhuma energia cósmica, poderão alguma vez substituir.

19.9.18

DISCERNIMENTO

Nos tempos do culto do eu, da auto estima, do sucesso pessoal, o que sobra do amor? Nos tempos em que o Outro é secundário, em que tudo deve girar à volta do bem estar pessoal, o que temos de verdadeiramente importante? Que valores, afinal, nos guiam, que rumos tomamos como ilhas vaidosas em luzes de néon disfarçadas de amor? 

Que restará de coisas simples como a simplicidade da entrega, a entreajuda, o amor desinteressado, a gratidão, os gestos simbólicos, as atitudes singelas, o agradecimento, a oferta e não o preço, o elogio e não a mera crítica, o enlevo, a preocupação pelo que não é apenas "eu", o abraço gratuito, a justiça em vez do populismo, a ética em vez da moda, a verdade em vez da realidade aumentada?

Nos tempos do culto do eu, da programação neurolinguística e do sucesso pessoal, torna-se ainda mais importante a capacidade da sageza e desse valor que reputo ainda mais importante do que a própria inteligência cognitiva: a lucidez, o discernimento, para aferir da verdadeira importância das coisas e do verdadeiro significado do que é ser humano!

É muito fácil inebriarmo-nos com o mero bem estar pessoal, mas é sempre e só na relação com o Outro, que o Homem verdadeiramente se faz, até com o sacrifício esporádico que, por amor, deixou de o ser.

5.9.18

MODUS VIVENDI

 
 
O tempo em que vivemos rouba a cada pessoa espaço para si mesma, para a contemplação e para o espanto, incluindo sermos nós próprios.
 
A actividade é tanta e a dependência do relógio tão absorvente, que não nos permite olhar para dentro de nós, e quando não estamos em contacto com as nossas emoções, muitas disfunções acontecem.
 
A sociedade ensina técnicas e metodologias para vencer na vida e esqueceu-se de educar para os desafios emocionais, mas vive mais autenticamente quem mais ama e não quem mais triunfa!

26.8.18

EGO E FELICIDADE

 
 
Endeusamos sempre muito o intelecto, a inteligência cognitiva, e fazemos tábua rasa da inteligência emocional. E batemo-nos pelo ego como se fosse o alimento primordial, a massa unificadora de uma humanidade egoísta, outorgando à razão uma legitimidade que não tem. Pretendemos que entenda aquilo que lhe escapa, mas há valências que não são o seu escopo, mesmo que queiramos que sim.
Somos muito mais do que pensamentos calculistas e aritméticas de vida, e não é no ego nem na in...teligência cognitiva que está a realização pessoal; o ego precisa de ser cuidado até onde deve, garantindo a auto estima necessária, mas o resto é vaidade ou sobranceria.
 
A melhor maneira de sermos, é sabermos quem somos, e geralmente apenas sabemos o que somos! E metidos nesta cegueira, deixamos o ego alastrar selvaticamente cortando cerce manifestações mais nobres de entrega, porque subservientes ao nosso eu racional que comanda a nossa vida com a idiota vaidade de quem julga saber tudo! Mas só a consciencialização das nossas verdadeiras motivações e porquês, o que implica um exercício de auto-análise e humildade, nos livrará da arrogante opressão do eu, permitindo a liberdade de podermos ser nós...
 
Só assim poderemos ter outra compreensão do mundo, do outro e de nós mesmos, e perceber que as dinâmicas da vida escapam ao desejo autoritário da visão egotista de quem não consegue ver mais além... É sempre nas coisas simples da vida e na partilha desinteressada, que verdadeiramente somos felizes...

19.8.18

CONTEMPLAÇÃO ACTIVA

Para se ser Pessoa integral precisamos de ter mundo mesmo que não sejamos viajados. Precisamos de ter noção da brevidade das coisas e com isso relativizar o que não deve ser empolado.
 
Precisamos de ter carácter, firmeza e bonomia, sem cair em concessões frouxas ou em rupturas anacrónicas, e sem termos de andar com atitudes austeras como quem acha que a vida tem mais valor se formos humanamente distantes!
 
Precisamos de saber que não somos eternos, que a morte não é um acidente, e que por isso o Agora e o Aqui têm uma importância infinitamente maior do que aquela que lhe concedemos.
 
Estamos sempre hipotecados no futuro, esquecendo-nos que pode não chegar como o sonhamos, porque a vida é dinâmica e não existem cauções.
 
E precisamos também de sonhar. A beleza existe sempre que vemos além da superficialidade diária. E precisamos de voltar atrás em tantas decisões, de refazer diariamente o nosso guia de valores e atitudes, actualizar o nosso caminhar. Quem não muda já se afundou na soberba da sua suposta razão.
 
Precisamos ainda de apagar os fogos diários de lixo humano tóxico (recriminações de tudo e de nada, altivez, arrogância, vulgaridade) e de arranjar tempo para arejar a alma e parar deste carrossel exagerado de estímulos que mata a contemplação e o pensamento, suga as energias, mitifica a razão e endeusa o vazio.
 
Vive-se num constante estado de espectáculo mas somos muito mais que marionetas em grupos de lazer ou com funções sociais.
 
E com humor e alegria, mesmo que seja para espantar a fealdade da vida, fazermos também nós a parte que nos cabe, descobrindo a cada instante novos caminhares...

13.8.18

DO SENTIDO DA FORÇA


Inculcámos em nós esta convicção do mais, de que podemos sempre mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado! Muitos workshops e coaching são centrados nessa vertente de auto realização, mas não há qualidade de vida nem de tempo sempre que o ramerrão nos escraviza em baratas tontas que já nem sabem que o são, nem a realização pessoal se faz sozinha. Um homem deixado numa ilha solitária com todas as mordomias ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial!!


Os cursos quando bem centrados na inteligência emocional ou na programação neurolinguística, são uma ferramenta poderosa e muito útil; o problema é quando descambam ou indirectamente transmitem a falsa ideia de que tudo podemos sozinhos, bastando conhecer as ferramentas... Não pode haver maior engano e há pessoas que acabam por julgar que se bastarão a si próprias...


Aquela ideia de que temos de ir sempre além de nós, é falsa. Como tão bem diz Carl Jung (outro grande nome da psicologia e que foi colaborador de Freud): "Na verdade não existe algo como dever-ir-além-de-si-mesmo. Por isso não aconselharia ninguém a querer ir além de si mesmo. Além disso, esta expressão também é falsa; não se pode ir além de si mesmo, mas apenas avançar mais para dentro de si mesmo!"


O caminho é sempre o da interioridade. Endeusar o ego e acreditar que nos realizamos sozinhos, é robotizarmos o que somos numa das maiores falácias de vida! Somos vítimas de nós mesmos sempre que não sabemos respirar a alma. E viciosamente encontramos argumentos e desculpas para o nosso próprio vazio!

6.8.18

NÃO É A VIDA QUE COMANDA


Só desapertando os nós da alma, insuflamos esse oxigénio de higiene mental que permite ver a vida em perspectiva, evitando as energias sem qualidade com que nos gastamos ao sobrecentar os problemas! Só arejando a alma e limpando a mente de emoções tóxicas e sufocantes, desbravaremos caminho para a libertação interior, que não se faz iludindo o que nos rasga a pele, ou negando o túnel sem luz onde tantas vezes nos encontramos, antes elevando-nos acima do próprio problema, concedendo-lhe apenas o espaço que tem, sem o aumentar nem diminuir, mas não lhe permitindo tornar-nos reféns dele!

A vida é dinâmica e o problema pode persistir, mas é a maneira como o encaramos que conta e não tanto a adversidade em si! Quando chove, enquanto uns se molham, outros apreciam a chuva; o que mudou não foi a chuva, mas a atitude face a ela. E é por isso que é possível haver pessoas felizes no meio dos problemas, sem os negar nem os agigantar ou alimentar! Porque a paz é aquela que se vive no meio da luta, sem energias mal gastas ou pensamentos desgastantes e inúteis com que nos consumimos na voragem de querermos abolir tudo o que de mal nos apareça, mas não definha nem morre quem sente a alma devastada: definha e morre quem fica preso na dor, com lamento ou raiva, sem oxigenar esse jardim que é ele mesmo, capaz de sofrer e seguir em frente, porque assume a natureza humana e os seus contratempos pessoais como parte integrante da caminhada que não pode nem deve ofuscar a capacidade de nos darmos e de rirmos e brincarmos, não porque se nega, mas precisamente porque vale mais do que uma tempestade que só aparentemente parece querer ficar para sempre... 

E nesse caminhar mais lento, apressar o passo sorrindo e indo, porque a vida passa depressa e nós perdemos muito tempo a dar ouvidos à dor, essa que traz mais solidão e desencanto, cuja cadeia nos cabe quebrar além do que já é! Aceitar com serenidade o que não podemos mudar, mesmo que seja só por enquanto, mudarmos o que pudermos, colocar as coisas em perspectiva, e dar tempo à dinâmica própria existencial, estarmos além dos problemas, comungando com optimismo e esperança, brincando e relevando, num resgate psicológico imediato que só depende de nós.

Há tanto para amar e descobrir, tanto para sorrir e partilhar, mesmo nas noites mais escuras, e o tempo é sempre o Agora, mesmo que coxos em feridas que julgamos sempre que nos matam, mas que necessariamente vão passar... 

Há que saber viver a vida na nossa comum condição da fragilidade humana, mas também na sua força brutal e redentora, pulsante e pujante da criatividade e glória que tantas vezes lhe recusamos...

30.7.18

DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE

 
 
 
 
 
Hoje é o Dia Internacional da Amizade! E a Amizade é todo um  tratado. Como escrevia Saint-Exupéry:
                
                 "eu não preciso de ti
                  e tu não precisas de mim,
                  mas se tu me cativas,
                  nós precisaremos um do outro!"

A Amizade não são essencialmente as grandes jantaradas e eventos, onde o sentido colectivo fala outra linguagem; antes o gesto presente nos dias comuns e anónimos, de presença na ausência, de sorriso e partilha, de silêncio e palavras! O quotidiano carece tão mais de gestos amigos do que longos momentos em que todos brindam para depois todos voltarem a ficar sós. É aí, no dia a dia, que se revela em toda a sua verdade!



27.7.18

PENSO, LOGO ERRO!

 
 
 
Sem uma constante autocrítica e análise, facilmente caímos em verdades que não existem, excepto na nossa cabeça, o que nos limita, não apenas na percepção da realidade, mas sobretudo quanto ao mundo do outro. Se acho é porque é, é uma falácia que requer diariamente uma desconstrução do eu!
 
 
O ego é sempre cego e facilmente comete injustiças. E é por isso que temos de estar sempre muito auto vigilantes, sob pena de lermos mal o mundo e os outros quando, afinal, o erro somos nós...

(RE)VALORIZAÇÃO

Saber precisar daquele que amamos, pode ser uma prova de amor, mas a primeira prova de amor é sempre no respeito connosco mesmos, e sempre que não nos amamos o suficiente (não como quem se idolatra mas como quem se dignifica), ficamos reféns de um príncipe ou princesa que pode não apenas não existir, como nem sequer ser melhor do que nós! E da nossa necessidade de amor e protecção, nascem valorações exageradas ao outro, muitas vezes diminuindo-nos, quando, afinal, somos grandes, e aumentando a importância que o outro pode não ter!
 
O Homem é um ser relacional, e estarmos nos braços e no coração do outro, vem das necessidades mais profundas de vínculo e protecção, mas facilmente nos desvalorizamos sobrevalorizando o outro, que tanta vez é mais um apego do que uma identificação. E neste caminhar, precisamos também de aprender que, no fundo, somos seres solitários, precisando do outro, sim, mas não devendo emprestar ao tempo uma espera por alguém que verdadeiramente nos ame, se nós não formos os primeiros a conseguir essa própria construção...
 
Seguir o Amor é lindo e necessário; mas só se nos soubermos amar também a nós, porque muitos amores são apenas um afago do ego... E se tivermos a sorte de sobrevir esse Alguém, de nunca hipotecarmos a felicidade numa imagem construída do que gostaríamos que fosse e não do que verdadeiramente possa ser, dando a esse Amor o que merece e partilha, mas sem nunca endeusarmos o objecto dessa entrega, sob pena de mendigarmos algo cuja riqueza, afinal, está em nós...

8.7.18

...PORQUE ELE CONHECE...

Porém...
Ele estará contigo,
porque conhece as tuas manhãs e madrugadas.


E ficará contigo ...
mesmo quando nada tem para oferecer
a não ser ele mesmo!


E então sentirás que te perdes,
e que viver fica do outro lado da vida,
se não abraçares sem deixar o presente,
a entrega que está por fazer.


E a felicidade é um rodopio social,
onde ninguém conhece verdadeiramente
as tuas noites e manhãs,
os teus anseios e dúvidas,
a tua sensibilidade e abraço.


Mas ele conhece.

Como quem te olha de dentro
porque também és tu,
mesmo nas tuas negações,
mesmo quando achaste ser esporádico.


E quando a noite do espírito
te invadir,
grita por ele,
ergue o facho da tua alma,
e lembrar-te-ás quem te beijou as mãos,
porque só ele, o Amor, conhece as tuas manhãs e madrugadas...

3.7.18

SAGEZA E REIVINDICAÇÃO

Uma fila enorme à minha frente com carrinhos de compras a abarrotar. Uma senhora atrás de mim com três pequeninos artigos. Algazarra e reclamações. Pessoas quase à estalada. Digo calmamente à senhora com ar infeliz atrás de mim que, por mim, obviamente lhe dava o lugar, mas a fila é extensa e seria muito melhor para a senhora pagar nas máquinas automáticas, pelo que lhe pergunto se tem cartão e prontifico-me para a operação. A senhora quase se ajoelha em agradecimento. Por azar as máquinas estavam bloqueadas e lá consegui numa fazer as compras da senhora, um saquinho de pão, três maçãs e uma caixinha de qualquer coisa. Entretanto havia pessoas na minha fila a reclamar do meu carrinho abandonado, e um casal fazia-me sinal de que estava tudo bem. Despeço-me da senhora que não sabia mexer nas máquinas automáticas e que está profundamente agradecida, e corro para o meu lugar. Repito o que, aparentemente, já tinham contado, as pessoas acalmam-se, com mais alguns minutos acabam por falar de outros assuntos, uma senhora, a mais aguerrida, com ar de dondoca, acaba por se mostrar extremamente afável quando, entretanto, tudo parece mais apaziguado, a rapariga da caixa que estava a ser alvo de violentas críticas deixa de ser o centro das reclamações, porque insisto, em duas ou três frases sossegadas mas assertivas, que ela obviamente não tem culpa nenhuma, e que nos resta a todos esperar. E se a senhora dondoca afinal era tão simpática, e se as outras pessoas que tinham visto a senhora com os três artigos queriam ajudar mas nada faziam, e no fim as reclamações passaram a conversas de circunstância de situações particulares de quem intervinha, e a senhora de ar infeliz foi ajudada e sugerida para uma opção via verde, porque havemos de vociferar e deitar fel, quando não apenas aumentamos o stress e gastamos energia sem qualidade, como contaminamos o ambiente e nada resolvemos? E, se, no fundo, até são todos boas pessoas com zonas ocultas (as melhores) porque é que temos de ser nós a intui-lo e não elas a mostrá-lo? Precisamos de ser simples, mão amiga de ajuda efectiva, conseguir sorrir no meio da luta, e não sucumbirmos ao socialmente correcto da hermetização, de ser suposto andarmos todos macambúzios e austeros, reivindicativos e mal dispostos, outras armadilhas do ego que, pensando sempre em si, se esquece de que a fragilidade, os temores e anseios, os gritos de desespero e os choros escondidos, são denominador comum da natureza humana, e que não os precisamos nem devemos travestir em amargura e rancor. Só quem é livre, não se sente ameaçado por quem consegue ser feliz mesmo sem ser rico...