29.3.19

UM EGO INFELIZ

Nos tempos do culto do eu, da auto estima, do sucesso pessoal, o que sobra do amor? Nos tempos em que o Outro é secundário, em que tudo deve girar à volta do bem estar pessoal, o que temos de verdadeiramente importante? Que valores, afinal, nos guiam, que rumos tomamos como ilhas vaidosas em luzes de néon disfarçadas de amor? 

Que restará de coisas simples como a simplicidade da entrega, a entreajuda, o amor desinteressado, a gratidão, os gestos simbólicos, as atitudes singelas, o agradecimento, a oferta e não o preço, o elogio e não a mera crítica, o enlevo, a preocupação pelo que não é apenas "eu", o abraço gratuito, a justiça em vez do populismo, a ética em vez da moda, a verdade em vez da realidade aumentada?

Nos tempos do culto do eu, da programação neurolinguística e do sucesso pessoal, torna-se ainda mais importante a capacidade da sageza e desse valor que reputo ainda mais importante do que a própria inteligência cognitiva: a lucidez, o discernimento, para aferir da verdadeira importância das coisas e do verdadeiro significado do que é ser humano!

É muito fácil inebriarmo-nos com o mero bem estar pessoal, mas é sempre e só na relação com o Outro, que o Homem verdadeiramente se faz, até com o sacrifício esporádico que, por amor, deixou de o ser.

21.3.19

DIA DA POESIA, DA ÁRVORE, TRISSOMIA 21 E DISCRIMINAÇÃO RACIAL






Hoje celebra-se, além do Dia Mundial da Poesia, e Dia da Árvore, o dia internacional da trissomia 21 e da luta contra a discriminação racial!

Mas podia ser sobre divorciados, mães solteiras, ciganos ou homossexuais!

O preconceito é um estigma que nós criamos, uma visão deturpada reveladora da ausência de formação humana e, é por isso que, na verdade, os deficientes somos nós!

8.3.19

DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Tecnicamente, não devia existir o Dia Internacional da Mulher que hoje se comemora, porque antes de mais a igualdade é intrínseca ao género humano, como a cor, a raça, orientação sexual, condição social!

Mas já que ainda estamos atrasados em preconceitos (a desigualdade é um preconceito, apenas) então que se usem estes dias para o lembrar.
 
Sobre a mulher, acho lapidar esta frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher! Torna-se!" Ainda assim, acrescentaria que podem sempre ser senhoras!
 
O resto, ter de haver "dias de..." são resquícios de uma sociedade no seu lento processo de civilidade e humanização...

5.3.19

DO CARNAVAL


A máscara tem o sentido catártico de uma disciplina socialmente imposta. As personagens que representamos confundem-se no real e no imaginário, porque tanto somos aquilo que pensamos ser, como as personagens que apenas pensamos representar.


Carnaval é todos os dias. Entre a defesa e a hipocrisia, entre o real e o intencional, as máscaras são produto de personalidades prensadas no despotismo de muitos. Neste aspecto valorizo os simples, a simpatia do riso, a desresponsabilização salutar por tantos males do mundo!


O homem médio é sem dúvida o mais feliz. O Carnaval não devia ser um tempo avulso como se fosse um workshop circense; não devia ser uma catarse lúdica concentrada num dia colectivo. Tal como fazer férias não é hipotecar numa quinzena ou num mês o restante tempo livre, também saber brincar todos os dias é do mais salutar que há, já que contribui para a higienização mental e contagia na promoção do desbloqueamento dos problemas diários que sempre nos afligem...


É bom matar a necessidade de se brincar às guerras: aquelas onde as próprias pessoas são os campos de batalha...

3.3.19

ESSÊNCIA E VERDADE


Freud diz que "é impossível eliminar os nossos sintomas todos sem perder juntamente com eles, aquilo que representa a nossa maneira de ser, aquilo que nos aproxima da obra de arte e nos afasta de sermos mera cópia de um original previamente definido, higienizado, polido e considerado normal." 
 
De facto, se é verdade que nos precisamos de desconstruir diariamente, isso também não pode significar uma negação àquilo que é a nossa essência, seja ela qual for! Nunca gostei do so...cialmente correcto, das pessoas perfeitas ou altamente seguras, descontando já o que tudo isso tem do seu oposto.

Tal como uma mente conservadora inibe o desenvolvimento, a ideia de nos travestirmos socialmente para uma imagem de invencibilidade, inibe a própria personalidade que fica refém de si mesma, em artificialidade e vazio. Os sinais práticos costumam ser a soberba intelectual, a arrogância, mas também aparentes simpatias que escondem acidez.

Freud tem razão. No fundo, crescer não é negarmo-nos, mas integrar o que somos com a perfeição possível... sem por isso deixarmos de ser nós...

25.2.19

HÁ ALMOÇOS GRÁTIS




"Não há almoços grátis" é aquela expressão que pretende significar que ninguém dá nada a ninguém gratuitamente, há sempre algo em troca, qualquer interesse velado ou directo, mas tal não é sempre verdade. Há dias, um sem abrigo pediu-me no MacDonald's se lhe dava dinheiro porque tinha fome; ar esgazeado, meio lunático e aparentemente perigoso. Sentou-se à minha frente e dele chegavam-me intuitivamente todas as más impressões! Coloquei um ar austero e defensivo porque era mesmo daqueles que armam confusão e se metem com todos! Pedir dinheiro é logo mau sinal... Ontem, porém, estando eu a jantar, vi outro sem abrigo nos armazéns do Chiado, aparentemente envergonhado e abordando de longe uma senhora que também jantava, logo se retirando de seguida. Já me tinha visto, mas continuou. Passado um pouco voltei a vê-lo, e ao contrário do primeiro sem abrigo no MacDonald's, este fazia-me chegar algo de bom!


 Deixei que visse que o olhava, e a passo lento aproximou-se de mim também guardando uma distância. "Olhe, o senhor desculpe, mas podia dar-me qualquer coisa para jantar?" - Eu não tinha dúvidas sobre o homem, mas testei-o para ver a reacção: "olhe, quer acabar de comer a picanha e as batatas fritas?" disse-lhe já eu jantado. "Olhe, com a fome que estou se não se importar"... O olhar era simultaneamente doce, expressivo e triste. Barba grande mas algo aparada, magro, roupa típica mas sem um desleixo de maior. Perguntei-lhe porque não tinha ido comer à carrinha, que sei todos os dias distribuirem refeições no Rossio aos sem abrigo e respondeu que sim, que todos os dias o faz e que a comida é muito boa mas hoje tinha chegado tarde e já não serviam, uma espécie de castigo para aprenderem a estar a horas... Na realidade, o sem abrigo perigoso do MacDonald's havia-me dito o mesmo…

Eu respondi a este samaritano nos armazéns do Chiado, que estava a brincar com ele, obviamente não estava à espera que comesse os meus restos, e que escolhesse o que quisesse. Fui com ele oferecer-lhe a refeição, falei um bocado com ele, notava-se inteligência e bondade, formação humana e dignidade, mas precisava de acreditar nele, de ter auto estima que não tem, e esperava que o chamassem para ser internado para sair das drogas, já tinha ido à segurança social, etc, dizia-me ele enquanto o prato era preparado. E naqueles momentos breves, disse-lhe que todas as ajudas são sempre ajudas, pessoas, instituições,, o que for... mas a verdadeira ajuda será sempre a nossa, a força de vontade, já que tudo o resto é temporário, momentâneo, como aquele jantar que eu lhe oferecia, ou mesmo ser institucionalizado. Respondeu que sim, sabia disso, mas continuava a faltar-lhe gostar dele mesmo. Perguntei-lhe o nome; hesitou em responder e disse: "Hélder"! Muito bem, Hélder, então agora tem de perguntar a si mesmo porque não gosta de si; e se é por causa das drogas então tem de fazer um esforço em tentar consumir menos; evitar ao máximo, porque a segurança é você que a faz e não esse desejo tão grande que tem de o chamarem para ser internado. É uma ajuda mas é você que precisa de fazer mais por si mesmo, Hélder! Se agora alguém lhe desse 10 ou 20 euros que faria você? Provavelmente ia para as drogas, mas são estes pequenos passos que você precisa de dar, acreditar em si mesmo, como você mesmo diz, Hélder" E disse-lhe que é também o mesmo problema de quem está agarrado ao tabaco ou álcool para se sentir num patamar mais natural dos "restantes" seres humanos…

Depois deixei-o sentar-se e jantar sozinho, à vontade. Estava entre o envergonhado e o tenho mesmo muita fome. Respondeu "nunca me vou esquecer disto", e independentemente das verdades que nos chegam do outro ou daquilo que intuimos de mal, como nestes dois casos de sem abrigo, a verdade é que não podemos estar à espera de santos para matar a fome ou proteger do frio, e com todas as cautelas que as ajudas implicam, mas também com muito do que percepcionamos, a ajuda é gratuita e não pede factura nem emenda, e o facto de generalizarmos que são sempre todos os mesmos, a verdade é que são pessoas como nós, e que mesmo que não seja para algo essencial à vida, todos merecemos ser felizes ainda que por momentos, e que só não há almoços grátis, como diz o adágio, se nos mantivermos arrogantemente bondosos sem nada fazer, no deve e haver das facturas relacionais…

Rasgar a vergonha para pedir, não é fácil, mas também não podemos morrer de fome. O que me chegava dele era entre a timidez, a vergonha e a necessidade, mas com gentileza, não aquele ar sonso que colocam a pedir dinheiro, e também por isso devemos estar atentos aos sinais. A mim tocou-me a humanidade do senhor, tinha 33 anos embora parecesse algo mais velho mas não muito mais. Fui eu que fiquei agradecido pela sua humanidade... E se partilho isto é só por um sentido pedagógico: precisamos de desintoxicar de tanta desconfiança...

HÁ ALMOÇOS GRÁRTIS

EGO

Autosuficiências ou orgulhos,
afastar-nos-ão continuamente do caminho,
até que abrandemos na encruzilhada
da desomnipotência e humildade,
onde o êxito não é o que fazemos,
 mas o que sentimos!

E só quando nos reconhecermos falíveis
 e, por isso, humanos,
podemos dar ao outro o melhor de nós!
 
Até lá,
será a vaidade do ego
a comandar a nossa vida...

6.2.19

A TUA CASA

Quando me deixares entrar em tua casa com o pó por sacudir, saberei que não é na geometria das coisas que vives, mas na diária tentativa de ergueres na alma o aprumo que te falta. E se o sorriso te esconder a vergonha, não confundirei com negligência a prisão do ser, que hipotecado em cíclicos desencantos e abúlica energia, aguarda que a chama se acenda num frágil pavio, sustendo os serviços mínimos do ânimo até que os grilhões te libertem, dando à vida novo rumo e nova cor, vestindo de alegria o cheiro a mofo de uma vida anémica.

Mas se só me convidares para a tua casa reluzente e bela com jardins e mesa para os convidados...! Se só me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se só me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...! Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...! Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou desconfiar que estejas bem, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.

Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que, embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos, e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala muito mas pouco se diz, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

Mas o festim simples e libertador da alma não é este, e pode durar uma noite inteira. Não teve convivas nem flutes, nem roupas de ocasião. Se calhar tinhas até o cabelo por lavar ou uma nódoa antiga, como os livros amarelados de serem lidos e mexidos, ou os objectos puídos pelo uso emocional que só tu vês! Mas é quando os outros regressam com portos de honra, para desembrulharem durante a semana toda a frustração e infelicidade, que metidos em fatos Armani ou vestidos Prada, não puderam desencarcerar numa festa que devia ser Encontro.

Por isso, convida-me só quando tiveres pó em tua casa, e saberei que o quarto fechado onde mais ninguém entra, para iludires nas restantes divisões da alma a felicidade que não tens, é exactamente aquele onde verdadeiramente és e te libertas, e onde me deste a honra de entrar, até à festa onde a alegria é já sentida e a harmonia das coisas são mimos que ofertas, e tudo é, então, belo, não porque estejas necessariamente feliz, mas porque a divisão mais bonita, será sempre aquela onde moram as nossas vulnerabilidades, e não já como o príncipe que recebe duzentos convivas no castelo, sabendo que na verdade não teve lá ninguém...

25.1.19

MODUS VIVENDI






A paz é aquela que se vive no meio da luta. Requer coragem e atitude. Coragem para enfrentarmos a vida, e atitude para não deixarmos que sejam as situações a afectar drasticamente o nosso viver. Como quando chove, e enquanto uns se molham, outros apreciam a beleza da chuva. 

 Na nossa atitude mental face aos problemas, está muita da sabedoria do viver.

No dia de hoje nascia Virginia Woolf, e escrevia ela assim: "Não encontrarás a paz ao evitares a vida".

DIA MUNDIAL DA ESCRITA À MÃO


21.1.19

DIA DA TRISTEZA E DO ABRAÇO



Hoje é o dia da tristeza e do abraço. A tristeza, apesar de a querermos sempre negar, é uma tensão de equilíbrio e, por isso, saudável, quando não se prolonga para além do motivo que a provocou - pode também aparecer sem hora marcada, nem dia, nem sequer motivo ou circunstância - e, recusá-la, será sempre um erro. Tal como chorar parece ser para fracos, a verdade é que, quem se permite fazê-lo, nem que seja só porque está triste ou porque se emocionou com um filme ou qualquer outra situação, é psicologicamente mais forte...

Mas hoje é também o dia do abraço, e ele é saudável, necessário, fraterno, amigo, terapêutico e motivador! O abraço, como o sorriso ou o beijo, será sempre catártico e retemperador para quem dá e para quem recebe, e não é por acaso que existe também terapia pelo abraço! E porque precisamos de ir além dos preconceitos sociais, e de tantas vezes sentir mais e falar ou teorizar menos, aqui fica um abraço, longo e apertado, sentido e grande, a todos os que me acompanham por aqui...

18.1.19

DIA INTERNACIONAL DO RISO


Celebra-se hoje o Dia internacional do Riso, e o riso é uma arma poderosa. Não porque existam sempre motivos para rir, quando tantas vezes é exactamente o contrário, mas porque o riso é uma terapia. Existem empresas, também portuguesas, que começam o dia com uma sessão de meia hora de riso, levando a que, necessariamente, a predisposição (e, com ela, a eficácia laboral), acabe por ser outra.

Quando rimos, atiramos para longe a carga emocional e psicológica do sofrimento, abrindo comportas de oxigénio para a alma, também esta constantemente invadida pela poluição humana da sobrepreocupação, do quadrado da existência, do ruído, da ansiedade e da urgência. Esta higiene mental do riso, é, também, saúde pessoal e colectiva, porque se contamina com humanidade, o que outros cospem com acidez e frustração.


Somos todos mortais, de nada vale afiar o dente em modos de vida desiguais, nem confundir a aparente felicidade com um modo de encarar a vida. Muitas vezes a dor é forte, o pessimismo é terrivel, o desalento mata os sonhos, a solidão destrói e encarcera, e em tudo isto, a resiliência, a capacidade de superar e acreditar, a entreajuda e essa formula mágica que é o amor nas suas diversas manifestações, têm um papel crucial na noção nem sempre presente de que a vida é dinâmica, e de que muito do que teorizamos e planeamos, acaba por acontecer ao lado ou nem acontecer.

Saber rir, está longe de representar uma pessoa feliz, antes alguém que não faz pagar o mundo pela parte que lhe coube, e que relativiza artificialmente o seu próprio sofrimento, exorcizando-o! É certo que o crédito social costuma estar associado a um ar mais pomposo, austero ou obtuso, mas são estas disfuncionalidades sociais que enclausuram e bloqueiam, já que recalcamos a emoção por interditos sociais, e isso não apenas é uma desinteligência, como um atentado, sem falar nas consequências práticas dessa rejeição auto imposta...

Subestimamos o riso, mas devíamos subestimar a dor...

16.1.19

SER-SE

Temos um medo terrível de nos mostrarmos humanos, com as nossas fragilidades, mas não só é libertador, como pedagógico. Todos usamos defesas, mas quando se tornam tão fortes que nos escudamos em seres que não somos, é um oxigénio artificial que respiramos, é uma outra vida que vivemos, e são muitas as fontes de desencanto e animia, de desconsolo e ansiedade, de frustração e dor. Não se trata das defesas comuns para tapar fragilidades, mas daquelas que não nos permitem revelar a nossa própria condição. A ideia de sermos o super homem, quer com um riso constante onde nada nos parece afectar, quer massajando constantemente o ego e preferindo engolir a partilhar, corresponde à imagem adolescente da imortalidade e invencibilidade. De nada valemos se não formos pessoas autênticas. Mesmo nos aspectos mais desonrados. Precisamos de nos desconstruir para sermos em plenitude.

Tenho muito mais identificação e à vontade interior com os desnudos da vida, os feridos e os envergonhados, (não confundir com coitadinhos ou com os que se vitimizam ou com os que continuamente se lamentam numa espécie de reclamação ao contrário), do que com os fortalhaços sociais, até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si... Só a humildade do despojamento do ego e do abraço de alma, nos solta a confissão de quem somos, em lágrimas que, talvez por isso, não precisaram de chorar...

5.1.19

O ESSENCIAL...

Gosto de ser livre, despido dos cânones sociais e dos respeitos humanos, das quotizações intelectuais que enclausuram o espírito, de não ter problema algum em educadamente expressar o meu sentir sem limitações de ficar ou não bem nos círculos intelectuais e sociais, de brincar com as situações, de ser simples... Mas é preciso também muita interioridade. Precisamos, não apenas de não estarmos presos a uma credibilidade social que é fantasiosa, como de não deificarmos o ego. A razão é cega, não vê as coisas como elas são, não olha para o homem como ele é, não olha para a realidade como ela é, não olha para o mundo como ele é! E é por isso que não se surpreende com o espanto, com a novidade, nem regista a mudança.

Somos um todo e não apenas cérebro, somos muito mais do que nervos, tendões e ossos, e é a emoção que comanda as nossas decisões, mesmo quando supomos o contrário. Precisamos de nos elevar acima da maledicência, e consciencializar que somos também dádiva, entrega, amor, espírito, alma... E sem essa percepção interior de quem verdadeiramente somos, continuaremos num silogismo existencial, outorgando à fantasia social o que não é, e à razão aquilo que não lhe cabe…

Precisamos de saber fazer caminho interior que desemboque sempre na essência, e saiba fugir à superficialidade das coisas… e das pessoas!

31.12.18

O ESSENCIAL NÃO É O ANO NOVO






A vida não se faz numa determinada altura, com hora marcada.

Faz-se em cada dia, mesmo sabendo que é com sonhos que continuamos, cientes, porém, de que é sempre no Presente, que devemos dar e ser tudo o que somos!

Precisamos de ir além das festas, onde, depois, tudo volta a ficar só!

Que seja nos anónimos dias da semana e nos momentos comuns, que abraçamos e festejamos a Amizade e o Amor, sem esquecer que não é o ano que tem de ser novo: somos nós…

Votos de um Feliz 2019 :)

29.12.18

2019

Ao contrário da associação que se faz da passagem de ano ao ruído, euforia, excesso, dança, directa... sempre associei o reveillon a um momento de serenidade, silêncio, revisão e paz! É um momento psicológico de reflexão, mas também de acolhimento! Mais do que uma alegria forçada por uma festa auto-imposta, é a Amizade, a Simplicidade e o Amor que devem ser renovados e vividos. Porque também nós somos destinatários desse amor e dessa paz que tanto preconizamos para os outros…

Para mim não contam tanto os dias festivos, mas, antes, os anónimos dias da semana. Diz que dos fracos não reza a História, mas talvez que a nossa concepção de fraqueza seja, afinal, a simetria da glória. A azáfama diária pode dar a entender um ser perfeito, confiante e enérgico, mas a realidade convive sempre com os “apanhados”. Esse lado natural e espontâneo que dispensa o toque da roupa ou a imagem fabricada, a tecnologia de ponta ou a intelectualidade quotizada, e há muitos que só elogiam assim, desvalorizando a simplicidade do ser que se dissocia do resto, e apenas credibilizam os supostos socialmente bem...
 
Ora, de facto, para mim não contam tanto os dias festivos, mas antes os comuns dias da semana. São tão mais importantes, porque são eles que forjam o resultado continuado. As festas, encontros, jantares, têm o seu lado lúdico e mais do que isso, mas esgotam-se aí. Como diz a canção: "Who's gonna drive you home?" A noite prepara o dia mas não recebe os agradecimentos. Da simplicidade nasce a alegria dos pequenos nadas. As coisas grandes são para todos; as pequenas são, de uma forma ou de outra, para os que me são mais queridos...

23.12.18

NATAL NÃO É UMA FANTASIA


Na raiz do Natal está um facto humano e não o comércio ou o pai natal; é um nascimento, na humildade e na pobreza de uma gruta, e é isso que justifica as luzes e cânticos, não o consumimo e hedonismo.

É que, no Natal, não celebramos nenhuma fantasia, como o Halloween ou o Carnaval. O Natal comemora o nascimento de Jesus há mais de dois mil anos, numa noite que hoje corresponderia, eventualmente, à altura do verão, e que os primeiros cristãos adoptaram para esta altura devido ...ao solstício de inverno, onde se comemora a festa da luz, sendo Cristo apresentado como a Luz.

O Menino Jesus nasce despojado de grandezas numa gruta entre animais e, é por isso, que o verdadeiro Natal, é sempre o presépio do nosso coração. Quem dorme nas palhas da fealdade da vida, dos cobertores que cobrem o frio da rua, dos envergonhados na pobreza e humildade, estão tantas vezes - nesses estábulos que indiferenciamos ou nem reconhecemos os sinais -, muito mais perto daquele Presépio verdadeiro, do que muitos de nós com cânticos natalícios regados com vinhos, perus, bacalhau, borregos, doces de toda a espécie, estonteamento material de prendas e risos, circos finos e mesas fartas e até missas do galo. Mas Natal é simplicidade e interioridade. E é isso que é preciso aprender...

SUAVE MILAGRE

Eça de Queiroz tem um impressivo conto ("Suave Milagre") que desde criança me impressionou e comoveu. Ainda hoje. E que serve como mensagem de Natal. Partilho apenas o final, com cortes, porque longo. É passado na Judeia e baseado numa história da Bíblia onde são apresentados os ricos e os prepotentes, que contrastam com a dor e a miséria de uma criança pobre e entrevada que vivia com a mãe num casebre perdido na serra, longe da povoação. Passa-se numa época em que a fama de ...Jesus se estendia pela Judeia e em que os poderosos e ricos o procuravam. Mas a acção principal desenrola-se em torno dessa criança que, apesar da descrença e desalento da mãe, acredita fervorosamente que só Jesus o pode salvar.

"– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:

– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

– Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou."

17.12.18

PAI NATAL E MENINO JESUS

Nesta época, as pessoas incomodam-se com a euforia, as compras, as luzes, as decorações, a música e o ruído, e muitas esperam ansiosamente que passe o Natal, mas estão enganadas na forma.

O que provoca isso é o consumismo e a relatividade dos valores. 

Confunde-se o Menino Jesus com o Pai natal, ou seja, a interioridade com o comércio, porque o Natal não é a celebração do vazio, mas o despojamento simples e autêntico de quem se faz como Pessoa…



Desejo um FELIZ NATAL a todos os que por aqui passam...

EGO SOBRE EGO

Nos tempos do culto do eu, da auto estima, do sucesso pessoal, o que sobra do amor? Nos tempos em que o Outro é secundário, em que tudo deve girar à volta do bem estar pessoal, o que temos de verdadeiramente importante? Que valores, afinal, nos guiam, que rumos tomamos como ilhas vaidosas em luzes de néon disfarçadas de amor?

Que restará de coisas simples como a simplicidade da entrega, a entreajuda, o amor desinteressado, a gratidão, os gestos simbólicos, as atitudes singelas, o agradecimento, a oferta e não o preço, o elogio e não a mera crítica, o enlevo, a preocupação pelo que não é apenas "eu", o abraço gratuito, a justiça em vez do populismo, a ética em vez da moda, a verdade em vez da realidade aumentada?

Nos tempos do culto do eu, da programação neurolinguística e do sucesso pessoal, torna-se ainda mais importante a capacidade da sageza e desse valor que reputo ainda mais importante do que a própria inteligência cognitiva: a lucidez, o discernimento, para aferir da verdadeira importância das coisas e do verdadeiro significado do que é ser humano!

É muito fácil inebriarmo-nos com o mero bem estar pessoal, mas é sempre e só na relação com o Outro, que o Homem verdadeiramente se faz, até com o sacrifício esporádico que, por amor, deixou de o ser.