Diz-me, oh noite,
quantas estrelas tens
que meus olhos não tenham visto
E quantas lágrimas e mistérios
que perpassam a minha mente invadindo o coração.
Lágrimas que chovem em pedestais estendidos
E tu, oh noite, que me agasalhas no quente frio
na doce aridez da fragrância nocturna
Emolas-me em teus braços e revelas enigmas
que outros não sabem escutar porque desatentos.
Acoitas-me, serena e límpida
no teu corpo longo e macio
e falamos porque o tempo é nosso
e ninguém o sabe
porque o espaço é imenso
e tudo podemos deixar de fora
inclusive os recreios das lembranças
e o olvidar de uma meditação universal.
Diz-me, oh noite, se quando partir,
partirás comigo
se quando morrer,
nascerás comigo.
Noite Estrela, luzeiro na terra e no céu
e eu, suspenso nesse mar imenso de luz
nesse empolado êxtase de claridade,
e tu minha noite, que depois de
breves instantes me entregaste
nostálgica ao dia
agradeci a tua chuva e cor e contei-lhe
que é na sombra que se projecta a luz,
que é em ti que o branco se forma
e a glória ganha corpo.
Tu embalas as flores
e deixas que seja o dia
a agradecer os elogios
das pétalas abertas.
Preferi ficar contigo porque
conheci as astúcias do Homem.
Desejei ficar contigo porque
entendi caravelas desenhadas em entornados
copos de ousadas valentias.
Porque tu, oh Noite, és os bastidores de
tudo o que é louvável e bonito,
supremo e grandioso, e
contigo quis ficar ajudando na sombra
sem que fosse conhecido...
Diz-me, oh Noite,
porque me deixaste chorar
se tu própria choveste?
Diz-me, oh Noite,
agora que te falo
de coração nas mãos
sem sentimentos fáceis?
Porquê? Porquê o vento a fustigar-me
o rosto e o granizo a
estalar na minha pele?
Porquê, oh Noite, guardiã do invisível,
desconhecida amada que dás
sem esperar agradecimentos,
Ensinas sem aprender,
porque tudo sabes.
crias sem saber de recompensas.
Porquê toda essa humildade
num espaço que embora teu
será dos outros e do dia
de quem muito gosto por ser luz
mas cujos sentimentos são um vazio
que não alberga os seres.
E aí vem ele, glorioso e branco,
tranquilizando a emoção e a ansiedade,
Mas o dia só mostra; nada tem!
Chorei, oh Noite,
por os outros não te entenderem.
Chorei, oh Noite,
porque nos braços do dia
ninguém se lembrará de ti.
E tu beijaste-me
como a mãe que
se despede do filho
ainda menino e vai para longe.
Ouviste os meus anseios
como a mãe que escuta
triste, mas serena, os
murmúrios do filho na
sua cama de doente!
Embalaste os meus sonhos e as
frias realidades como a mãe que
envolve e acaricia o pequenino
beijando-o com uma ternura inefável
e apertando-o contra o seu corpo
num triste desejo de o possuir.
Como a mãe a quem o tempo
é roubado apesar de o filho viver,
assim tu, oh Noite, me vês chorar!
Não por mim, mas pelos que não sabem chorar.
Não por ti, mas por eles mesmos.
Chorei por os outros não te entenderem.
De ti me aparto.
Diz-me, oh Noite
...Quem ficará comigo
quando não tiver ninguém...?


14 comentários:
A fotografia está polvilhada com folhas. A Ode é simplesmente magnífica e tem um tema sempre tão belo: a Noite! Fui convidada a ler cada vez mais e mais até esgotar a prosa num instante. Os meus Parabéns, Daniel!
beijo
Meu querido amigo
Um poema simplesmente maravilhoso...sem palavras.
fiquei em êxtase.
beijinho
Sonhadora
Não é noite. Já é madrugada fria, lenta, presa nas gotas de chuva que acordaram o dia.
A noite é misteriosa e tem algum feitiço que nos leva a caminhar ao acaso embebedando-nos num manto suave e espesso.
Acorda em nós novas rimas e canções que lentamente se deformam nas múltipas formas que a luz dia lhes dará.
Parabéns pela pintura dispersa nas estrelas que esta noite te deu e que aqui conseguiste reproduzir.
Um abraço nesses braços que a noite nos aproxima
Lindo, Daniel!
Não gosto de poesia mas admito que este texto etsá magnífico e com um dos temas que mais adoro pela identidade que a noite me revela.
Um abraço e bom fim de semana :)
Olá Daniel (Querido Lobinho), boa tarde,
Que poema, Daniel!
Tão extraordinário na sua criação como em tudo o que encerra.
“Oh, noite”, para mim, uma obra-prima.
Parabéns, Daniel, pela sua elevada inspiração.
Ainda estou sem palavras, porque tudo está escrito, sentido…!
Muito obrigada por este momento único.
Beijinhos com o meu especial carinho.
Ailime
.
.
. qualificar . quantificar .
. quando . quanto . quantos .
. um grito em surdina . no des.abafo do eco da noite . a in.quietação numa quietude tão tua .
.
. até ser dia .
.
. bel.íssimo .
.
. abraço.TE . querido amigo .
.
.
Ímpar!
Não sei se isto se pode dizer da poesia, mas quando escreves poesia e prosa não é algo confuso e tao abstracto que ninguém entende! Tens uma poesia, ela mesma próxima do homem comum ;) quase perceptível, sem grandes enigmas, linguagem quase clara e acessivel, e isso fascina-me na tua poesia. A Sophia Breyner tambénm escrevia mais ou menos assim, de forma simples e tao bela.
Inspirado, tens aqui uma master piece, Daniel. Parabéns! É cativante!
Abração
Belo poema, que nos mostra ter sido feito por alguém com uma sensibilidade muito apurada.
Luísa
Também eu te venho indagar...diz-me, oh noite..."quem ficará comigo, quando não tiver ninguém"? Ou não...não digas...
PS: Muito bonito. Ou como a elegância das palavras pode vir da simplicidade.
Boa semana.
Maria
Olá!
Adorei a fotografia e o poema e só tenho a salientar que quando não houver ninguém tens-te a ti, que é a pessoa mais importante da tua vida!
beijinhos
... também eu tenho essa intimidade com a noite! E por isso te compreendo nesse embalar da dor que ainda te dói, querido Daniel! Grito mudo em palavras silenciosas...
A noite, nossa cúmplice maior, aquela que não revela os segredos doloridos que lhe confiamos, a companheira fiel, atenta, na sua magnitude!
'Quem ficará contigo quando não tiveres ninguém?' Aqueles que te querem bem e que se repousam 'do outro lado da vida' estarão bem perto... acredita!
Um beijo fraterno,
Lindo. Emoção a flor da pele.
Bjs no coração
Lindo . Emoção á flor da pele.
Beijos no coração
Enviar um comentário