7.5.26

COMPREEENSÃO DA DESOMNIPOTÊNCIA


"A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia Freud, nascido a 6 de Maio de 1856.
Na verdade, muitos dos nossos problemas são fruto da solidão não percebida. Fruto de suportar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor.

De nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras. De sofrermos traumas com uma vendetta à vista.
De querermos resgatar ou fazer contas com o passado - mas o passado apenas se pode integrar!
Da revolta pelas injustiças de que sejamos alvo, mas também das que vemos à nossa volta.
Do desespero com os mais diversos rostos - desde o desemprego à cama de um hospital ou de um diagnóstico reservado!
E, porém, embora seja lógico e legítimo passarmos por todos estes estados como se dependêssemos deles, muitos tornam -se auto lesivos, ainda que não nos apercebemos disso.
Uma das soluções que estariam mais próximas é a autorregulação emocional. Não é o que gostaríamos, obviamente, mas perante a inevitabilidade, é necessário tentar fazer esse esforço, mesmo que imperfeito, mesmo que não o consigamos todos os dias.
Como refere Freud, no que toca à psicanálise, é uma belíssima súmula: porque sim, o amor cura.
Em muitos casos, começa por nos perdoarmos a nós mesmos.
Só pelo amor conseguiremos fazer as pazes com o passado. Connosco mesmos.
Com as nossas omissões no presente, e chegar ao entendimento de situações que tínhamos como uma interpretação bizarra e dogmática sobre o viver, pensar e sentir do outro.
Mas é apenas nesse processo de (des)construção das nossas crenças limitadoras (nunca acreditar no ego; nunca outorgar à razão aquilo que não lhe compete e, por isso, não compreende) que se chega ao mistério.
E a (des)construção diária de nós mesmos, tem um alcance tão forte se o trabalho for sério, que, pelo caminho, nos permite entrever outras dimensões, com uma visão menos fechada ao divino, ao transcendente, e não apenas ao que nos damos como certo, porque este processo, este trabalho interior, desativa grilhões emocionais.
A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não são a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autossuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta.
Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que se permite sentir, que reconhece as emoções e as tenta perceber ao invés de as negar ou ignorar.
Só pelo amor chegamos a nós mesmos, à compreensão dos outros e de outras realidades, aos porquês dos nós do caminho, porque implica algo que escapa à razão
E o amor é essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro, admitindo também a falha em nós!
Ser humano não é ser perfeito.
E endeusar a razão é alimentar a solidão, camuflada por um sentido de omnipotência.
É não perceber que aquilo que faz o coração bater, que nos faz levantar diariamente, sonhar e ter objetivos, é tudo menos a razão ou a mera inteligência a que chamo de cognitiva.
Ninguém ama pela lógica. E usamos as ferramentas erradas, forçando-as a um espelho onde nos vemos poderosos.
Criamos um viés cognitivo, porque o Homem é um ser relacional, e todos precisamos de todos.
Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor.
Não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso quando se esgotaram as hipóteses de reconhecermos em nós mesmos a fragilidade da condição humana e, consequentemente, de ninguém estar imune à vulnerabilidade.
Só a humildade permite o autoconhecimento, já que este nos pode revelar facetas obscuras ou que nem queremos conhecer!
E só o autoconhecimento pode conduzir à mudança; certos, porém, de que esta nunca existirá, se não reconhecermos que não existe nenhuma omnipotência humana e, só por isso, é muito pouco inteligente quem se vê como o super homem.
A mudança vem sempre de dentro. Sempre.
Mas sem reconhecimento de andarmos erráticos e cheios de nós - ou quaisquer outros problemas que nos impeçam de baixar a altivez do ilusório autossuficiente, então a mudança não se opera.
É como se fosse uma lei da física. Tudo o resto é uma auto ilusão que nos compromete o discernimento e a lucidez.
Só então muitos conseguem reconhecer a própria vulnerabilidade e fragilidade, mas que por orgulho, soberba ou medo, passaram uma vida inteira a negá-las... e, com isso, nunca se permitindo, por uma abstrusa condição egóica, serem o que sentem, e não o que pensam.
É, de resto, a vulnerabilidade - quando assumida com a mesma naturalidade dos nossos feitos e glórias - o denominador comum que nos torna verdadeiramente humanos.
O seu oposto, seria uma espécie de existência robotizada, matematizada, auto programada e, como tal, sem vida, sem encanto, sem esperança e, como diz Freud ainda que com uma nuance, sem amor...

8.3.26

NEM TODAS SÃO MULHERES

As mulheres não têm o estatuto pré-definido que os homens têm, como se houvesse uma casta humana, fruto da fabricação de preconceitos.
A desigualdade é um preconceito, tal como tudo o que ostraciza em função de uma ideologia pessoal e coletiva, acrítica e seriamente danosa.
Começa na dignidade da pessoa humana, efetivando-se também nas causas, nos direitos e na falta de respeito pelos valores alheios.
Foi, aliás, precisamente por isto que, a 8 de março de 1857, as operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque tiveram a coragem de se opor e fazer uma grande greve, ocupando a fábrica para reivindicar melhores condições de trabalho, nomeadamente a equiparação de salários com os homens.
O desfecho foi horrendo: a manifestação foi reprimida com tal violência que as trancaram dentro da fábrica, posteriormente incendiada, tendo morrido cerca de 130 tecelãs carbonizadas.
Mas podia ter sido apenas uma, que o drama não diminuía.
É esta a poesia que hoje celebramos. E, em 1975, a data foi oficializada pela ONU, precisamente como homenagem a estas mulheres e à sua luta, estendendo-a a todas as mulheres.
Celebramos, então, o Dia da Mulher.
Mas há tanto para dizer sobre o que é ser Mulher.
Uma alma guerreira que nada deve ao género masculino, sem, por isso, deixar de ser uma referência humana.
E aqui há que tocar também na forma como muitas reivindicam, legitimamente, mas insensatamente, o seu papel de mulher.
Porque nem todas são Mulheres, caindo em extremismos de afirmação, ou em altivez de condição social ou soberba intelectual.
Mas estas, as Mulheres que não vão por aí, têm a resiliência que falta a tantos, que passa também pela atitude compassiva que muitos homens, na sua arrogância e altivez, desprezam.
No entanto, são igualmente delicadas, como se não tivessem enterrado as mãos na terra.
Como se não lutassem e sofressem, sem que nada ou ninguém pareça fazer jus a uma tal luta interior e social.
Mas o sentido de justiça não nos deve tornar justiceiros, nem impiedosos, nem o contrário do que é suposto reivindicar.
É por isso que, a quem é verdadeiramente Mulher, não se instaura no seu espírito, de forma definitiva, nem o desprezo nem a raiva da generalização.
Uma verdadeira Mulher sabe acolher com o perfume do amor e a suavidade da generosidade.
Precisamente por conhecer aquilo com que o próprio Homem e a vida as esbofeteiam, tendo-as deixado nas cinzas do abandono e da solidão.
Caso contrário, seriam muito mais parecidas com os homens.
Aqueles que não sabem ser Homem.
Que são instintivamente brutos, insensíveis, olho por olho, dente por dente.
Que têm uma superioridade doentia, a abarrotar de complexos de masculinidade pelas suas atitudes — ou pela falta delas — revelando, paradoxalmente, uma masculinidade frágil.
E quantos homens foram, por este exemplo de Mulheres que conseguem ser firmes mas suaves, convertidos ao que é ser Pessoa.
E isto não é para todos.
Nem para tudo o que é do sexo feminino.
A Mulher é uma espécie de contrapeso na temperatura da Humanidade.
Sabe vestir-se com o dom da oblação e da partilha, da sensualidade e da retidão de sentimentos, de agradecimento a si mesma, à vida e a quem sabe que lhe quer bem.
Sabe dançar e pisar o tapete vermelho das suas próprias glórias sem que, por isso, cobre nada do que faz, ou sequer ostente o seu dorido troféu.
É o domínio de si mesma.
O conhecimento de si e das imperfeições.
É o espelho da sua própria liberdade interior.
A liberdade que só o é quando se reclama o que é seu por direito e nunca por tolerância. Que, sendo humana, se mantém, porém, firme.
Depois há as outras: as ruidosas, as que são mais reivindicativas do que lutadoras e que se consideram um exclusivo onde só legitimam o que querem.
É por isso que não conhecem, nem sabem,
o que é a elegância da alma, da formação humana, eventualmente camuflada em títulos académicos.
Não sabem o que é a dor ou o sofrimento.
O que é pôr as mãos na lama das adversidades.
Mas uma Mulher, uma Mulher de verdade, mesmo injustiçada nos pântanos sociais -tantas vezes travestidos em falácias - não deixa, por isso, de saber ser Pessoa.
E é isto que lhe dá autoridade:
não o contínuo vociferar em estéreis ruídos que também escondem maledicência.
E, claro, há que falar da hercúlea polivalência da Mulher no quotidiano real, e não em meras considerações filosóficas.
É que, ao contrário dos homens, preocupam-se menos com considerandos e egos, e mais com o pragmatismo e os afetos.
E, só por isso, são já uma lição para tantos.
E esta dupla qualidade
não é qualquer pessoa que a tem.
Tem-na quem possui a inteligência do coração.
A bravura da alma, não dos punhos ou do vociferar, qual criança birrenta e mimada por si mesma.
A sapiência de que nem tudo é oito ou oitenta.
De que muitas coisas não invalidam outras.
O sentido da retidão e da Justiça, combinados com a grandeza da alma e uma contínua lição de Amor.
Sim. Porque o Amor é exigente.
Exige, antes de tudo, respeito por si mesmo.
Mais: não se comparam nem invejam quem quer que seja, porque sabem que a responsabilidade é sempre individual na condução da vida.
Este calibre de pessoas de que tenho vindo a falar não existe apenas por se ser da condição feminina.
Existe naquelas que verdadeiramente
sabem o que é ser Mulher.
E, só por isso, são já uma lição
para tantos homens.
A firmeza simples de Ser,
sem submissão nem medo,
mas também de se saber dar como Pessoa.

20.3.25

O QUE É, AFINAL, A FELICIDADE? (DIA INTERNACIONAL DA)


O que é a felicidade? Comemora-se hoje o seu dia, mas o que é, afinal, a felicidade?


Cada um poderá ter para si um conceito mais ou menos difuso, mas há alguns conceitos que precisam de ser desmontados, sob pena de auto viés. O dinheiro, por exemplo. Proporciona bem estar, conforto, prazer pessoal, potencia a própria felicidade, mas não é a felicidade em si.

O poder, fama, sucesso. Mantém o ego nas alturas, proporciona um sensação de omnipotência, potencia (ou tem esse potencial) a própria felicidade, mas não é a felicidade em si.

Senão vejamos: uma pessoa deixada numa ilha paradisíaca com tudo ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial. Porquê? Porque está na nossa própria inscrição genética, que o Homem é um ser relacional.

O dinheiro (de tão necessário que é, mas que apenas o refiro na ótica do seu peso naquilo que verdadeiramente torna uma pessoa feliz), não compra o Amor, os Amigos de Verdade, a Saúde ou o Tempo.

Tal como não compra os valores universais dos imperativos éticos. É, aliás, por isso, que também o dinheiro não evita a injustiça, a incompreensão, o desamor e a desestruturação como pessoa.

Porque o dinheiro, o sucesso, poder, fama, potenciam o sentimento de felicidade, mas não a substituem. É uma das mais perfeitas ilusões. Mas se formos felizes, o dinheiro abrilhanta a própria felicidade. Porém, o contrário não acontece.

É que a Felicidade vem de dentro, e é totalmente insuscetível de avaliação pecuniária. É sentir que caminham connosco, que somos compreendidos e amados, que somos apreciados.

Então e agora que faço com todo este dinheiro, suposta fonte de felicidade, se não tiver quem me ame nas diversas vertentes do Amor (universal, de amizade, fraternal, romântico...)!?

A suposta felicidade oriunda dos bens materiais, é igual à de um náufrago sobrevivente de um luxuoso cruzeiro numa ilha deserta e perdida, com tudo ao seu dispor. O próprio sentido de auto preservação seria corrompido. Tal como tantas vezes acontece por falta de significado na vida.

E não há significado que não esteja intimamente ligado à nossa necessidade relacional. É sempre nas coisas simples e na relação com o Outro, que a Felicidade desponta.

E não se é feliz todos os dias, mas não por não termos amor.

É, aliás, também, por isso, que devemos estar continuamente atentos àquilo que sentimos, porque essas tensões de equilíbrio, essas emoções, surgem, precisamente, para nos alertar para a toxicidade de outras.

Tudo o resto é importante, mas acessório a que possamos dizer com propriedade que somos Felizes. Porque sem Amor, o Homem nunca se realiza, nem que seja ajudando o outro, porque existe recompensa instantânea.

O dinheiro brilha, tenta e confunde. Mas não cura um coração ferido. Não se compadece da mais profunda dor. Não traz de volta quem nos perdeu ou quem perdemos. Só o Amor.

Sim, o dinheiro é uma das mais perfeitas ilusões, já o disse, de tão reluzente! Mas só até ser ofuscado pelo sol. Aí percebemos o que verdadeiramente brilha.

E, é este sol que confundimos com a luz artificial das coisas, que nos faz bater o coração e acordar todos os dias com um propósito. É ele que nos dá o verdadeiro sentimento de felicidade. Voltamos ao exemplo do náufrago com tudo ao seu dispor e, porém...

Tal como alguém com os maiores luxos, casas palacianas, infindos bens materiais, mas sem ninguém que o ame pelo que é.

Só por amor conseguimos aliviar o peso de um coração triste. Só por amor conseguimos aliviar a fome de um mendigo que verdadeiramente a tem, ou tornar menos pesada a cruz dos que, habituados à dor, já nem se queixam ou estendem a mão.

Só por amor somos resgatados de uma existência fúnebre, doentia, como quem foi traído nos alicerces que nos trazem vivos.

Só pelo amor dos outros suportamos a doença, a injustiça, a maldade, a inveja. As lágrimas de quem nos partiu como que levando um pedaço de nós.

Só o amor extingue a solidão. Um coração que sangra, uma depressão que se instalou.

A felicidade existe ao ver o Bosquinho tão confortável no seu dormitar, que passou a ser minha. Existe, quando, no hospital, recebemos a notícia de que já podemos ir para casa. Ou de que, quem fomos visitar, continuará vivo e não morrerá, como pelo seu quadro se julgava.

A felicidade existe, sempre que amamos e somos amados. Tudo, literalmente tudo, incluindo os bens materiais e a capacidade financeira que nos abrilhanta a vida, vem sempre depois do Amor.

É aí que reside a Felicidade.

Porque só o Amor dá razão à existência! 

16.3.25

ISTO NÃO É POLITICA








A política nunca me moveu. As raras vezes em que opino, é por uma questão de se ter tornado uma situação tão absurda, surreal ou desconcertante, que, invariavelmente concluo que, raramente, a culpa é dos políticos, mas da bomba atómica tão mal e vulgarmente usada pelo iluminado néscio povo, e que é o voto popular!

Basta olhar para Trump (não os Estados Unidos que ele ainda não representa, e que, felizmente, não são nada do que vemos, assim venha um Obama libertar a nação)!
No mínimo, há que ter, ainda, esperança, mesmo com um mundo já com alterações substanciais no terreno.

É difícil, depois de tantos iluminados terem dado, de novo - e após uma tentativa de reposição da liberdade democrática com todos os seus defeitos, mas livre, com Joe Biden -, outra vitória ao inominável autocrático Trump.

Dito isto, que o meu sentido de justiça e objetividade (não neutralidade), sempre se auto impôs em detrimento das próprias amizades, se necessário, e até de pessoas hierarquicamente superiores a mim, a quem devo lealdade ou arriscar aquilo que é, objetivamente justo... (**)

...é-me gratificante, no meio dos urros da populaça que em massa vão pela rama das coisas, ou ideologicamente cegas e, por isso, sem nunca conseguirem atualizar as suas decisões, aconteça o que acontecer, partilhar dois pequenos extratos de entrevista, onde um partidário do PSD e outro do PS, conseguem a rara objetividade.

Irmos para eleições pela terceira vez, num espaço de tempo ridiculamente curto, é uma das maiores pirrónicas teimosias de qualquer partido na oposição, desde que Portugal é uma democracia.

Uma birra infantil por dá-me o chocolate, que contribuiu para a queda vergonhosa, na forma e no conteúdo, deste governo de minoria, apenas eleito há um ano e, durante o qual, não obstante nada ser perfeito, estava a realizar um trabalho mais do que razoável, considerando o momento porque passamos, e o facto de ser uma minoria.

Pronunciando-se sobre a situação, os atuais comentadores políticos, na generalidade, legitimam o PS tentando fortemente convencer quem não vê para além do seu umbigo, que estamos nisto graças ao governo e, em particular, a Luís Montenegro cidadão (que, por acaso, ocupa o lugar prestes a deixá-lo oficialmente, de Primeiro-ministro). Lá vamos gastar milhões porque sim.

Mas vemos aqui, dois exemplos raros de quem sabe ser intelectualmente sério, na apreciação dos factos e de todo o enredo em que isto se tornou.

Pelo PS, não temos apenas mais um a tentar colar culpas objetivamente superficiais ao governo agora dissolvido.

Sérgio Sousa Pinto tem pensamento próprio, e encara tudo isto que, infelizmente, se passou, como um lavar de roupa suja, exaltando-se se poderiam ou não falar de política, já que, era por isso que ele estava ali.

Ou seja, percebeu, ab initio, que a sua interlocutora, defendendo o mesmo partido dele, não tinha, porém, capacidade objetiva pessoal e séria, de não sucumbir a tudo o que, no dizer do seu colega socialista, é "pôr a roupa na máquina", perguntando exaltado, à condutora da entrevista, se podiam falar de política, ou seja, agora que temos um facto triste e revoltantemente confirmado, o que se seguirá politicamente?

Porque são esses, para si, os cenários que importam discutir.
Esteve Sérgio Sousa Pinto amarrado à ideologia política que perfilha, quais apoiantes de Sócrates e António Costa, - tal como comentadores a imitar o que de pior já o povo faz tão bem - e, para quem, ambos foram um exemplo de governação, dado que a cruzinha não saiu do seu lugar?

Não, Sérgio Sousa Pinto soube separar as águas. Porque não deixou um milímetro de ser socialista. O que não o impede de ser crítico. Pelo PSD, temos Miguel Monteiro, ou seja, Sérgio Sousa Pinto em versão social democrata. Tal, também não o impediu (apesar de frontal e factualmente lembrar a realidade das coisas, gostemos ou não, por não serem opinativas), de criticar o PSD, a forma como o próprio governo se deixou infetar na manhosa ratoeira do PS, chegando este a sugerir que apresentasse uma moção de confiança, se se sentia tão certo e seguro de si.

Infelizmente, na escalada acusatória e defensiva dos dois maiores partidos, acabou mesmo por levar o governo a apresentar a tal moção de confiança, depois de duas ridículas moções de censura pelo Chega e PCP, e nem trago, sequer, à colação, a CPI do PS.

Ou, seja, sem deixar de opinar (ao contrário do que fez Sérgio Sousa Pinto, focando-se naquilo que, agora, é importante, e não a lama do que ficou - posição que subscrevo), lembrando quão frágeis são os telhados de vidro do PS (dado ser graças a este que o governo ficava ou caía), e de como nada disto, alguma vez, seria um caso político, dramaticamente acusatório e alimentado por birra e espiral destrutiva e egóica, por puro aproveitamento partidário socialista, se fosse Pedro Nuno Santos, o justo Sócrates ou o dissimulado inocente António Costa, a estarem no lugar de Luís Montenegro.

Mas, e aqui reside a diferença, faz fortes críticas ao que entendeu dizer do PSD, o partido que milita, naquilo que é a minha bitola pessoal, ou seja, olhemos os factos; retiremos as preferências pessoais por mais enraizadas, punhamo-nos, aí sim, no papel de um juiz que fosse chamado a dirimir esta mexicana novelesca situação e, apenas assim, teria conseguido, com seriedade, ajuizar do que lhe fora pedido.

Pessoalmente, acho tão degradante a maneira como se faz hoje política em Portugal que, não foi por acaso que escrevi há uns dias, não sobre a atual administração norte-americana, mas como foi possível voltar a legitimar uma criatura com um ego tão patológico e doentio, que só encontra par nos regimes ditatoriais.

Basta lembrar o "Animal Farm" de George Owerll, - traduzido como "A Quinta dos Porcos", e que até já foi leitura obrigatória na disciplina de Inglês do 12° ano -, onde, de palavrinha mansa em palavrinha mansa, todos os animais acabam seus escravos, de tão candidamente acreditarem na "diplomática lábia" dos porcos, originando, a conhecida epítome de que "todos os animais são iguais, mas uns são mais iguais do que outros".

_________________
(**) Sem que dependa de interpretações pessoais, segundo cada interesse, dado ser factual (o heliocentrismo não é uma teoria, mas um facto cientificamente comprovado que terminou com a "evidente" observação de que era o Sol a girar à volta da Terra, e não o seu contrário, por mais negacionistas que existam no mundo, tal como o fazem com a alunagem, ou com o Covid).

13.3.25

12 ANOS DE PONTIFICADO


"Estou muito contente com a minha renúncia, porque Deus preparou, depois de mim, um fenómeno" disse o Papa Bento XVI sobre o seu sucessor, o Papa Francisco, sobre quem passam hoje doze anos sobre o seu pontificado!

E é, de facto, um fenómeno. Um fenómeno do que é ser-se Pessoa, e não apenas um conjunto de nervos, ossos e tendões.

Do que é ser-se Humano.
Na sua força e resiliência.
Na sua luta e sofrimento.

Com toda a vulnerabilidade que caracteriza a coragem da condição humana, em não a esconder em comportamentos e palavras que apenas traem quem o faz.

Um fenómeno de serviço e de entrega.
De humildade.
De um verdadeiro representante de Cristo.

Um fenómeno que atesta, não só pela fé, mas pelas diárias dificuldades com que continuamente é ferido, acossado, vilipendiado, por quem nele vê aquilo em que não acredita.


E, por isso, o tentam continuamente humilhar e encontrar algo que o desminta, com a vil certeza do que os factos negam.

Um fenómeno de força e paz.
De serenidade na maior provação comunitária e pessoal.

Só um espírito inabalável, só uma construção diária com gestos efetivos e não apenas palavras, podem colocar o Papa, neste caminho onde chove.


Ainda ainda assim, avança sozinho pela praça, carregando a noção da finitude humana, da vaidade dos homens, da soberba dos mais vis.

Este é o fenómeno de que falava o seu antecessor, Bento XVI.

Um fenómeno de quem tem uma extraordinária noção do que é, verdadeiramente, ser-se Pessoa.

E, tudo isto, a ausência da ilusória omnipotência ainda que em forma de arrogância, desprezo ou vaidade, que na sua maioria o mundo faz, advém-lhe, precisamente, pelo mesmo motivo do testemunho de Cristo, que na sua vida pública e Calvário, soube sempre manter a presença de espírito, a inteligência emocional, mesmo já na cruz.

Em ambos, a força nunca esteve ou está, nas crenças pessoais dos tantas vezes falaciosos pensamentos, que quase sempre vemos como a indefetível verdade.

A força esteve e sempre estará na capacidade de entender, para além do visível, para além da maledicência do ruído acrítico, que só a humildade pode suportar a fim de a converter em força, pujante e de vida, que não é visível senão pela sensibilidade de entender as ações.


Aqui chegados, com facilidade se conclui e infirmam as palavras de um grande doutor da igreja, Santo Agostinho, quando diz:

"Ama...e faz o que quiseres"!

É porque, só quem verdadeiramente conhece o Amor, o despojamento e a entrega, pode ser verdadeiramente livre.

E, só quem é verdadeiramente livre,pode quebrar as regras...

Parabéns, Papa Francisco!
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