Ontem, ao ter de descer a Avenida da Liberdade depois de sair de um evento que terminou por volta das 21h30 nas imediações do Marquês de Pombal, o cenário que todos os anos se repete e que, apesar disso, nunca é exactamente igual: as marchas de Santo António.
As Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de disco after hours, mas são diferentes.
Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado; talvez o lado alegre que raramente mostramos. Mas é também a Partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas. E é também assim que a humanidade se humaniza. Na partilha.
É natural que Santo António receba tantos pedidos! E a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade é sempre maior do que supomos, porque a vida é dinâmica. Uns casam. Outros namoram. Outros suspiram. Outros acham que os outros têm muitos amigos ou são muito felizes. Outros simplesmente não têm nenhuns. Outros gostam de estar sós, um silêncio diferente da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos, sempre insuficientes para uma realização plena como pessoa.
Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, tal como recebemos, e reconhecer e intuir as dores escondidas. Há sempre alguém que está só!
Vivemos tempos de comunicação permanente e, paradoxalmente, de crescente isolamento. Multiplicam-se os contactos, mas nem sempre os encontros. Cruzamo-nos todos os dias sem verdadeiramente nos vermos. Habitamos os mesmos espaços sem os habitar em comum.
Talvez por isso estas festas continuem a sobreviver. Porque, durante algumas horas, suspendem-se as regras invisíveis que normalmente nos separam. As ruas deixam de ser apenas locais de passagem para se transformarem em lugares de convívio. Os desconhecidos tornam-se menos estranhos. A cidade volta a ser comunidade.
Resta-nos perceber que nem todas as alegrias são alegres, mas que também nem todo o sofrimento é dramático e que, com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, viver o Instante, o Momento, o Agora é também uma forma de retirar um fardo tantas vezes auto-imposto, uma auto-punição inconsciente que nos impede de acolher com gratidão aquilo que a vida também nos oferece.
Tal como acontece com tantas tradições populares, o significado não se encontra no objecto em si, mas naquilo que ele permite. O manjerico, o alho-porro ou o martelo agora no São João no Porto a 24, são apenas pretextos. São licenças colectivas para o encontro. Formas simples e despretensiosas de quebrar a distância que habitualmente colocamos entre nós e os outros,.
Não somos ilhas. Não nos bastamos a nós próprios. Desde o início da nossa existência que nos construímos na relação com os outros. É no encontro que aprendemos quem somos, é na amizade que crescemos, é na partilha que nos reconhecemos.
Por isso, no fim de contas, aquilo que procuramos não é muito diferente daquilo que encontramos nestas noites: proximidade, reconhecimento, amizade e pertença. Talvez seja por isso que estas festas continuam a atravessar gerações e a dizer-nos tanto, recordando-nos, de forma simples e despretensiosa, aquilo que nunca deixamos de ser: seres relacionais.
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