30.7.21

DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE

 


Gosto de quem sofre. Porque está a sofrer. De quem abre o coração e lhe entra uma flecha. Porque a confiança foi traída. De quem acredita e é destituído. Porque entrou no desencanto. De quem investe e sai perdido, porque precisa de voltar a acreditar. Porque é aqui que ainda devem entrar mais os Amigos!

Gosto de amigos simples e sensíveis. Gosto dos amigos reais e dos virtuais, dos amigos que nos amam. Dos que não comadram nem fazem crochet, dos que tiram as coisas a limpo, sem se ficarem pelo que eventual e mal intencionadamente ouviram dizer.
Gosto dos solitários, porque simplesmente não têm amigos. E, então, temos de ser nós os nossos próprios amigos.
E quando os temos, gosto dos que cometem loucuras e riem connosco!
Dos que o são de verdade e não por conveniência. Dos que dão tudo e não olham às hipocrisias do socialmente correcto.
Dos que com lágrimas vencem a dureza da rocha, e dão um murro à lamentação sem desrespeitar a mágoa que precisa de ser curada.
Dos que efusivamente abraçam, mesmo que os outros achem um desrespeito. O que interessa, é que o abraço seja sentido, com os dois braços, e não uma cortesia momentânea.
Dos que estão presentes antes de chamar. Dos que mostram a sua dor porque também me ajudam a mostrar a minha.
Porque os amigos, os amigos de verdade, mesmo os que não precisam do tempo para se ter intimidade e empatia, seguram connosco a chave mestra da vida: sermos em plenitude, na sensibilidade, na alegria e no encanto, no sofrimento e na dor.
E é por isso que é tão importante esse amor universal da amizade... E de as criar, construir, alimentar e fazer, porque também há amigos que fazemos hoje, como se os tivéssemos tido desde sempre; basta que destapemos o crédito social, a vergonha ou as defesas exageradas, na atenção e no encontro que tantas vezes abortamos à nascença mas com vontade de os ter.
Gosto que me digam "estou aqui", porque posso ter receio ou vergonha de dizer "fica comigo"!
Mas é Vinícius de Morais, quem tão bem diz este meu sentir:
"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grande chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo".
Gosto muito desta citação do Vinicius, porque expressa tão bem a Amizade, e porque a Amizade é o gesto presente nos dias comuns e anónimos, de presença na ausência, de sorriso e partilha, de silêncio e palavras! O quotidiano carece tão mais de gestos amigos, do que longos momentos em que todos brindam, para depois todos voltarem a ficar sós. É aí, no dia a dia, que se revela em toda a sua verdade, porque é nos gestos efectivos que o amor (se) transforma. Caso contrário, seremos meros reagentes a acenos de amizade...
30 de Julho é o dia instituído pela ONU como o dia internacional da Amizade... e como me identifico com a tristeza dos solitários, mesmo que os sinais sejam defesas que também nos cabe ler, porque ninguém gosta de mostrar a sua dor, e dos que no silêncio de um pássaro encontram a sua liberdade, a sua voz e a pureza das suas lágrimas...

5.7.21

DESCALÇAR SAPATOS

 


Mia Couto tem este "Excerto da Oração de Sapiência", na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, que resume muito bem alguns pilares de inteligência emocional e acrescenta outros:

Usando uma alegoria com sapatos, diz que, à porta da modernidade, precisamos de descalçar muitos (aquilo a que eu chamo desconstrução), e escolhe sete entre tantos possíveis:
"- Primeiro Sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros;
- Segundo Sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
- Terceiro Sapato - O preconceito de que quem crítica é um inimigo;
- Quarto Sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
- Quinto Sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;
- Sexto Sapato - A passividade perante a injustiça;
- Sétimo Sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.”
Se muitos de nós interiorizássemos bem este resumo, seríamos certamente muito melhores pessoas, e com isso ganha o mundo, porque a mudança vem de dentro e é individualmente que se chega ao colectivo...
Já agora, Mia Couto, moçambicano, é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto, dispensa apresentações, tendo já sido várias vezes galardoado com prémios literários internacionais, e faz hoje anos...

30.6.21

ILITERACIA EMOCIONAL

 


Um dos problemas da razão, é tentar resolver tudo precisamente dessa forma: meramente racional. Ora a inteligência cognitiva é um mero instrumento, tal como são, por exemplo, os conhecimentos técnicos.

Não se chega ao Outro, nem a nós, apenas tentando perceber, por isso somos muitas vezes incapazes de resolver seja o que for, se nem sequer compreendemos.

O contacto profundo com o self, e exprimirmos emoções e afectos (existe uma enorme iliteracia emocional), é o caminho e uma aprendizagem imprescindível, sob pena de lutarmos ingloriamente, como uma aranha presa na sua própria teia, usando a razão como principal instrumento na aferição das situações, de nós e do Outro, quando é apenas uma ferramenta secundária, subsidiária do entendimento...

20.6.21

DO VALOR DAS PESSOAS


Excepcionalmente não publico uma foto minha, porque esta imagem convoca-me uma reflexão sobre nós e o nosso valor!

Temos sempre a tendência de credibilizar o outro pelo que faz, ou pela quotização social que tem!
Se, num grupo, todos se apresentarem e fazerem valer os currícula e méritos sociais, e chegada a vez de um colega simplesmente disser o nome e sorrir, não vão perceber a mensagem à primeira: de que aquele que temos à nossa frente não vale pelos títulos que tem, mas pela formação humana que demonstre e/ou lhe intuamos.

E, no entanto, as pessoas continuam no mesmo registo: de valorar o que o outro faz, apenas para saber com que grau de cortesia e de respeito o devem tratar!

Uma pessoa credível quere-se num registo q.b. de simpatia e entrega, nada de ser ela mesma e saber manter respeitos sociais, i.e., o politicamente correcto! Nada de mais errado. É, aliás, o primeiro engano. Claro que parecem muito descomplicadas e brincalhonas, mas há muito verniz sob essa aparente genuinidade!

E, assim, confundindo o crédito com o valor, mesmo que este também exista - mas nem sempre o contrário é verdadeiro -, caímos arrogantemente ignorantes (ou cínicos) na aferição de que o cão bem cheiroso e tratado que vai ostensivo e feliz no carro do dono, vale mais do que aquele outro numa carrinha a caminho do canil...

16.6.21

EGO E AMOR PRÓPRIO






Em muitos workshops de desenvolvimento pessoal, apela-se à maior optimização possível dos nossos recursos emocionais em prol de nós mesmos, assertividade, autoestima, etc.



Faz-se muito pouco apelo a que a ideia de maturidade não é massajar o ego até nos julgarmos autosuficientes, mas sim não confundir o ego com amor próprio...

 

13.6.21

SANTO ANTÓNIO E NÓS



 

Com ou sem covid, somos impelidos ao Outro, somos impelidos à comunhão, somos seres relacionais, está inscrito no nosso código genético.

É natural que Santo António receba tantos pedidos, conhecido como o santo casamenteiro. Pedidos de Amor e de Amizade....

As Festas dos Santos Populares, não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave.
Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de carnaval after hours, mas são diferentes. Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado, é o lado alegre que o português não tem. Mas é também a Partilha.
"O meu bairro é liiiiiindo" não cheira a competição mas a partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas, convocando do fundo de nós a saudável abertura de
um abraço
a um desconhecido, como um único coração na praça grande que são as ruas e a vida.
É assim que a humanidade se humaniza: na partilha!
Mas voltemos ao início: a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade, é sempre maior do que supomos; a vida é dinâmica, uns casam, outros namoram, outros suspiram, outros acham que têm muitos amigos, outros simplesmente não têm nenhuns, outros gostam de estar sós, mas não é desse silêncio salutar que falo, mas da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos que serão sempre insuficientes para uma maior doação e realização como pessoas.
Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, reconhecer e intuir as dores escondidas, perceber que nem todas as alegrias são alegres, mas que também nem todo o sofrimento é dramático, e com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, há sempre alguém que está só...

4.6.21

DESCONSTRUÇÃO DO EU


 A desconstrução do eu requer recursos emocionais, pelos quais devemos diariamente lutar.


Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder!
O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!

Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erróneas da realidade (incluindo a nossa própria), é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.

A resiliência é outro recurso indispensável, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção pessoal na sua fragilidade e no seu vigor.

Sem a noção de que a ausência de uma atitude constante de autocrítica nos tornará balofos a massajar o ego, a mudança não se faz e o crescimento fica comprometido.

Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos, e não nos cinismos sociais.

Precisamos de trabalhar diferentes recursos, para nos realizarmos na plenitude de seres humanos, que se devem a si e ao mundo, muito mais do que geralmente damos e somos.

1.6.21

DIA DA CRIANÇA

 


Ser alegre, não é estar necessariamente feliz, mas carregar com um sorriso libertador, aquilo que a vida não faz por nós.

Celebra-se hoje o dia da criança, e diz Bernard Shaw que "não deixamos de brincar porque envelhecemos; envelhecemos porque deixamos de brincar"...
Ora, da infância, nunca perdi a inocência (que não se deve confundir com ingenuidade) e, é sempre nos gestos da verticalidade humana, que não se compadece de cinismos nem omissões, que nos realizamos como Pessoas.
Só quem é interiormente livre, consegue ser ele mesmo, sem olhar ao politicamente correcto, ou às falsas simpatias para não estragar a aparência, nem se verga aos interesses ou imediatismos, e prossegue a caminhada solitária de ser ele mesmo, mas de poder dormir com a arma da transparência, antídoto para invejosos ou mal intencionados.
Quem mata a criança dentro de si, perdeu o encanto e a magia, e com eles a inocência, e rapidamente se instalam sorrisos amarelos e intenções aparentemente desinteressadas.
Se, como tão bem dizia Guerra Junqueiro,
"crescer é tomar-se adulto sem se adulterar", então quantos anões não há por aí...
Bom dia da Criança, porque vamos sempre a tempo de anular a ostentação, a soberba intelectual, a hipocrisia, a ideia de que sabemos tudo, substituindo tudo isto pela humildade e inocência, pela verdade e pelo amor, pela amizade e simplicidade, e, desta forma, sermos adultos sem nos adulterarmos...
🤍

29.5.21

SUCESSO E SER FELIZ

 


O sucesso, é apenas o outro lado do fracasso, porque ninguém se faz sozinho nem de repente, e é preciso determinação, resiliência e trabalho para alcançar o almejado sucesso.

Quem conhece os aplausos, conheceu antes a solidão da inglória, e, por vezes, da incompreensão.
E mesmo que não se chegue à fase dos aplausos, que também poderiam redundar em assobios, foi o apoio silencioso, essa mão invisível do acarinhamento na caminhada, que fez o Outro sentir que já ganhou, mesmo que não da forma como queria, não apenas pelo apoio em forma de bastidores, mas porque alguém funcionou como presença amiga geradora de entusiasmo para novas experiências...
Mas é quem não tem a mão amiga, o abraço reconfortante ou o incentivo na caminhada, que mais sofre, e alcança sozinho o resultado, mas a necessidade afectiva continua lá, porque somos seres relacionais e emotivos, a razão por si só é um instrumento que não realiza a pessoa em plenitude, e por isso se cavam fossos de ausência humana quando a não temos ou, por orgulho, a recusamos.
O dia recebe os agradecimentos, mas foi a noite que preparou os resultados... É por isso que adoro os simples, porque não ostentam, mas verdadeira e desinteressadamente pedem ajuda e a dão...

22.5.21

DIA DO ABRAÇO

 


No dia do abraço que hoje, sábado, se comemora, e porque o Homem é um ser relacional, é importante reflectir no quão curativo e terapêutico um simples abraço é, desbloqueador e prazeiroso, porque precisamos do toque, é intrínseco à natureza humana, e ninguém se desenvolve saudavelmente se não tiver esta latitude do contacto.

Muitas pessoas negam-se às mais elementares manifestações de carinho e afecto, em nome de uma veleidade pessoal de suposta autosuficiência, o que constitui uma mentira existencial numa sociedade já por natureza egocêntrica, fechada em si mesma, e sendo a sociedade não mais do que o somatório dos indivíduos, cabe a cada um de nós fazer a nossa parte, porque também as neuroses colectivas e os desajustes emocionais, começam igualmente pela negação de necessidades básicas, como o toque, o sorriso, a capacidade de nos darmos como fonte de higiene mental.

Um abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas muitos persistem na ostentação obtusa do "self made man" levando ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor autonegado.
Muitas sessões psico terapêuticas poderiam ter sido desnecessárias, se simplesmente consciencializássemos que, abraçar, desabafar, partilhar, rir, dar, chorar, saber ser louco, são caraterísticas humanas naturais que sustentam o nosso edifício psicológico e mental.
Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam.
E há muitos pedidos mudos e envergonhados, numa espécie de esquizofrenia afectiva, porque quero, porque preciso, mas porque depois penso que isso não é para mim, sou superior e não preciso de suportes. Não pode haver maior engano.
O abraço não é apenas agarrar um corpo com tempo, com os dois braços numa linguagem sem palavras: o abraço é também um toque de alma, convocando emoções escondidas que obrigam a uma reflexão pessoal de descoberta.
A auto análise e a redescoberta de nós mesmos nas potencialidades e limitações, estará sempre incompleta se não se fizer também no processo relacional, mesmo naquele que possa incomodar, porque é nesse incómodo que o Outro nos provoca sem saber, que somos interpelados a descobrir e interpretar o seu significado, tal como é na sensação de bem estar e identificação interior, que damos pulos e avanços na assumpção de que, afinal, há tantos como nós, em caos e dor, mas também na capacidade directa ou tácita de que juntos somos mais fortes em sensações profundas de uma humanidade que se constrói e partilha e aceita assim, devedora da afectividade e da entrega, e credora de tanta beleza no deserto da alma que julgávamos ser o fim...
Precisamos de ir além de nós...
É que só temos uma vida, e não é a duração, por natureza curta, que a qualifica, mas sim a qualidade com que a vivemos nos abraços (i)materiais que (nos) permitimos dar...

17.5.21

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA

 


O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos.

O Parlamento Europeu e a ONU, declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia.
Ora, é muito claro, que uma pessoa homossexual, difere de uma heterossexual, apenas no género do objecto do desejo.

Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta.

Aliás, um adulto que faz reparos ou outras manifestações homofóbicas, provavelmente não fez a transição para a idade adulta, e, eventualmente, poder-se-á ver nisso, um sentido frágil da sua masculinidade ou da própria sexualidade.

Os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz, o que é um absurdo, porque o amor não tem sexo.
Somos fruto de uma cultura, mas também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem não segue a suposta hetero normatividade. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Sempre que somos preconceituosos seja em relação ao que for, estamos a ser ignorantes da própria condição humana, uma vez que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo Outro, entrando em caminhos medievais de despotismo pessoal, escudado no brilhante argumento da suposta normalidade.

Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua identidade e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que o fazem, precisamente pelas atitudes de marginalização e discriminação, individuais e colectivas, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar o que são...

E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime!

Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior, rejeitar as diferenças do e no Outro; antes, devemos aceitá-lo, tal como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (juridicamente, os escravos eram coisas, podiam ser transaccionados e não eram entendidos como pessoas, não podiam ter vontade própria), ou que, sendo de raça diferente, deviam ser toleradas na comunidade.

O senso comum, é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra!

E, no mundo dos afectos, não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a sua própria humanidade.

13.5.21

FÁTIMA

 


Muito embora para a igreja, Fátima não seja um dogma de fé, ela é toda uma exegese de amor, é a razão a ser desafiada nos seus limites porque se revolta em não compreender o Mistério.


Na espiritualidade, razão e fé não se invalidam, já que, ao contrário das fadas e duendes, a ideia de Deus continua a ser racional.

Mas não se vive a espiritualidade nem se chega a Deus ou ao Mistério, através do esforço intelectual que possamos fazer.

É uma adesão interior, um caminho pessoal e único onde não entra o campo volitivo, tal como não escolhemos quem amamos numa lógica de um processo meramente racional.

A religião é apenas a vivência comunitária dessa adesão interior, onde as manifestações de fé acontecem como quem, gostando de ouvir música, não deixa, por isso, de ir a um festival ou um concerto, ou simplesmente socializa com amigos num café, porque a dimensão comunitária existe, independentemente da celebração individual dessa adesão interior de fé.

Fátima, tal como o Amor, estão para além da razão, mas temos dificuldade em aceitar o que nos transcende...

6.5.21

CURA PELO AMOR


 A 6 de Maio de 1856, nascia Sigmund Freud.

"A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia ele.
Na realidade, muitos dos nossos problemas são fruto de solidão, de aguentar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor, de nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras.
Mas nada disso é inteligente! A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não é a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autosuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta.
Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que rega as emoções e se abre ao amor, essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro admitindo também a falha em nós!
Ser humano não é ser perfeito, e endeusar a razão é alimentar a solidão!
Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor; não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso, quando se esgotaram as hipóteses de concedermos a nós mesmos a capacidade de amar e de simplesmente sermos nós...

2.5.21

QUEM É MAE?

 




Será sempre Mãe,

aquele ou aquela que suaviza a dor

e fortalece na prossecução da caminhada,

mesmo que os não unam laços de sangue,

mas de amor, amizade e entrega,

num despojamento humano e divino,

que geralmente se encontra em

quem sabe reconhecer no Outro,

a sua própria Humanidade!

1.5.21

SEM COVID


 Tenho lido e ouvido as melhores intenções de que tudo vai mudar pós COVID 19, mas não partilho de quase nenhuma dessas opiniões dos mais diversos quadrantes, de cientistas a escritores, filósofos ou gestores. Até porque o Covid, tornou-se endémico, como é a gripe, por exemplo... É uma questão de tempo para a eficácia plena da vacinação a nível mundial, tal como a gripe que, todos os anos muda de estirpe.

Claro que todas as crises são sempre uma oportunidade para algo, mais que não seja, para pararmos um pouco e reflectir nos porquês, nas atitudes comportamentais, o que devemos mudar, e por aí fora, mas a natureza humana está lá, centrada no umbigo e na individualidade (o sentido comunitário sem necessitar de crises, praticamente só acontece em culturas fora do ocidente), pelo que, uma vez restabelecida a normalidade (que não é a sua erradicação, mas o hábito à convivência como refiro, usando a gripe como exemplo), os interesses pessoais e corporativos sobrepor-se-ão com a mesma ferocidade com que nos indiferenciavamos antes do Covid ou poluíamos o planeta.
As correntes de solidariedade que acontecem em tempos de crise, independentemente da génese dessa crise, também se sustentam no facto de, vendo tanto sofrimento ao nosso redor, suportarmos melhor o nosso, mas debelados os problemas, o homem continua orgulhosamente metido em si mesmo, pedantemente triunfante, mesmo com miséria ao redor, e sem quaisquer sinais de empatia colectiva de comunidade.
Sim, vai ficar tudo como dantes e, é por isso, que, de tudo o que aprendemos, há sempre muita coisa errada, pelo que precisamos de desaprendê-las logo a um nível de uma consciência individual profunda, para, erradicando ou corrigindo crenças, preconceitos e hábitos disruptivos, podermos, então, quando chegam crises nacionais, internacionais ou mundiais, estarmos verdadeiramente preparados para aprendermos com elas sem voltar atrás no colectivo, que apenas a partir dessa tomada de consciência pessoal, se poderá dar, atingindo as sociedades.
É por isso que o sentido crítico, a começar sobre nós mesmos, aliado à humildade da desomnipotência e à coerência, pode fazer a mudança, como um contágio de pessoa para pessoa, aberto e saudável, e que só assim poderá mudar o mundo...
Se antes do covid já muitos eram herméticos e pouco dados a manifestações de carinho e afecto, de cumprimento, de abraço, com distância interior porque sim, o Covid piorou a situação, mas também funciona como um alerta da necessidade desses mesmos afectos, do beijo, do toque, do abraço, que nos cabe dar e receber como seres relacionais que somos, e não metidos em casulos aproveitando a pandemia para cavar fossos já existentes de distanciamento fraternalmente humano.
Precisamos de nos dar, para sermos humanos em plenitude, sem sucumbirmos ao medo ou à habituação da distância interior.
... Caso contrário, o bicho somos nós...

THEILHARD DE CHARDIN


 



A 1 de Maio de 1881, nascia Teilhard de Chardin, jesuíta, filósofo e paleontólogo que construiu uma visão integradora entre ciência e teologia, já que embora sejamos bioquímicos a consciência é um enigma.


Dizia Teilhard de Chardin: "Não somos seres humanos a viver uma experiência espiritual, somos seres espirituais a viver uma experiência humana".

25.4.21

REVOLUÇÃO INTERIOR (O VERDADEIRO 25 DE ABRIL)

 


A maior revolução que alguma vez poderemos fazer, será sempre uma revolução interior.
Na descoberta do que e de quem somos, que forças temos e que energias nos faltam, de que nos podemos orgulhar de nós sem altivez, e do que precisamos de melhorar sem autopiedade.

Permitirmo-nos ser o que verdadeiramente somos, obriga a desconstruir camadas pessoais e sociais de imagens auto impostas e reflexos sociais.

A liberdade só se alcança quando nos conhecemos o suficiente para conseguir amar indistintamente, elogiar sem hipocrisia, criticar sem má fé visando outra perspectiva, e aceitarmos em nós a vulnerabilidade e o fracasso, a raiva e o choro, as lágrimas tristes e a dor que as não deita, a alegria e a vitória, o sucesso e a felicidade, porque foi uma revolução interior que requereu humildade para a mudança, inteligência para perceber o caminho, e amor para prosseguir a caminhada.

Estes são os verdadeiros 25 de Abris, porque não existe mudança colectiva que não comece no indivíduo, com tudo o que tem de tortuoso e de inglório, mas também de gratificação, libertação e glória...

23.4.21

"SER ADULTO SEM SE ADULTERAR"

 


Continuo tão igual por dentro.

A inocência continua cá; a irascibilidade no sentido de justiça e de verdade, continua cá; a ousadia de ser contra o agradar para receber apreço e de ser contra o politicamente correcto, está incólume; o sentido do diferente, do belo e do estético, mantém-se intocável; a entrega incondicional da amizade e da partilha, da simplicidade e do amor, não diminuiu; o amor pelos animais, - como quando estando de férias longe de casa com amigos numa espécie de colónia de férias, e fazendo um telefonema para os nossos pais, a primeira coisa que perguntei foi por uma galinha (alvo de risota geral a que o adulto presente respondeu "revela sensibilidade", embora o riso dos amigos me tivesse sido indiferente, estava mesmo preocupado se a minhas galinha estava bem -), mantém-se...
O condoer-me com novelas como a "Escrava Isaura" ou "O Meu Pé de Laranja Lima", "O Príncipe Feliz" de Oscar Wilde ou o "Suave Milagre" de Eça de Queiroz ... Hoje mais com pessoas e situações, mas também sem deixar de me emocionar em peças de teatro ou alguns filmes, ainda hoje a apertar-me o peito...
Emocionado, fico contente por me manter igual, por não ceder a nada do que não me caracteriza (detesto pessoas vendidas), e mesmo com uma espécie de tristeza ou nostalgia já na altura, mantenho-me um adolescente no entusiasmo.
E também conheço as minhas inseguranças, a minha fragilidade, e não sei porque aparento o contrário, mas talvez a firmeza das convicções e o catártico humor, aliados à espontaneidade e genuinidade, ajudem a explicar essa aparente contradição.
E Identifico-me com passagens como:
"foi o tempo que perdeste com a rosa que tornou a rosa tão importante para ti"
ou "não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada; a parte disso, trago em mim todos os sonhos do mundo"
ou ainda,
"Porquê eu?
Porque tu me viste quando eu estava invisível",
ou a história de uma senhora que pedia esmola, e um dia lhe deram uma rosa em vez de moedas, e que não tendo sido vista durante um tempo, quando de novo a encontraram e lhe perguntaram de que tinha vivido, ela respondeu: "da rosa"...
Já não sei se era Camilo Castelo Branco ou Guerra Junqueiro que dizia isto, e que não soe a falsa modéstia, muito pelo contrário, mas é o que me evoca ao ver-me com 11 anos, na casa de uma prima num aniversário qualquer, numa espécie de auto fidelidade natural: "crescer é tornar-se adulto sem se adulterar"...
Sou intenso, total, de águas profundas, descomplexado, simples, e tanto sou um cacto do deserto, resiliente aos meus próprios sofrimentos, quanto a mais frágil folha, pétala ou pena que uma simples brisa consegue apagar...