13.6.26

DA NECESSIDADE RELACIONAL

 


Ontem, ao ter de descer a Avenida da Liberdade depois de sair de um evento que terminou por volta das 21h30 nas imediações do Marquês de Pombal, o cenário que todos os anos se repete e que, apesar disso, nunca é exactamente igual: as marchas de Santo António.

As Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de disco after hours, mas são diferentes.

Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado; talvez o lado alegre que raramente mostramos. Mas é também a Partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas. E é também assim que a humanidade se humaniza. Na partilha.

É natural que Santo António receba tantos pedidos! E a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade é sempre maior do que supomos, porque a vida é dinâmica. Uns casam. Outros namoram. Outros suspiram. Outros acham que os outros têm muitos amigos ou são muito felizes. Outros simplesmente não têm nenhuns. Outros gostam de estar sós, um silêncio diferente da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos, sempre insuficientes para uma realização plena como pessoa.

Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, tal como recebemos, e reconhecer e intuir as dores escondidas. Há sempre alguém que está só!

Vivemos tempos de comunicação permanente e, paradoxalmente, de crescente isolamento. Multiplicam-se os contactos, mas nem sempre os encontros. Cruzamo-nos todos os dias sem verdadeiramente nos vermos. Habitamos os mesmos espaços sem os habitar em comum.

Talvez por isso estas festas continuem a sobreviver. Porque, durante algumas horas, suspendem-se as regras invisíveis que normalmente nos separam. As ruas deixam de ser apenas locais de passagem para se transformarem em lugares de convívio. Os desconhecidos tornam-se menos estranhos. A cidade volta a ser comunidade.

Resta-nos perceber que nem todas as alegrias são alegres, mas que também nem todo o sofrimento é dramático e que, com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, viver o Instante, o Momento, o Agora é também uma forma de retirar um fardo tantas vezes auto-imposto, uma auto-punição inconsciente que nos impede de acolher com gratidão aquilo que a vida também nos oferece.

Tal como acontece com tantas tradições populares, o significado não se encontra no objecto em si, mas naquilo que ele permite. O manjerico, o alho-porro ou o martelo agora no São João no Porto a 24, são apenas pretextos. São licenças colectivas para o encontro. Formas simples e despretensiosas de quebrar a distância que habitualmente colocamos entre nós e os outros,.

Não somos ilhas. Não nos bastamos a nós próprios. Desde o início da nossa existência que nos construímos na relação com os outros. É no encontro que aprendemos quem somos, é na amizade que crescemos, é na partilha que nos reconhecemos.

Por isso, no fim de contas, aquilo que procuramos não é muito diferente daquilo que encontramos nestas noites: proximidade, reconhecimento, amizade e pertença. Talvez seja por isso que estas festas continuam a atravessar gerações e a dizer-nos tanto, recordando-nos, de forma simples e despretensiosa, aquilo que nunca deixamos de ser: seres relacionais.

7.6.26

VAI TER CONTIGO

   

 Já aqui falei das feridas emocionais que todos carregamos com maior ou menor peso e com consciência ou não delas. Este vídeo é a simbologia perfeita, ou seja, muitas dificuldades da vida adulta não resultam apenas dos acontecimentos presentes, mas de experiências que tivemos de rejeição, abandono, humilhação ou desvalorização.

E a cura não chega pela desvalorização do passado! A mensagem não é "torna-te noutra pessoa"! Não é abandonar o eu ferido e substituí-lo por uma versão mais forte e mais confiante. A mulher adulta no final do vídeo não venceu a criança que foi: ela levou-a consigo. E basta esta nuance para mudar tudo.

É que a mudança não se faz através da rejeição, mas sim da sua integração. A criança assustada, envergonhada ou carente não desaparece. O que desaparece é o conflito interno entre essa parte e o adulto. A pessoa deixa de gastar energia a fugir de si e da sua história.

Por isso, a mulher no palco não representa alguém que se transformou noutra pessoa. A cura não acontece quando nos tornamos em alguém diferente; acontece quando deixamos de lutar contra partes de nós mesmos. O objetivo não é criar um novo eu, um novo self, mas recuperar a continuidade entre a criança que sofreu e o adulto que existe hoje, que somos nós!

A mulher adulta a cantar não é o resultado de uma transformação mas sim de uma reconciliação.
Não é uma nova pessoa que surge no palco; é a mesma pessoa, finalmente inteira. A reconciliação tem de ser connosco mesmos, não com os outros, não com as situações, não com o passado, até porque não tínhamos capacidade para as perceber: "apenas" magoaram.

A voz que ouvimos no final é a mesma que talvez tenha sido silenciada no passado. A mensagem é que a cura não passa por ser outra pessoa. Passa por aceitar e cuidar das partes de nós que ficaram magoadas. A mulher no palco mostra alguém que fez as pazes com o seu passado e agora consegue viver e expressar-se de forma mais livre e autêntica. Não mudou quem é: encontrou-se a si própria.


 

23.5.26

DO ABRAÇO

 

Há uma pobreza afectiva silenciosa a crescer no mundo. Ao lembrar o Dia Mundial do Abraço ontem comemorado, não podia deixar de falar do óbvio que quase todos esquecem: um abraço verdadeiro pode salvar alguém por dentro.

Vemo-nos todos os dias, cruzamo-nos, falamos, sorrimos por educação, mas continuamos cada vez mais distantes, como se sentir demasiado fosse uma fraqueza e como se precisar do Outro fosse um defeito de carácter.

Criou-se a glorificação absurda da autossuficiência, do “eu resolvo sozinho”, do “não preciso de ninguém”, quando, na verdade, o ser humano nunca foi feito para sobreviver emocionalmente isolado. Somos, por natureza, seres relacionais.

E, sim, um abraço pode salvar alguém. Não é metáfora. Não é romantização barata. O toque, o afecto, a presença, o sentir-se ouvido e acolhido, são necessidades humanas básicas. Tão básicas como respirar tranquilidade, dormir em paz ou ter um lugar seguro onde pousar a alma quando a vida começa a pesar demais. E, no entanto, quantas pessoas vivem anos inteiros sem um abraço demorado, sem um desabafo sincero, sem um momento em que possam baixar as armas emocionais que transportam diariamente?

Vivemos numa sociedade psicótica e funcionalmente cansada. Gente aparentemente forte, socialmente ajustada, profissionalmente competente, mas emocionalmente exausta. Pessoas que desaprenderam o toque, o silêncio partilhado, a intimidade simples de estar ali para alguém sem precisar de resolver nada.

Porque, muitas vezes, o que cura não é a solução; é a presença.

Um abraço cura porque interrompe, ainda que por instantes, a solidão interior. Um sorriso cura porque devolve humanidade a quem já começava a sentir-se invisível. Um “estou aqui” dito com verdade pode impedir alguém de cair mais fundo no abismo silencioso onde tantos vivem sem o admitir.

Há dores que não desaparecem com palavras sofisticadas, mas aliviam quando alguém nos segura emocionalmente sem julgamento, sem pressa, sem distância. E talvez uma das grandes tragédias modernas seja esta incapacidade de demonstrar afecto sem suspeita, sem medo, sem vergonha.

Há pessoas famintas de proximidade que preferem morrer lentamente na sua própria rigidez emocional a admitir que precisam de colo, de compreensão, de escuta, de ternura.
Transformaram a contenção emocional numa estética de força, quando muitas vezes não passa de medo de vulnerabilidade.

Mas ninguém se constrói sozinho. Ninguém atravessa verdadeiramente a vida sem necessitar de amparo. Até os mais fortes carregam zonas partidas, fragilidades escondidas, cansaços que nunca verbalizam. E não há nada de indigno nisso. O que nos desumaniza não é a fragilidade; é fingir permanentemente que ela não existe.

Claro que um abraço não substitui ajuda especializada quando o sofrimento se torna profundo, persistente e incapacitante. Há dores que precisam de acompanhamento clínico, terapêutico, técnico. Mas isso não invalida a importância imensa dos afectos simples. Um amigo que escuta. Um desconhecido que acolhe. Uma conversa inesperada num café, numa viagem, numa sala de espera. Às vezes, basta alguém que nos permita existir sem máscaras durante alguns minutos para sentirmos novamente o ar entrar nos pulmões da alma.

Abraçar verdadeiramente não é tocar de passagem. Não é um gesto automático, socialmente programado e vazio. Um abraço verdadeiro demora-se. Tem silêncio dentro. Tem escuta. Tem entrega. É um encontro de fragilidades que, por instantes, se reconhecem mutuamente sem precisar de explicações.

E talvez seja precisamente isso que mais falta faz hoje: humanidade sem defesas permanentes. Pessoas capazes de sentir sem ironia, de cuidar sem cálculo, de amar sem medo de parecer frágeis. Porque a frieza pode impressionar, mas nunca cura ninguém.

Precisamos mais uns dos outros do que temos coragem de admitir. E talvez crescer seja precisamente isto: perceber que a força não está em resistir sozinho a tudo, mas em saber quando é tempo de parar, aproximar-se e dizer simplesmente: “fica aqui mais um pouco.”

Porque no fim, não será a duração da vida que nos definirá, mas a profundidade com que fomos capazes de a sentir, partilhar e humanizar.

E só quando mostramos a nossa vulnerabilidade, somos verdadeiramente fortes!

17.5.26

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA...


A propósito do dia de hoje, dizer desde logo que o Amor não tem sexo.

Dito isto, e para salvaguardar o direito de todos a amar - e só dizer isto já é repulsivo, como se alguns fossem apenas meio humanos sem poderem ter coração - a ONU e o Parlamento Europeu assinalaram o o dia de hoje, 17 de Maio, como o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia.

Esclareçamos já rapidamente as diferenças que são muito mais simples do que parecem.

Homossexualidade é a orientação sexual de uma pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas do mesmo género (homossexualidade masculina ou feminina).

Logo, HOMOFOBIA é a discriminação ou hostilidade contra pessoas homossexuais ou contra a homossexualidade. É o preconceito contra quem a pessoa ama.

TRANSFOBIA é quando uma pessoa cuja identidade de género não corresponde ao sexo com que nasceu. Alguém nasceu como rapaz, mas identifica-se como rapariga (a que se dá o nome de mulher trans); alguém nasceu rapariga, mas identifica-se como homem: homem trans.

Nada tem a ver com sexo mas sim com IDENTIDADE e, por isso, uma pessoa trans pode ser heterossexual, homossexual, ou bissexual.

Logo, transfobia é o preconceito contra quem a pessoa É, ao contrário da homofobia em que, como digo atrás, é a discriminação contra quem a pessoa AMA!

A ONU incluiu também neste dia, 17 de Maio, a BIFOBIA, que é o mesmo que homossexualidade mas contra pessoas bissexuais.

Então, hoje que é o tal dia contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o que dizer?

Não sei lidar com o absurdo, mas se existe, que posso eu fazer senão veementemente condená-lo, pelo menos neste contexto!?

Século XXI: como é que ainda há pessoas perseguidas, humilhadas e destruídas apenas por amarem alguém do mesmo sexo!?

Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta.

Aliás, um adulto que faz reparos ou outras manifestações homofóbicas; que reage com violência, repulsa e agressividade, internamente é uma pessoa muitíssimo mal resolvida para se incomodar tanto com a vida amorosa dos outros! Poder-se-á, inclusive, ver nisso, um sentido frágil da sua masculinidade ou da própria sexualidade.

E o mais absurdo é que a homossexualidade precisou sempre tanto de cura como a heterossexualidade. É o problema do normativismo. Neste caso, do heteronormativo heterossexual.

É o mesmo que falar em seres humanos. E depois haver seres humanos de cor branca, preta, amarela, o que for! Em que diminui ou acrescenta o quê, a raça, etnia, cor de pele?

Traçando um paralelismo com a homofobia, transfobia e bifobia, em ambos os casos é como se fossem dois ovos, um branco outro escuro - aliás, até há ovos de cor azul -, mas por dentro SÃO TODOS IGUAIS.

Somos fruto de uma cultura, mas também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que, levado ao extremo, conduz à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Apesar disto, milhares de jovens foram submetidos às chamadas “terapias de conversão” - uma das formas mais violentas de crueldade psicológica, onde se tenta "transformar" uma pessoa - naquilo que intrínseca e estruturalmente não é -, no que queremos que seja!

É o exemplo de se querer transformar uma pessoa homossexual em heterossexual. Isto sim, é contra natura!

Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua IDENTIDADE e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial.

E tantos são os que o fazem, precisamente pelas atitudes de marginalização e discriminação, individuais e coletivas, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar quem são!

E isto traz-nos diretamente a este dia promulgado pela ONU, porque o problema começa logo na marginalização, e não na ajuda à aceitação.

E também não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso.
Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência coletiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime.

Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género com que nascemos, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior, rejeitar as diferenças do e no Outro!

Pelo contrário, devemos aceitá-lo, tal como aceitamos vizinhos de outras nacionalidades, por exemplo! Tal como aceitamos que somos altos ou baixos. Tal como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem a dignidade de seres humanos.

É que, juridicamente, os escravos eram coisas, logo, podiam ser transaccionados, comprados e vendidos, porque não eram entendidos como pessoas, não podiam ter vontade própria.

A homossexualidade existe na prática, como uma espécie de escravatura democrática, onde o escravo é quem simplesmente é, e a democracia a aceitação social tácita do preconceito, convertendo, assim, o que é natural numa pessoa, numa anomalia, num tumor existencial para o próprio e tumor tout court para a sociedade.

E foi notícia recente, o corajoso exemplo de Miguel Salazar - e que foi divulgado pela comunicação social - ao relatar todo o sofrimento induzido pela mãe desde criança, incluindo terapias de conversão, sendo a progenitora (mãe é outra coisa) Helena Costa, uma deputada do Chega, evangélica e autora de livros apologéticos destas enormidades.

Isto traduz-se em jovens ensinados a odiar-se. A sentir vergonha do próprio corpo, dos próprios afectos, da própria existência. Jovens tratados como doentes por aquilo que eram (são) naturalmente.

Disseram-lhes que estavam errados. Que eram uma vergonha. Que tinham de mudar para merecer amor, respeito ou aceitação. E há algo profundamente monstruoso numa sociedade que prefere destruir um jovem a aceitar que ele é diferente.

A homossexualidade não impede ninguém de amar, trabalhar, criar, cuidar ou viver com dignidade.
O que destrói vidas não é a orientação sexual.
É o preconceito. É a exclusão. É o bullying. É o silêncio das famílias. É a violência disfarçada de moralidade.

E o preconceito é a defesa ignorante do que não conhecemos e/ou não aceitamos.

E talvez a maior tragédia seja esta: pessoas que passa(r)am a vida inteira a pedir desculpa por existirem.

Mas o problema nunca esteve nem está na diferença. O problema esteve e estará sempre na incapacidade de olhar para o Outro, e de o reconhecer como igual em dignidade humana.

Há preconceitos que matam fisicamente. Outros matam devagar: na solidão, na vergonha, no medo e na rejeição.

E quando um jovem cresce convencido de que aquilo que sente é um erro, não estamos perante educação, evangelistas ou valores. Estamos perante violência.

Como digo logo no início, o amor não tem sexo, e todas as pessoas que, infelizmente, precisam de um dia Contra a Homofobia... de facto e, infelizmente, precisam para lembrar à sociedade que têm os mesmíssimos direitos do que quaisquer outros!

A coisa é tão grave e violenta, que qualquer pessoa que fuja à ilusória normalidade, - a heteronormatividade neste caso - (mas o que é normal para uma aranha é o terror e a morte para uma mosca...) -, acabam por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz.

E, no mundo dos afectos, não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente na liberdade de ser ele mesmo.

Todos devemos ao nosso semelhante, uma vénia de reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a sua própria humanidade.


O senso comum acrítico, que é o senso comum das multidões, é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra!

7.5.26

COMPREEENSÃO DA DESOMNIPOTÊNCIA


"A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia Freud, nascido a 6 de Maio de 1856.
Na verdade, muitos dos nossos problemas são fruto da solidão não percebida. Fruto de suportar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor.

De nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras. De sofrermos traumas com uma vendetta à vista.
De querermos resgatar ou fazer contas com o passado - mas o passado apenas se pode integrar!
Da revolta pelas injustiças de que sejamos alvo, mas também das que vemos à nossa volta.
Do desespero com os mais diversos rostos - desde o desemprego à cama de um hospital ou de um diagnóstico reservado!
E, porém, embora seja lógico e legítimo passarmos por todos estes estados como se dependêssemos deles, muitos tornam -se auto lesivos, ainda que não nos apercebemos disso.
Uma das soluções que estariam mais próximas é a autorregulação emocional. Não é o que gostaríamos, obviamente, mas perante a inevitabilidade, é necessário tentar fazer esse esforço, mesmo que imperfeito, mesmo que não o consigamos todos os dias.
Como refere Freud, no que toca à psicanálise, é uma belíssima súmula: porque sim, o amor cura.
Em muitos casos, começa por nos perdoarmos a nós mesmos.
Só pelo amor conseguiremos fazer as pazes com o passado. Connosco mesmos.
Com as nossas omissões no presente, e chegar ao entendimento de situações que tínhamos como uma interpretação bizarra e dogmática sobre o viver, pensar e sentir do outro.
Mas é apenas nesse processo de (des)construção das nossas crenças limitadoras (nunca acreditar no ego; nunca outorgar à razão aquilo que não lhe compete e, por isso, não compreende) que se chega ao mistério.
E a (des)construção diária de nós mesmos, tem um alcance tão forte se o trabalho for sério, que, pelo caminho, nos permite entrever outras dimensões, com uma visão menos fechada ao divino, ao transcendente, e não apenas ao que nos damos como certo, porque este processo, este trabalho interior, desativa grilhões emocionais.
A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não são a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autossuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta.
Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que se permite sentir, que reconhece as emoções e as tenta perceber ao invés de as negar ou ignorar.
Só pelo amor chegamos a nós mesmos, à compreensão dos outros e de outras realidades, aos porquês dos nós do caminho, porque implica algo que escapa à razão
E o amor é essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro, admitindo também a falha em nós!
Ser humano não é ser perfeito.
E endeusar a razão é alimentar a solidão, camuflada por um sentido de omnipotência.
É não perceber que aquilo que faz o coração bater, que nos faz levantar diariamente, sonhar e ter objetivos, é tudo menos a razão ou a mera inteligência a que chamo de cognitiva.
Ninguém ama pela lógica. E usamos as ferramentas erradas, forçando-as a um espelho onde nos vemos poderosos.
Criamos um viés cognitivo, porque o Homem é um ser relacional, e todos precisamos de todos.
Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor.
Não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso quando se esgotaram as hipóteses de reconhecermos em nós mesmos a fragilidade da condição humana e, consequentemente, de ninguém estar imune à vulnerabilidade.
Só a humildade permite o autoconhecimento, já que este nos pode revelar facetas obscuras ou que nem queremos conhecer!
E só o autoconhecimento pode conduzir à mudança; certos, porém, de que esta nunca existirá, se não reconhecermos que não existe nenhuma omnipotência humana e, só por isso, é muito pouco inteligente quem se vê como o super homem.
A mudança vem sempre de dentro. Sempre.
Mas sem reconhecimento de andarmos erráticos e cheios de nós - ou quaisquer outros problemas que nos impeçam de baixar a altivez do ilusório autossuficiente, então a mudança não se opera.
É como se fosse uma lei da física. Tudo o resto é uma auto ilusão que nos compromete o discernimento e a lucidez.
Só então muitos conseguem reconhecer a própria vulnerabilidade e fragilidade, mas que por orgulho, soberba ou medo, passaram uma vida inteira a negá-las... e, com isso, nunca se permitindo, por uma abstrusa condição egóica, serem o que sentem, e não o que pensam.
É, de resto, a vulnerabilidade - quando assumida com a mesma naturalidade dos nossos feitos e glórias - o denominador comum que nos torna verdadeiramente humanos.
O seu oposto, seria uma espécie de existência robotizada, matematizada, auto programada e, como tal, sem vida, sem encanto, sem esperança e, como diz Freud ainda que com uma nuance, sem amor...

8.3.26

NEM TODAS SÃO MULHERES

As mulheres não têm o estatuto pré-definido que os homens têm, como se houvesse uma casta humana, fruto da fabricação de preconceitos.
A desigualdade é um preconceito, tal como tudo o que ostraciza em função de uma ideologia pessoal e coletiva, acrítica e seriamente danosa.
Começa na dignidade da pessoa humana, efetivando-se também nas causas, nos direitos e na falta de respeito pelos valores alheios.
Foi, aliás, precisamente por isto que, a 8 de março de 1857, as operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque tiveram a coragem de se opor e fazer uma grande greve, ocupando a fábrica para reivindicar melhores condições de trabalho, nomeadamente a equiparação de salários com os homens.
O desfecho foi horrendo: a manifestação foi reprimida com tal violência que as trancaram dentro da fábrica, posteriormente incendiada, tendo morrido cerca de 130 tecelãs carbonizadas.
Mas podia ter sido apenas uma, que o drama não diminuía.
É esta a poesia que hoje celebramos. E, em 1975, a data foi oficializada pela ONU, precisamente como homenagem a estas mulheres e à sua luta, estendendo-a a todas as mulheres.
Celebramos, então, o Dia da Mulher.
Mas há tanto para dizer sobre o que é ser Mulher.
Uma alma guerreira que nada deve ao género masculino, sem, por isso, deixar de ser uma referência humana.
E aqui há que tocar também na forma como muitas reivindicam, legitimamente, mas insensatamente, o seu papel de mulher.
Porque nem todas são Mulheres, caindo em extremismos de afirmação, ou em altivez de condição social ou soberba intelectual.
Mas estas, as Mulheres que não vão por aí, têm a resiliência que falta a tantos, que passa também pela atitude compassiva que muitos homens, na sua arrogância e altivez, desprezam.
No entanto, são igualmente delicadas, como se não tivessem enterrado as mãos na terra.
Como se não lutassem e sofressem, sem que nada ou ninguém pareça fazer jus a uma tal luta interior e social.
Mas o sentido de justiça não nos deve tornar justiceiros, nem impiedosos, nem o contrário do que é suposto reivindicar.
É por isso que, a quem é verdadeiramente Mulher, não se instaura no seu espírito, de forma definitiva, nem o desprezo nem a raiva da generalização.
Uma verdadeira Mulher sabe acolher com o perfume do amor e a suavidade da generosidade.
Precisamente por conhecer aquilo com que o próprio Homem e a vida as esbofeteiam, tendo-as deixado nas cinzas do abandono e da solidão.
Caso contrário, seriam muito mais parecidas com os homens.
Aqueles que não sabem ser Homem.
Que são instintivamente brutos, insensíveis, olho por olho, dente por dente.
Que têm uma superioridade doentia, a abarrotar de complexos de masculinidade pelas suas atitudes — ou pela falta delas — revelando, paradoxalmente, uma masculinidade frágil.
E quantos homens foram, por este exemplo de Mulheres que conseguem ser firmes mas suaves, convertidos ao que é ser Pessoa.
E isto não é para todos.
Nem para tudo o que é do sexo feminino.
A Mulher é uma espécie de contrapeso na temperatura da Humanidade.
Sabe vestir-se com o dom da oblação e da partilha, da sensualidade e da retidão de sentimentos, de agradecimento a si mesma, à vida e a quem sabe que lhe quer bem.
Sabe dançar e pisar o tapete vermelho das suas próprias glórias sem que, por isso, cobre nada do que faz, ou sequer ostente o seu dorido troféu.
É o domínio de si mesma.
O conhecimento de si e das imperfeições.
É o espelho da sua própria liberdade interior.
A liberdade que só o é quando se reclama o que é seu por direito e nunca por tolerância. Que, sendo humana, se mantém, porém, firme.
Depois há as outras: as ruidosas, as que são mais reivindicativas do que lutadoras e que se consideram um exclusivo onde só legitimam o que querem.
É por isso que não conhecem, nem sabem,
o que é a elegância da alma, da formação humana, eventualmente camuflada em títulos académicos.
Não sabem o que é a dor ou o sofrimento.
O que é pôr as mãos na lama das adversidades.
Mas uma Mulher, uma Mulher de verdade, mesmo injustiçada nos pântanos sociais -tantas vezes travestidos em falácias - não deixa, por isso, de saber ser Pessoa.
E é isto que lhe dá autoridade:
não o contínuo vociferar em estéreis ruídos que também escondem maledicência.
E, claro, há que falar da hercúlea polivalência da Mulher no quotidiano real, e não em meras considerações filosóficas.
É que, ao contrário dos homens, preocupam-se menos com considerandos e egos, e mais com o pragmatismo e os afetos.
E, só por isso, são já uma lição para tantos.
E esta dupla qualidade
não é qualquer pessoa que a tem.
Tem-na quem possui a inteligência do coração.
A bravura da alma, não dos punhos ou do vociferar, qual criança birrenta e mimada por si mesma.
A sapiência de que nem tudo é oito ou oitenta.
De que muitas coisas não invalidam outras.
O sentido da retidão e da Justiça, combinados com a grandeza da alma e uma contínua lição de Amor.
Sim. Porque o Amor é exigente.
Exige, antes de tudo, respeito por si mesmo.
Mais: não se comparam nem invejam quem quer que seja, porque sabem que a responsabilidade é sempre individual na condução da vida.
Este calibre de pessoas de que tenho vindo a falar não existe apenas por se ser da condição feminina.
Existe naquelas que verdadeiramente
sabem o que é ser Mulher.
E, só por isso, são já uma lição
para tantos homens.
A firmeza simples de Ser,
sem submissão nem medo,
mas também de se saber dar como Pessoa.