20.11.22

DIA UNIVERSAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA



E os adultos, Senhor? Hoje é o Dia Universal dos Direitos da Criança, e houve um tempo em que ser criança era quase sinónimo de sub humano, vergadas às imposições dos adultos e quase equiparadas a coisas, mas fez-se uma tão grande apologia em contraposição a outros inglórios tempos, que o paradigma quase mudou, e além de já nascerem numa época ainda mais globalizada e tecnológica, só falta virem com livro de reclamações.
A pedagogia educacional reveste-se sempre de uma importância maior, quando se acentuam declives onde, ter, é um direito adquirido e reclamar é uma consagração!
As crianças merecem tudo, e educar é sempre uma tarefa exigente, mas igualmente um tremendo desafio numa era de convulsão de valores, onde, paradoxalmente, os pais e educadores em particular, se tornaram os escravos dos caprichos das crianças, endeusando muitas vezes egos em construção, sem se aperceberem que agora, os oprimidos são eles...
Não é perguntando constantemente às crianças o que é que elas querem, ou enchê-las de coisas, apenas coisas, sem pedagogia nem encanto nem magia, como os videojogos ou a tecnologia em geral, que se dá o melhor! É preciso estimular o dom da apreciação, do encanto, do tradicional, do simbolismo, da partilha e dos valores de entreajuda, do acessório e do essencial, e não da engorda cega de panfletos para escolherem o que querem, ou da tecnologia e hedonismo onde os valores estão ausentes e a formação humana desvirtuada, para não assistirmos a situações onde em vez de crianças temos Trumps e Bolsonaros em formação, caprichosos, néscios e arrogantes...
É suposto que os adultos sejamos nós...

19.11.22

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM

 


No Dia Internacional do Homem, fica precisamente a pergunta do que é ser Homem!
É-se Homem quando assumimos as fragilidades, a condição humana de que somos precisamente isso.
Inculcámos em nós esta convicção do mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado.
Tem-se a ideia de que ser-se Homem é ser autosuficiente, mas ninguém se faz e, muito menos, se realiza sozinho. Um homem deixado numa ilha solitária, com todas as mordomias ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial!
Esta terrível ideia de que ser Homem é bastar-se a si mesmo, é uma falácia das piores, porque se limita a endeusar o ego, tornando-se vítima de si mesmo, e viciosamente encontrando argumentos e desculpas para o seu próprio vazio!
É sempre na relação com o Outro que sabemos mais de nós, quer no processo individual de autoconhecimento, quer nos padrões mentais e comportamentais que nos levam à integração da nossa própria história.
A realização pessoal estará sempre incompleta, se não se fizer também no processo relacional, mesmo naquele que possa incomodar, porque é nesse incómodo que o Outro nos provoca sem saber, que somos interpelados a descobrir e interpretar o seu significado.
Sempre que recusamos a emoção e o sentimento, estamos a diminuir a nossa altura, artificialmente compensada com a imagem de tudo poder, e de tudo poder sozinho. É muito pouco inteligente, aquele que reprime as emoções, porque se auto limita e não cresce!
Não se trata dos serviços mínimos das defesas comuns para tapar fragilidades, mas da negação de que, ser Homem, é proteger e ser protegido, é dar afecto e saber que precisa também dele, é animar o outro sem esquecer que também sofre, é ajudar a secar as lágrimas, porque também ele precisa de chorar... até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si...
Muitos pensam que ser Homem, é ser um Super Herói, mas geralmente, quem pensa e age assim, é porque é ele que está a precisar que o salvem...


8.11.22

TO BE....

 




Tirando a conjugação do verbo "To Be", que já é viral no tweeter (por querer chamar a atencão sobre a importância do "I am"...oh welll), Cristina Ferreira lá usou alguns clichès, e até alguma linguagem de muitos mentores de desenvolvimento pessoal, quando pretendem retirar a carga negativa de algo, dizendo "...e está tudo bem"! Sim e não, mas isso seria outra conversa.

Todavia, disse, igualmente, algo já ouvido e conhecido: "Se não consegues realizar o teu sonho, é porque o teu sonho não era para ti"....
Ora, ou "está tudo bem", i.e., ou aceitamos a derrota e as falhas, não como uma imobilização e sensação de frustração e incapacidade, mas como aceitação de que não somos perfeitos, para voltar à carga, cada vez mais confiantes, ou pensamos "como não consigo fazer isto, é porque não é para mim"...
É um clichè, como digo, já ouvido, mas importa reflectir sobre ele, na generalidade, já que, cada caso é um caso!
"Doutor, não sei, não consigo realizar o meu sonho e, por isso, passo a vida frustrado e descontente"... diria, hipoteticamente, alguém a um psicoterapeuta! E, o psicoterapeuta, fazendo um atalho lógico e de imediato raciocínio, respondia: "Então, mas se já viu que não consegue, largue isso.".... Ou seja, em vez de tentar perceber do real interesse do que o paciente/cliente queria atingir, demove-o logo....
Obviamente que, como digo, cada caso é um caso, e é muito importante termos a noção dos nossos limites, para saber se não gastamos energias em vão, até porque, também há algo que todos devíamos saber: não basta sonhar: o sonho tem de ser exequível, além de ser necessária a profunda reflexão quanto àquilo que desejo, e àquilo que, verdadeiramente, quero alcançar.
Se, por exemplo, eu pensar que vou ser o astronauta que pisou pela primeira vez, Marte", (nem astronauta, quanto mais), obviamente não vou, é um sonho lídimo mas não exequível; ou ser um Nobel da Física ou da Química (quando, mal sei o básico, sou um perfeito retardado nessas matérias como em enésimas outras, mal sei a fórmula da maioria dos elementos da tabela periódica, quanto mais, e se me explicam em linguagem acessível algo que nunca dominei (nem que fosse física quântica para criança), retardadinho outra vez, e só conseguiria dizer "sim, sim, aham..." para não julgarem que era da Cercis...
Pois é, temos de ter muito cuidado, em sermos muito claros e objectivos connosco mesmos...
Sendo o sonho exequível, por maior dificuldade que haja na sua concretização, obrigando a uma enorme perseverância - resiliência, um termo em voga em psicologia mas que não é originário dela, e que não gosto de usar, embora não por isso -, e obstinação volitiva, uma férrea vontade, portanto, ao ponto de remar com muito sacrifício e durante muito tempo, então a concretização do sonho depende, efectivamente de mim, com todos os escolhos que irei enfrentar, até chegar onde, verdadeiramente, queira estar.
Todas os grandes sonhos, de Abraham Lincoln a George Lucas ou Rui Nabeiro, tiveram por detrás desencanto, desilusão, mas também uma tenacidade colada à pele, que passava por cima do tempo que levava; dos "nãos" recebidos; da angústia do investimento na incerteza (mais do que no próprio projecto), a realizar um único sonho...
No fim vale a pena, porque, tenha levado o tempo que levou, com imensos custos de dúvida, luta e espera, nunca se tornaram maiores do que o sonho. Por vezes, basta um momento pleno de realização pessoal, para, ainda assim, não lamentar todo o tempo e sacrifîcio, porque não há nada pior, do que vivermos uma vida que não era a nossa...


(Nota: atenção que não sou nenhum exemplo de automotivação, sou um perfeito amante da Simplicidade, dos pequenos nadas, da delicadeza dos gestos, de tal forma que, alguém sabendo disto, dir-me-ia "hás-de ir longe".
Mas eu falo em felicidade, sucesso é outra coisa, porque o dinheiro e a fama não trazem o Amor, o Afecto e Carinho de que todos necessitamos, e, também "a contrario senso", podemos levar uma vida de sucesso mas à míngua da felicidade...
Eu tenho a noção do preço a pagar por isso, mas nem todos nasceram com uma energia e determinação tais, que parecem aqueles oradores motivacionais tão convictos, que não é aconselhável haver tetraplégicos na sala, já que o discurso é tão empolgado e exagerado, que só falta dizer: "Levanta-te dessa cadeira! Tu consegues" com uma força vocal, que a seguir não tinhamos paraplégicos curados, mas todos esbardalhados no chão, hipnotizados por um não pedagógico exemplo (pronto, "caídos por terra" em vez de 'esbardalhados' que não fica bem a pessoas muito sérias)...

2.11.22

DIA DOS MORTOS?

 



Celebra-se hoje, dia 02, o dia dos Fiéis Defuntos.

No entanto, mais do que lembrar os mortos, é necessário reflectir sobre os vivos, e não na dor arrancada ao peito pelos que amámos e perdemos, como se também uma parte de nós se tivesse extinto, mas no juízo colectivo do socialmente correcto, nos cumprimentos e favores capciosos que fingem altruísmo e atenção, no passaporte obsessivamente carimbado com o visto da casa, do carro, do emprego e da família até à contracapa da reforma!
Se viver for isto, então, mais do que lançar um olhar ao passado pela recordação sentida de quem amámos, há que atribuir-lhes o exclusivo da vida, porque se os mortos têm a natural legitimidade de nada poder fazer, nós temos a ínsita obrigação de saber morrer antes do dia final. Morrer não é extinguir-se, mas dar-se. E dar é um acto de amor, de criatividade e de Vida!
A questão que se coloca, não pende para os que desapareceram do nosso convívio, nem para a dor que nos arranca a alma por já não termos quem amamos, mas para nós que continuamos o fado da criação, seguindo exemplos, moldando atitudes, aprendendo o erro! A experiência faz-nos! A morte também.
Afinal, que catálogo de emoções seguimos, ao ponto de hipotecarmos a vida?
A que prescrições sociais estamos restritos? À lógica do racionalismo puro? À moral egoísta? E tudo isto para quê? Credibilidade social?
Nada vale do que teorizamos na metafísica do viver.
Nada vale sem o amor inteiro e não pluri-partido, como uma baby-sitter que presta atenção a todos e a ninguém!
Porque, como o Sol irradia o seu brilho e fulgor, sem se importar com a sensibilidade de quem passa à luz, assim o Amor deve fazer, sem cuidar do egoísmo alheio.
Muita gente foi ontem e vai hoje aos cemitérios, mas talvez, afinal, que muitos dos mortos sejamos nós.

23.10.22

DA VERDADEIRA GRANDEZA

(Por motivos óbvios, excepcionalmente, a foto não é minha.).

 Não valemos mais do que ninguém, e ao ver esta foto - o bispo emérito Casaldáliga de S. Félix de Araguaia, defensor do povo indígena -, a beijar a mão de um nativo (como Cristo fizera, lavando e beijando os pés aos apóstolos que, naturalmente, se achavam indignos de tal gesto pelo mestre) -, veio-me à mente o termo grandeza! Porque, efectivamente, não somos mais do que ninguém, ainda que achemos que sim.

A grandeza está nos que amam, nos simples, nos que conseguem reconhecer a sua justa medida, sem se diminuírem nem se acharem melhores do que são. A grandeza está no sentido crítico sem o tornar um julgamento; no ouvir as partes sem se ficar apenas com uma versão, e isto é grandeza porque é justiça, independentemente das afeições e preferências; no dar crédito ao outro pelo que é, e não pelo que tem; no sabermos descortinar a maledicência, para a anular e não alimentar.

A grandeza está também no carácter, em não consentir subtis enganos, sob a capa de um inocente desabafo; em dar sem fazermos notícia disso; em elevar quem não recebe mérito, mas tem muito mais valor do que tantos idolatrados sociais. Como este bispo reformado, que beija a mão do indígena, porque tem a mesma dignidade, independentemente do título.

A grandeza está em cair, sabendo que se levantará; está em aceitar a provação, sem culpar o outro; está em conseguir levantar-se porque teve a humildade de pedir ajuda, e não a sobranceria de pensar que não precisa de ninguém, num infantil orgulho, ou a atitude inversa de se vitimizar, para não assumir a parte que lhe cabe ou que a vida lhe deu.

A grandeza está em saber que os amigos são demais importantes, porque a amizade é um amor sem o qual cresceríamos mancos, mas também em ter a noção de que mesmo que nos deixem, ou sorrateiramente se afastem, até ficarmos só com cinco, dois ou nenhum, o nosso valor dependia de nós.

Só somos justos, quando sentimos por nós, e não pelo que ouvimos o outro sentir, já que o faz em nome do ego, e não de um verdadeiro acolhimento ao Outro. Não é preciso muito para um manto de intenções nos toldar a justiça com uma aparente insuspeita verdade, de alguém que, afinal, apenas pretende, através de nós e com doces e simpáticos gestos, fazer cair ou manchar alguém, metastizando, como quem se mostra inocente, o maior número de incautos numa envenenada relação.

É aqui que precisamos saber de que somos feitos, que valores, afinal, nos guiam, ou seremos nós os portadores do mal que corrompe. Sem um sentido autocrítico, facilmente nos vergaremos à primeira opinião, num contágio de cumplicidade consentida, que, inevitavelmente, maculará o outro, não porque houvesse quem fosse maldicente, mas porque nós o permitimos ser. Inseguros dos nossos valores, fomos atrás das primeiras falácias travestidas de inocência, acabando, afinal, por sermos nós a legitimar o mal que, de outra forma, ficaria apenas com quem o queria perpetrar.

Ser grande, é vermos o todo e não a parte; é termos coragem suficiente para denunciar, pelas acções e pelo exemplo, que não faz mal quem quer, mas quem permite que esse outro o faça... Ser grande, é vestir de nobreza a alma com que vamos ao encontro do Outro, independentemente das roupas andrajosas, da condição social, ou do que nos tenham dito.

A grandeza está em sermos nós mesmos o filtro do mundo, e não um filtro duplo, que impede por um lado o que escoa por outro. Só os grandes se "curvam" e simbolicamente ajoelham, perante o que outros não têm a pureza para conseguir ver.

O bispo que beija a mão ao nativo, não o reconhece como rei ou senhor, como melhor ou pior, mas pela dignidade que tem. Porque o bispo sabe, que, por baixo do título, só tem o nome, e que o nome apenas vale, se tiver qualidade humana. E quando lhe falaram mal do indígena, o bispo manteve-se puro de intenções, e, em vez de o julgar, foi, ele, mesmo, ao seu encontro, e quando um coração sincero se abre, o outro reconhece nele um pendor que não sabia exisitir.

Ser grande, é apanhar uma carga de água até fazer um raio de sol, sem culparmos ninguém ou maldizermos o mundo por isso; é suportar com maturidade a solidão e o fracasso, o abandono e a exaustão, e com os pés feridos na noite do ser, chegarmos ao cume onde o sol desponta, e de novo sorrirmos, ao vermos ao longe alguém como nós...

10.10.22

DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL


Celebra-se hoje, o Dia Mundial da Saúde Mental. E quanto mais falarmos sobre a nossa saúde mental, mais combatemos o estigma associado. Ao diminuir o estigma, as pessoas sentem-se mais à vontade para procurar e receber apoio.

Mas, e o que é a saúde mental? Basicamente, é um estado de equilíbrio psíquico, físico, e que também envolve questões sociais. Não é definida apenas pela ausência de uma doença.
Uma boa saúde mental, significa sermos capazes de reconhecer as nossas qualidades e potenciais, e sabermo-nos adaptar ao normal stress do dia a dia.
E como se faz isso? Uma das formas, é a autocrítica, porque a saúde mental requer a higiene mental que nem sempre temos, reféns que somos de crenças e perspectivas que tomamos como irrefutáveis, porque apenas vemos o nosso prisma.
É a velha história de, um onde vê um seis, o outro vê um nove. E não entendem como é que o outro vê um número diferente a partir da mesma realidade, sem tentar perceber a sua perspectiva, dado que estão apostados quase unicamente na defesa, e não na compreensão de como pode um seis ser um nove.
E, isto, não se trata de estar certo ou errado, mas inevitavelmente surgem mal entendidos e, até, inimizades.
Logo, um sentido autocrítico; o simplesmente ser; a capacidade do riso (não é por acaso que muitas empresas têm sessões de meia hora de riso logo pela manhã, numa espécie de workshop de bolso conjunto); a doação (através do amor, da amizade, da entreajuda e da partilha); a capacidade de relevar e esperar; a noção de que nem tudo depende de nós, ...também tudo isto é fonte de higiene mental, neste dia que lembra a sua incontornável importância, a começar nos bloqueios afectivos autoimpostos, mesmo sem nos apercebermos deles (o que vai gerar novo problema).
No entanto, é importante ressalvar, que o bem estar emocional, também depende de factores sociais, psicológicos e biológicos.
Uma pessoa que tem um padrão de comportamento ou pensamento, que impacta negativamente na sua vida, poderá necessitar de aconselhamento médico.
É muito importante aprender a viver afectivamente bem connosco mesmos, e sempre que recusamos a emoção e o sentir, estamos a bloquear afectos e aprendizagens e, com isso, a capacidade de sermos mais pessoas, mais humanos, mais nós.
Sem um sentido autocrítico, estamos a entrar no caminho fácil de não nos querermos conhecer e, muito menos, trabalhar, porque requer também humildade na desconstrução diária do que temos como absoluto, para nos voltarmos a construir.
Só assim, conseguimos actualizar as nossas decisões e conhecer outras perspectivas.
De igual modo, se a resiliência é importante, não menos é permitirmo-nos sentir a tristeza, o abatimento, sem forçar o que não sentimos, porque essa artificial invencibilidade emocional e psíquica, pode provocar um agastamento imperceptível com custos depressivos a médio e longo prazo.
Sem ferramentas tão simples como a humildade e a autocrítica, forjamos a realidade, a nossa realidade, e depois dizemos que é ela que nos engana, precisamente porque no jogo de espelhos onde só queremos ver a perfeição, está, paradoxalmente estampada, a limitação que recusamos, e que, por falta de caminho interior, não conseguimos ter a capacidade de a perceber.

7.10.22

DIA MUNDIAL DO SORRISO

 




Charles Dickens tem esta expressão fabulosa:

"ninguém pode achar
que falhou a sua missão neste mundo,
se aliviou o fardo
de outra pessoa."

E, por vezes, basta um sorriso, cujo dia mundial hoje se comemora, na primeira sexta feira de Outubro.
Um sorriso genuíno e simples, abraça, suaviza e comunga, e, é tão poderoso, que pode salvar vidas e, muitas vezes, substitui, com maior eficácia, as próprias palavras.
Precisamo-nos de lembrar, de que só valemos pelo que somos, pelo que damos imaterialmente, e não pelo que temos. É quando nos damos, que o viver acontece; não nos austeros semblantes em exageradas defesas de comunicação.
Quando coloco uma foto de perfil em que não esteja a sorrir, costumam dizer-me: "falta o sorriso".
E, é verdade, que ele me caracteriza sentidamente. Mas é necessário que as pessoas entendam que, por detrás de um sorriso, ainda que genuíno, não está necessariamente uma pessoa feliz, mas sim alguém que faz a sua parte.
Esperamos muito da vida, mas também ela espera muito de nós. Pessoas perfeitas não existem, e quem faz photoshop à alma, facilmente é traído pela sua própria artificialidade.
É com o sorriso que o coração canta a dor e a exorciza. Só é preciso não desesperar, não tomar a contingência pelo definitivo, não afiar o dente nem maldizer o mundo e, sentir que, muitas vezes, a paz está no silêncio que não fazemos, e no sorriso que não damos.
Colocar um ar austero, é uma fantasia que ilude o ego, mas não o Eu.
Existe uma vaidade ou auto negação encapotada, na afirmação do distanciamento interior. Os gestos e as palavras não correspondem ao que sentimos, mas ao que pensamos. É um blush social. Porque Sentir é outra coisa.
Mas se não entramos em contacto com as nossas emoções, não as escutamos nem tentamos perceber o que nos querem dizer, teremos também dificuldade em perceber o Outro, porque estamos a usar a ferramenta errada.
Não se chega a ninguém pelo pensamento. Apenas a capacidade de Sentir, nos consegue colocar "nos sapatos" do Outro. Chama-se Empatia. Só chegamos ao Outro por dentro, nunca pela matemática razão.
E, por vezes, um sorriso que fala, basta para soltar os cadeados da prisão em que o outro se encontra, e que, mesmo tendo a chave, não os consegue abrir, porque se a razão encarcera, só o sentir desbloqueia, bastando, muitas vezes, um estímulo externo, desde que tenhamos a humildade e a gratidão de o aceitar.
O sorriso é só outra forma de abraçar...

14.9.22

QUEEN OF HEARTS: PRINCESA DIANA

 


Foi preciso o fatídico evento do desaparecimento da Princesa Diana, para que, Isabel II pudesse ser o que vimos nos últimos 25 anos.


Nessa altura, todo o povo entronizou Diana como a Princesa do Povo, que estava muito aquém do que Isabel II na sua ignorância emocional, rigidez protocolar e austeridade "humana" pudesse supor, obrigando-a a interromper as férias, tal o clamor em Buckingham e por toda a Inglaterra, e forçando a rainha a rever, afinal, o que tinha acontecido ali, já lhe tinha retirado todos os títulos, jamais a apoiou na sua agonia partilhada apenas com o próprio povo e jornalistas (os únicos que a ouviam e entendiam).

A trágica morte de Diana, foi, paradoxalmente, uma espécie de revelação para a rainha Isabel II.

A partir de então, passámos a ver Isabel II num registo totalmente diferente, como pessoa, sorridente, afável, mais solta, mais próxima do povo, angariando a simpatia que até ali não deixava de ser formal, ou inexistente, porque descobriu naquela que ignorou em vida, que, afinal, ser rainha, era ser o que dizia Diana ("Queen of Hearts"), e que, só com o seu desaparecimento descobriu, qual conversão, que só se é verdadeiramente rainha, se também o for do coração, e não apenas a imagem distante e austera que, até ali, tinha escolhido...

1.9.22

MIKHAIL GORBACHEV




Mikhail Gorbachev,
que nos deixou aos 91 anos, merece, obviamente um destaque e elogio especiais, como o responsável pela Perestroika num país imperial e ditador: a União Soviética, ou seja, o seu objectivo foi sempre o desmantelamento da União Soviética e a introdução de medidas democráticas que levou ao fim da Guerra Fria.

Levou a cabo várias reformas políticas e económicas, que culminaram na queda do Muro de Berlim e na dissolução da União Soviética. Negociou com os Estados Unidos a redução do armamento nuclear, além de ter retirado as tropas soviéticas do Afeganistão.
Contrariamente aos últimos líderes da URSS, Mikhail Gorbachev não invadiu os países que estavam sob a órbita soviética, como a Hungria, a Checoeslováquia e a Alemanha Oriental. Foi, de resto ele, que permitiu que se reunificasse a Alemanha.
Em 1990, Mikhail Gorbachev venceu o Prémio Nobel da Paz.
Hoje, Putin, que quer, de novo, todo o caminho inverso, merece o Prémio Nobel do Cro-Magnon, responsável ditador pela morte de centenas de milhares de pessoas, só porque pensa que pode invadir a casa dos vizinhos autodeclarando-a sua, despojando-os da casa que não é dele e prometendo que os deixará num anexo sob as ordens de um ilegítimo, ilegal, e patológico novo senhorio...

20.8.22

ENVIESAMENTO DO EU

 


Vidiadhar Surajprasad Naipaul nasceu a 17 de agosto de 1932, foi Prémio Nobel da Literatura em 2001, cito-o:

"As únicas mentiras pela quais somos realmente punidos, são aquelas que contamos a nós próprios!"

Esta citação dele, simultaneamente tão simples e profunda, resume o que muitos nem se apercebem.

Por exemplo, fazermos negações, tornando a realidade numa mentira por nos ser inconveniente, ou simplesmente não sermos capazes de a entender, (por falta de autocrítica e/ou capacidade empática), ou idealizações que fazemos do Outro, tornando-o naquilo que pensamos ser, sem tentar perceber se o é verdadeiramente.

Tudo isto não são mentiras que contamos aos outros, mesmo quando também conscientes de negarmos situações a quem nos interpela sobre algo e continuamos a negar, mas sobretudo mentiras que contamos a nós.

Será preferível tapar a ferida a vida toda com fugas de si, ou fazer a cirurgia da higiene mental, que dispensa tratamentos, e nos coloca na verdade da autocrítica (se feita conscientemente, e não apenas no que nos interessa, já que equivaleria a outra mentira que diríamos a nós mesmos), e daí, reconhecermos o Outro como na realidade é, e não como o idealizamos ou gostariamos que fosse!?

aceitarmos a realidade das nossas limitações e erros não as atribuindo a bodes expiatórios;

agir em vez de lamentar, como quem arranja uma desculpa para a inacção ou simplesmente continuarmos nas fugas em frente;

reconhecermos a verdade no Outro mas primeiro em nós, sob pena de a enviesarmos e permanecermos na infantil ideia de querermos agradar a todos, (mas quem não quer?), provocando injustiças por omissão, tomando partido por uma coisa e seu contrário, na ânsia de aprovação alheia. Essa é a maior falácia da própria mentira.

Só desconstruindo diariamente o nosso self, como quem faz um update de nós mesmos, teremos a capacidade de sermos verdadeiramente nós.

Caso contrário, seremos os bonzinhos sociais do politicamente correcto, supostamente amados por todos - já que preferem enganar-se a si mesmos, ainda que julgando que não -, excepto se for intencionalmente maldoso.

Logo, só a simultânea (des)construção diária de nós mesmos, nos permite aceitar com realismo, mas também com muita serenidade (a fim de mantermos a estrutura mental intacta, no caso de descobrirmos zonas muito negras que não sabíamos ou não queríamos reconhecer ter) e, dessa forma, podermos actualizar as nossas decisões e julgamentos, numa vida livre (ser livre é ser responsável, e a maior responsabilidade é a verdade para connosco mesmos), afastados das mentiras existenciais, onde, afinal, os enganados somos nós...

13.8.22

DIA INTERNACIONAL DA JUVENTUDE


Comemora-se hoje, dia 12, o Dia Internacional da Juventude (aliás, as Jornadas Mundiais da Juventude instituídas por João Paulo II, que ocorrem de quatro em quatro anos, serão em Portugal já no próximo ano com milhares de jovens vindos de todo o mundo).

Ora, ser jovem, independentemente da idade (até porque há jovens apáticos e adultos entusiastas), é saber ousar, arriscar o que em adulto parece mal ou não se faz, e confundindo tudo isto com o politicamente correcto, perdemos a noção entre elegância e vulgaridade, porque elegante será sempre sermos nós na condição humana do abraço e sobretudo das nossas atitudes, e não o sorriso manipulado ou o cinismo da amizade encapotada e do jogo social, estando do lado de todos como se essa infantil ideia fosse possível...
Muitos descobrem na ajuda terapêutica, que, afinal, os grilhões que os impediam de algo, incluindo agir naturalmente, estava precisamente na quantidade da energia gasta, para o esforço de querer agradar a todos, já que, tal, é vivermos na necessidade de aprovação alheia, mas as nossas atitudes têm sempre consequências, até quando nada fazemos, porque o silêncio pode ser uma contribuição para a injustiça, julgando nós não estarmos a fazer nada numa posição neutra. Pelo contrário, podemos estar, pela omissão, a torná-la pior.

Há uma diferença entre crescer e amadurecer. Já dizia Nietzsche "torna-te aquilo que és", e nós fazemos exactamente o contrário: tornamo-nos naquilo que é suposto para ficarmos bem no retrato.
Não há mal nenhum em chegar sem gravata a uma reunião de doutores, em comer um iogurte lambuzando os dedos, ou em preferir uma carrinha pão de forma a um Maserati para impressionar.
Em pedir uma torrada com manteiga em vez de impressionar com um brunch, ou sujar-mo-nos a brincar com um cão que, sem nos conhecer, nos pede festas.
Em usar o calçado que gostamos em vez de uns sapatos Armani ou roupa da Prada, para mostrar estatuto;
Em chorar sem vergonha, e em rir no meio da dor, não como quem a irreleva, mas porque é demasiado forte para se aguentar (e o humor é, mais do que um bálsamo, um autêntico remédio, em vez de nos consumirmos, gastando energia sem qualidade, no problema que nos afecta).
A ideia de felicidade, com tudo o que implica de viver a paz no meio da luta, e de sorrir mesmo com cinzas na alma, está ligada à maturidade emocional, não necessariamente ao crescimento. E isso requer liberdade interior para podermos ser verdadeiramente nós...
E então, comemorando-se hoje o dia da juventude, quantos de nós já não envelhecemos por dentro, rendidos ao embrulho e não à essência, e se crescer é tornar-se adulto sem se adulterar, então quantos anões não há por aí...

31.7.22

DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE


Celebrou-se ontem, dia 30, o Dia Internacional da Amizade! (*).

E a Amizade é todo um tratado.

Como escrevia Saint-Exupéry:

"eu não preciso
de ti, e tu não precisas de mim,
mas se tu me cativas,nós precisaremos um do outro!"

Gosto de quem sofre. Porque está a sofrer. De quem abre o coração e lhe entra uma flecha. Porque a confiança foi traída. De quem acredita e é destituído. Porque entrou no desencanto. De quem investe e sai perdido, porque precisa de voltar a acreditar. Porque é aqui que ainda devem entrar mais os Amigos!
Gosto de amigos simples e sensíveis. Gosto dos amigos reais e dos virtuais, dos amigos que nos amam.
Gosto dos desconhecidos que quase se tornam instantaneamente amigos, quando neles intuímos a sincera simplicidade da entrega, como se os tivéssemos conhecido desde sempre.
Basta que destapemos o crédito social, a vergonha ou as defesas exageradas, na atenção e no encontro, que tantas vezes abortamos à nascença, mas com vontade de os ter.
Gosto dos que cometem loucuras e riem connosco! Dos que o são de verdade e não por conveniência. Dos que dão tudo e não olham às hipocrisias do socialmente correcto.
Dos que com lágrimas vencem a dureza da rocha, e dão um murro à lamentação, sem desrespeitar a mágoa que precisa de ser curada.
Gosto dos que efusivamente abraçam, mesmo que os outros achem um desrespeito. O que interessa é que o abraço seja sentido, com os dois braços, e não uma cortesia momentânea.
Dos que estão presentes antes de chamar. Dos que mostram a sua dor porque também me ajudam a mostrar a minha.
Porque os amigos, os amigos de verdade, mesmo os que não precisam do tempo para se ter intimidade e empatia, seguram connosco a condição humana de sermos em plenitude na alegria e no encanto, no sofrimento e na dor.
E é por isso que é tão importante esse amor universal da amizade...
Não são os grandes eventos e jantaradas, onde o sentido colectivo fala outra linguagem, que define sólidas amizades; antes, o gesto presente nos dias comuns e anónimos, de presença na ausência, de sorriso e partilha, de silêncio e palavras!
O quotidiano, carece tão mais de gestos simples e amigos, do que longos momentos em que todos brindam, para depois todos voltarem a ficar sós.
É aí, no dia a dia, que se revela em toda a sua verdade, porque é nos gestos efectivos que o amor (se) transforma. Caso contrário, seremos meros reagentes a acenos de amizade...


(*) 30 de Julho é o dia oficialmente instituído pela ONU, embora no Brasil seja comemorado no dia 20, e o próprio Facebook tenha instituído o dia 04 de Fevereiro por ser o dia da sua criação, mas é hoje a data oficial.