10.10.21

DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL


 Celebra-se hoje, o Dia Mundial da Saúde Mental, e quando se fala sobre a gestão do stress, costuma dizer-se que não é o peso absoluto de uma coisa que conta, mas o tempo que a seguramos!

Quanto mais tempo seguramos um objecto, mais pesado ficará, i.e., quanto mais tempo nos preocupamos, maior será o fardo! E não necessariamente do peso, mas da exagerada importância que lhe damos. Como quando chove e, enquanto uns se molham, outros apreciam a chuva. O que mudou não foi a chuva, mas a atitude perante ela. O que mudou foi a pessoa.

Outro ponto extremamente importante quanto à saúde mental, são as emoções. As emoções não são boas nem más. Dizem-nos apenas o que se está a passar connosco: são sinais, alertas. A gestão emocional também passa por aqui: escutar o que nos está a dizer aquilo que sentimos.

Umas vezes sabemo-lo intuitivamente mas fazemos uma negação; outras vezes descuramos com o argumento de adiar, mas é importante aprender a viver afectivamente bem connosco mesmos, e sempre que recusamos a emoção e o sentir, estamos a bloquear afectos e aprendizagens, a capacidade de sermos mais pessoas, mais humanos, mais nós, estamos a entrar no caminho fácil de não nos querermos conhecer e muito menos trabalhar, porque requer desconstrução para nos voltarmos a construir.

É muito importante actualizarmos as nossas decisões. A questão não é deixar de sentir, mas saber o que fazer com aquilo que sentimos, e reconhecer a necessidade que representa e não queremos ter. Mas está lá.

Um sentido autocrítico, o simplesmente ser, a capacidade do riso (não é por acaso que muitas empresas mesmo entre nós têm workshops do riso e começam logo de manhã com sessões de meia hora), a doação (através do amor, da amizade, da entreajuda e da partilha), a capacidade de relevar e esperar, a noção de que nem tudo depende de nós, etc., são tudo fonte de higiene mental, neste dia que lembra a sua incontornável importância, a começar nos bloqueios afectivos autoimpostos mesmo sem sempre o consciencializarmos...

A saúde mental requer a higiene que nem sempre temos, reféns que somos de crenças e perspectivas que tomamos como absolutamente certas só porque achamos que sim!

A resiliência é muito importante, mas igualmente importante é permitirmo-nos sentir a tristeza, o abatimento, sem forçar o que não sentimos, porque essa artificial invencibilidade emocional e psíquica, pode provocar um agastamento imperceptível com custos depressivos a médio e longo prazo, e que uma situação futura complexa mas natural de resolver, pode despoletar, julgando nós que era situação inesperada, que apenas foi buscar o que já estava latente dos tempos de forçar uma constante alegria e força.

Sem ferramentas tão simples como a humildade e a autocrítica, forjamos a realidade e dizemos que é ela que nos engana, precisamente porque no jogo de espelhos onde só nos queremos ver como super homens, está estampada a limitação que recusamos, ou que nem sequer temos a capacidade de a perceber...

3.10.21

CRISÁLIDA FENIX

 

.


Um sorriso que se faz perene
na tranquilidade outonal do ser,
em jeito de verão rebelde
que matiza as cores da alma
para voltar ao caminho de terra batida
onde os passos se fazem firmes,
mais firmes do que o alcatrão sólido
que escorrega perturbado as
confidências esquecidas,
como um amor que não se esquece,
ou não se teve, guardado para sempre
entre as asas da entrega,
incondicional e oblativa,
que carrega consigo
o sentido da vida,
em momentos perpetuados de ser,
como alguém que cresce e se faz,
porque acolheu em si o motor vital,
e não abandonou miserável
o bater do coração,
fonte de vida que brota assim,
consistente e sustentada,
em jeito de caminhar rebelde e
confiante, como quem apanha
com gotas de chuva
e lhes conhece o sabor,
temperado com a brisa de dias
quentes, até dizer à chuva que
conhecem e falam a mesma linguagem,
a que se esconde e revela
nos interstícios luminosos do dia,
em momentos tão grandiosos quanto
solitários, num resgate entristecido
como uma crisálida suspensa
até se transformar...

26.9.21

DO REAL E DO APARENTE


 Mas tu não fazes nada na vida?, pergunta o amigo intrigado. Estás sempre aqui pelo jardim, vejo-te a passear por todo o lado, lês, passeias... Mas que rica vida...

O amigo não responde quando lhe perguntam estas coisas e, mais tarde, confidencia-me assim: sou investigador em Química, trabalho aqui na universidade. Trago esta marmita onde como o almoço aproveitando a serenidade do jardim. Tornei-me desconfiado em relação às pessoas mas guardo os momentos livres para estar assim na minha bolha. És a primeira pessoa a quem falo sem conhecer. Não é que eu não seja educado e gosto de ser prestável, mas nunca me meto com ninguém e não consigo confiar à primeira, abrir-me, as pessoas são más, e também nem sequer me apetece falar com ninguém. Sinto-me bem como estou. Porque havia de mudar? Mas não vale a pena responder ao pessoal da faculdade que me acha rico e sem vida, porque não percebem nada a não ser a competição e ficar por cima. Acredita que sei do que falo. Não tenho constrangimentos com ninguém, assumo o que sou e tenho, mas não sendo infeliz também não sou nada do que acham. Estou no meu canto, no meu percurso e sei o que quero e para onde vou...

Dito isto, deu mais duas garfadas da massa da marmita. Parecia nórdico, 26 anos, pose calma, bem vestido. Eu podia ter-lhe dito muita coisa, mas centrei-me apenas nalguns aspectos. E falei do perigo em ficar crisálida quando pode ter asas e ser borboleta, porque sem as dores da libertação do casulo, as asas não ficam fortes e a lagarta viverá uma vida medíocre sem nunca poder voar.

Que ter as coisas equacionadas, planificadas, pensadas, racionalizadas, não significa que seja tudo. No limite, pode ser uma fuga a outras latitudes da realização pessoal, e falei em duas citações do Principezinho.

Nesse momento, a segurança dele abrandou, senti os olhos humedecerem-se e olhei em redor como quem está distraído, continuando a falar, como se não percebesse o que ele tentava esconder olhando e mexendo no telemóvel desligado.

Continuei o discurso olhando as sebes e as rosas com ar natural, dando tempo a que não sentisse que lhe notei a fragilidade. Depois encaramo-nos. Voltava à sua segurança e eu lembrei-lhe uma coisa.

O problema das pessoas, Hugo, é sentirem com a cabeça, não entram em contacto com as emoções, e depois é natural que vivamos num mundo disfuncional.

Disse-me, então, que andava numa psicóloga, sem referir o motivo, mas dando a entender que isso compensava o hiato relacional. Mas eu disse-lhe que um psicólogo não é alguém que nos leva ao destino. É alguém que nos diz qual é a direção. O destino já somos nós, apenas precisamos de um GPS.

Também temos de ousar, de ir mais longe, mesmo que aqui ou ali nos possamos picar e sofrer. E dito isto terminei: quanto ao que me disseste no início de andares sempre a passear, que gostavam de ter a tua vida e que não deves fazer nenhum, como eu te percebo.

Também muitos pensam o mesmo de mim. E também acho que fazes bem em nem responder. A fase deles é de competição, e sabedoria e inteligência são coisas diferentes, como certamente sabes. O facto de haver sofrimento, não significa que lhe concedamos o poder de nos dominar, mesmo sabendo que nos tolhe.

Também eu sofro, Hugo. E a semelhança do que me dizem a mim é o que se passa contigo. Mas nós não somos as circunstâncias. Somos marcados por elas, mas não somos essa circunstância. É a maneira como lidamos com ela que conta, sob pena de sermos uns coitadinhos e justificarmos os nossos actos.

É por isso que arranjo sempre tempo para fotografar um pormenor, interiorizar um pensamento ou não me embrenhar em trabalho que necessáriamente só pára se eu o fizer parar, gerindo os momentos. É como fazer férias. Não precisamos estar um mês numa ilha paradisíaca para depois passarmos 11 meses a correr. O segredo está no ritmo, na gestão do tempo. E, com ele, a gestão emocional.

Por isso Hugo, disse-lhe em despedida, também eu pareço seguro e confiante, mas sou frágil e inseguro, e também de mim julgam que ando sempre a passear, mas só cada um de nós sabe o peso que carrega, sem por isso ter de o ostentar...

3.9.21

FICA CONTIGO ESTA NOITE...


Fica contigo esta noite!

Sai de ti até de madrugada.
E quando o dia raiar,
estarás ainda a
recuperar da magia
do encontro que
se fez assim, de
mansinho e sem barulho,
na solidão perene
de quem saiu de si
para conhecer o mundo.
Perceberás que as tuas certezas
estavam fundeadas num encosto,
e que as tuas seguranças
eram apenas por não estares só!
Quando o dia amanhecer,
não me verás de novo,
e talvez nem reconheças
o silêncio que se fez.

Mas se chegaste à
orla da alma que aveluda
em pregas douradas
a realidade que te habitou,
não mais voltarás à
superficialidade
a fantasiar a alegria,
sem que para isso
não deixe de brotar de ti
a genuína emoção!
Há espaços que só o
conhecimento do luar
te pode preencher...
Fica contigo esta noite...
E ao ficar contigo,
fica com todos os
que te passando ao lado,
são também a
metade que te falta!
Fica contigo esta noite!
...E quando me encontrares
levarás em mãos a minha alma...

25.8.21

SIMETRIA DO EU



Lindo o mar calmo

e os lagos tranquilos,

mas nem por isso desdenhes

do movimento das ondas 

que te parecem engolir.


Foi pela irrequietude

com que serpenteavam em contínuo fluxo, 

que chegaste à outra margem....

21.8.21

DO CULTO DO EU






 Nos tempos do culto do eu, da auto estima, do sucesso pessoal, o que sobra do amor?

Nos tempos em que o Outro é secundário, em que tudo deve girar à volta do bem estar pessoal, o que temos de verdadeiramente importante?

Que valores, afinal, nos guiam, que rumos tomamos como ilhas vaidosas em luzes de néon disfarçadas de amor?

Que restará de coisas simples como a simplicidade da entrega, a entreajuda, o amor desinteressado, a gratidão, os gestos simbólicos, as atitudes singelas, o agradecimento, a oferta e não o preço, o elogio e não a mera crítica, o enlevo, a preocupação pelo que não é apenas o ego, o abraço gratuito, a justiça em vez do populismo, a ética em vez da moda, a verdade em vez da realidade aumentada?

Nos tempos do culto do eu, da programação neurolinguística e do sucesso pessoal, torna-se ainda mais importante a capacidade da sageza e desse valor que reputo ainda mais importante do que a própria inteligência cognitiva: a lucidez, o discernimento e sensatez, a verdade e autenticidade, até para aferir da verdadeira importância das coisas e das pessoas, i.e., do verdadeiro significado do que é ser humano!

É muito fácil inebriarmo-nos com o mero bem estar pessoal, mas é sempre e só na relação com o Outro, na autêntica e não na encapotada em mentiras ou subterfúgios, que enganam simpatia e maldade, que o Homem verdadeiramente se faz, até com o sacrifício esporádico que, por amor, deixou de o ser.

12.8.21

DIA INTERNACIONAL DA JUVENTUDE

 


Hoje comemora-se o dia internacional da juventude, e dizia Camilo Castelo Branco que "crescer é tomar-se adulto sem se adulterar", e se não devemos ser ingénuos, usando as ferramentas que permitam sem malícia, mas com firmeza, corrigir o outro, a verdade é que, da mesma maneira, nunca devemos perder a inocência.

Quando crescemos a afagar o ego e confundimos sobranceria e arrogância com auto estima, adulterámo-nos em vez de amadurecer, da mesma maneira que cerceamos a liberdade de sermos nós mesmos, sempre que nos rendemos aos cânones estabelecidos de uma quotização intelectual, de um status com atitudes pomposas, de cortesias para criar simpatia que de genuíno pouco têm, ou ainda quando sufocamos a vontade de educada, mas livremente, dizermos o que pensamos, não como quem critica, mas como quem partilha ou contribui, e não como quem dá ouvidos ou entra na maledicência.
Adulteramo-nos quando aplaudimos os fortes só porque têm um valor social, e relegamos os que, imunes às críticas sociais ou ao parecer canónico das modas, se sujeitam apenas a si mesmos, nos valores da formação humana que é o que verdadeiramente interessa.
Ser jovem, independentemente da idade (até porque há jovens apáticos e adultos entusiastas), é saber ousar, arriscar o que em adulto parece mal ou não se faz, e confundindo tudo isto com classe social, perdemos a noção entre elegância e vulgaridade, porque elegante será sempre sermos nós na condição humana do abraço, e não o sorriso manipulado ou no cinismo da amizade encapotada ou do jogo social... O resto é infantilismo e vulgaridade.
Há uma diferença entre crescer e amadurecer. Já dizia Nietzsche "torna-te aquilo que és", e nós fazemos exactamente o caminho inverso.
Não há mal nenhum em chegar sem gravata a uma reunião de doutores, em comer um iogurte lambuzando os dedos, ou em preferir uma carrinha pão de forma a um Maserati para impressionar.
Em pedir uma torrada com manteiga em vez de impressionar com um brunch, ou sujar-se a brincar com um cão que sem nos conhecer nos pede festas.
Em chorar sem vergonha e em rir no meio da dor, não como quem a irreleva mas porque é demasiado forte para se aguentar, ou em ir descalço onde outros usam sapatos Armani.
A ideia de felicidade, com tudo o que implica de viver a paz no meio da luta, e de sorrir mesmo com cinzas na alma, está ligada à maturidade emocional, não necessariamente ao crescimento. E isso requer liberdade interior para podermos ser verdadeiramente nós...
E então, comemorando-se hoje o dia da juventude, quantos de nós já não envelhecemos por dentro, rendidos ao embrulho e não à essência, e se crescer é tornar-se adulto sem se adulterar, então quantos anões não há por aí...

7.8.21

DO SENTIDO DO DESCANSO

 


O descanso é imperativo para o corpo e para a mente. Estamos em período de férias, mas muitos fazem férias como se fosse uma interrupção da existência, tal como desejar bom fim de semana para só voltar a falar na segunda feira seguinte.

Fazer férias não é a desbunda hedonista, mas a descompressão, o retemperar das forças vitais, lembrando-nos que também somos alma, espírito, essência - que cada um entende à sua maneira - e, nesse descanso, reequilibrar e desintoxicar tudo o que empana a ausência de disponibilidade interior que nem sempre temos.
Se me pedissem para me definir, seria pela simplicidade. Esta, subentende também a humildade e a alegria, mesmo quando não vislumbramos caminhos e só apetece afiar o dente.
Simplicidade é estar de mãos abertas e alma receptiva, e não a devemos confundir com ingenuidade, mas requer inocência.
Estamos muito habituados a erguer camadas sobre camadas de defesas, mas sem entrega e sentido de humor, desumanizamo-nos.
Uma vida com o essencial, nunca começa pelas coisas, passa por elas como cores que nos alegram a existência, mas detém-se sempre no Encontro. É uma palavra muito importante. O Encontro. Connosco e com o Outro, igualmente cheio de tanta defesa.
É esse encontro que faz pulsar as fibras humanas que se vitalizam e engrandecem, porque soubemos que viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do mero "eu social", numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir.
As férias deviam ser sempre uma belíssima oportunidade para retemperar forças, como quem massaja a alma, como quem vai nutrir-se de vida, ou quiçá espaço para reflexão de onde estou, por onde caminho, onde quero realmente ir, como me estou a comportar na vida, que juízo faço de mim e dos outros, e quão verdadeiro pode ou não ser esse juízo, ou se está enviesado.
Não devemos sujeitar à existência, o supérfluo, porque viver não pode ser artificial, mas a genuinidade de que se esperamos muito da vida, também ela espera de nós, porque é no balanço da justiça e da equidade, da amizade e da partilha, da simplicidade e do simplesmente ser, do júbilo de partilhar alegrias e da dor de a sentir, que verdadeiramente vivemos, mas precisamos de parar para aquilatar das nossas crenças e percepções, de ajustar o ritmo à realidade e não ao que julgamos ser, de oferecer o que também necessitamos....
Sem diálogo interior e autocrítica, julgar-nos-emos sempre inerrantes e infalíveis, e de juízo em juízo, perdemos a nossa própria humanidade...

30.7.21

DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE

 


Gosto de quem sofre. Porque está a sofrer. De quem abre o coração e lhe entra uma flecha. Porque a confiança foi traída. De quem acredita e é destituído. Porque entrou no desencanto. De quem investe e sai perdido, porque precisa de voltar a acreditar. Porque é aqui que ainda devem entrar mais os Amigos!

Gosto de amigos simples e sensíveis. Gosto dos amigos reais e dos virtuais, dos amigos que nos amam. Dos que não comadram nem fazem crochet, dos que tiram as coisas a limpo, sem se ficarem pelo que eventual e mal intencionadamente ouviram dizer.
Gosto dos solitários, porque simplesmente não têm amigos. E, então, temos de ser nós os nossos próprios amigos.
E quando os temos, gosto dos que cometem loucuras e riem connosco!
Dos que o são de verdade e não por conveniência. Dos que dão tudo e não olham às hipocrisias do socialmente correcto.
Dos que com lágrimas vencem a dureza da rocha, e dão um murro à lamentação sem desrespeitar a mágoa que precisa de ser curada.
Dos que efusivamente abraçam, mesmo que os outros achem um desrespeito. O que interessa, é que o abraço seja sentido, com os dois braços, e não uma cortesia momentânea.
Dos que estão presentes antes de chamar. Dos que mostram a sua dor porque também me ajudam a mostrar a minha.
Porque os amigos, os amigos de verdade, mesmo os que não precisam do tempo para se ter intimidade e empatia, seguram connosco a chave mestra da vida: sermos em plenitude, na sensibilidade, na alegria e no encanto, no sofrimento e na dor.
E é por isso que é tão importante esse amor universal da amizade... E de as criar, construir, alimentar e fazer, porque também há amigos que fazemos hoje, como se os tivéssemos tido desde sempre; basta que destapemos o crédito social, a vergonha ou as defesas exageradas, na atenção e no encontro que tantas vezes abortamos à nascença mas com vontade de os ter.
Gosto que me digam "estou aqui", porque posso ter receio ou vergonha de dizer "fica comigo"!
Mas é Vinícius de Morais, quem tão bem diz este meu sentir:
"Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grande chuvas e das recordações de infância.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo".
Gosto muito desta citação do Vinicius, porque expressa tão bem a Amizade, e porque a Amizade é o gesto presente nos dias comuns e anónimos, de presença na ausência, de sorriso e partilha, de silêncio e palavras! O quotidiano carece tão mais de gestos amigos, do que longos momentos em que todos brindam, para depois todos voltarem a ficar sós. É aí, no dia a dia, que se revela em toda a sua verdade, porque é nos gestos efectivos que o amor (se) transforma. Caso contrário, seremos meros reagentes a acenos de amizade...
30 de Julho é o dia instituído pela ONU como o dia internacional da Amizade... e como me identifico com a tristeza dos solitários, mesmo que os sinais sejam defesas que também nos cabe ler, porque ninguém gosta de mostrar a sua dor, e dos que no silêncio de um pássaro encontram a sua liberdade, a sua voz e a pureza das suas lágrimas...

5.7.21

DESCALÇAR SAPATOS

 


Mia Couto tem este "Excerto da Oração de Sapiência", na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, que resume muito bem alguns pilares de inteligência emocional e acrescenta outros:

Usando uma alegoria com sapatos, diz que, à porta da modernidade, precisamos de descalçar muitos (aquilo a que eu chamo desconstrução), e escolhe sete entre tantos possíveis:
"- Primeiro Sapato - A ideia de que os culpados são sempre os outros;
- Segundo Sapato - A ideia de que o sucesso não nasce do trabalho;
- Terceiro Sapato - O preconceito de que quem crítica é um inimigo;
- Quarto Sapato - A ideia de que mudar as palavras muda a realidade;
- Quinto Sapato - A vergonha de ser pobre e o culto das aparências;
- Sexto Sapato - A passividade perante a injustiça;
- Sétimo Sapato - A ideia de que, para sermos modernos, temos de imitar os outros.”
Se muitos de nós interiorizássemos bem este resumo, seríamos certamente muito melhores pessoas, e com isso ganha o mundo, porque a mudança vem de dentro e é individualmente que se chega ao colectivo...
Já agora, Mia Couto, moçambicano, é o pseudónimo de António Emílio Leite Couto, dispensa apresentações, tendo já sido várias vezes galardoado com prémios literários internacionais, e faz hoje anos...

30.6.21

ILITERACIA EMOCIONAL

 


Um dos problemas da razão, é tentar resolver tudo precisamente dessa forma: meramente racional. Ora a inteligência cognitiva é um mero instrumento, tal como são, por exemplo, os conhecimentos técnicos.

Não se chega ao Outro, nem a nós, apenas tentando perceber, por isso somos muitas vezes incapazes de resolver seja o que for, se nem sequer compreendemos.

O contacto profundo com o self, e exprimirmos emoções e afectos (existe uma enorme iliteracia emocional), é o caminho e uma aprendizagem imprescindível, sob pena de lutarmos ingloriamente, como uma aranha presa na sua própria teia, usando a razão como principal instrumento na aferição das situações, de nós e do Outro, quando é apenas uma ferramenta secundária, subsidiária do entendimento...

20.6.21

DO VALOR DAS PESSOAS


Excepcionalmente não publico uma foto minha, porque esta imagem convoca-me uma reflexão sobre nós e o nosso valor!

Temos sempre a tendência de credibilizar o outro pelo que faz, ou pela quotização social que tem!
Se, num grupo, todos se apresentarem e fazerem valer os currícula e méritos sociais, e chegada a vez de um colega simplesmente disser o nome e sorrir, não vão perceber a mensagem à primeira: de que aquele que temos à nossa frente não vale pelos títulos que tem, mas pela formação humana que demonstre e/ou lhe intuamos.

E, no entanto, as pessoas continuam no mesmo registo: de valorar o que o outro faz, apenas para saber com que grau de cortesia e de respeito o devem tratar!

Uma pessoa credível quere-se num registo q.b. de simpatia e entrega, nada de ser ela mesma e saber manter respeitos sociais, i.e., o politicamente correcto! Nada de mais errado. É, aliás, o primeiro engano. Claro que parecem muito descomplicadas e brincalhonas, mas há muito verniz sob essa aparente genuinidade!

E, assim, confundindo o crédito com o valor, mesmo que este também exista - mas nem sempre o contrário é verdadeiro -, caímos arrogantemente ignorantes (ou cínicos) na aferição de que o cão bem cheiroso e tratado que vai ostensivo e feliz no carro do dono, vale mais do que aquele outro numa carrinha a caminho do canil...

16.6.21

EGO E AMOR PRÓPRIO






Em muitos workshops de desenvolvimento pessoal, apela-se à maior optimização possível dos nossos recursos emocionais em prol de nós mesmos, assertividade, autoestima, etc.



Faz-se muito pouco apelo a que a ideia de maturidade não é massajar o ego até nos julgarmos autosuficientes, mas sim não confundir o ego com amor próprio...

 

13.6.21

SANTO ANTÓNIO E NÓS



 

Com ou sem covid, somos impelidos ao Outro, somos impelidos à comunhão, somos seres relacionais, está inscrito no nosso código genético.

É natural que Santo António receba tantos pedidos, conhecido como o santo casamenteiro. Pedidos de Amor e de Amizade....

As Festas dos Santos Populares, não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave.
Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de carnaval after hours, mas são diferentes. Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado, é o lado alegre que o português não tem. Mas é também a Partilha.
"O meu bairro é liiiiiindo" não cheira a competição mas a partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas, convocando do fundo de nós a saudável abertura de
um abraço
a um desconhecido, como um único coração na praça grande que são as ruas e a vida.
É assim que a humanidade se humaniza: na partilha!
Mas voltemos ao início: a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade, é sempre maior do que supomos; a vida é dinâmica, uns casam, outros namoram, outros suspiram, outros acham que têm muitos amigos, outros simplesmente não têm nenhuns, outros gostam de estar sós, mas não é desse silêncio salutar que falo, mas da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos que serão sempre insuficientes para uma maior doação e realização como pessoas.
Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, reconhecer e intuir as dores escondidas, perceber que nem todas as alegrias são alegres, mas que também nem todo o sofrimento é dramático, e com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, há sempre alguém que está só...

4.6.21

DESCONSTRUÇÃO DO EU


 A desconstrução do eu requer recursos emocionais, pelos quais devemos diariamente lutar.


Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder!
O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!

Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erróneas da realidade (incluindo a nossa própria), é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.

A resiliência é outro recurso indispensável, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção pessoal na sua fragilidade e no seu vigor.

Sem a noção de que a ausência de uma atitude constante de autocrítica nos tornará balofos a massajar o ego, a mudança não se faz e o crescimento fica comprometido.

Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos, e não nos cinismos sociais.

Precisamos de trabalhar diferentes recursos, para nos realizarmos na plenitude de seres humanos, que se devem a si e ao mundo, muito mais do que geralmente damos e somos.