14.10.26

DIA MUNDIAL DA SÚDE MENTAL

 


Seremos mesmo psicológica e mentalmente saudáveis? É que falar de saúde mental cujo dia se celebrou no passado dia 10, não significa falar apenas de depressão, perturbação bipolar, borderline ou esquizofrenia. 

Significa também olhar para a forma como pensamos, sentimos e agimos diariamente, muitas vezes por hábito, sem consciência e sem questionarmos os nossos próprios comportamentos.


Porque não basta não termos uma doença para estarmos bem. A saúde mental também se constrói na forma como vivemos, nas relações que mantemos e na capacidade de reconhecermos aquilo que precisamos de mudar em nós.

O problema é este: o autoconhecimento exige autocrítica. Mas será que conseguimos fazer esse exercício quando estamos emocionalmente envolvidos? Será que nos avaliamos com a mesma exigência com que avaliamos os outros? Ou procuramos sobretudo argumentos que confirmem aquilo em que já acreditamos?

Porque é que, às vezes, uma simples crítica consegue ferir mais do que um problema realmente grave? Ou uma discordância se transforma numa batalha, um atraso numa provocação e uma mensagem sem resposta numa prova de que alguém está zangado connosco? E se, em muitos desses momentos, afinal não estivermos a reagir apenas ao que aconteceu, mas também à história que contamos a nós próprios sobre o que aconteceu?

É precisamente aqui que podemos começar a falar de saúde mental.

Quando se fala em gestão do stress, há uma imagem simples que ajuda a compreender melhor: não é apenas o peso de um objeto que temos na mão que conta, mas sim o tempo que levamos a segurar. Quanto mais tempo o mantemos suspenso, mais "pesado" fica, mais difícil se torna segurar e suportar. Com as preocupações acontece exatamente o mesmo. E, por vezes, nem é o peso do problema, mas a importância que lhe damos.

Dou muitas vezes um exemplo conhecido: quando chove, enquanto uns se molham, outros apreciam a chuva. A chuva é a mesma. O que muda é a forma como a vemos, como cada um a vive. A resposta está também, grandemente, não necessariamente na coisa em si, mas na atitude que temos perante ela.

A saúde mental começa também aqui: na forma como pensamos, sentimos, reagimos e encontramos maneiras de lidar com o que não podemos controlar.

E não, ter saúde mental não significa estar sempre bem, não sofrer ou nunca precisar de ajuda. Significa, entre outras coisas, conseguir enfrentar as dificuldades, adaptar-nos às mudanças, manter relações significativas e recuperar quando a vida nos desequilibra. Não é apenas a ausência de doença: é uma parte essencial da nossa capacidade de viver.

Entre o que se passa, um acontecimento, e a nossa reação, há a interpretação. E essa interpretação pode estar certa, mas também pode vir dos nossos medos, inseguranças ou experiências anteriores. Sentir que alguém nos quis magoar não prova, por si só, que essa tenha sido a intenção. Aprender a distinguir factos de suposições é uma forma de cuidarmos de nós e de evitarmos conflitos desnecessários. Como também os mal entendidos. Mas isso requer também sermos verdadeiros e não socialmente corretos.

A inteligência emocional ajuda-nos precisamente nisso: reconhecer o que sentimos, compreender porquê e escolher como reagir. Não é deixar de sentir raiva, ciúmes, tristeza ou medo. É não permitir que essas emoções decidam automaticamente o que fazemos. Podemos estar zangados sem ofender, sentir medo sem fugir de tudo e discordar sem transformar o outro num inimigo.

Também a resistência à frustração conta. Nem tudo acontece quando queremos, nem todos concordam connosco, nem podemos controlar as decisões que não são nossas. A necessidade de ter sempre razão, a dificuldade em aceitar um não ou a convicção de que sabemos tudo podem esconder uma fragilidade que não queremos reconhecer.

Por vezes, diminuímos os outros para nos sentirmos maiores, sem percebermos que estamos a revelar mais sobre nós do que sobre eles.

E é aqui que o autoconhecimento se torna indispensável. Antes de termos a "certeza" de que o problema está nos outros, precisamos de ter a honestidade de nos perguntarmos se estamos a ver as coisas como realmente são e não pelas nossas preferências ou interesses. As nossas crenças não são necessariamente factos, as nossas certezas não são garantias de verdade e a nossa memória não é um registo perfeito do que aconteceu. Precisamos de um grande sentido autocrítico.

É a velha história do seis e do nove: duas pessoas olham para a mesma coisa e veem números diferentes, dependendo da posição em que se encontram. Compreender o lugar do outro, a sua perspetiva, não significa concordar. Significa reconhecer que podemos estar a olhar para a mesma realidade de lugares ou maneiras diferentes.

Nas redes sociais, esta dificuldade é ainda mais notória. Julgamos em segundos, acreditamos em pessoas apenas porque falam com segurança ou têm muitos seguidores. Uma opinião repetida milhares de vezes não se transforma, por isso, num facto. E uma história contada por alguém em quem confiamos não dispensa a necessidade de confrontar o outro. Olha disseram-me isto de ti É verdade? Porque só assim evitamos injustiças e podemos concluir por nós mesmos e não apenas pelo que nos contaram, supostas verdades.

Claro que compararmo-nos com os outros também é tudo menos uma boa ideia. Pelo contrário. Vemos as conquistas dos outros, mas raramente conhecemos as suas dificuldades. Comparamos os bastidores da nossa vida com a montra dos outros e podemos acabar a sentir que somos menos, que temos menos ou que estamos a ficar para trás.

Nas relações, acontece o mesmo. Mantemos amizades por hábito, evitamos conversas honestas para não desagradar e confundimos cordialidade com proximidade. Mas uma relação saudável não exige concordância permanente: exige autenticidade, compreensão de outro ponto de vista e a capacidade de resolver diferenças sem humilhar, manipular ou transformar cada conflito numa batalha. Tácita ou diretamente.

Tudo isto influencia a nossa saúde mental, mas importa não confundir responsabilidade pessoal com culpabilização. O stress contínuo, a solidão, a falta de dinheiro, as pesadas experiências e a falta de apoio desgastam profundamente qualquer pessoa. Dizer que não, é mentir. Tal como é mentir dizer que não se tem problema algum ou que se é autossuficiente. Há sofrimento que não se resolve com pensamento positivo, nem força de vontade ou "tu consegues!".

A ansiedade e a depressão, por exemplo, não são fraquezas de carácter. Quando o sofrimento nos afeta já no nosso dia a dia, desde o sono ao trabalho, as relações ou simplesmente desfrutarmos da vida, procurar ajuda psicológica, farmacológica e/ou ambas, pode ser fundamental. Não precisamos de esperar que tudo se torne insuportável para pedir apoio. Nem sequer é inteligente.


E há muitos antídotos no dia a dia para garantir o nosso equilíbrio: dormir bem, conversar com alguém em quem confiamos, escrever sobre o que sentimos, usar o humor, manter relações que nos fazem bem e ter também tempo para nós. Ler, ouvir música, passear, contemplar o mar, conhecer pessoas ou simplesmente estar sozinhos sem sentir necessidade de preencher cada minuto.

O tempo é um bem precioso, diria mais: um luxo! Mas não basta tê-lo: é preciso saber como o vivemos. 

Estar permanentemente disponíveis para tudo e para todos pode deixar-nos sem espaço para perceber o que se passa connosco.

E talvez seja importante alargar esta minha reflexão também para além de nós.

Basta olhar para o mundo atual. Guerras, intolerância, manipulação e sofrimento humano, para percebermos que o progresso tecnológico não garante progresso moral. Temos cada vez mais meios para comunicar, mas continuamos a falhar na compreensão; temos acesso a informação como nunca, mas nem sempre a usamos para pensar melhor. Cada vez mais, aliás, o contrário.

Não podemos atribuir as guerras à saúde mental das populações, nem explicar fenómenos tão complexos por uma única causa. Mas podemos perguntar o que acontece à sociedade quando a indiferença se banaliza, quando os interesses se sobrepõem à dignidade humana e quando deixamos de exigir responsabilidade a quem exerce o poder. É por isso que tanta vez falo na responsabilidade individual e na ausência de valores, porque achamos tudo muito moderno e passamos a viver num relativismo moral tão visível, grande e absurdo, que depois nos queixamos de o mundo estar ao contrário.

Claro que está. Se ninguém se importa com nada e vai atrás da onda, então tudo passa a ser legítimo. O problema não são os senhores da guerra. Somos nós. Os que votam, os que encarreiram por interesse, os que acham que fica mal ir contra a corrente antes que os chamem atrasados. Atrasados somos nós sempre que pensamos assim.

A ambição sem limites, a ausência de empatia e a incapacidade de reconhecer a humanidade do outro, têm consequências que nos ultrapassam. E por isso, a formação humana importa tanto como o conhecimento: ensinar a pensar criticamente, a respeitar, a tolerar a diferença e a assumir responsabilidades é essencial para construirmos uma sociedade muito menos psicótica! E já agora, também pelo nosso exemplo mesmo que riam de nós. Serão essas pessoas que nos interessam!?

A inteligência não garante sabedoria, tal como o sucesso não garante carácter nenhum. E o equilíbrio psicológico, por si só, não torna ninguém moralmente justo. Precisamos também de valores que nos orientem quando o poder, o dinheiro ou o orgulho nos tentam convencer de que tudo é permitido.

No fundo, cuidar da saúde mental é um trabalho contínuo. É aprender a reconhecer as nossas emoções, questionar as nossas certezas, aceitar os nossos limites e compreender melhor quem nos rodeia. É perceber que nem tudo depende de nós, mas que temos responsabilidade pela forma como agimos e tratamos os outros.

E fica uma última pergunta: quando olhamos para nós próprios, vemos quem realmente somos ou apenas a imagem que construímos e aprendemos a defender?

Porque acreditar em nós é importante. Mas termos a coragem de reconhecer quando nos enganamos é igualmente essencial. E talvez a humanidade precise, hoje mais do que nunca, de juntar estas duas capacidades: confiança para avançar e humildade para reconhecermos o erro. De resto, a falta dela, é já, em si, um claro sinal de desequilíbrio emocional.

DIA MUNDIAL DOS CORREIOS


 Escrever e receber cartas, é um luxo, e é importante lembrá-lo por dois grandes motivos: por ser hoje o Dia Mundial dos Correios, e por vivermos numa época em que tudo acontece à velocidade de um clique. 


Assim, o Correios lembram-nos que comunicar também pode ser uma forma de parar, pensar e sentir. Uma carta escrita à mão é muito mais do que palavras num papel. É tempo dedicado a alguém, é a escolha de cada palavra, a marca da caligrafia, a textura do papel e, por vezes, uma pequena imperfeição que a torna única. Mas também o selo, e eu até tenho alguns personalizados. 

É a expectativa de quem escreve, a curiosidade de quem espera e a emoção de encontrar no correio algo que não seja uma conta para pagar. Há qualquer coisa na distância que se percorre entre o momento em que uma carta é escrita e aquele em que chega às mãos de quem a recebe. Nesse intervalo, existe tempo para a espera. 

Tempo. Outro verdadeiro luxo! Ah mas agora é tudo muito mais rápido! Sim, e então? A comunicação digital aproxima-nos instantaneamente, mas nem sempre nos aproxima verdadeiramente. Entre mensagens que se multiplicam e notificações que se esquecem, uma carta permanece. Pode ser guardada numa gaveta, relida anos depois e transformar-se numa memória palpável de alguém, de uma época ou de um sentimento. E há histórias dentro delas. Porque há coisas que não precisam de chegar depressa. Precisam de chegar com significado. Correspondência, os pen friends e a arte de continuar a escrever, mesmo num mundo que parece ter deixado de saborear...

19.8.26

DIA MUNDIAL DA JUVENTUDE


Celebrou-se o Dia Mundal da Juventude.

E talvez ser jovem tenha menos que ver com a idade do que com uma coisa muito mais difícil de conservar: o carácter.
Ser jovem deveria ser poder experimentar, errar, discordar, descobrir quem somos e construir uma consciência própria, mas sem substituir demasiado cedo a justiça pela conveniência, a verdade pela simpatia social ou o carácter pela necessidade de agradar.
Porque também há jovens que aprendem rapidamente a ser cruéis, arrogantes e oportunistas, sobretudo quando percebem que isso lhes facilita a vida. E há adultos que, tendo conquistado autonomia, passam a usar essa liberdade para apagar quem foram ou para fazer pagar aos outros aquilo que um dia não puderam ser.
É aí que amadurecer deixa de ser apenas envelhecer.
É preciso olhar para quem fomos sem o apagar, e sem transformar o passado numa retaliação. Faz parte de nós. E só integrando aquilo que fomos podemos perceber aquilo que ainda precisamos de mudar.
Lembro-me de, adolescente, trabalhar nas férias num condomínio, fazendo de tudo um pouco. Um dia, uma moradora entrou no elevador e disse-me:
- O senhor não devia estar neste elevador. Existe um monta-cargas para os funcionários.
Respondi, sem hesitar, o que ainda hoje me surpreende agradavelmente, sobretudo por ser naquela idade.
- Minha senhora, não existem pessoas de primeira nem de segunda categoria.
Talvez seja isto que a juventude tem de mais precioso: aquilo que ainda sentimos com clareza antes de aprendermos a relativizar tudo em função da conveniência.
Mas também por isso este dia não deve ser apenas uma celebração abstracta dos jovens. Deve ser uma oportunidade para lhes lembrar que crescer não é ganhar licença para fazer tudo o que queremos.
É ganhar liberdade sem perder consciência e responsabilidade.
E talvez seja essa a verdadeira juventude: não é serem mais novos, mas não abdicarem de ser Pessoa enquanto aprendem a viver.
Sou, por isso, um eterno adolescente: daqueles que querem crescer sem se adulterar.
Porque crescer, para mim, nunca foi deixar de ser quem era. Foi seguir em frente sem precisar de deixar ninguém para trás, incluindo o jovem que fui.

5.8.26

DESUMANIDADE

 

Migrantes como bolas humanas de ping pong descartáveis nos jogos políticos de manipulação e malícia inumana. Morreram dezenas. O resto do mundo no retrocesso civilizacional iniciado com Putin a invadir a Ucrânia, tendo como consequência - além dos milhares de mortos de ambos os lados e zonas territoriais literalmente dizimadas - uma troca da guerra económica pela guerra literalmente bélica, fazendo -nos testemunhar uma versão contemporânea da II Guerra Mundial (mortos, cidades em pó...), e depois Trump que dá voz aos ignorantes, não os que não sabem ler porque Trump sabe ler, mas aos que não têm qualificação para serem chamados de pessoas, e vão atrás do puro egoísmo e daquilo que aparenta sem cuidar de absolutamente nada mais. Se aparenta é porque é, se acho é porque é!
No meio disto tudo, deixo este vídeo de um pequeno grande gesto humano para com um cão que nasceu com uma deficiência nas patas da frente. A ideia é lembrarmos que a Humanidade não é a época atual com tudo o que de literalmente bárbaro assistimos no mundo fora, todo ele. De não nos esquecermos que a Humanidade não é isto!
Humanidade é a capacidade de reconhecer valor na vida do outro, mesmo quando o mundo parece tê-lo esquecido.




27.7.26

DO ATENTADO EM BERLIM


O ataque à marcha LGBT na Alemanha que fez 29 feridos por atropelamento (14 em estado grave) e um morto, mostra que o ódio continua bem vivo. Importa perceber que ainda há demasiada gente que acha normal, ou até desejável, que estas pessoas sejam atacadas. É precisamente por isso que estas marchas continuam a fazer sentido. Embora pessoalmente tenha a minha opinião sobre a forma, isso em nada invalida o total respeito pelos outros. Aquilo que é da esfera dos outros, aos outros pertence. Infelizmente são precisas estas manifestações para o lembrar.

O que mais impressiona nem é o atentado, mas a quantidade de pessoas que o aplaudiram. Socorrendo-me de um texto que refere os comentários, também eu os cito aqui: "Eu dava apoio a esse homem", "Só tiveram aquilo que merecem", "Finalmente boas notícias" ou "Já é um começo. Falta o resto.". E são perfis assinados e reais. Apenas mostram que o ódio não anda escondido.
Quando se soube que o agressor era muçulmano, o discurso mudou para a imigração. Afinal, o problema nunca foi a violência. O problema eram sempre "os outros", fossem pessoas LGBT ou imigrantes. O alvo muda conforme dá mais jeito. É um viés cognitivo ou pura ausência de sentido crítico e de verdade.
Não faz sentido esconder este tipo de discurso atrás da liberdade de expressão. Celebrar a morte e desumanizar pessoas não é uma opinião qualquer. E quem condena o fanatismo de uns enquanto aplaude o fanatismo de outros acaba por fazer exatamente a mesma coisa. Não há ódios aceitáveis só porque vêm do lado de quem gostamos.
Como digo sempre, precisamos de um sentido de justiça irrepreensível, assente na honestidade intelectual e na imparcialidade. Como dizia Blaise Pascal, "todos estamos comprometidos". Se formos verdadeiramente honestos connosco próprios, julgamos os factos, e não as pessoas de quem gostamos ou de quem discordamos.
Quando deixamos que simpatias, antipatias ou interesses ditem os nossos juízos, deixamos de procurar a justiça e passamos apenas a defender um lado, gerando injustiças que nunca aceitaríamos se fossem dirigidas contra nós ou contra quem nos é próximo.

2.7.26

TRÊS DA MANHÃ EM ALTO MAR

São três da manhã
na borda de um veleiro
em alto mar.

Há um horizonte azul escuro,
baço, mas sem nevoeiro.
Tudo parece adormecido.

Há uma eternidade de tempo
que parece não querer passar.
As ondas reviram-se até ao mastro,
violentas, nocturnas, imensas.

Volto à borda do barco.
São três da manhã em alto mar.
Olho para trás.
Desfaleço.






   


 

1.7.26

ENDEUSAMENTE DA RAZÃO

 

Um dos problemas da razão é pretender resolver tudo apenas pelos seus próprios meios, mas não chegamos ao Outro, nem a nós próprios, pela mera análise intelectual. Muitas vezes, permanecemos incapazes de resolver os nossos conflitos porque desconhecemos a dimensão emocional que lhes está subjacente.



O contacto profundo com o self e a expressão dos afectos - numa sociedade marcada por uma acentuada iliteracia emocional - constituem uma aprendizagem imprescindível. Caso contrário, corremos o risco de nos debatermos, como uma aranha presa na sua própria teia, atribuindo à razão um papel que ela, por si só, não pode cumprir.

29.6.26

DO PRINCIPEZINHO

 


A 29 de Junho de 1900 nascia Saint-Exupéry, homem dos céus e das palavras, que nos deixou, em "O Principezinho", um pequeno tratado sobre a amizade, a responsabilidade e a condição humana.


Esta será, talvez, a frase lapidar do livro, ou, pelo menos, a mais conhecida, mas cito, também, outras passagens:
"Só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos."

E, no entanto, insistimos em medir tudo pelo imediato, pelo útil e pelo visível, como se a vida coubesse apenas na estreiteza daquilo que conseguimos ver. Mas o valor de uma amizade não está nas conveniências do momento; antes, na permanência que resiste ao tempo e às circunstâncias.

Mas também à nossa própria aferição do outro: porque quantas pessoas são desacreditadas pelo que achamos ou ouvimos delas!

Talvez por isso continuemos tão pobres de espírito num mundo cada vez mais tecnológico, mais alternativo, onde a verdade passou a ser o que cada um quer.

E lemos:
"Tornas-te eternamente
responsável por aquilo que cativas." - E, no entanto, muitos queixam-se do que eles próprios não fazem.

Outra passagem incontornável, é quando Saint Exupery escreve isto:
"Eu não preciso de ti
e tu não precisas de mim.
Mas, se tu me cativas,
nós precisaremos um do outro."

Porque aquilo que verdadeiramente nos transforma não é o que conquistamos, mas aquilo a que nos entregamos. Reconhecer no outro não um meio para afirmar o nosso ego, mas para compreender que os laços só ganham sentido no reconhecimento da humildade, do cuidado e da entrega.

Como escrevo no livro "Mais Longe", somos seres relacionais, não autossuficientes, pelo que deixados sozinhos numa ilha deserta, depressa esgotávamos a nossa verdade existencial.

E, se a humildade é importante, também o é o tempo. O tempo da demora, da escuta do outro, de uma escuta activa e não de um palrar constante sobre nós mesmos, sobre os nossos considerandos e julgamentos.

Também por isso Saint-Exupéry lembra o essencial:
"Foi o tempo que perdeste
com a rosa, que tornou a rosa
tão importante para ti."

E talvez resida aqui uma das maiores verdades n' "O Principezinho": que o valor das coisas e das pessoas não nasce da sua perfeição, mas do tempo, da dedicação e do amor que nelas depositamos. E numa sociedade do relativismo e do vazio, em que tudo se quer instantâneo e substituível, falta-nos um dos bens mais preciosos: o tempo para a presença e o cuidado.

Isto leva-me a outra citação que diz que:
"Os homens já não têm tempo para conhecer nada. Compram tudo feito nas lojas. Mas, como não há lojas de amigos.(...)".

E talvez seja essa a tragédia: não entender aquilo que vai além do que formulamos, do que nos contam, do que pensamos.

Procuramos relações à medida das nossas conveniências, esquecendo que aquilo que tem valor não se adquire nem se substitui. Constrói-se, lentamente, no tempo oferecido e na humildade de reconhecer que precisamos uns dos outros.

Por isso não há lojas para os amigos, porque a amizade é, também ela, uma forma de amor.

E talvez que, no fim de tudo, a verdadeira lição de "O Principezinho" seja esta: aprender a olhar menos para nós próprios e mais para aquilo que nos ultrapassa e nos une.

Porque ninguém se constrói sozinho, ninguém floresce apenas pela força da sua razão, e nenhuma vida encontra pleno sentido quando fechada nos limites do próprio ego.

Só a humildade nos permite crescer, só a amizade nos ensina a ser responsáveis, e só o amor dá valor ao tempo que oferecemos aos outros.

Talvez seja por isso que as palavras de Saint-Exupéry continuam tão actuais: não porque nos tragam respostas fáceis, mas porque nos recordam, incessantemente, aquilo que insistimos em esquecer: que o essencial continua invisível aos olhos, mas nunca ao coração.

13.6.26

DA NECESSIDADE RELACIONAL

 


Ontem, ao ter de descer a Avenida da Liberdade depois de sair de um evento que terminou por volta das 21h30 nas imediações do Marquês de Pombal, o cenário que todos os anos se repete e que, apesar disso, nunca é exactamente igual: as marchas de Santo António.

As Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de disco after hours, mas são diferentes.

Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado; talvez o lado alegre que raramente mostramos. Mas é também a Partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas. E é também assim que a humanidade se humaniza. Na partilha.

É natural que Santo António receba tantos pedidos! E a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade é sempre maior do que supomos, porque a vida é dinâmica. Uns casam. Outros namoram. Outros suspiram. Outros acham que os outros têm muitos amigos ou são muito felizes. Outros simplesmente não têm nenhuns. Outros gostam de estar sós, um silêncio diferente da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos, sempre insuficientes para uma realização plena como pessoa.

Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, tal como recebemos, e reconhecer e intuir as dores escondidas. Há sempre alguém que está só!

Vivemos tempos de comunicação permanente e, paradoxalmente, de crescente isolamento. Multiplicam-se os contactos, mas nem sempre os encontros. Cruzamo-nos todos os dias sem verdadeiramente nos vermos. Habitamos os mesmos espaços sem os habitar em comum.

Talvez por isso estas festas continuem a sobreviver. Porque, durante algumas horas, suspendem-se as regras invisíveis que normalmente nos separam. As ruas deixam de ser apenas locais de passagem para se transformarem em lugares de convívio. Os desconhecidos tornam-se menos estranhos. A cidade volta a ser comunidade.

Resta-nos perceber que nem todas as alegrias são alegres, mas que também nem todo o sofrimento é dramático e que, com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, viver o Instante, o Momento, o Agora é também uma forma de retirar um fardo tantas vezes auto-imposto, uma auto-punição inconsciente que nos impede de acolher com gratidão aquilo que a vida também nos oferece.

Tal como acontece com tantas tradições populares, o significado não se encontra no objecto em si, mas naquilo que ele permite. O manjerico, o alho-porro ou o martelo agora no São João no Porto a 24, são apenas pretextos. São licenças colectivas para o encontro. Formas simples e despretensiosas de quebrar a distância que habitualmente colocamos entre nós e os outros,.

Não somos ilhas. Não nos bastamos a nós próprios. Desde o início da nossa existência que nos construímos na relação com os outros. É no encontro que aprendemos quem somos, é na amizade que crescemos, é na partilha que nos reconhecemos.

Por isso, no fim de contas, aquilo que procuramos não é muito diferente daquilo que encontramos nestas noites: proximidade, reconhecimento, amizade e pertença. Talvez seja por isso que estas festas continuam a atravessar gerações e a dizer-nos tanto, recordando-nos, de forma simples e despretensiosa, aquilo que nunca deixamos de ser: seres relacionais.

7.6.26

VAI TER CONTIGO

   

 Já aqui falei das feridas emocionais que todos carregamos com maior ou menor peso e com consciência ou não delas. Este vídeo é a simbologia perfeita, ou seja, muitas dificuldades da vida adulta não resultam apenas dos acontecimentos presentes, mas de experiências que tivemos de rejeição, abandono, humilhação ou desvalorização.

E a cura não chega pela desvalorização do passado! A mensagem não é "torna-te noutra pessoa"! Não é abandonar o eu ferido e substituí-lo por uma versão mais forte e mais confiante. A mulher adulta no final do vídeo não venceu a criança que foi: ela levou-a consigo. E basta esta nuance para mudar tudo.

É que a mudança não se faz através da rejeição, mas sim da sua integração. A criança assustada, envergonhada ou carente não desaparece. O que desaparece é o conflito interno entre essa parte e o adulto. A pessoa deixa de gastar energia a fugir de si e da sua história.

Por isso, a mulher no palco não representa alguém que se transformou noutra pessoa. A cura não acontece quando nos tornamos em alguém diferente; acontece quando deixamos de lutar contra partes de nós mesmos. O objetivo não é criar um novo eu, um novo self, mas recuperar a continuidade entre a criança que sofreu e o adulto que existe hoje, que somos nós!

A mulher adulta a cantar não é o resultado de uma transformação mas sim de uma reconciliação.
Não é uma nova pessoa que surge no palco; é a mesma pessoa, finalmente inteira. A reconciliação tem de ser connosco mesmos, não com os outros, não com as situações, não com o passado, até porque não tínhamos capacidade para as perceber: "apenas" magoaram.

A voz que ouvimos no final é a mesma que talvez tenha sido silenciada no passado. A mensagem é que a cura não passa por ser outra pessoa. Passa por aceitar e cuidar das partes de nós que ficaram magoadas. A mulher no palco mostra alguém que fez as pazes com o seu passado e agora consegue viver e expressar-se de forma mais livre e autêntica. Não mudou quem é: encontrou-se a si própria.


 

23.5.26

DO ABRAÇO

 

Há uma pobreza afectiva silenciosa a crescer no mundo. Ao lembrar o Dia Mundial do Abraço ontem comemorado, não podia deixar de falar do óbvio que quase todos esquecem: um abraço verdadeiro pode salvar alguém por dentro.

Vemo-nos todos os dias, cruzamo-nos, falamos, sorrimos por educação, mas continuamos cada vez mais distantes, como se sentir demasiado fosse uma fraqueza e como se precisar do Outro fosse um defeito de carácter.

Criou-se a glorificação absurda da autossuficiência, do “eu resolvo sozinho”, do “não preciso de ninguém”, quando, na verdade, o ser humano nunca foi feito para sobreviver emocionalmente isolado. Somos, por natureza, seres relacionais.

E, sim, um abraço pode salvar alguém. Não é metáfora. Não é romantização barata. O toque, o afecto, a presença, o sentir-se ouvido e acolhido, são necessidades humanas básicas. Tão básicas como respirar tranquilidade, dormir em paz ou ter um lugar seguro onde pousar a alma quando a vida começa a pesar demais. E, no entanto, quantas pessoas vivem anos inteiros sem um abraço demorado, sem um desabafo sincero, sem um momento em que possam baixar as armas emocionais que transportam diariamente?

Vivemos numa sociedade psicótica e funcionalmente cansada. Gente aparentemente forte, socialmente ajustada, profissionalmente competente, mas emocionalmente exausta. Pessoas que desaprenderam o toque, o silêncio partilhado, a intimidade simples de estar ali para alguém sem precisar de resolver nada.

Porque, muitas vezes, o que cura não é a solução; é a presença.

Um abraço cura porque interrompe, ainda que por instantes, a solidão interior. Um sorriso cura porque devolve humanidade a quem já começava a sentir-se invisível. Um “estou aqui” dito com verdade pode impedir alguém de cair mais fundo no abismo silencioso onde tantos vivem sem o admitir.

Há dores que não desaparecem com palavras sofisticadas, mas aliviam quando alguém nos segura emocionalmente sem julgamento, sem pressa, sem distância. E talvez uma das grandes tragédias modernas seja esta incapacidade de demonstrar afecto sem suspeita, sem medo, sem vergonha.

Há pessoas famintas de proximidade que preferem morrer lentamente na sua própria rigidez emocional a admitir que precisam de colo, de compreensão, de escuta, de ternura.
Transformaram a contenção emocional numa estética de força, quando muitas vezes não passa de medo de vulnerabilidade.

Mas ninguém se constrói sozinho. Ninguém atravessa verdadeiramente a vida sem necessitar de amparo. Até os mais fortes carregam zonas partidas, fragilidades escondidas, cansaços que nunca verbalizam. E não há nada de indigno nisso. O que nos desumaniza não é a fragilidade; é fingir permanentemente que ela não existe.

Claro que um abraço não substitui ajuda especializada quando o sofrimento se torna profundo, persistente e incapacitante. Há dores que precisam de acompanhamento clínico, terapêutico, técnico. Mas isso não invalida a importância imensa dos afectos simples. Um amigo que escuta. Um desconhecido que acolhe. Uma conversa inesperada num café, numa viagem, numa sala de espera. Às vezes, basta alguém que nos permita existir sem máscaras durante alguns minutos para sentirmos novamente o ar entrar nos pulmões da alma.

Abraçar verdadeiramente não é tocar de passagem. Não é um gesto automático, socialmente programado e vazio. Um abraço verdadeiro demora-se. Tem silêncio dentro. Tem escuta. Tem entrega. É um encontro de fragilidades que, por instantes, se reconhecem mutuamente sem precisar de explicações.

E talvez seja precisamente isso que mais falta faz hoje: humanidade sem defesas permanentes. Pessoas capazes de sentir sem ironia, de cuidar sem cálculo, de amar sem medo de parecer frágeis. Porque a frieza pode impressionar, mas nunca cura ninguém.

Precisamos mais uns dos outros do que temos coragem de admitir. E talvez crescer seja precisamente isto: perceber que a força não está em resistir sozinho a tudo, mas em saber quando é tempo de parar, aproximar-se e dizer simplesmente: “fica aqui mais um pouco.”

Porque no fim, não será a duração da vida que nos definirá, mas a profundidade com que fomos capazes de a sentir, partilhar e humanizar.

E só quando mostramos a nossa vulnerabilidade, somos verdadeiramente fortes!

17.5.26

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA...


A propósito do dia de hoje, dizer desde logo que o Amor não tem sexo.

Dito isto, e para salvaguardar o direito de todos a amar - e só dizer isto já é repulsivo, como se alguns fossem apenas meio humanos sem poderem ter coração - a ONU e o Parlamento Europeu assinalaram o o dia de hoje, 17 de Maio, como o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia.

Esclareçamos já rapidamente as diferenças que são muito mais simples do que parecem.

Homossexualidade é a orientação sexual de uma pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas do mesmo género (homossexualidade masculina ou feminina).

Logo, HOMOFOBIA é a discriminação ou hostilidade contra pessoas homossexuais ou contra a homossexualidade. É o preconceito contra quem a pessoa ama.

TRANSFOBIA é quando uma pessoa cuja identidade de género não corresponde ao sexo com que nasceu. Alguém nasceu como rapaz, mas identifica-se como rapariga (a que se dá o nome de mulher trans); alguém nasceu rapariga, mas identifica-se como homem: homem trans.

Nada tem a ver com sexo mas sim com IDENTIDADE e, por isso, uma pessoa trans pode ser heterossexual, homossexual, ou bissexual.

Logo, transfobia é o preconceito contra quem a pessoa É, ao contrário da homofobia em que, como digo atrás, é a discriminação contra quem a pessoa AMA!

A ONU incluiu também neste dia, 17 de Maio, a BIFOBIA, que é o mesmo que homossexualidade mas contra pessoas bissexuais.

Então, hoje que é o tal dia contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o que dizer?

Não sei lidar com o absurdo, mas se existe, que posso eu fazer senão veementemente condená-lo, pelo menos neste contexto!?

Século XXI: como é que ainda há pessoas perseguidas, humilhadas e destruídas apenas por amarem alguém do mesmo sexo!?

Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta.

Aliás, um adulto que faz reparos ou outras manifestações homofóbicas; que reage com violência, repulsa e agressividade, internamente é uma pessoa muitíssimo mal resolvida para se incomodar tanto com a vida amorosa dos outros! Poder-se-á, inclusive, ver nisso, um sentido frágil da sua masculinidade ou da própria sexualidade.

E o mais absurdo é que a homossexualidade precisou sempre tanto de cura como a heterossexualidade. É o problema do normativismo. Neste caso, do heteronormativo heterossexual.

É o mesmo que falar em seres humanos. E depois haver seres humanos de cor branca, preta, amarela, o que for! Em que diminui ou acrescenta o quê, a raça, etnia, cor de pele?

Traçando um paralelismo com a homofobia, transfobia e bifobia, em ambos os casos é como se fossem dois ovos, um branco outro escuro - aliás, até há ovos de cor azul -, mas por dentro SÃO TODOS IGUAIS.

Somos fruto de uma cultura, mas também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que, levado ao extremo, conduz à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Apesar disto, milhares de jovens foram submetidos às chamadas “terapias de conversão” - uma das formas mais violentas de crueldade psicológica, onde se tenta "transformar" uma pessoa - naquilo que intrínseca e estruturalmente não é -, no que queremos que seja!

É o exemplo de se querer transformar uma pessoa homossexual em heterossexual. Isto sim, é contra natura!

Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua IDENTIDADE e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial.

E tantos são os que o fazem, precisamente pelas atitudes de marginalização e discriminação, individuais e coletivas, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar quem são!

E isto traz-nos diretamente a este dia promulgado pela ONU, porque o problema começa logo na marginalização, e não na ajuda à aceitação.

E também não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso.
Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência coletiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime.

Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género com que nascemos, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior, rejeitar as diferenças do e no Outro!

Pelo contrário, devemos aceitá-lo, tal como aceitamos vizinhos de outras nacionalidades, por exemplo! Tal como aceitamos que somos altos ou baixos. Tal como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem a dignidade de seres humanos.

É que, juridicamente, os escravos eram coisas, logo, podiam ser transaccionados, comprados e vendidos, porque não eram entendidos como pessoas, não podiam ter vontade própria.

A homossexualidade existe na prática, como uma espécie de escravatura democrática, onde o escravo é quem simplesmente é, e a democracia a aceitação social tácita do preconceito, convertendo, assim, o que é natural numa pessoa, numa anomalia, num tumor existencial para o próprio e tumor tout court para a sociedade.

E foi notícia recente, o corajoso exemplo de Miguel Salazar - e que foi divulgado pela comunicação social - ao relatar todo o sofrimento induzido pela mãe desde criança, incluindo terapias de conversão, sendo a progenitora (mãe é outra coisa) Helena Costa, uma deputada do Chega, evangélica e autora de livros apologéticos destas enormidades.

Isto traduz-se em jovens ensinados a odiar-se. A sentir vergonha do próprio corpo, dos próprios afectos, da própria existência. Jovens tratados como doentes por aquilo que eram (são) naturalmente.

Disseram-lhes que estavam errados. Que eram uma vergonha. Que tinham de mudar para merecer amor, respeito ou aceitação. E há algo profundamente monstruoso numa sociedade que prefere destruir um jovem a aceitar que ele é diferente.

A homossexualidade não impede ninguém de amar, trabalhar, criar, cuidar ou viver com dignidade.
O que destrói vidas não é a orientação sexual.
É o preconceito. É a exclusão. É o bullying. É o silêncio das famílias. É a violência disfarçada de moralidade.

E o preconceito é a defesa ignorante do que não conhecemos e/ou não aceitamos.

E talvez a maior tragédia seja esta: pessoas que passa(r)am a vida inteira a pedir desculpa por existirem.

Mas o problema nunca esteve nem está na diferença. O problema esteve e estará sempre na incapacidade de olhar para o Outro, e de o reconhecer como igual em dignidade humana.

Há preconceitos que matam fisicamente. Outros matam devagar: na solidão, na vergonha, no medo e na rejeição.

E quando um jovem cresce convencido de que aquilo que sente é um erro, não estamos perante educação, evangelistas ou valores. Estamos perante violência.

Como digo logo no início, o amor não tem sexo, e todas as pessoas que, infelizmente, precisam de um dia Contra a Homofobia... de facto e, infelizmente, precisam para lembrar à sociedade que têm os mesmíssimos direitos do que quaisquer outros!

A coisa é tão grave e violenta, que qualquer pessoa que fuja à ilusória normalidade, - a heteronormatividade neste caso - (mas o que é normal para uma aranha é o terror e a morte para uma mosca...) -, acabam por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz.

E, no mundo dos afectos, não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente na liberdade de ser ele mesmo.

Todos devemos ao nosso semelhante, uma vénia de reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a sua própria humanidade.


O senso comum acrítico, que é o senso comum das multidões, é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra!