A desigualdade é um preconceito, tal como tudo o que ostraciza em função de uma ideologia pessoal e coletiva, acrítica e seriamente danosa.
Começa na dignidade da pessoa humana, efetivando-se também nas causas, nos direitos e na falta de respeito pelos valores alheios.
Foi, aliás, precisamente por isto que, a 8 de março de 1857, as operárias de uma fábrica de tecidos em Nova Iorque tiveram a coragem de se opor e fazer uma grande greve, ocupando a fábrica para reivindicar melhores condições de trabalho, nomeadamente a equiparação de salários com os homens.
O desfecho foi horrendo: a manifestação foi reprimida com tal violência que as trancaram dentro da fábrica, posteriormente incendiada, tendo morrido cerca de 130 tecelãs carbonizadas.
Mas podia ter sido apenas uma, que o drama não diminuía.
É esta a poesia que hoje celebramos. E, em 1975, a data foi oficializada pela ONU, precisamente como homenagem a estas mulheres e à sua luta, estendendo-a a todas as mulheres.
Celebramos, então, o Dia da Mulher.
Mas há tanto para dizer sobre o que é ser Mulher.
Uma alma guerreira que nada deve ao género masculino, sem, por isso, deixar de ser uma referência humana.
E aqui há que tocar também na forma como muitas reivindicam, legitimamente, mas insensatamente, o seu papel de mulher.
Porque nem todas são Mulheres, caindo em extremismos de afirmação, ou em altivez de condição social ou soberba intelectual.
Mas estas, as Mulheres que não vão por aí, têm a resiliência que falta a tantos, que passa também pela atitude compassiva que muitos homens, na sua arrogância e altivez, desprezam.
No entanto, são igualmente delicadas, como se não tivessem enterrado as mãos na terra.
Como se não lutassem e sofressem, sem que nada ou ninguém pareça fazer jus a uma tal luta interior e social.
Mas o sentido de justiça não nos deve tornar justiceiros, nem impiedosos, nem o contrário do que é suposto reivindicar.
É por isso que, a quem é verdadeiramente Mulher, não se instaura no seu espírito, de forma definitiva, nem o desprezo nem a raiva da generalização.
Uma verdadeira Mulher sabe acolher com o perfume do amor e a suavidade da generosidade.
Precisamente por conhecer aquilo com que o próprio Homem e a vida as esbofeteiam, tendo-as deixado nas cinzas do abandono e da solidão.
Caso contrário, seriam muito mais parecidas com os homens.
Aqueles que não sabem ser Homem.
Que são instintivamente brutos, insensíveis, olho por olho, dente por dente.
Que têm uma superioridade doentia, a abarrotar de complexos de masculinidade pelas suas atitudes — ou pela falta delas — revelando, paradoxalmente, uma masculinidade frágil.
E quantos homens foram, por este exemplo de Mulheres que conseguem ser firmes mas suaves, convertidos ao que é ser Pessoa.
E isto não é para todos.
Nem para tudo o que é do sexo feminino.
A Mulher é uma espécie de contrapeso na temperatura da Humanidade.
Sabe vestir-se com o dom da oblação e da partilha, da sensualidade e da retidão de sentimentos, de agradecimento a si mesma, à vida e a quem sabe que lhe quer bem.
Sabe dançar e pisar o tapete vermelho das suas próprias glórias sem que, por isso, cobre nada do que faz, ou sequer ostente o seu dorido troféu.
É o domínio de si mesma.
O conhecimento de si e das imperfeições.
É o espelho da sua própria liberdade interior.
A liberdade que só o é quando se reclama o que é seu por direito e nunca por tolerância. Que, sendo humana, se mantém, porém, firme.
Depois há as outras: as ruidosas, as que são mais reivindicativas do que lutadoras e que se consideram um exclusivo onde só legitimam o que querem.
É por isso que não conhecem, nem sabem,
o que é a elegância da alma, da formação humana, eventualmente camuflada em títulos académicos.
Não sabem o que é a dor ou o sofrimento.
O que é pôr as mãos na lama das adversidades.
Mas uma Mulher, uma Mulher de verdade, mesmo injustiçada nos pântanos sociais -tantas vezes travestidos em falácias - não deixa, por isso, de saber ser Pessoa.
E é isto que lhe dá autoridade:
não o contínuo vociferar em estéreis ruídos que também escondem maledicência.
E, claro, há que falar da hercúlea polivalência da Mulher no quotidiano real, e não em meras considerações filosóficas.
É que, ao contrário dos homens, preocupam-se menos com considerandos e egos, e mais com o pragmatismo e os afetos.
E, só por isso, são já uma lição para tantos.
E esta dupla qualidade
não é qualquer pessoa que a tem.
Tem-na quem possui a inteligência do coração.
A bravura da alma, não dos punhos ou do vociferar, qual criança birrenta e mimada por si mesma.
A sapiência de que nem tudo é oito ou oitenta.
De que muitas coisas não invalidam outras.
O sentido da retidão e da Justiça, combinados com a grandeza da alma e uma contínua lição de Amor.
Sim. Porque o Amor é exigente.
Exige, antes de tudo, respeito por si mesmo.
Mais: não se comparam nem invejam quem quer que seja, porque sabem que a responsabilidade é sempre individual na condução da vida.
Este calibre de pessoas de que tenho vindo a falar não existe apenas por se ser da condição feminina.
Existe naquelas que verdadeiramente
sabem o que é ser Mulher.
E, só por isso, são já uma lição
para tantos homens.
A firmeza simples de Ser,
sem submissão nem medo,
mas também de se saber dar como Pessoa.









