12.3.09

MOSTRA-ME O TEU ROSTO


Vergonhosamente ainda não tinha dado os meus resultados do desafio que aceitei e transmiti a outros tantos das três mentiras. Houve quem escrevesse as 9 verdades escusando-se às mentiras (achei bem); houve quem achasse estes jogos uma parvoíce (não concordo, mas respeito, obviamente); enfim, houve também muita gente não apenas a aceitá-lo como a transmiti-lo a mais gente. Há uma série infindável deste tipo de coisas na net (alguns mais giros e interessantes que outros), e penso que ludicamente nos aproximamos mais uns dos outros.

Assim, despacho já esta parte:

Nunca dancei em cima de colunas numa discoteca - Mentira: dancei diversas vezes em discotecas diferentes em cima de colunas. Se vou a uma discoteca é para me embrenhar no ritmo efusivo da música, e se gostar mesmo do que está a passar, lá deixo o copo de cola e é all night long. Amigos? Não se fala numa discoteca sem que se dance. Uma vez colocaram uma música que vibrou de tal maneira comigo que, como nao costumo estar a olhar para quem está na pista e me abstraio, dançando, iniciei o ritmo em tom bolero (de um crescendo musical que eu acompanhava com o corpo). Quando dei por mim, quase quase no final da música, apercebi-me de uma espécie de roda, de cerco, e o meu espaço era razoável numa discoteca apinhada e pequena. As pessoas tinham-se retirado lentamente ante os meus movimentos efusivos mas nao como quem faz show off. Oh, ha tantos que se meneiam de forma patetica. Nao estou a dizer que danço bem ou mal, mas que apenas me embrenhei de tal forma que depois fui contendo o ritmo como se nada tivesse acontecido permitindo espaço e indo lentamente para um canto enquanto dançava... (obviamente nessa altura nao estava em cima de coluna nenhuma; foi apenas para dizer que a musica é para dançar) Mesmo que vá só. Da mesma maneira que aprecio música sacra, clássica, instrumental e nesses momentos quase visualizo montanhas brancas, mundos diferentes, e o espirito se eleva, e como que meneamos a cabeça ao som de oboés, violinos e pianos (é instintivo porque se sente) também aqui existe a respectiva correspondência.

Adoro wrestling: Mentira. O único desporto que gosto e mesmo assim apenas pelo prazer de jogar, de segurar a bola o maior tempo possivel, sem olhar necessariamente às regras ou se tocou na rede, é o ténis. Infelizmente sem pares; as pessoas só gostam da praia... o que é desgraçado para mim, porque se eu gostasse de praia todo o verao seria diferente. Bem, assim tambem é, mas com poucas pessoas disponiveis, levando-me a viajar sozinho, ir ao cinema sozinho, enfim, um perfeito calimero, que nao lamenta porque o silêncio (nao a solidão) faz muitissimo bem e conhecemo-nos melhor do que se estivermos sempre a divertir-nos. Gosto do mar. Não da praia.

Por último também é mentira adorar lasanha. Come-se, mas por qualquer rejeição - talvez por associaçao a cogumelos - que apenas o cheiro me dá náuseas (e se eu adorava cogumelos) fui comendo cada vez menos lasanha e colocando-a inconscientemente no mesmo menu negro de indegustáveis, como os cogumelos.

Mas agora que isto está dito (para nao deixar eu mesmo de cumprir a minha parte do jogo), queria falar de outra coisa.

Estava a ver alguns blogues (não costumo ir apenas aos blogues que mais frequento; gosto da maior diversidade possivel, desde que exista um minimo de identificaçao com os blogues em causa, obviamente, mas aqueles blogues de humor que quase só têm "seguidores" dentro do mesmo estilo, ou de poesia (muitos deles sublimes e inenarráveis) mas que só pendem por aí, ou aqueles que são um quadradinho da existência do próprio onde se escreve uma frase enigmática e quem quiser que adivinhe, sem esquecer os posts dedicados a pessoas que apenas os próprios conhecem (quando em demasia deixa de fazer sentido), penso que os blogues devem ser aquilo que nós queremos, obviamente, mas sem deixar de mostrar um pouco de nós. E ao falarmos de muitas coisas, estamos também a falar de nós. São mais inteligentes as perguntas do que as respostas. Porque a pergunta obriga a caminhos mentais que nos levam nesta ou naquela direcção, e tão mais conseguimos a resposta que pretendemos quanto melhor for feita a pergunta. Não baste perguntar: há que saber perguntar. E da perspicácia da pergunta reside a eficácia da resposta.

Nos blogues, os seus autores partilham um pouco da sua vida. Enigmaticamente, anonimamente, falando de coisas comesinhas e importantes, mas sempre sem que tenhamos a password para aceder ao "real". Não é que seja necessario expor-nos, como quando se faz num diário íntimo, mas hoje os blogues são os antigos diários. Só alguns decifrarão muita coisa, mas porque não também deixar outra tanta de forma clara? Felzimente isso também acontece em muitos blogues onde os seus autores fazem perguntas muito simples e directas sobre o que achamos em relação à situaçao pessoal que colocam- e isso revela humildade - (sejamos quem for que estejamos a ler), e os comentários tornam-se diálogos em diferido. Mas tenho para mim que um blogue não deve ser apenas para os que mais conhecemos ou seguimos, porque para isso nao seria necessário criar um. No hi5 as coisas sao diferentes ou facebook ou... mas aqui existe muito de quem faz o blogue (muitos limitam-se a inventar personagens em lindíssimas histórias romanescas que fazem alguns perguntar se aquilo se passou mesmo ou se é apenas ficção). Penso que uma coisa não invalida a outra.

Gosto dos blogues em que tanto se fala da dor que foi aquele dia de solidão, como da euforia de estar com amigos, como de lançarem reptos a outros ou falarem de assuntos da actualidade, ou partilharem videos ou... Esses para mim, desculpem-me todos, são os mais completos. E nao estou a falar do meu que ainda é um bebé de quase 3 meses e a linha orientadora do meu blogue nao obedece necessariamente a um padrão. Isso é redutor.

E agora que já fui prolixo demais neste intróito inesperado, queria partilhar o seguinte:

Estava eu a ver um blogue, (ontem) e o autor, do blogue "Do You Believe in Angels" decidiu parafrasear Fernando Pessoa e escrever assim: "Tenho em mim... todos os sonhos do mundo" e ilustrou o pensamento com uma foto sua em tamanho nao negligenciável e em close-up. Tão só.

Apressei-me a deixar este comentario: "Queria dar-te os PARABÉNS!. Gosto de pessoas reais mesmo quando na net. O mundo virtual nao é SÓ digital: tem uma pessoa por trás. Mas as pessoas teimam no anonimato (até do nome, quanto mais do rosto).Parabéns por teres mostrado o teu rosto. E com ele dizeres que legitimamente ambicionas todos os sonhos do mundo"...

Este é, então, o meu repto. Que com um pouco de boa vontade (acho que nao é preciso coragem) todos punhamos num post, apenas a nossa foto que pode ficar ilustrada com um pensamento nosso ou de outrém, como fez o DoYou Believe In Angels. Não porque o rosto seja feio ou bonito ou porque nao faziamos ideia de como era a pessoa, mas precisamente para nao se fazerem ideias e podermos "incorporar" no nosso padrão de visualização do blogue, não apenas o mundo interior da pessoa mas também o corpo, a cara que transporta na vida. Se alguém invocar ser feio, sem graça ou o que for, respondo que devemos gostar de nós nao gostando sempre de nós. Ou seja, nao basta aceitar o que se é, mas aprender a gostar do que se é. Da mesma maneira que deve haver uma gestão emocional, deve tambem existir uma gestão da nossa relação com o corpo. É que cada um de nós nao tem corpo. É corpo. Sem o corpo biológico ninguem pode ser feliz. E temos de aprender a viver com o corpo sem ser segundo a grelha da leitura estética do tempo em que vivemos. O corpo é outra linguagem; está sempre a falar. Também não é por acaso que somatizamos. Somos um todo. Por isso diria isto: nao ha corpo e alma. Há corpo animado. Não ha afecto sem corpo. Nem o corpo é algo para se comparar, porque o ideal de beleza depende da fase da vida e do nosso próprio padrão.

Poderão dizer que não tem a ver com a imagem mas sim com um resguardar na net. Eu penso que, quem ainda pensa assim (a menos que tenha problemas com a justiça ou contas com alguém, ou profira ofensas gratuitamente no blogue), quem pensa assim é como se pensava antigamente dos comunistas que comiam criancinhas ao pequeno almoço. A net não é a rampa de lançamento para ser morto naquela esquina. Os fazedores do mal têm vitimas definidas e propósitos concretos. Claro que têm toda a legitimidade de não se exporem, nem o rosto, a voz ou a vida particular (naquilo que entenderam que devem, obviamente), mas a blogosfera fica francamente mais pobre com pessoas que se lêem umas às outras sem saberem se elas mesmas não serão sociopatas e, claro, sem lhes conhecermos o rosto ;) Por isso, eu não vou colocar nenhuma foto minha neste post porque já tenho bastantes aí na barra ao lado, mas pelo menos também nunca ninguem fez uma ideia de mim. Eu penso que é perfeitamente compatível darmos a conhecer o nosso rosto. E tornar as ferramentas informáticas ao nosso alcance, não apenas uma forma de nos expressarmos, de nos sentirmos animados por amigos virtuais, de catarticamente vivermos melhor suavizando as coisas, de termos um ombro digital que leva com as nossas apreensões, receios, medos, triunfos e glórias, mas também de fazermos tudo isso com rosto.

Nós também somos rosto, e se por vezes partilhamos tanto indo ao fundo da alma, é estranho ser o anonimato o outro lado dessa revelação. Há casos e casos, claro. Fica o repto. Achei gira a ideia concretizada ali, no blogue, e fiquei inspirado para vos desafiar a fazer o mesmo. Para quê? Para consubstanciar melhor a partilha... :)