A propósito do dia de hoje, dizer desde logo que o Amor não tem sexo.
Dito isto, e para salvaguardar o direito de todos a amar - e só dizer isto já é repulsivo, como se alguns fossem apenas meio humanos sem poderem ter coração - a ONU e o Parlamento Europeu assinalaram o o dia de hoje, 17 de Maio, como o Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia.
Esclareçamos já rapidamente as diferenças que são muito mais simples do que parecem.
Homossexualidade é a orientação sexual de uma pessoa que sente atração afetiva e/ou sexual por pessoas do mesmo género (homossexualidade masculina ou feminina).
Logo, HOMOFOBIA é a discriminação ou hostilidade contra pessoas homossexuais ou contra a homossexualidade. É o preconceito contra quem a pessoa ama.
TRANSFOBIA é quando uma pessoa cuja identidade de género não corresponde ao sexo com que nasceu. Alguém nasceu como rapaz, mas identifica-se como rapariga (a que se dá o nome de mulher trans); alguém nasceu rapariga, mas identifica-se como homem: homem trans.
Nada tem a ver com sexo mas sim com IDENTIDADE e, por isso, uma pessoa trans pode ser heterossexual, homossexual, ou bissexual.
Logo, transfobia é o preconceito contra quem a pessoa É, ao contrário da homofobia em que, como digo atrás, é a discriminação contra quem a pessoa AMA!
A ONU incluiu também neste dia, 17 de Maio, a BIFOBIA, que é o mesmo que homossexualidade mas contra pessoas bissexuais.
Então, hoje que é o tal dia contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, o que dizer?
Não sei lidar com o absurdo, mas se existe, que posso eu fazer senão veementemente condená-lo, pelo menos neste contexto!?
Século XXI: como é que ainda há pessoas perseguidas, humilhadas e destruídas apenas por amarem alguém do mesmo sexo!?
Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta.
Aliás, um adulto que faz reparos ou outras manifestações homofóbicas; que reage com violência, repulsa e agressividade, internamente é uma pessoa muitíssimo mal resolvida para se incomodar tanto com a vida amorosa dos outros! Poder-se-á, inclusive, ver nisso, um sentido frágil da sua masculinidade ou da própria sexualidade.
E o mais absurdo é que a homossexualidade precisou sempre tanto de cura como a heterossexualidade. É o problema do normativismo. Neste caso, do heteronormativo heterossexual.
É o mesmo que falar em seres humanos. E depois haver seres humanos de cor branca, preta, amarela, o que for! Em que diminui ou acrescenta o quê, a raça, etnia, cor de pele?
Traçando um paralelismo com a homofobia, transfobia e bifobia, em ambos os casos é como se fossem dois ovos, um branco outro escuro - aliás, até há ovos de cor azul -, mas por dentro SÃO TODOS IGUAIS.
Somos fruto de uma cultura, mas também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.
O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que, levado ao extremo, conduz à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.
Apesar disto, milhares de jovens foram submetidos às chamadas “terapias de conversão” - uma das formas mais violentas de crueldade psicológica, onde se tenta "transformar" uma pessoa - naquilo que intrínseca e estruturalmente não é -, no que queremos que seja!
É o exemplo de se querer transformar uma pessoa homossexual em heterossexual. Isto sim, é contra natura!
Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua IDENTIDADE e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial.
E tantos são os que o fazem, precisamente pelas atitudes de marginalização e discriminação, individuais e coletivas, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar quem são!
E isto traz-nos diretamente a este dia promulgado pela ONU, porque o problema começa logo na marginalização, e não na ajuda à aceitação.
E também não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso.
Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência coletiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime.
Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género com que nascemos, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior, rejeitar as diferenças do e no Outro!
Pelo contrário, devemos aceitá-lo, tal como aceitamos vizinhos de outras nacionalidades, por exemplo! Tal como aceitamos que somos altos ou baixos. Tal como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem a dignidade de seres humanos.
É que, juridicamente, os escravos eram coisas, logo, podiam ser transaccionados, comprados e vendidos, porque não eram entendidos como pessoas, não podiam ter vontade própria.
A homossexualidade existe na prática, como uma espécie de escravatura democrática, onde o escravo é quem simplesmente é, e a democracia a aceitação social tácita do preconceito, convertendo, assim, o que é natural numa pessoa, numa anomalia, num tumor existencial para o próprio e tumor tout court para a sociedade.
E foi notícia recente, o corajoso exemplo de Miguel Salazar - e que foi divulgado pela comunicação social - ao relatar todo o sofrimento induzido pela mãe desde criança, incluindo terapias de conversão, sendo a progenitora (mãe é outra coisa) Helena Costa, uma deputada do Chega, evangélica e autora de livros apologéticos destas enormidades.
Isto traduz-se em jovens ensinados a odiar-se. A sentir vergonha do próprio corpo, dos próprios afectos, da própria existência. Jovens tratados como doentes por aquilo que eram (são) naturalmente.
Disseram-lhes que estavam errados. Que eram uma vergonha. Que tinham de mudar para merecer amor, respeito ou aceitação. E há algo profundamente monstruoso numa sociedade que prefere destruir um jovem a aceitar que ele é diferente.
A homossexualidade não impede ninguém de amar, trabalhar, criar, cuidar ou viver com dignidade.
O que destrói vidas não é a orientação sexual.
É o preconceito. É a exclusão. É o bullying. É o silêncio das famílias. É a violência disfarçada de moralidade.
E o preconceito é a defesa ignorante do que não conhecemos e/ou não aceitamos.
E talvez a maior tragédia seja esta: pessoas que passa(r)am a vida inteira a pedir desculpa por existirem.
Mas o problema nunca esteve nem está na diferença. O problema esteve e estará sempre na incapacidade de olhar para o Outro, e de o reconhecer como igual em dignidade humana.
Há preconceitos que matam fisicamente. Outros matam devagar: na solidão, na vergonha, no medo e na rejeição.
E quando um jovem cresce convencido de que aquilo que sente é um erro, não estamos perante educação, evangelistas ou valores. Estamos perante violência.
Como digo logo no início, o amor não tem sexo, e todas as pessoas que, infelizmente, precisam de um dia Contra a Homofobia... de facto e, infelizmente, precisam para lembrar à sociedade que têm os mesmíssimos direitos do que quaisquer outros!
A coisa é tão grave e violenta, que qualquer pessoa que fuja à ilusória normalidade, - a heteronormatividade neste caso - (mas o que é normal para uma aranha é o terror e a morte para uma mosca...) -, acabam por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz.
E, no mundo dos afectos, não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente na liberdade de ser ele mesmo.
Todos devemos ao nosso semelhante, uma vénia de reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a sua própria humanidade.
O senso comum acrítico, que é o senso comum das multidões, é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra!
