7.6.26

VAI TER CONTIGO

   

 Já aqui falei das feridas emocionais que todos carregamos com maior ou menor peso e com consciência ou não delas. Este vídeo é a simbologia perfeita, ou seja, muitas dificuldades da vida adulta não resultam apenas dos acontecimentos presentes, mas de experiências que tivemos de rejeição, abandono, humilhação ou desvalorização.

E a cura não chega pela desvalorização do passado! A mensagem não é "torna-te noutra pessoa"! Não é abandonar o eu ferido e substituí-lo por uma versão mais forte e mais confiante. A mulher adulta no final do vídeo não venceu a criança que foi: ela levou-a consigo. E basta esta nuance para mudar tudo.

É que a mudança não se faz através da rejeição, mas sim da sua integração. A criança assustada, envergonhada ou carente não desaparece. O que desaparece é o conflito interno entre essa parte e o adulto. A pessoa deixa de gastar energia a fugir de si e da sua história.

Por isso, a mulher no palco não representa alguém que se transformou noutra pessoa. A cura não acontece quando nos tornamos em alguém diferente; acontece quando deixamos de lutar contra partes de nós mesmos. O objetivo não é criar um novo eu, um novo self, mas recuperar a continuidade entre a criança que sofreu e o adulto que existe hoje, que somos nós!

A mulher adulta a cantar não é o resultado de uma transformação mas sim de uma reconciliação.
Não é uma nova pessoa que surge no palco; é a mesma pessoa, finalmente inteira. A reconciliação tem de ser connosco mesmos, não com os outros, não com as situações, não com o passado, até porque não tínhamos capacidade para as perceber: "apenas" magoaram.

A voz que ouvimos no final é a mesma que talvez tenha sido silenciada no passado. A mensagem é que a cura não passa por ser outra pessoa. Passa por aceitar e cuidar das partes de nós que ficaram magoadas. A mulher no palco mostra alguém que fez as pazes com o seu passado e agora consegue viver e expressar-se de forma mais livre e autêntica. Não mudou quem é: encontrou-se a si própria.