E talvez ser jovem tenha menos que ver com a idade do que com uma coisa muito mais difícil de conservar: o carácter.
Ser jovem deveria ser poder experimentar, errar, discordar, descobrir quem somos e construir uma consciência própria, mas sem substituir demasiado cedo a justiça pela conveniência, a verdade pela simpatia social ou o carácter pela necessidade de agradar.
Porque também há jovens que aprendem rapidamente a ser cruéis, arrogantes e oportunistas, sobretudo quando percebem que isso lhes facilita a vida. E há adultos que, tendo conquistado autonomia, passam a usar essa liberdade para apagar quem foram ou para fazer pagar aos outros aquilo que um dia não puderam ser.
É aí que amadurecer deixa de ser apenas envelhecer.
É preciso olhar para quem fomos sem o apagar, e sem transformar o passado numa retaliação. Faz parte de nós. E só integrando aquilo que fomos podemos perceber aquilo que ainda precisamos de mudar.
Lembro-me de, adolescente, trabalhar nas férias num condomínio, fazendo de tudo um pouco. Um dia, uma moradora entrou no elevador e disse-me:
- O senhor não devia estar neste elevador. Existe um monta-cargas para os funcionários.
Respondi, sem hesitar, o que ainda hoje me surpreende agradavelmente, sobretudo por ser naquela idade.
- Minha senhora, não existem pessoas de primeira nem de segunda categoria.
Talvez seja isto que a juventude tem de mais precioso: aquilo que ainda sentimos com clareza antes de aprendermos a relativizar tudo em função da conveniência.
Mas também por isso este dia não deve ser apenas uma celebração abstracta dos jovens. Deve ser uma oportunidade para lhes lembrar que crescer não é ganhar licença para fazer tudo o que queremos.
É ganhar liberdade sem perder consciência e responsabilidade.
E talvez seja essa a verdadeira juventude: não é serem mais novos, mas não abdicarem de ser Pessoa enquanto aprendem a viver.
Sou, por isso, um eterno adolescente: daqueles que querem crescer sem se adulterar.
Porque crescer, para mim, nunca foi deixar de ser quem era. Foi seguir em frente sem precisar de deixar ninguém para trás, incluindo o jovem que fui.
