Seremos mesmo psicológica e mentalmente saudáveis? É que falar de saúde mental cujo dia se celebrou no passado dia 10, não significa falar apenas de depressão, perturbação bipolar, borderline ou esquizofrenia.
Significa também olhar para a forma como pensamos, sentimos e agimos diariamente, muitas vezes por hábito, sem consciência e sem questionarmos os nossos próprios comportamentos.
Porque não basta não termos uma doença para estarmos bem. A saúde mental também se constrói na forma como vivemos, nas relações que mantemos e na capacidade de reconhecermos aquilo que precisamos de mudar em nós.
O problema é este: o autoconhecimento exige autocrítica. Mas será que conseguimos fazer esse exercício quando estamos emocionalmente envolvidos? Será que nos avaliamos com a mesma exigência com que avaliamos os outros? Ou procuramos sobretudo argumentos que confirmem aquilo em que já acreditamos?
Porque é que, às vezes, uma simples crítica consegue ferir mais do que um problema realmente grave? Ou uma discordância se transforma numa batalha, um atraso numa provocação e uma mensagem sem resposta numa prova de que alguém está zangado connosco? E se, em muitos desses momentos, afinal não estivermos a reagir apenas ao que aconteceu, mas também à história que contamos a nós próprios sobre o que aconteceu?
É precisamente aqui que podemos começar a falar de saúde mental.
Quando se fala em gestão do stress, há uma imagem simples que ajuda a compreender melhor: não é apenas o peso de um objeto que temos na mão que conta, mas sim o tempo que levamos a segurar. Quanto mais tempo o mantemos suspenso, mais "pesado" fica, mais difícil se torna segurar e suportar. Com as preocupações acontece exatamente o mesmo. E, por vezes, nem é o peso do problema, mas a importância que lhe damos.
Dou muitas vezes um exemplo conhecido: quando chove, enquanto uns se molham, outros apreciam a chuva. A chuva é a mesma. O que muda é a forma como a vemos, como cada um a vive. A resposta está também, grandemente, não necessariamente na coisa em si, mas na atitude que temos perante ela.
A saúde mental começa também aqui: na forma como pensamos, sentimos, reagimos e encontramos maneiras de lidar com o que não podemos controlar.
E não, ter saúde mental não significa estar sempre bem, não sofrer ou nunca precisar de ajuda. Significa, entre outras coisas, conseguir enfrentar as dificuldades, adaptar-nos às mudanças, manter relações significativas e recuperar quando a vida nos desequilibra. Não é apenas a ausência de doença: é uma parte essencial da nossa capacidade de viver.
Entre o que se passa, um acontecimento, e a nossa reação, há a interpretação. E essa interpretação pode estar certa, mas também pode vir dos nossos medos, inseguranças ou experiências anteriores. Sentir que alguém nos quis magoar não prova, por si só, que essa tenha sido a intenção. Aprender a distinguir factos de suposições é uma forma de cuidarmos de nós e de evitarmos conflitos desnecessários. Como também os mal entendidos. Mas isso requer também sermos verdadeiros e não socialmente corretos.
A inteligência emocional ajuda-nos precisamente nisso: reconhecer o que sentimos, compreender porquê e escolher como reagir. Não é deixar de sentir raiva, ciúmes, tristeza ou medo. É não permitir que essas emoções decidam automaticamente o que fazemos. Podemos estar zangados sem ofender, sentir medo sem fugir de tudo e discordar sem transformar o outro num inimigo.
Também a resistência à frustração conta. Nem tudo acontece quando queremos, nem todos concordam connosco, nem podemos controlar as decisões que não são nossas. A necessidade de ter sempre razão, a dificuldade em aceitar um não ou a convicção de que sabemos tudo podem esconder uma fragilidade que não queremos reconhecer.
Por vezes, diminuímos os outros para nos sentirmos maiores, sem percebermos que estamos a revelar mais sobre nós do que sobre eles.
E é aqui que o autoconhecimento se torna indispensável. Antes de termos a "certeza" de que o problema está nos outros, precisamos de ter a honestidade de nos perguntarmos se estamos a ver as coisas como realmente são e não pelas nossas preferências ou interesses. As nossas crenças não são necessariamente factos, as nossas certezas não são garantias de verdade e a nossa memória não é um registo perfeito do que aconteceu. Precisamos de um grande sentido autocrítico.
É a velha história do seis e do nove: duas pessoas olham para a mesma coisa e veem números diferentes, dependendo da posição em que se encontram. Compreender o lugar do outro, a sua perspetiva, não significa concordar. Significa reconhecer que podemos estar a olhar para a mesma realidade de lugares ou maneiras diferentes.
Nas redes sociais, esta dificuldade é ainda mais notória. Julgamos em segundos, acreditamos em pessoas apenas porque falam com segurança ou têm muitos seguidores. Uma opinião repetida milhares de vezes não se transforma, por isso, num facto. E uma história contada por alguém em quem confiamos não dispensa a necessidade de confrontar o outro. Olha disseram-me isto de ti É verdade? Porque só assim evitamos injustiças e podemos concluir por nós mesmos e não apenas pelo que nos contaram, supostas verdades.
Claro que compararmo-nos com os outros também é tudo menos uma boa ideia. Pelo contrário. Vemos as conquistas dos outros, mas raramente conhecemos as suas dificuldades. Comparamos os bastidores da nossa vida com a montra dos outros e podemos acabar a sentir que somos menos, que temos menos ou que estamos a ficar para trás.
Nas relações, acontece o mesmo. Mantemos amizades por hábito, evitamos conversas honestas para não desagradar e confundimos cordialidade com proximidade. Mas uma relação saudável não exige concordância permanente: exige autenticidade, compreensão de outro ponto de vista e a capacidade de resolver diferenças sem humilhar, manipular ou transformar cada conflito numa batalha. Tácita ou diretamente.
Tudo isto influencia a nossa saúde mental, mas importa não confundir responsabilidade pessoal com culpabilização. O stress contínuo, a solidão, a falta de dinheiro, as pesadas experiências e a falta de apoio desgastam profundamente qualquer pessoa. Dizer que não, é mentir. Tal como é mentir dizer que não se tem problema algum ou que se é autossuficiente. Há sofrimento que não se resolve com pensamento positivo, nem força de vontade ou "tu consegues!".
A ansiedade e a depressão, por exemplo, não são fraquezas de carácter. Quando o sofrimento nos afeta já no nosso dia a dia, desde o sono ao trabalho, as relações ou simplesmente desfrutarmos da vida, procurar ajuda psicológica, farmacológica e/ou ambas, pode ser fundamental. Não precisamos de esperar que tudo se torne insuportável para pedir apoio. Nem sequer é inteligente.
E há muitos antídotos no dia a dia para garantir o nosso equilíbrio: dormir bem, conversar com alguém em quem confiamos, escrever sobre o que sentimos, usar o humor, manter relações que nos fazem bem e ter também tempo para nós. Ler, ouvir música, passear, contemplar o mar, conhecer pessoas ou simplesmente estar sozinhos sem sentir necessidade de preencher cada minuto.
O tempo é um bem precioso, diria mais: um luxo! Mas não basta tê-lo: é preciso saber como o vivemos.
Estar permanentemente disponíveis para tudo e para todos pode deixar-nos sem espaço para perceber o que se passa connosco.
E talvez seja importante alargar esta minha reflexão também para além de nós.
Basta olhar para o mundo atual. Guerras, intolerância, manipulação e sofrimento humano, para percebermos que o progresso tecnológico não garante progresso moral. Temos cada vez mais meios para comunicar, mas continuamos a falhar na compreensão; temos acesso a informação como nunca, mas nem sempre a usamos para pensar melhor. Cada vez mais, aliás, o contrário.
Não podemos atribuir as guerras à saúde mental das populações, nem explicar fenómenos tão complexos por uma única causa. Mas podemos perguntar o que acontece à sociedade quando a indiferença se banaliza, quando os interesses se sobrepõem à dignidade humana e quando deixamos de exigir responsabilidade a quem exerce o poder. É por isso que tanta vez falo na responsabilidade individual e na ausência de valores, porque achamos tudo muito moderno e passamos a viver num relativismo moral tão visível, grande e absurdo, que depois nos queixamos de o mundo estar ao contrário.
Claro que está. Se ninguém se importa com nada e vai atrás da onda, então tudo passa a ser legítimo. O problema não são os senhores da guerra. Somos nós. Os que votam, os que encarreiram por interesse, os que acham que fica mal ir contra a corrente antes que os chamem atrasados. Atrasados somos nós sempre que pensamos assim.
A ambição sem limites, a ausência de empatia e a incapacidade de reconhecer a humanidade do outro, têm consequências que nos ultrapassam. E por isso, a formação humana importa tanto como o conhecimento: ensinar a pensar criticamente, a respeitar, a tolerar a diferença e a assumir responsabilidades é essencial para construirmos uma sociedade muito menos psicótica! E já agora, também pelo nosso exemplo mesmo que riam de nós. Serão essas pessoas que nos interessam!?
A inteligência não garante sabedoria, tal como o sucesso não garante carácter nenhum. E o equilíbrio psicológico, por si só, não torna ninguém moralmente justo. Precisamos também de valores que nos orientem quando o poder, o dinheiro ou o orgulho nos tentam convencer de que tudo é permitido.
No fundo, cuidar da saúde mental é um trabalho contínuo. É aprender a reconhecer as nossas emoções, questionar as nossas certezas, aceitar os nossos limites e compreender melhor quem nos rodeia. É perceber que nem tudo depende de nós, mas que temos responsabilidade pela forma como agimos e tratamos os outros.
E fica uma última pergunta: quando olhamos para nós próprios, vemos quem realmente somos ou apenas a imagem que construímos e aprendemos a defender?
Porque acreditar em nós é importante. Mas termos a coragem de reconhecer quando nos enganamos é igualmente essencial. E talvez a humanidade precise, hoje mais do que nunca, de juntar estas duas capacidades: confiança para avançar e humildade para reconhecermos o erro. De resto, a falta dela, é já, em si, um claro sinal de desequilíbrio emocional.

