
Os espertos são os néscios da condição humana. Usam todas as ferramentas pessoais ao seu dispor para concretizar o mais mesquinho objectivo, e sentem-se grandes por isso. Tanto pode ser a simples desonestidade como o golpe do baú, os ardis financeiros ou a carapuça reluzente que esconde uma dantesca ignorância. Mas existe um défice no meio de tudo isto. Grave. Uma lacuna não preenchida que acaba por ter um efeito real. E é exactamente por isso que só aquele que sabe calar o barulho do mundo, não se deixa impressionar com o barulho dos outros numa desgastante rotina de servidão humana. É, aliás, a este nível, que se desenvolvem os instintos que mais criticamos.
Somos intrinsecamente bons, mas automatizamo-nos para constantes duelos de que somos proponentes, e depois já não passamos sem eles. Aí sim, toda a miséria chegaria abstrusamente à superfície, e juntos sucumbiriam ante a verdadeira finitude. Por isso usam limalhas artificiais onde se consegue um patamar que, não sendo o horizonte, também esconde o cano de esgoto. E, com essa notável capacidade de camuflagem, o edifício em construção acaba sempre por ser o andar-modelo.
Não critico o uso das capacidades primitivas de percepção, e o concomitante uso da esperteza, já que podem não conseguir mais do que isso. Talvez, afinal, não sejam inteligentes. Só a formação humana garante à pessoa que não caia sistematicamente naquela zona primária, estanque e voraz, onde nos colocamos acima de todos, antes optando pelo núcleo de valores que enformam a vida na sua própria dignidade. Aquilo que critico é o recurso contínuo ao imediato em detrimento de propósitos mais dignos do que básicos instintos.
A capacidade de nos afirmarmos com o pleno sentido de Humanidade, passa inevitavelmente pela coragem de sermos nós próprios, sem irmos atrás do que ouvimos, sem subterfúgios ou sentimentos de vergonha perante aquilo que possa ser socialmente incorrecto. A era moderna não são as modas efémeras ou o politicamente correcto, mas o núcleo de valores que possamos ter e transmitir! De outra forma, não passaremos de espectadores passivos num mundo redutor e anónimo.
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Dos comentários anteriores, permitam-me escrever isto, sem demérito de nenhum outro, de que estou sempre agradecido.
Dulce,
Obrigado pelas suas palavras mas não volte a fazer o mesmo: não se subestime nem ache que tem de dizer coisas bonitas ou que não está à altura. Eu penso o mesmo de tantos outros blogs. Estamos sempre à altura de nós mesmos e isso basta. Obrigado pelas suas tocantes palavras, mais do que pela erudição que queria que tivessem. É aí, no coração e na simplicidade que me sinto "erudito" e eu mesmo. Nunca no resto. NUNCA.
Obrigado, Dulce, por não me tornar único.
Queria igualmente dar hoje os parabéns ao clips de vidro, um blog que faz hoje um ano.
15 comentários:
Há dois princípios que devemos seguir: o respeito por nós próprios, e o respeito pelo outro, seja esse "outro" quem for, sejam quais forem as suas opções, maneiras de estar na vida, convicções.
Apenas devemos exigir respeito mútuos. Se conseguissemos atingir este patamar, os néscios, os corruptos, os intolerantes, os insensiveis, Amigo Lobinho, desapareceriam.
Será isto Utopia? É! Mas sonhar é preciso.
Beijinho e bom fim-de-semana.
Deixa-me concordar em absoluto com o comentário aqui em cima. Acho que existe um equilibrio natural entre os Humanistas e os que não o são (e os que nem o conseguem ser). Este núcleo duro de pessoas que valorizam o Homem nas suas melhores qualidades, são os que vão permitir paralelamente aos desumanos (sendo adversários deles), a continuidade dessa visão utópica da sociedade. No meio de tanta irrealidade há-de existir muito de verdadeiro, porque, ao que sabe, não há gerações espontâneas nem loucuras injustificadas.
Um grande abraço
Boa tarde, meu querido amigo,
Vivemos na materialidade de um MUNDO que possui, também, um lado ETERNO, ESPIRITUAL.
O equilíbrio é a junção dos dois, mas para isto há um caminho evolutivo distante de se atingir.
Enquanto isso temos que preservar a ternura para não perder a humanidade e lutar como Davi, que soube arrancar das mãos do inimigo a arma.
Sejamos guerreiros e que tenhamos inteligência e habilidades para enfrentar ursos e leões, todos os dias,porque estes, correm às froxas.
Beijinhos do coração
É esta constante capacidade de seres "amor puro" como "justiça em bruto" que alternas nos posts, que me faz acompanhar-te sempre. Nem todos são assim. Não são, não.
Abraço
Olá amigão
Desculpa o off-topic, mas sempre vais ao jantar?
Joka Intus
Acho incrível como é que tú e eu discordamos em tanta coisa XD
O ser humano é tudo menos 'intrinsecamente bom'. Somos seres que diferenciam sistematicamente a sua imaginação e concepção da realidade e o que realmente É. Como espécie, adoramos idealizar um mundo em que todos somos bons e perfeitos, onde classificamos as actutudes como boas ou más e depois vivemos sob essa filosofia. Contudo, somos diáriamente confrontados com a realidade. Um mundo complectamente diferente do que idealizámos (e cada vez mais longe dessa imagem clássica) onde o que impera não é o código moral mas algo maior (melhor?) o instito de sobrevivência, revelado pela necessidade de superioridade. A mente humana trabalha assim em dois paralelos que, aliás caracteriza a nossa espécie e nos faz transformar o mundo real em algo ainda mais abstracto que a nossa própria mente. Com a nossa imaginação e a nossa habilidade de trabalhar o natural, criámos uma espécie de mundo hibrido que, nem é natural, como antes era, nem é perfeito como idealizámos. Chegamos, então, ao eterno dilema humano: a tentativa de tornar o hibrido ora mais 'perfeito' ora mais natural, resultanto em variações, ramos, ideologias, filosofias, correntes de pensamentos, escripta-- arte.
Pelo menos, é assim que eu vejo o mundo. Parece-me algo lógico, sem preconceitos ou idealizações. But that's just me :P
Não queria intervir nao sendo eu o visado, mas Maxwell, concordo com o que o Daniel diz. Nunca ouviste a teoria do bom selvagem? E, pelo contrário, é o mundo e as circunstancias que tornam o homem um ser camaleonico, desconfiado e que pode actuar com maldade, o tal instinto sobrevivencia que falas, mas por natureza, o Homem é bom.
Daniel, afinal sp vais ou nao ao jantar?
abraço
Seremos, de facto, intrinsecamente bons? Não parece, cada vez mais, que há pessoas intrinsecamente más?
Eu sou uma optimista e acredito no potencial humano para ser sempre melhor, para se ultrapassar. Ainda assim...vejo tanto "chico-espertismo" à minha volta...e alguma-genuína- maldade...que por vezes, até eu, deixo de acreditar. E pessoas como tu são um oásis. Felizmente, ainda são a maioria. Mas...
DANIEL: concordo com o penúltimo parágrafo de teu post. MAS ACHO QUE HÁ PESSOAS NATURALMENTE MÁS E NATURALMENTE PREDISPOSTAS A FAZER O MAL. OLHA À NOSSA VOLTA E VÊ como certo tipo de gente se prepara para singrar na vida, "Às cadeirinhas" da mediocridade...
BEIJO DE LUSIBERO
Q excelente ideia, sairmos das palavras....
Tenho exactamente a mesma visão da inter-rede que descreve acerca de si!
Saudações!
Concordo. Mas se o teu texto está uma boa perspectiva da natureza humana e da sua capacidade de se transformar em ser mau, a tua nota de rodapé é profundamente humana e quase gostei mais de ler do que a tua reflexão sobre a maldade das pessoas.
Abraço
Concordo,... muito boa perspectiva.. e muito razão neste texo. Parabens.
Abraço
Daniel (Lobinho)!
Como concordo contigo!
As pessoas não nascem más mas algumas colocam acima de tudo os seus interesses pessoais e vão a pouco e pouco magoando e maltratando quem os rodeia!
Isto verifica-se cada vez mais nas relações de trabalho e não só!
Há uma grave crise de valores e há pessoas que afirmam que não estão interessadas em mudar! (já ouvi afirmações destas).
Entretanto vão criando mau ambiente entre os que os rodeiam, destruindo auto-estimas, fazendo confusões, opinando agora de uma forma daqui a pouco de outra...criando climas bastante hostis.
Tento compreender e dentro das minhas limitações ajudar, mas não encontro receptividade.
Claro que nem todos agem desta forma, mas o ponto de equilíbrio anda um pouco afastado.
Tenhamos esperança num futuro mais risonho e mais humanizado.
Daniel é sempre muito bom ler os teus artigos (reflexões), porque abordas os temas com uma grande frontalidade que aprecio imenso.
Um beijinho e um bom Domingo.
Olá Lobinho!
Todos temos um lado bom e um menos bom, temos é que balançar em as nossas prioridades e escolher a melhor maneira de viver, pensando sempre no outro! É o que está muito esquecido nos dias de hoje!
Beijinhos
Lobinho, estou tão triste! Queria tanto ir ao jantar, mas NÃO dá mesmo.
Bebe um Porto por mim, OK?
Abraço, Amigo.
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