30.3.10

DO SILÊNCIO


A música acontece no silêncio. E talvez o silêncio seja a mais sublime das músicas. Estamos na chamada Semana Santa, e talvez Deus seja (também) a beleza que se ouve no silêncio, como num manso encostar de búzio ao ouvido. Os sábios falam pouco e ouvem muito, muito e de forma demorada. Dir-se-ia que escutam algo que se ouve nos interstícios das palavras, onde não palavras. Falamos em demasia e ouvimos pouco. Se alguém fala é-nos fácil não misturar, em sobreposição, a douta sentença que sobre o assunto temos a dizer. Arrogância, vaidade, ou as duas de mãos dadas?


Depois de sair da visita do hospital onde o meu pai convalesce na sua idade dourada que empresta ao tempo tonalidades de sabedoria, deambulei um pouco no redor desse novo empreendimento situado num descampado. Algumas flores chamam-me a atenção, como o vermelho papoila ou o amarelo do lírio, e com uma música surpreendente de silêncio e de paz, os momentos tornam-se mágicos em contraposição ao ramerrão diário e ao tropel de vaidades pessoais ou da net. Se a alma é uma catedral subterrânea,no fundo do mar a boca fica fechada e somos todos olhos e ouvidos. E , livres dos ruídos e do falatório e dos doutos saberes que julgamos ter, ouvimos a melodia que não havia. Por mim, fico-me na música que acontece no silêncio. De um descampado onde o universo ecoa a sua voz. Como este.

22.3.10

RETALHOS DE HOJE

Tenho estado ausente. Mas é preciso também. São imperativos pessoais e da vida. O que é bom. Como dizia nuns posts atrás, não devemos emprestar a nossa vida e os nossos recursos apenas à net ou a realidades virtuais. Tal como penso que um carro serve para nos servir e não nós ao carro, penso igualmente que a net existe para nos servir e não nós à net. Ajuda, promove conhecimentos e diferentes pontos de vista, mas temos de ter sempre o cuidado em não estender para além do razoável uma legitimação que nem às pessoas ditas reais concedemos. E eu estou à vontade para falar disto porque venho muito aqui. Disto isto, vou de seguir visitar alguns cantos, embora esteja sempre presente na intenção. O que é completamente verdade. Por vezes tenho muito para dizer, outras vezes não tenho nada (também é importante viver), mas por isso mesmo só escrevo quando me suscita interesse ou pertinência. Como hoje.

Escrevi há dias sobre a educação como responsável primeiro pelo bullying. Existe agora uma norma da ministra e outras propostas de lei que visam conceder maior autoridade aos professores, nomeadamente nas faltas injustificadas, na expulsão da sala de aula, etc. Eu penso que o problema é ter sido retirada a autoridade. Ponto final. Se sabemos que estamos numa sociedade mais complexa, tal não pode significar a normalidade dos ataques gratuitos, verbais e corporais de alunos aos professores. Querem uma sociedade civilizada? Eduquem-na. E nao me refiro a castigos físicos.

Também os candidatos à presidência do PSD andam a dar que falar. Gosto da postura de Castanheira Barros, mas talvez demasiado civilizado e algo ingénuo considerando o cínico circo da politica. Gosto de Aguiar Branco, mas demasiado complacente na sua análise inteligente dos factos. Entre Rangel e Passos Coelho, tenho uma dúvida, e embora não seja votante nem filiado em qualquer partido, talvez votasse em Rangel pela afirmação ainda que por vezes meio deslocada, ou melhor, politicamente incorrecta, dos acontecimentos momentâneos. É inteligente, sagaz e sobretudo verdadeiro. O que é uma raridade em politica. De Passos Coelho e apesar dos convites que recebo no facebook (outro local virtual de mera passagem), retenho sobretudo a sua defesa pela destituição de Pinto Monteiro que, obviamente por motivos directos e indirectos peca politicamente no encapotado encobrimento dos actos de Sócrates que, desculpem-me dizê-lo, não consigo entender como tantos socialistas e afins advogam o seu bom nome depois de tanto caso mal explicado, de tanto Freeport, autoritarismo nos media, etc. (Balsemao elencou bem os supostos dez passos para acabar com a liberdade da comunicação através do controle directo e indirecto dos media, desde grupos económicos como OnGoing, Pt, até aos jornais e televisão, sem falar na Lusa).

Apetece-me o mar. O cheiro a brisa e a verde. O azul entrecortado pelo marulhar das ondas, pelas gaivotas nas encostas, pelo Sol ténue e plácido. Apetece-me o verde de Monserrat, de cordilheiras onde plátanos e olmos e fetos e chorões e silvas e nenúfares aquosos em lagos espontâneos espraiados pela sombra de árvores milenares me alimentem a vida... até ser Páscoa.


Nota: Agradeço os dois belíssimos selinhos que entretanto recebi e que, oportunamente colocarei. Entretanto,o blogue O Sabor da Palavra está a promover um segundo encontro de bloguistas, no Porto, próximo sábado. Não vou. Não por ser no Porto, obviamente, mas porque devemos saber dizer Nao com a mesma naturalidade com que dizemos Sim. Mas fui ao primeiro e primou pela familiaridade gerada, até talvez pelo facto de o grupo ser pequeno. O que gosto porque estamos mais perto uns dos outros.  Todavia, quem quiser ir, basta dize-lo no post do Gonçalo. Lembro também que pessoalmente gosto muito da ideia lançada e concretizada pelo Luis Ferreira do blogue Suor de Um Rosto, que já vários concretizaram incluindo eu, e que nada mais é do que fazer um post manuscrito.  Avisem para eu colocar também aqui e... escrevam :) Ah... e muito importante: Obrigado por estarem aí.

17.3.10

AZUL DO MAR

O mar está aqui. Calmo e profundo. Das ondas a areia, da areia as rochas, e das rochas eu. Um calor ténue de sol inebria-me com violência e nostalgia-me. Uma brisa quase-vento, transporta-me. Há todo um silêncio neste barulho contido. O das algas e gaivotas, do azul do céu e do mar. O das ondas.

Metamorfoseio-me sempre naquilo que sou. É inútil apelar à douta razão. Chama e dá coordenadas mas não tem legitimidade no meu mundo. Mesmo quando quero. São azuis de alma. Salpicados de intenso cheiro a mar. O mar e as rochas. O pio entrecortado das gaivotas silentes. Elas têm silêncio no barulho que transportam. O mesmo silêncio do marulhar e das ondas sôfregas de vida. Ou de morte. Estalactites do sentir moldados nas ravinas dessas ondas. Imensas.

O mar está aqui. Calmo e profundo. De mim as rochas, das rochas a areia e da areia o mar. Sempre convulso e calmo. Pujante. No inquietante chamamento prenhe de vida. E de sentir.

13.3.10

PORQUE SÓ TEMOS UMA VIDA


As coisas passam num instante. A vida também. Mas sobrevaloramos este espaço e tempo como se fossemos eternos e omnipotentes. Já aqui escrevi vezes sem conta sobre o orgulho e a soberba, a inerrância e a conta em que nos temos sem nunca desarmar, mas nunca é demais repetir que nesta óptica de finitude que hoje pretendo esboçar, se encontra subjacente precisamente este estado de espírito como que total e absoluto. Somos temporários. Incompletos. Errantes. Quando se chega a uma fase de certezas, a visão da vida e dos outros leva-nos à sabedoria socrática do "só sei que nada sei". Ajudamos ao parto das ideias, mas não somos a ideia. Entreajudamo-nos mas não somos a essência do amor. Sorrimos e bendizemos, mas não somos a Bondade em si. Somos sempre espelho de tudo. Até de nós mesmos. Se voltar ao antigo filósofo que mesmo na morte rejeitou a fuga proposta pelos amigos apenas em nome dos valores, diria como ele que não nos conhecemos assim tão bem, o Homem em geral e cada um de nós em particular. Mas teimamos na tal omnipotência de tudo saber e conhecer. Porque somos imperfeitos. Se olharmos bem, começamos logo por ver esse sinal. Não que pugne pela diplomacia dos termos (pelo contrário, sou muito visceral) mas porque pugno pela noção do ridículo que tantos de nós fazemos mesmo quando não temos a exacta consciência disso, e então torna-se mais caricata a nossa imagem.

Não somos eternos e talvez nesta finitude resida o brilho e o charme da nossa existência que se quer vida. Não somos completos nem perfeitos (até porque, a sê-lo, então alguém tinha de estar errado). Mas embora devamos denunciar o que pensamos mal, o que achamos em consciência errado, e toda uma panóplia de referências pessoais plasmadas preferencialmente em exemplos concretos do quotidiano das nossas vidas, também não somos o Criador. Devemos ter a noção da dimensão do nosso lugar no universo, e tal como fez o maior pedagogo que alguma vez "conheci", Jesus Cristo, dar a vida pelo exemplo, não sobrepor juízos mas também não pactuar. Está tudo . Numa vida maravilhosa de psicopegadogia a começar pelos amigos (os discípulos), passando pelo exemplo vital da sua própria vida, não apenas com palavras de conforto e lições que hoje permanecem para quem é interiormente livre, mas também com gestos concretos do seu quotidiano, evitando as provocações (como fazia com os grupos religiosos da época, os zelotes, essénios e fariseus), mostrando amor e compaixão, denunciando sem achincalhar, e devolvendo à esfera pessoal a dignidade que cada um tem e que nada pode subverter. Tal como com Ele mesmo.

Por maiores os sorrisos, sempre a verdade. Mas o que é a verdade? Por maiores as palavras, sempre a nossa consciência. Por maiores os apelos, sempre o núcleo dos valores a sobrepor-se, qual Sócrates da Antiga Grécia a recusar a fuga na morte preparada pelos amigos. Hoje os valores são as tendências, as modas, os amiguismos, os favores, o achismo. Eu acho que... logo é. O que somos é uns grandes patetas. E cobardes porque medimos a realidade pelo que achamos que é, até que um dia acordemos desta perfunctoriedade e percebamos que podíamos ter feito muito mas mesmo muito mais. A começar pelos valores instalados e pelo arregaçar das mangas no que julgamos correcto e sem os infantilismos do sempre certos. Hoje partilhei isto. Porque eu próprio uso uma balança mental que me obriga a constantes correcções pelo autoconhecimento a cada segundo. Correcções essas que por sua vez necessitam do soutros para me aperfeiçoar e não dos egotismos absolutos em que só nós valemos. Posso não conseguir sempre mas estou atento. Trata-se de uma vida única e irrepetível aquela que temos. E é por isso que não pode haver menor exigência.

10.3.10

BULLYING (OU: DOS VALORES)


Continuem a aderir ao post manuscrito que se encontra aqui ao lado e que fui buscar ao Luís Ferreira por o achar de uma enorme partilha pessoal neste mundo frio da web - como sempre digo-. É simples: basta escrever uma nota em papel, um bilhete, colocá-lo no blog e avisar aí no link da barra lateral direita para eu poder incluir esse mesmo bilhete e, dessa forma, levá-lo a partilhar com mais gente. E podem repetir. O link está aí ao lado onde também colocarei os voosos bilhetes mal veja os avisos. Também tenho andado ligeiramente arredado da blogosfera mas sempre atento ao que me escrevem. Obrigado, como sempre, pelos vossos contributos. Mas também é preciso educar o nariz ao cheiro da chuva e da lama, ao som do virar de uma página, ao cheiro de um café, ao silêncio que fortifica e traz novas perspectivas, ao sairmos de nós para nos reequacionarmos. Importante mesmo é a relação interpessoal, e se ela se transforma numa relação quase só cibernética, então temos o dever de tentar perceber o que está mal, mesmo que alheio à nossa vontade.

E falou-se muito do bullying. Infelizmente pelo Leandro! Sem me pronunciar sobre uma escola que está nitidamente demitida das suas funções só porque não são casos novos (mas mesmo por isso) e porque diz nada ser com ela ou por ter falta de pessoal auxiliar (usando esse argumento contra um crime que lhe devia ser imputado por negligência) é fundamental deixarmos de olhar para os comportamentos juvenis considerando-os apenas reacções de adolescentes ou modos de expressão juvenil e reagir com firmeza e decisão. A autoridade que se retirou aos professores e educadores em matéria de punição em nome do "pedagogicamente incorrecto", traz consequências nefastas no respeito pela autoridade e aceitação da correcção. Quando são os próprios pais a não darem o exemplo de respeito nas mais variadas circunstâncias, serão os filhos a auto-educarem-se nesta matéria.

Sabemos que na adolescência existe um violento confronto do jovem consigo mesmo, não apenas na apreensão de si como pessoa, como também dos outros e do mundo em geral, sem falar nessa força que é o sexo e também ele uma descoberta e uma força. Mas é precisamenmte por isso que o adolescente deve ser ajudado a compreender o seu corpo e a sua mente, a dominar os instintos, a investir nos afectos, a respeitar-se a si e aos outros. A máxima de "não faças aos outros o que não gostarias que te fizessem a ti" tem aqui uma ajuda prática no processo humano de educação e crescimento. É certo que existem variáveis, como o meio social, os desiquilibrios sociais, as familias desestruturadas, mas a própria violência fisica e psicológica nao é nova. Quando andava no nono ano, lembro-me perfeitamente de assistir a esse tipo de situações. Era a invasão dos bárbaros, alguns vindos de outras escolas.  Eu era delegado de turma e tinha sido sub-delegado no ano anterior, pelo que estava atento a problemas pessoais entre colegas meus. Nesse ano tive de ir defender um deles em conselho de turma com a representação de dois pais, mas a indiciplina nao era só daquele ano lectivo ou civil. Existe hoje como existia ontem. Se mais carregada hoje? Talvez. Se maiores forem as convulsões sociais, maiores vão ser os estragos, ou os danos colaterais se quiserem usar eufemismos. Mas na base de tudo está sempre o mesmo: a de sermos chamados a dar um significado e a intervir com bom-senso, repropondo a interligação entre o comportamento e os seus afectos, entre as acções eo seus efeitos, entre os direitos e os deveres, entre as regras e os limites.

Faríamos bem em dar mais atenção aos nossos gestos e palavras porque a violência dos adolescentes é uma extensão do comportamentos dos adultos. Quer o estruturante familiar, quer o do colectivo. Quem disse que o exemplo já não colhe, ou que a educação não vai lá pela transmissão de valores? Hoje dá-se tudo, mas não se ensina nada. Tem-se acesso a tudo mas não se tem nada. Oxalá nao haja outros Leandros sem cacacidade de resposta que não a fuga como solução única para um mal a ser combatido desde cedo. Sempre os valores na formação humana. E os valores trazem liberdade, ao contrário do que se pensa. Poderia traçar um breve paralelismo entre sexo e amor: a um jovem hoje só falta dizer "amar-te-ei enquanto tiver uma vida sexual que me satisfaça". Se isso é amor, então esqueçam o amor. E se dar dois carolos ao outros nao deve ser reputado como bullying desde que isolado, então a prática sistemática dessas coacções fisicas e psicológicas devem ser avaliadas e estudadas sobretudo na dimensão social do fenómeno, familiar e social, pelo que serão sempre os valores, no matter what, que sustentam uma sociedade e, com ela, uma civilização.

6.3.10

REPENSANDO A EXISTÊNCIA

Somos levados a pensar que a nossa vida gira em torno de grandes momentos. Mas não é assim. Os grandes momentos são aqueles de que falava dois posts atrás sobre a simplicidade. E no entanto criamos muito ruído, muito barulho, hermetizamos a nossa vida, fechamo-nos em certezas de papelão, apontamos o dedo, esbracejamos até um dia percebermos que afinal não somos muito diferentes das crianças egoístas com uma visão redutora do outro e do mundo, porque concentrada em si e nos seus orgulhos e amiguismos pessoais. Neste dias tem chovido. Um convite a alguma melancolia, à saudade do verão. Mas eu sempre vi na chuva um corredor entre a serenidade e a alegria, como a noite que prepara o dia, e embora seja este a receber os agradecimentos ele só mostra. Nada tem. Porque foi a noite que formou essa glória, lá nos bastidores onde poucos cuidam da sua existência, metidos que estão consigo mesmos e não conseguem ver mais nada além de um palmo do nariz das suas convicções e inabaláveis certezas. Somos todos tão frágeis, tão inseguros, tão inerrantes, e mostramo-nos seres compostos, totais, perfeitos, inerrantes! Não pode haver maior ignorância. E é por isso que o mundo anda às avessas.

O hábito de ler e julgar a realidade à luz, apenas, do critério pessoal, transforma adultos em crianças egoístas e orgulhosas sob a capa de verdade e pragmatismo. Os valores confundem-se na tela de cores estéreis que povoam cada um como um deus pessoal na sua própria cabeça, o que envenena as nossas vidas e as nossas relações. É preciso despirmo-nos de muita coisa que nos torna pesados e condicionados, a fim de libertar a criança que (ainda) está em nós, ou seja, o ânimo simples e puro que nos habilita a entrar numa comunhão fraterna com todos, e não nos "nha nha nha" infantis travestidos em supostas verdades adultas. Tudo é passagem e o decorrer dos dias leva-nos aos confins do tempo para as praias da eternidade. Alguns são atingidos por um sentimento de angústia e mal-estar, próprio dos que reconhecem que o seu destino está marcado pela indefinição e pelo vazio. Outros fazem entrar aí a fé. Mas para entender isto é necessário contemplar. É a importância de uma visão contemplativa da vida, talvez a única que pode equilibrar a nossa existência, e com ela, os nossos erros.

4.3.10

ASSIM SE DEPÕE


A minha opinião vale o que vale, tal como as que leia e ouça noutros, mas digam o que disserem de Manuela Moura Guedes, soube ser o que sempre reclama ainda para mais com a comunicação social em peso: frontal e directa! Assisti a toda a intervenção, pelo que pude aquilatar mais e melhor de muitas respostas (que não apenas os "brevets" que cada canal entende passar) pelas inquirições quen iam sendo feitas dos vários deputados que, obviamente ao sabor da sua sensibilidade política (caso do para-incidente final do PS) a tentavam atemorizar ou circunstanciar, sobretudo por se perceber que nao é uma pessoa batida em discursos elaborados e pré-feitos, como foi, na minha opinião, o completamente demagógico Rui Pedro Soares, apenas para citar um. É certo que talvez Manuela Moura Guedes tenha dito demasiadas verdades (pese embora a ressalva de a ser verdade) mas nao se escudou nos "nao respondo" "nao comento" "remeto para..." nem insinuou. Se falta à verdade, seria um tiro no pé, mas nao me parece que a forma como (in)transigiu consigo mesma na denúncia lúcida do que disse, fosse fabricado. Nao estou a discutir a jornalista nem a forma; estou a discutir a parte substancial que todos os depoimentos deviam ter já que, entre nós, dizer a verdade merece censura social (pasme-se) quando devia ser ao contrário. Antes apontar factos e nomes (e não me parece que tivesse necessidade de mentir gratuitamente), do que insinuações e falsetes. Pode ter sido demasiado ingénua ao ponto de denunciar tudo o que sabia, apontando nomes. Obviamente os acusados teriam de reagir tal como já aconteceu depois da sua intervenção na Comissão de Ética - que desde sempre devia ter sido Comissão de Inquérito como só agora vai ser - mas também não tem reagido José Sócrates sempre em várias mentiras em que já ninguém acredita há muito?

Convém dizer que sou apartidário, que não estou a falar de jornalismo nem da jornalista, mas da substância prática daquilo que deviam ser os depoimentos. Em termos judiciais nem sempre colhe a absolvição (seja do que e/ou de quem for) porque a sanção só pode ser aplicada depois do meio probatório, o que iliba muita gente. Em termos políticos e sociais, podemos cair em julgamentos precipitados, e por isso ressalvo que apesar de devermos "chamar os bois pelos nomes" para usar um cliché, devemos sempre também acautelar o bom nome de quem falamos, revelando apenas em sedes próprias e não em público. Mas ainda assim, insisto que, do ponto de vista substancial, antes assim do que disparar contra todos e ninguém. 

Em termoss pessoais, na minha opinião Manuela Moura Guedes peca também por alguma imodéstia na sua conduta profissional, e por trazer à liça nomes de colegas que talvez merecessem ser "denunciados" de outra forma. Nao assim, de rajada e em público, porque podemos estar a cometer injustiças e depois já não se pode restituir a dignidade que se retirou, ainda que por convencimento, ao outro. Todavia, este depoimento de Manuela Moura Guedes, é para mim o protótipo de que quem não deve, nao teme, embora se aconselhe prudência quanto aos meios de prova. Mas e emoção da justiça é mesmo assim: dizer tudo sem pensar nas consequências porque nos achamos limpos de máculas sonegadas que outros tão bem sabem trabalhar...

2.3.10

DA SIMPLICIDADE OU "NINGUÉM TE AMA COMO EU"

Perseverar é uma virtude. Eu não a tenho. Sem teimosia mas acreditando num projecto de vida, chega-se onde se sonhou. O espírito derrotista torna fútil a vontade, o arrojo e o próprio empreendimento (humano, político e social). Uma visão curta também obnubila o empenho, já que parecendo não haver saída, as coisas morrem mesmo antes de nascer. Mas o Tempo (esse respeitável senhor) define contornos a cada dia que passa, e o que num momento parecia impossível, é uma realidade noutro.

A métrica diacrónica pode ser longa nuns casos, mas se se tratar de um plano profundamente interiorizado, o tempo passa apenas a ser cúmplice e aliado. A humildade, porém, há-de ser um precioso instrumento de viagem até ao porto desejado. Desbastar caminhos como quem corta cerce sem olhar a meios, numa casmurrice hermética como garantia de êxito, é não só uma desinteligência como uma falha humana. Infelizmente, a ideia de sucesso é consequente de resultados práticos e visíveis. A modéstia é tida como estupidez pura, e aflorar a vertente humana dos valores é ser-se do mais anacrónico que há! Dos fracos não reza a História, diz-se, mas talvez que a nossa concepção de fraqueza seja afinal a simetria da glória. A azáfama diária pode dar a entender um ser perfeito, confiante e enérgico, mas a realidade convive sempre com os “apanhados”. Esse lado natural e espontâneo que dispensa o toque da roupa ou a imagem fabricada, a tecnologia de ponta ou a intelectualidade quotizada, esse que é o nosso pulsar genuíno. Compreendemos as defesas por imperativos pessoais, mas também não devemos esconder toda a fragilidade como sinal da nossa pureza e concomitante da nossa aspiração a sermos o que naturalmente somos. 

Para mim não contam tanto os dias festivos, mas antes valorar aquela aparente cor triste do dia a dia e não os lábios esborratados de uma festa efémera. Os dias da semana são tão mais importantes, porque são eles que forjam o resultado continuado. Exemplifico melhor: de que vale estar-se com todos e ninguém como acontece nas festas e finais de semana? Tal como num qualquer reveillon, finda a festa, o jantar, o que for, cada um volta a estar por conta, mas nos dias de semana não. Há um encontro interior diferente, e no final do café, do telefonema, da sms ou do e-mail, o outro continua lá. Disponível, atento, pacificador. As festas, encontros, jantares têm o seu lado lúdico e mais do que isso, mas esgotam-se aí. Como diz a canção "Who's gonna drive you home?" Não se nutre a serenidade do verde, a magia da chuva, o manto da noite ou o encanto do mar em festas grupais. É nos dias de semana, nos momentos sós. Literal e metaforicamente falando.  A noite prepara o dia mas não recebe os agradecimentos. Da simplicidade nasce a alegria dos pequenos nadas. E como dizia alguém, as coisas grandes são para todos; as pequenas deixo-as para os que me são, de uma forma ou de outra, mais queridos.