A 29 de Junho de 1900 nascia Saint-Exupéry, homem dos céus e das palavras, que nos deixou, em "O Principezinho", um pequeno tratado sobre a amizade, a responsabilidade e a condição humana.
Esta será, talvez, a frase lapidar do livro, ou, pelo menos, a mais conhecida, mas cito, também, outras passagens:
"Só se vê bem com o coração.
O essencial é invisível aos olhos."
E, no entanto, insistimos em medir tudo pelo imediato, pelo útil e pelo visível, como se a vida coubesse apenas na estreiteza daquilo que conseguimos ver. Mas o valor de uma amizade não está nas conveniências do momento; antes, na permanência que resiste ao tempo e às circunstâncias.
Mas também à nossa própria aferição do outro: porque quantas pessoas são desacreditadas pelo que achamos ou ouvimos delas!
Talvez por isso continuemos tão pobres de espírito num mundo cada vez mais tecnológico, mais alternativo, onde a verdade passou a ser o que cada um quer.
E lemos:
"Tornas-te eternamente
responsável por aquilo que cativas." - E, no entanto, muitos queixam-se do que eles próprios não fazem.
Outra passagem incontornável, é quando Saint Exupery escreve isto:
"Eu não preciso de ti
e tu não precisas de mim.
Mas, se tu me cativas,
nós precisaremos um do outro."
Porque aquilo que verdadeiramente nos transforma não é o que conquistamos, mas aquilo a que nos entregamos. Reconhecer no outro não um meio para afirmar o nosso ego, mas para compreender que os laços só ganham sentido no reconhecimento da humildade, do cuidado e da entrega.
Como escrevo no livro "Mais Longe", somos seres relacionais, não autossuficientes, pelo que deixados sozinhos numa ilha deserta, depressa esgotávamos a nossa verdade existencial.
E, se a humildade é importante, também o é o tempo. O tempo da demora, da escuta do outro, de uma escuta activa e não de um palrar constante sobre nós mesmos, sobre os nossos considerandos e julgamentos.
Também por isso Saint-Exupéry lembra o essencial:
"Foi o tempo que perdeste
com a rosa, que tornou a rosa
tão importante para ti."
E talvez resida aqui uma das maiores verdades n' "O Principezinho": que o valor das coisas e das pessoas não nasce da sua perfeição, mas do tempo, da dedicação e do amor que nelas depositamos. E numa sociedade do relativismo e do vazio, em que tudo se quer instantâneo e substituível, falta-nos um dos bens mais preciosos: o tempo para a presença e o cuidado.
Isto leva-me a outra citação que diz que:
"Os homens já não têm tempo para conhecer nada. Compram tudo feito nas lojas. Mas, como não há lojas de amigos.(...)".
E talvez seja essa a tragédia: não entender aquilo que vai além do que formulamos, do que nos contam, do que pensamos.
Procuramos relações à medida das nossas conveniências, esquecendo que aquilo que tem valor não se adquire nem se substitui. Constrói-se, lentamente, no tempo oferecido e na humildade de reconhecer que precisamos uns dos outros.
Por isso não há lojas para os amigos, porque a amizade é, também ela, uma forma de amor.
E talvez que, no fim de tudo, a verdadeira lição de "O Principezinho" seja esta: aprender a olhar menos para nós próprios e mais para aquilo que nos ultrapassa e nos une.
Porque ninguém se constrói sozinho, ninguém floresce apenas pela força da sua razão, e nenhuma vida encontra pleno sentido quando fechada nos limites do próprio ego.
Só a humildade nos permite crescer, só a amizade nos ensina a ser responsáveis, e só o amor dá valor ao tempo que oferecemos aos outros.
Talvez seja por isso que as palavras de Saint-Exupéry continuam tão actuais: não porque nos tragam respostas fáceis, mas porque nos recordam, incessantemente, aquilo que insistimos em esquecer: que o essencial continua invisível aos olhos, mas nunca ao coração.
