27.7.26

DO ATENTADO EM BERLIM


O ataque à marcha LGBT na Alemanha que fez 29 feridos por atropelamento (14 em estado grave) e um morto, mostra que o ódio continua bem vivo. Importa perceber que ainda há demasiada gente que acha normal, ou até desejável, que estas pessoas sejam atacadas. É precisamente por isso que estas marchas continuam a fazer sentido. Embora pessoalmente tenha a minha opinião sobre a forma, isso em nada invalida o total respeito pelos outros. Aquilo que é da esfera dos outros, aos outros pertence. Infelizmente são precisas estas manifestações para o lembrar.

O que mais impressiona nem é o atentado, mas a quantidade de pessoas que o aplaudiram. Socorrendo-me de um texto que refere os comentários, também eu os cito aqui: "Eu dava apoio a esse homem", "Só tiveram aquilo que merecem", "Finalmente boas notícias" ou "Já é um começo. Falta o resto.". E são perfis assinados e reais. Apenas mostram que o ódio não anda escondido.
Quando se soube que o agressor era muçulmano, o discurso mudou para a imigração. Afinal, o problema nunca foi a violência. O problema eram sempre "os outros", fossem pessoas LGBT ou imigrantes. O alvo muda conforme dá mais jeito. É um viés cognitivo ou pura ausência de sentido crítico e de verdade.
Não faz sentido esconder este tipo de discurso atrás da liberdade de expressão. Celebrar a morte e desumanizar pessoas não é uma opinião qualquer. E quem condena o fanatismo de uns enquanto aplaude o fanatismo de outros acaba por fazer exatamente a mesma coisa. Não há ódios aceitáveis só porque vêm do lado de quem gostamos.
Como digo sempre, precisamos de um sentido de justiça irrepreensível, assente na honestidade intelectual e na imparcialidade. Como dizia Blaise Pascal, "todos estamos comprometidos". Se formos verdadeiramente honestos connosco próprios, julgamos os factos, e não as pessoas de quem gostamos ou de quem discordamos.
Quando deixamos que simpatias, antipatias ou interesses ditem os nossos juízos, deixamos de procurar a justiça e passamos apenas a defender um lado, gerando injustiças que nunca aceitaríamos se fossem dirigidas contra nós ou contra quem nos é próximo.