19.10.17

CORAGEM DE SER PESSOA


Sem distanciamento interior temos sempre tendência para justificar os nossos actos e os dos outros também, mesmo que a atitude seja reprovável! Além de habitarmos um mundo confuso e desordenado, legitimamo-lo pelas nossas acções e pelos nossos silêncios. Inalamos a poluição humana com um tal sentido hiper-crítico que nos tornamos elos de uma massa escudada em si mesma.

Assistimos a uma descaracterização do ser humano naquilo que devia ser a essência da verdade, e depois achamos normal desde as inverdades políticas, aos gestos incivilizados, erros de palmatória ou falta de puro sentido de ética! Esquecemos dramaticamente que os valores não são bens transacionáveis conforme nos dê jeito ou não defendê-los! O sentido de justiça e imparcialidade devia ser sempre superior às opiniões de circunstância e conveniências de momento.

É necessária a aprendizagem do Amor, mais do que a simples empatia da solidariedade, e o Amor é sempre justo e verdadeiro! Não a imagem que fazemos dele! E o verdadeiro passaporte para a condição de ser Pessoa é a formação humana, porque só ela preserva os valores e garante a justiça! Cabe-nos, por isso, estar atentos e actualizar as nossas decisões. Antes que nos desumanizemos sem dar por isso.


13.10.17

DESCONSTRUIR O EU

A desconstrução do eu requer muitos recursos, mas pelos quais devemos diariamente lutar. Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder! O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!
 
Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erradas da realidade, é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.
 
A resiliência é outro recurso indispensável, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção pessoal na sua fragilidade e no seu vigor. Sem a noção de que a asuência de uma atitude constante de autocrítica nos tornará balofos a massajar o ego, a mudança não se faz e o crescimento fica comprometido. Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos.
 
Precisamos de trabalhar diferentes recursos, para nos realizarmos na plenitude de seres humanos, que se devem a si e ao mundo, muito mais do que geralmente damos e somos.

26.9.17

ENDEUSAMENTO DO EGO

Endeusamos sempre muito o intelecto, a inteligência cognitiva, e fazemos tábua rasa da inteligência emocional. E batemo-nos pelo ego como se fosse o alimento primordial, a massa unificadora de uma humanidade egoísta, de uma atenção fria, de fronteiras muito bem balizadas pelo próprio ego! Outorgamos à razão legitimidade que não tem, pretendemos que entenda aquilo que lhe escapa por simplesmente não ser o seu escopo, e como não é, achamos que o caso fica encerrado quando a razão não consegue explicar.

Somos muito mais do que pensamentos calculistas e aritméticas de vida, e não é no ego nem a inteligência cognitiva que está a realização pessoal; o ego precisa de ser cuidado até onde deve, garantindo a auto estima necessária, mas o resto é vaidade ou sobranceria. 

A melhor maneira de sermos, é sabermos quem somos, e geralmente apenas sabemos o que somos! E metidos nesta cegueira, deixamos o ego alastrar selvaticamente cortando cerce manifestações mais nobres de entrega, porque subservientes ao nosso eu racional que comanda a nossa vida com a idiota vaidade de quem julga saber tudo! Mas só a consciencialização das nossas verdadeiras motivações e porquês, o que implica um exercício de auto-análise e humildade, nos livrará da arrogante opressão do ego, permitindo a liberdade de podermos ser nós...

Só assim poderemos ter outra compreensão do mundo, do outro e de nós mesmos, e perceber que as dinâmicas da vida escapam ao desejo autoritário da visão egotista de quem não consegue ver mais além... É nas coisas simples e na partilha que verdadeiramente somos felizes...

15.9.17

ALMA E PARTILHA

Precisamos de elevação, e de aprender com os dramas da vida a humildade que tantas vezes nos falta, metidos que estamos em falsas certezas. Precisamos de estar acima da maledicência e da baixaria, e de coração sincero prosseguir a caminhada que de outra forma estaria envenenada pela falta de qualidade humana!
 
E precisamos de alma! Só quando a alma está presente a natureza vive, e sem darmos alma aos gestos, vivemos cinzentos como um sol tapado pelas nuvens da soberba fazendo definhar o melhor que há em nós, porque só aceitando a condição humana da força e da fragilidade, poderemos interiorizar que o super homem é uma fantasia do ego, cabendo-nos a humildade do abraço e do sorriso! Precisamos sempre de alma e de partilha...

6.9.17

RELEITURA DO EU

É preciso termos consciência da nossa humanidade. Aceitar que somos vulneráveis, e que carregamos afectos contidos. A entronização do poder pessoal e da sua invencibilidade, conduz-nos à arrogância de tudo podermos, o que, não sendo verdade, gera revolta e frustração. 

É uma negação continuada que a tecnologia, a ciência e a moda ainda mais legitimam! Gerir emoções e afectos é inteligência de vida, inteligência emocional, porque supõe a capacidade de me reconhecer falível e limitado contra todo o estereotipo e preconceito que empurram a fraqueza para as margens da vida; mas isso porque se tem como fraqueza tudo o que ultrapassa o meu poder, e não por na realidade ser algo menor. 
 
Se a minha leitura das coisas estiver errada, as minhas dioptrias humanas podem estar reduzidas, e não perceber a amplitude da realidade como ela é, e não como comparativamente a penso na valoração do mais, do melhor e do eterno.
 
Somos alma, somos pessoa, lembrança, força, rasto, criação, vida! Na realidade, não morremos: é o corpo que cessa funções. E até ao limite da nossa lucidez, gerir as ansiedades e os medos, a dor e a complexidade da vida, tem tudo a ver com esse património humano com que enriquecemos ao longo dos anos, e não com os momentos ou últimos anos que nos tiram o brilho que noutro corpo já tivemos. A mente não envelhece, e o espírito também não. Só o invólucro se deteriora. E confundimos isso com o resto, e baralhando as coisas, baralhamos tudo.
 
Incorporar o saudável riso (e só sabe rir de si quem é interiormente livre) porque fonte de higiene mental e vacina contra a depressão; ter uma dose enorme de humildade que nos retirará o pedestal real ou ficcionado em que tantas vezes nos pomos ou põem (e há tantos pedestais destes), e gerir com a compreensão da dor e dos momentos gloriosos tudo o que passar por nós, é, além de sábio e inteligente, profundamente humano...
 
Pertencemos uns aos outros e é também por isso que a liberdade individual tantas vezes chamada para arbitrar os nossos conflitos, é geralmente uma falácia do nosso suposto poder, porque só harmonizada com outros valores, tem legitimidade para representar alguém. 
 
Ser autenticamente eu, passa pelo riso solto e descontraído, pela humildade de que nada somos, pelo reconhecimento da efemeridade da vida, e pela simplicidade em relevarmos metade para vivermos outro tanto. E em cada dia, urgir a vontade de simplesmente ser...

1.9.17

RECOMEÇO

As férias acabam. O ramerrão começa. Todos voltam aos lugares. Despiram-se anseios, descansou-se a alma, mitigou-se a diária chatice. Mas muitos ficaram, agarrando-se aos muros de cartolina que projecta a ilusão de um castelo bem guardado onde habitam seres de papel, inermes e leves, que não precisaram de se perfilar como os que agora regressam porque já lá estavam, escudados em doze meses pintados a carvão, por vezes rasgados e reconstruídos com a fita cola da vida, e ninguém nota, ninguém vê! Vão continuar perfilados, viajantes cansados de uma bola de cristal, esperando pacientemente a sua vez, a sua glória, a sua luz! Ainda que partam, algures ficou gravada a natureza do sangue que luta e espera. E dessa prova de vida, começará a nobreza de um espírito imortal...

17.7.17

MOSTRA-ME O QUE ÉS

Se me convidares para tua casa, reluzente e bela, com jardins e mesa para os convidados...!
Se me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...!
Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...!
Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou dizer que não posso, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.
E então irei, porque o melhor que podemos dar ao Outro é o recanto da alma, e só então se faz festa e partilha, no maior luxo que pudemos oferecer...

30.6.17

SER PAI OU MÃE POR EGOÍSMO

 
 
Angela Merkel deu nesta segunda feira em entrevista um empurrão à legalização do casamento e adopção por pessoas homossexuais, depois de ter visto como um casal de mulheres cuidava dos seus oito filhos! Todas as crianças merecem um pai e uma mãe, ou na falta disso, dois pais e duas mães, ou ainda na falta disso um pai ou uma mãe que as adopte retirando-as do abandono institucionalizado, mesmo que a imagem parental de ambos os sexos seja a condição ideal para o crescimento psico afectivo da criança, mas o mundo não é perfeito, e adoptar é um profundo gesto de amor; já comprar filhos amputando-lhes à nascença a possibilidade de ter pai e mãe, é um profundo acto egoísta por melhor que venha a ser a educação! Só por capricho e egoista satisfação pessoal se trazem filhos ao mundo privados de pai e mãe, só porque alguém não se quer casar ou estar com outra pessoa. Estar sozinho é totalmente legítimo e indiscutível, mas fazer pagar essa decisão a uma criança por nascer, é criminoso! O resto são justificações de quem não percebe a diferença entre um ser humano por nascer e um objecto que se compra a seu bel prazer...

24.6.17

QUANDO AS CHAMAS ARDEM...

Faz hoje uma semana e anda tudo a sacudir a água do capote. Por este andar as 64 vítimas mortais são uma invenção. É a forma menos inteligente de assumir as culpas. Desde as falhas do SIRESP durante 14h e dos meios alternativos, ao encaminhamento de pessoas para o local errado, a recusa de auxílio de bombeiros espanhóis, bombeiros parados mais de 12h a aguardar ordens, total descoordenação, sete incêndios entre Abril e Maio em Pedrogão Grande sem que servisse de exemplo (seis deles a três km de Escalos Fundeiros onde se deu também o ponto de origem deste incêndio que matou 64 pessoas), ignorar as condições atmosféricas em alerta amarelo há dias, tudo funcionou pior que mal!
 
A incompetência é tanta, que para se saber se um avião Canadair tinha caído, levou-se quase duas horas, e talvez tenha de ser o primeiro ministro espanhol a assumir as culpas.
 
Aquilo que fica é a impunidade e irresponsabilidade, porque não são precisas comissões técnicas independentes para se apurar o óbvio, sem prejuízo do aprofundamento sério que qualquer tragédia exige, restando agradecer aos bombeiros o serviço sempre omnipresente e também por vezes com a vida, como também, infelizmente, aconteceu. O resto será sempre política num mundo de sacudir o capote...

9.6.17

DO DIA DOS MELHORES AMIGOS

 
 
 
Celebrou-se ontem o dia dos melhores amigos. Tenho para mim que não são necessariamente as pessoas que conhecemos desde sempre ou há muito, que automaticamente atingem este epíteto! Melhor amigo pode ser um desconhecido que se empatizou com algo e ficou, pode ser alguém recente que ajudou ou compreendeu e nasceu uma cumplicidade que não sai, porque melhor amigo é quem nos gosta de ver feliz, quem nos chama a atenção mesmo contra a vaidade que possa estar instalada, que está presente mesmo na ausência, que se alegra e pula connosco, que intui o silêncio e seca as lágrimas. Podemos até não ter nenhum melhor amigo e de repente alguém passar a sê-lo! O resto são apenas pessoas bem intencionadas... ou nem tanto!