14.9.16

RAZÃO E VERDADE

Sem distanciamento interior temos sempre tendência para justificar os nossos actos e os dos outros mesmo que a atitude seja reprovável! Além de habitarmos um mundo confuso e desordenado, legitimamo-lo pelas nossas acções e pelos nossos silêncios.
 
Inalamos a poluição humana com um tal sentido hiper-crítico que nos tornamos elos de uma massa escudada em si mesma, mas esse sentido critico não é de desafectação, de imparcialidade na aferição da realidade, mas de pura crítica sectária!
 
Assistimos a uma descaracterização do ser humano naquilo que devia ser a essência da verdade, e depois achamos normal desde as inverdades políticas, aos gestos incivilizados, erros de palmatória ou falta de puro sentido de ética!
 
Esquecemos dramaticamente que os valores não são bens transacionáveis conforme nos dê jeito ou não defendê-los! O sentido de justiça e imparcialidade devia ser sempre superior às opiniões de circunstância e conveniências de momento.
 
É necessária a aprendizagem do Amor, mais do que a simples empatia da solidariedade, e o Amor é sempre justo e verdadeiro! Não a imagem que fazemos dele! E o verdadeiro passaporte para a condição de ser Pessoa é a formação humana, porque só ela preserva os valores e garante a justiça! Cabe-nos, por isso, estar atentos e actualizar as nossas decisões. Antes que nos desumanizemos sem dar por isso.
 

31.8.16

TER E SER ALMA (II)



Preparamos o ego para tudo e ignoramos o essencial: a alma! A perda da alma é o mal das sociedades e das pessoas, que julgam que a realização e bem estar pessoal residem no êxito, que é tantas vezes apenas o outro lado do fracasso. E isso acontece precisamente porque falta a alma, a natureza da partilha, das outras latitudes do eu, que estão bloqueadas em considerandos de suposta realização pessoal quando não existe realização nenhuma: apenas intelectos estilizados e egos vaidosos na ilusão da plenitude!
 

Precisamos de alma! Só quando a alma está presente a natureza vive, e sem darmos alma aos gestos, vivemos cinzentos como um sol tapado pelas nuvens da soberba fazendo definhar o melhor que há em nós, porque só aceitando a condição humana da força e da fragilidade, poderemos interiorizar que o super homem é uma fantasia do ego, cabendo-nos a humildade do abraço e do sorriso! Precisamos sempre de alma e de partilha...

 

9.8.16

 
 
Todos gostamos de férias. É uma das melhores coisas. Mas fazemos férias como se fosse uma interrupção da existência, tal como desejamos bom fim de semana para só voltarmos a falar na segunda feira seguinte. Fazer férias não é tanto a desbunda hedonista, mas a descompressão, o retemperar das forcas vitais, lembrando-nos que também somos alma, espírito, essência - que cada um entende à sua maneira - e nesse descanso também físico e psicológico, encontrar o acolhimento e a disponibilidade interior que nem sempre temos.
 
 
Se me pedissem para me definir, seria pela simplicidade. Esta, subentende também a humildade e a alegria, mesmo quando não vislumbramos caminhos e só apetece afiar o dente. Simplicidade é estar de mãos abertas e alma receptiva, e como sempre costumo dizer, não se deve confundir com ingenuidade mas requer inocência. Estamos muito habituados a erguer camadas sobre camadas de defesas, mas sem entrega e sentido de humor, desumanizamo-nos. A sociedade não é mais do que a soma de cada um de nós, pelo que nem sempre colhe o argumento do "é assim", mas coragem para sermos.
 
 
O que é o essencial nas nossas vidas? Até aqui a confusão se instala, de tão endémica pertença às coisas e situações, e pouca às pessoas. Apegamo-nos a coisas, muitas coisas, como se pudéssemos dormir com elas ou receber o afago na solidão e dor. Em tantos locais do mundo, como África e outras comunidades, as pessoas vivem literalmente do essencial, sem invalidar as suas festas e rituais, que entre nós costumam ser mais para a foto com nomes pomposos como sunset party, entre outros eventos onde duvido que a felicidade resida. É tudo muito bom, claro, mas se pensarmos duas vezes na vida social que se leva, e se realmente queríamos ir se não fosse o convite, vamos acabar por perceber que no fundo dispensaríamos tanta dessa actividade, e teríamos mais espaço e muito menos stress dentro de nós.
 
 
Uma vida com o essencial nunca começa pelas coisas, passa por elas como cores que nos alegram a existência mas detém-se sempre no encontro. É uma palavra muito importante. O encontro. Connosco e com o outro igualmente cheio de tanta defesa. É esse encontro que faz pulsar as fibras humanas que se vitalizam e engrandecem, porque soubemos que viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do mero "eu social", numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir.
 
 
As férias deviam ser sempre uma belíssima oportunidade para retemperar forças, como quem massaja a alma, como quem vai nutrir-se de vida, ou quiçá espaço para reflexão de onde estou, por onde caminho, onde quero realmente ir, e dessa forma, sujeitar à existência o supérfluo e o que pelo hábito julgamos ser necessidade, quando afinal a verdadeira necessidade está sempre no encontro connosco e na efectiva capacidade de amar...

19.6.16

SER EM PLENITUDE

 
Para se ser Pessoa integral precisamos de ter mundo mesmo que não sejamos viajados. Precisamos de ter noção da brevidade das coisas e com isso relativizar o que não deve ser empolado.
 
Precisamos de ter carácter, firmeza e bonomia, sem cair em concessões frouxas ou em rupturas anacrónicas, e sem termos de andar com atitudes austeras como quem acha que a vida tem mais valor se formos humanamente distantes!
 
Precisamos de saber que não somos eternos, que a morte não é um acidente, e que por isso o Agora e o Aqui têm uma importância infinitamente maior do que aquela que lhe concedemos.
 
Estamos sempre hipotecados no futuro, esquecendo-nos que pode não chegar como o sonhamos, porque a vida é dinâmica e não existem cauções.
 
E precisamos também de sonhar. A beleza existe sempre que vemos além da superficialidade diária. E precisamos de voltar atrás em tantas decisões, de refazer diariamente o nosso guia de valores e atitudes, actualizar o nosso caminhar. Quem não muda já se afundou na soberba da sua suposta razão.
 
Precisamos ainda de apagar os fogos diários de lixo humano tóxico (recriminações de tudo e de nada, altivez, arrogância, vulgaridade) e de arranjar tempo para arejar a alma e parar deste carrossel exagerado de estímulos que mata a contemplação e o pensamento, suga as energias, mitifica a razão e endeusa o vazio.
 
Vive-se num constante estado de espectáculo mas somos muito mais que marionetas em grupos de lazer ou com funções sociais.
 
E com humor e alegria, mesmo que seja para espantar a fealdade da vida, fazermos também nós a parte que nos cabe, descobrindo a cada instante novos caminhares...
 
 

9.6.16

BRILHANTE




Nos búzios dos sonhos
e na cintilação das estrelas
está o pulsar da minha
própria liberdade.

 
E de minhas mãos
evolam-se as cinzas
que me farão de novo
no caminho de uma vida!

28.5.16

A VIDA É CADA HOJE


 
 
Hoje só valemos pelo que formos amanhã. Maximiza-se o valor de tudo o que é sensorial, dinâmico, quantitativo. Esvazia-se a pessoa da sua interioridade num mundo de estímulos alienantes consecutivos, a cada nano segundo. Mas sobretudo valemos pelo que somos hoje, agora, e não esses futuros idílicos ou alienantes a que podemos nem chegar. É como se suspendessemos tudo o que podemos fazer de melhor com as desculpas de estarmos a meio caminho, mas o caminho que importa é aquele em que estamos no momento presente, não outro!
 
É o Outro a chave da existência. É o Outro que lhe confere significado e, por isso, é no Outro que nos realizamos. De resto, muitas vezes não sabemos o bem que fizemos ao Outro. Nem o Outro se apercebe do bem que nos fez a nós.
 
E o pior de tudo, é que muitas vezes leva-se quase uma vida inteira para se perceber que não houve partilha nem entrega nem amor, mas é exactamente isso que dá razão à existência!

26.4.16

BLUSH SOCIAL

 
 
 
Até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém. Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala tanto e não se diz nada, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

10.4.16

SER, TER E DAR ALMA

A perda da alma é a fatalidade dos nossos tempos! Precisamos de dar alma às coisas e às pessoas, carregá-las de significado e existência! Precisamos de acreditar na vida e enfunar as velas da fé. De velejar em águas profundas que nos tragam à superfície a serenidade dos dias, mas também a paixão de ser! E precisamos de um olhar sincero e corrector de nós mesmos.
 
Só descendo à própria génese humana, conseguiremos a apreciação geral do que sentimos e a partilha interior dos nossos actos, e dessa forma perceber como vai a nossa crueldade e a nossa justiça, o nosso desamor e a nossa entrega, porque ninguém é feliz todos os dias e muito menos se não tiver e souber ser alma...
 
É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o terror da morte, a força do amor e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim sem qualificação de termos tido, sequer, uma vida.
 
 

3.4.16

EM TUAS MÃOS

 
 
Em tuas mãos
pousarei as minhas
e sentirei o que
os teus gestos
não expressam!
 
 
E desse sentir, 
saberás que
à indecisão e
ao medo, o coração
tem mais palavras!

28.3.16

O AMOR NÃO TEM GEOMETRIA

 
 
1. Não há arquitectura no amor... nem matemática, nem geometria. Um amor muito calmo, pensado, ponderado, sem variações emotivas, pode ser muita coisa mas não é amor...
 
2. Se desenhares um esboço, concepcionares o espaço e as variáveis arquitectónicas e o mandares executar, terás um  edifício giraço, moderno, à medida do desenho e do papel, e do estudo que fizeste para a sua concepção. Há ali muito trabalho, muito empenho, mas não há amor. Há apenas arte.
 
3. Na arquitectura dos afectos, não existem seguros de vida. Só a confiança no próprio acreditar...