2.7.22

DO VALOR INTRINSECAMENTE HUMANO



Dois cães, duas situações, cuja imagem me convoca uma reflexão sobre nós!
Temos sempre a tendência de credibilizar o outro pelo que faz, ou pela quotização social que tem! Se, num grupo de doutores todos se apresentarem e fazerem valer os currícula e méritos sociais, e chegada a vez de um colega simplesmente disser o nome e sorrir, não vão perceber a mensagem: de que aquele que temos à nossa frente, não vale pelo que socialmente é apreciado, mas pela formação humana que demonstre e/ou lhe intuamos, ou seja, que vale pelo que é como pessoa, e não pelos títulos académicos que tem.
E, no entanto, as pessoas continuam no mesmo registo: de valorar o que o outro faz, para saber com que grau de cortesia e de respeito o deve tratar! Uma pessoa credível quere-se num registo q.b. de simpatia e entrega, nada de ser ela mesma e saber manter respeitos sociais, i.e., o politicamente correcto! Nada de mais errado. É, aliás, o primeiro engano. Claro que parecem muito descomplicadas e simpáticas, mas há muito verniz sob essa aparente genuinidade!
E, assim, confundindo o crédito com o valor [mesmo que este também exista - mas nem sempre o contrário é verdadeiro], caímos arrogantemente ignorantes (ou cínicos), na mentira social com capa de verdade, de que o cão bem cheiroso e tratado, que vai ostensivo e feliz no carro do dono, vale mais do que aquele outro, pobre e solitário, numa carrinha a caminho do canil... Não vale. Assim as pessoas...


*`**

(Por motivos óbvios, ao contrário dos anteriores textos, esta não é uma foto minha, sendo que também desconheço a autoria da ilustração).


22.5.22

DO DIA DO ABRAÇO

 


No dia do abraço que hoje, domingo, se comemora, e porque o Homem é um ser relacional, é importante reflectir no quão curativo um simples abraço é, desbloqueador e terapêutico, porque precisamos do toque, é intrínseco à natureza humana, e ninguém se desenvolve saudavelmente, se não tiver essa latitude do contacto, ao ponto de haver terapia pelo abraço, tal como existe a terapia do grito, por ex.

Muitas pessoas negam-se às mais elementares manifestações de carinho e afecto, em nome de uma veleidade pessoal de suposta autosuficiência, o que constitui uma mentira existencial, numa sociedade já por natureza egocêntrica, fechada em si mesma, e, sendo ela o somatório dos indivíduos, então cabe, a cada um de nós, fazer a nossa parte, porque também as neuroses colectivas e os desajustes emocionais, começam igualmente pela negação da satisfação de necessidades básicas, como o toque, o sorriso, o abraço prolongado, o desabafo... como fonte de higiene mental.
Um abraço
cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas muitos persistem na ostentação obtusa do "self made man" levando ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor autonegado.
Muitas sessões psicoterapêuticas poderiam ter sido desnecessárias, se simplesmente consciencializássemos que, abraçar, desabafar, partilhar, rir, chorar, saber ser saudavelmente louco (tristes dos ditos "normais", porque não vivem metade do que, gratuitamente lhes foi dado), são caraterísticas humanas naturais que sustentam o nosso edifício psicológico e mental.
Devo, ressalvar, porém, que, se em situações normais, um amigo, ou mesmo um desconhecido - que estava igualmente só, num café ou numa sala de aeroporto, ou a aguardar uma consulta, ou sentado a nosso lado numa viagem, whatever -, e, que, momentaneamente, durante a conversa foi o depositário das nossas preocupações, ainda que não diga nada, é do mais saudável que há, porque reciclou o nosso lixo emocional, tirando-nos muito do peso que, até ali, nos sufocava.
Todavia, se estivermos numa situação onde já a animia nos invade, o cansaço físico e mental, as lágrimas. a confusão, o desespero, o Outro, o amigo inesperado ou de longa data que, de alguma forma nos ouviu, serve para desabafarmos, continua a ser um descompressor natural, mas, nestes casos, devemos perceber a diferença entre um amigo, com quem desabafamos, e a ajuda especializada.

De resto, um "estou aqui", um simples sorriso e/ou mesmo o silêncio em que o outro lhe compreende a comunhão, é bálsamo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam.
E há muitos pedidos mudos e envergonhados, numa espécie de esquizofrenia afectiva, porque quero, porque preciso, mas porque depois penso que isso é sinónimo de fraqueza, e que mais vale suportar a solidão da neurose, e o sofrimento encapotado por um suposto desprendimento em forma de segurança e força, porque, admiti-lo, seria reconhecer que, também ele, necessita de suportes emocionais, como se isso não fosse intrínseco à natureza humana, em vez de nos robotizarmos. Não pode haver maior engano.
Abraçar, não é tocar no Outro como se passasse rapidamente a mão num superficial cumprimento. Abraçar verdadeiramente, mesmo sem palavras, é dar
um abraço
com os dois braços, num ritmo de interioridade, lento, demorado, numa linguagem sem palavras, porque é, também, um toque de alma, que se complementa na linguagem do corpo.
A auto análise e a redescoberta de nós mesmos nas potencialidades e limitações, estará sempre incompleta, se não se fizer também no processo relacional, mesmo naquele que possa incomodar, porque é nesse incómodo que o Outro nos diz quem somos, nos interpela sem saber, a descobrir e interpretar o significado desse incómodo, tal como é na sensação de bem estar e identificação interior, que damos pulos e avanços na assumpção de que, afinal, há tantos como nós, em caos e dor, mas também na capacidade directa ou tácita de que juntos somos mais fortes, em sensações profundas de uma humanidade que se constrói e partilha e aceita assim, devedora da afectividade e da entrega, e credora de tanta beleza no deserto da alma que julgávamos ser o fim.
Precisamos de ir além de nós, porque, como diz um provérbio africano: "sozinhos vamos mais rápidos, mas juntos vamos mais longe!"
É que só temos uma vida, e não é a sua duração, por natureza tão curta e limitada, que a qualifica, mas sim a qualidade com que a vivemos.



17.5.22

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA

 


O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU, declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia.

Ora, é muito claro, que uma pessoa homossexual, difere de uma heterossexual, apenas no género do objecto do desejo.
A homossexualidade é um fenómeno de natureza tão biológica quanto a heterossexualidade, isto sem dizer que a sexualidade dos outros não é da nossa conta, tal como não é nada que só ao outro diga respeito, ou será uma intrusão e uma violação do respeito por cada um, seja solteiro, divorciado, cigano, de cor, mãe solteira, gótico....ou homossexual.
Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta.
Aliás, um adulto que faz reparos ou outras manifestações homofóbicas, provavelmente não fez a transição para a idade adulta, e, eventualmente, poder-se-á ver nisso, um sentido frágil da sua masculinidade ou da própria sexualidade.
Os falsos moralismos e a incapacidade do aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o Amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz, o que é um absurdo, não apenas porque é, então, a sociedade que permite ou não a felicidade - sendo que a sociedade é a soma de cada um de nós e, por isso, cada um deve fazer a sua parte-, como porque o amor não tem sexo.
Somos fruto de uma cultura, mas também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.
Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem não segue a suposta hetero normatividade. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.
Sempre que somos preconceituosos seja em relação ao que for, estamos a ser ignorantes da própria condição humana, uma vez que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo Outro, entrando em caminhos medievais de despotismo pessoal, escudado no brilhante argumento da suposta normalidade.
Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua identidade e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que o fazem, precisamente pelas atitudes de marginalização e discriminação, individuais e colectivas, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar o que são...
E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime.
Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior, rejeitar as diferenças do e no Outro; antes, devemos aceitá-lo, tal como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (juridicamente, os escravos eram coisas, podiam ser transaccionados e não eram entendidos como pessoas, não podiam ter vontade própria), ou que, sendo de raça diferente, deviam ser toleradas na comunidade.
O senso comum, é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra!
E, no mundo dos afectos, não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa de quem comunga a sua própria humanidade.

15.5.22

DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA


Celebra-se hoje, o Dia Internacional da Família. Diz Richard Bach (o autor de "Fernão Capelo Gaivota")no fabuloso livro "Não Há Longe Nem Distância"
"Os laços que unem a tua verdadeira família não são os de sangue, mas os do respeito e da alegria dentro da vida de cada outro. Raramente os membros de uma família se criam debaixo do mesmo tecto."
Isto pode parecer muito para alguns, mas não é, de facto, o sangue, que faz uma família. Para não ser apenas família biológica, os seus elementos, por menos que sejam, precisam de cuidar e serem cuidados, amar e serem amados, compreender e serem compreendidos, serem solidários com as injustiças ainda que não sejam consigo...
Tenho a felicidade de ter uma família de sangue mas igualmente ímpar no amor, na entrega, na simbiose da preocupação, de sentir seu o problema do outro, de chorar a partida dos pais como se tivéssemos todos cinco anos porque foi o AMOR que sempre uniu, e uma sobrinha que em tudo nesse sentido de comunhão de vida é completamente igual a nós.
Mas quantas famílias monoparentais não existem, quantas não competem e maltratam sob as mais diversas formas, quantas famílias de sangue não passam disso? Filhos que sentem que a avó é que foi a verdadeira mãe, que um vizinho ou tio ou mesmo amigo da família é que para eles é família? Porque é o Amor que a define...
No dia internacional da família, lembro que família é quem ama, não os meros progenitores. Quantos filmes, livros e desenhos animados nos falam de autênticas famílias que se iam formando nos caminhos da vida pelas pessoas que conheciam? Gerou-se uma tal empatia e amizade, que já se consideram família mesmo sem serem de sangue, porque o que define uma família, é o sentido de verdadeira comunhão e amor, e não de hipocrisias sociais, manter a imagem e aparentarem o que não são.
Felizes os que são e têm uma família no seu sentido lacto (leia-se Amor) e não estritamente de sangue... É como muita arte que vemos em muitos murais de rua: está fora dos museus, mas consegue ser mais arte do que muito daquela que catalogamos como tal...

13.5.22

13 DE MAIO

 


Muito embora para a igreja, Fátima não seja um dogma de fé, ela é toda uma exegese de amor, é a razão a ser desafiada nos seus limites porque se revolta em não compreender o Mistério.

Na espiritualidade, razão e fé não se invalidam, já que, ao contrário das fadas e duendes, a ideia de Deus continua a ser racional.
Mas não se vive a espiritualidade nem se chega a Deus ou ao Mistério, através do esforço intelectual que possamos fazer.
É uma adesão interior, um caminho pessoal e único onde não entra o campo volitivo, tal como não escolhemos quem amamos numa lógica de um processo meramente racional.

A religião é apenas a vivência comunitária dessa adesão interior, onde as manifestações de fé acontecem como quem, gostando de ouvir música, não deixa, por isso, de ir a um festival ou um concerto, ou simplesmente socializa com amigos num café, porque a dimensão comunitária existe, independentemente da celebração individual dessa adesão interior de fé.
Fátima, tal como o Amor, estão para além da razão: não se explica: sente-se!

1.5.22

DIA DA MÃE


 Será sempre Mãe,

aquele ou aquela que suaviza a dor

e fortalece na prossecução da caminhada,

mesmo que os não unam laços de sangue,

mas de amor, amizade e entrega,

num despojamento humano e divino,

que geralmente se encontra

em quem sabe reconhecer no Outro,

a sua própria Humanidade!

28.4.22

DIA MUNDIAL DO SORRISO

 


Embora tecnicamente o dia mundial do sorriso se celebre nas primeiras sexta feiras de Outubro, passou também a celebrar-se no dia de hoje, 28 de Abril, por se ter divulgado na Internet a ideia de que o dia era hoje.

Ora, o sorriso, é como que um irmão da simplicidade, porque abraça, suaviza e comunga. Um sorriso é tão poderoso, que pode salvar vidas, e muitas vezes substitui, com maior eficácia, as próprias palavras.
Charles Dickens tem uma expressão fabulosa ao dizer que "ninguém pode achar que falhou a sua missão neste mundo, se aliviou o fardo de outra pessoa." E por vezes basta um sorriso, mesmo que não saibamos o efeito que provocou no outro.
Precisamos de lembrar de que só valemos pelo que somos e não pelo que temos.
A paz é aquela que se consegue no meio da luta, e os sorrisos são um encorajamento de alma, um vitamínico (anónimo) para a prossecução da caminhada.
É sempre na doação de nós mesmos que a vida acontece, não nos austeros perfis ou pomposas atitudes que assumimos em exageradas defesas de comunicação... Quando coloco uma foto minha de perfil em que não esteja a sorrir e o ar seja mais sisudo, costumam dizer-me que "falta o sorriso". E é verdade que ele me caracteriza.
Mas é necessário que as pessoas entendam que por detrás de um sorriso, ainda que genuínos (e os meus são sempre), não está necessariamente uma pessoa feliz, mas faz a sua parte. Pessoas perfeitas só existem no photoshop da alma.
Mas porque hei-de colocar um ar austero, como que a fazer valer medalhas ou títulos, mais crédito social? É uma fantasia que ilude o ego e não o Eu. Existe uma vaidade encapotada na afirmação do distanciamento interior.
O sorriso é potente, reconforta, alivia e cura.
Como diz a frase "um sorriso teu e está tudo bem". O "teu" pode e deve ser também de um anónimo, e felizmente que isso acontece muito.
🙂
O sorriso
é só outra forma de abraçar...

25.4.22

REVOLUÇÃO INTERIOR: OS 25 DE ABRIS

 


A maior revolução que alguma vez poderemos fazer, será sempre uma revolução interior. Na descoberta do que e de quem somos, que forças temos e que energias nos faltam, de que nos podemos orgulhar de nós sem altivez, e do que precisamos de melhorar sem autopiedade.

Permitirmo-nos ser o que verdadeiramente somos, obriga a desconstruir camadas pessoais e sociais de imagens auto impostas e reflexos sociais.
A liberdade só se alcança quando nos conhecemos o suficiente para conseguir amar indistintamente, elogiar sem hipocrisia, criticar sem má fé visando outra perspectiva, e aceitarmos em nós a vulnerabilidade e o fracasso, a raiva e o choro, as lágrimas tristes e a dor que as não deita, a alegria e a vitória, o sucesso e a felicidade, porque foi uma revolução interior que requereu humildade para a mudança, inteligência para perceber o caminho, e amor para prosseguir a caminhada.
Estes são os verdadeiros 25 de Abris, porque não existe mudança colectiva que não comece no indivíduo, com tudo o que tem de tortuoso e de inglório, mas também de gratificação, libertação e glória...
Prezo muito a liberdade, tal como o sentido de justiça, mas não podemos igualmente esquecer, que liberdade e responsabilidade andam de mãos dadas, pelo que, ser livre é ser responsável, apesar de existir responsabilidade sem liberdade.

17.4.22

DOMINGO DE PÁSCOA

 


Finalmente a Páscoa. Deus fez-se Homem e ressuscitou.

Dizia o Manoel de Oliveira que
"a dúvida é uma maneira de ser"!
O facto é, que, só com ela, podemos ir mais longe, avançar na descoberta de mais e melhor, sem estagnarmos em certezas, afinal, tantas vezes fantasiosas, mas a dúvida em si não chega; precisamos de desbravar caminhos, e mesmo cometendo erros, aprender com eles e continuar, sobretudo dentro de nós, no conhecimento do que julgamos adquirido.
A dúvida serve para não nos instalarmos em atitudes autodesresponsabilizadoras, mas precisamos de trilhar caminho, mesmo com dúvidas, mesmo sem certezas da firmeza do solo.

Não bastam as intenções piedosas, ou o não fazermos mal a ninguém; é necessário agir, ainda que tantas vezes o silêncio possa ser uma forma de comunicação, mas pode igualmente ser um gesto prejudicial, quando não nos solidarizamos para sermos neutros.

Precisamos de estar atentos em não ficarmos tão arredados em considerandos, que não vivemos com receio de tudo, incluindo o de agir... A dúvida pode ser um meio, mas não passa disso, e muitos pecados são perdoados a quem muito ama!

Deus ressuscita pelo exemplo do Seu próprio Amor, mas também não nos pede o ar de queixume de quem não tem, nem nunca se vitimizou.

Aceitou corajosamente os escárnios, o gozo enquanto o apelidavam de rei usando uma coroa de espinhos, o aviso de que a Sua mensagem traria a sua morte, romanos e judeus que aqui se juntam numa trama política e religiosa, respectivamente, a dúvida dos próprios apóstolos, a agonia solitária no Monte das Oliveiras enquanto os amigos dormiam, a traição de Judas e a negação de Pedro, sendo que, mais tarde Judas se arrepende e sem já nada poder fazer se enforca, e Pedro que acaba por tomar o legado, e quando o põem na cruz para morrer, pede para o porem de pernas para o ar, porque se sentia indigno de morrer como o Mestre.

Sabem lá os outros das nossas noites de dor ou das nossas madrugadas de angústia, ou sequer se teremos um ombro onde reclinar a cabeça, e todavia muitos não nos queixamos, não lastimamos de forma pessoal as terríveis contrariedades que a vida nos dá...

É a aprendizagem silenciosa do sofrimento, não para o consentir, mas para o aceitar como factor de crescimento, porque só assim se amadurece.

Todos convivemos com problemas e solidões, mas devemos mitigar a carga com o contrabalanço da entrega, da palavra amiga, do desabafo, do desbloqueio emocional que também se faz pelas alegrias simples que o dia e o momento têm.

Esse é um dos problemas: esperar pelo dia, pelas férias, pelos anos, pela altura ideal... e, entretanto, a vida faz-se, e o tempo dilui-se sem esperança nem entrega nem amor...

Faz-se Páscoa na abertura ao Outro, na luta ao preconceito e ao medo do desconhecido, na capacidade de amar sem condições, e de interiorizarmos a máxima de Terêncio que dizia: "sou homem; nada do que é humano reputo alheio a mim"...

Foi isto que Cristo fez, tão despido de falsas certezas, de dedos acusadores, de ideias preconcebidas... E, quando com esta naturalidade e simplicidade, soubermos viver, estaremos a contribuir para que haja Páscoa à nossa volta, em todas as mortes e renascimentos que todos os acontecimentos nos hão-de proporcionar...

É desta Páscoa que vos desejo Boas Festas, com o sorriso e a entrega dos que, mais do que se queixarem do que não têm, partilham o que lhes falta...
Por isso, hoje
, sim, é o dia de dizer "uma Páscoa Feliz"
💎⚜️

15.4.22

SEXTA FEIRA SANTA

 


É Sexta Feira Santa. Por volta das três da tarde, Jesus morre na cruz, vítima de uma trama política e religiosa, e com um grau tão grande de stress, que o suor é sanguinolento (hematidrose, uma situação rara provocada por um violentíssimo stress).

Escreve assim um paleontólogo: "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstrato. Deus não é uma ideia. Tão pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer."
Este "sem vida interior", ecoa muito em mim, porque considero-o uma das mais importantes razões pelas quais não se ama, não se partilha, não nos tornamos solidários, não chegamos ao Outro nem às suas motivações, vivemos uma superficialidade existencialista muitas vezes sem darmos conta disso, não conseguimos gerir as emoções nos momentos mais difíceis...tudo porque não existe vida interior...
Jesus tinha essa vida interior e, por isso, protegia as suas emoções. "Se os soldados romanos O crucificavam, Jesus sabia que cumpriam ordens, e, que, por detrás de uma pessoa que fere, há uma pessoa ferida... Isso não resolvia o problema dos opositores, mas resolvia o dele, protegendo a mente e as emoções", escreve um psicoterapeuta num livro sobre "Análise e Inteligência de Cristo".
Curiosamente, Einstein dizia que "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade".
E quão verdade isto também é.
Voltando ao paleontólogo, "Deus não é um puro assentimento racional, e sem vida interior não é possível crer."
Eu diria mais: a Deus não se chega pelo esforço intelectual que d'Ele possamos fazer. Fé e razão são caminhos distintos que não se invalidam, tal como não se ama alguém por um esforço intelectual, porque é necessário sentir.
"Contacto", um filme de ficção científica do livro de Carl Sagan, com Jodie Foster, trata com muita honestidade intelectual a razão e a fé, fazendo Jodie Foster de cientista que tenta perceber um sinal que vem de Vega, a 26 anos luz, tendo os políticos tomado controlo do projecto, e decidir o que fazer com a comunicação, sem descurar as implicações religiosas, aqui representadas pelo teólogo Palmer Joss (Matthew McConaughey).
No fim, o padre responde à cientista:
"Procuramos o mesmo;
apenas por caminhos diferentes".

Theilhard de Chardin, tem uma frase fabulosa, onde diz que
"não somos seres humanos a viver uma experiência espiritual, somos seres espirituais a viver uma experiência humana...".
No mínimo, dá para reflectir!


É Sexta Feira Santa, quando a Ucrânia é invadida e um povo quase dizimado;

É Sexta Feira Santa quando os poderosos nada fazem do que dar sentido ao dinheiro mas não à vida.

É Sexta Feira Santa, quando pessoas sofrem no silêncio de uma depressão que só ela sabe ter; no esforço de quem tendo tão pouco sobrevive sem a esperança de uma vida melhor.

É Sexta Feira Santa, quando se carregam cruzes insuportáveis, doenças incapacitantes, diagnósticos com pouco tempo de vida, traições, solidão...
E, é em todas estas dores, que Jesus expira na Cruz, fazendo-se Homem que conhece a nossa dor e por ela dá a vida.

Seja como for, a fé é sempre um caminho pessoal de interioridade, num processo único de caminhada individual, jamais de imposição ou tentativa de conversão, é um encontro de certezas que só a dúvida desfaz...

8.4.22

PERCEPÇÃO E REALIDADE

 

O problema dos livros de auto ajuda, é que enfatizam o pensamento positivo, apagam a experiência do sofrimento para novamente chamar à atenção do pensamento positivo, e fazem sempre um fortíssimo apelo à auto satisfação e ao prazer. Alguns têm boas técnicas e tácticas úteis, mas no geral é isto!
É um erro. Tal como o amor não é o que idealizamos mas sim o que construímos, também a vida não é um quadrado estanque onde nos realizamos hedonista e egoisticamente.
Somos seres relacionais, e precisamos de saber que a felicidade não é a mera satisfação de caprichos e prazeres (esgotar-nos-iamos tão rapidamente que abriríamos uma ferida existencial), mas a capacidade de ser Pessoa e de partilhar valores de Amizade, Entreajuda, Esperança e Amor.
As experiências negativas devem ser incorporadas para melhorarmos, para nos reconhecermos falíveis, e aceitarmos o que for inevitável ou não depender de nós, e só desta forma, integrando o sofrimento e sabendo que a felicidade não é o mais ter mas o mais ser, nos realizarmos como Pessoas!
Sem humildade suficiente, mas com autoestima e não o sorvedouro do ego, não nos reconheceremos falíveis, as palavras não correspondem às acções, e a mudança não se faz.
Por isso nos vemos muito importantes no espelho da auto percepção, um viés cognitivo, quando, na realidade, continuamos mesquinhos e pequenos como na história do rei que vai nu...

25.3.22

A LIÇÃO DO FILME "CLUBE DOS POETAS MORTOS"

 


"Clube dos Poetas Mortos", ("Dead Poets Society" no original), dispensa apresentações, mas vale a pena revisitá-lo como uma lição de vida que a maior parte das pessoas simplesmente não tem.

Um filme exemplar de arrojo e emoção, onde a lição é a de nos desinstalarmos das vistas curtas do egoísmo, e de planar com asas intemeratas além do politicamente correcto, esse impedimento odioso que trata com cortesia o desprezível, e com desprezo o sentido humanista de qualquer sentido de bem.
E a loucura de ir contra o instituído, não por libertinagem, mas por dever de ser! Gosto do sério, do culto, da erudição, da estética e da beleza, da elevação e da justiça, como gosto do humor, do sentido de entrega, do riso desbragado, amigo e descomplicado, da simplicidade e da sensibilidade.
Uma pessoa com sensibilidade consegue chegar onde onde outra muito inteligente mas deprovida dessa sensibilidade, não chega, por isso esqueçam a veleidade dos doutores, muito embora existam muitos que, numa extrema simplicidade, jamais duvidaríamos que o fossem.
Anda muita gente à procura de algo, impacientes e insatisfeitos, mas a vida não se faz numa determinada altura, como quando se termina um empreendimento, se casa ou se tem uma promoção! A vida faz-se em cada dia, como se ele fosse a estação alfa e ómega, mesmo sabendo que é com sonhos que continuamos, não para nos descomprometermos com o Hoje, mas para nos relançarmos em novas epopeias, cientes, porém, de que é sempre no Agora, no Momento, no instante, que devemos dar o que somos, sem medos de preços humanos, respeitos sociais ou cotações de credibilidade.
Se me pedissem para me definir cinefilamente, apresentaria a emocionante cena final do "Clube dos Poetas Mortos", onde um aluno revoltado com a injustiça que estava a ser feita contra o Mr Keating (oh captain, my captain, seize the day), o saudoso Robin Williams, não consegue lidar com a injustiça, vendo-o partir, e embora atado de mãos e braços, mostra-lhe que aprendeu a hombridade, que a vida não é feita da matemática dos livros, e que aprendeu que precisamos de nos desconstruir, e por isso ousa colocar-se de pé em cima da mesa proferindo a frase "oh captain my captain:. Alguns outros acabam por seguir o gesto, revoltados que estavam de nada poderem fazer, e por isso o mínimo seria homenagear o seu professor da mesma maneira como ele ensinou.
Enquanto o professor da instituição, hermético, quadrado e conservador, by the book, pede insistentemente aos alunos que desçam, ameaçando-os, mais de metade da turma contínua a dizer-lhe, de pé, em cima da mesa, que não passa de um ditador académico da velha guarda, que acaba de cometer a maior das injustiças só porque não ia pelos cânones, enquanto simultaneamente dão tudo o que podem numa perigosa e audaz homenagem ao professor agora demissionário, pondo-se de pé nas carteiras, deixando meia dúzia de cobardes que, obviamente, pensaram no politicamente correcto, nas consequências, não tiveram qualquer espírito de solidariedade e, muitos, provavelmente, nem aprenderam nada do professor, precisamente porque não eram livres. Daí a necessidade de nos desconstruirmos diariamente...
E quando soubermos rasgar a vergonha de ser, e ultrapassarmos o medo de depender do crédito que nos possam dar, e querermos agradar a todos, estaremos a cumprir com valor, a mensagem do filme em ousarmos ser simplesmente nós...