3.9.19

RECOMEÇO



As férias acabam. O ramerrão começa. Todos voltam aos lugares. Despiram-se anseios, descansou-se a alma, mitigou-se a diária chatice. Mas muitos ficaram, agarrando-se aos muros de cartolina que projecta a ilusão de um castelo bem guardado onde habitam seres de papel, inermes e leves, que não precisaram de se perfilar como os que agora regressam porque já lá estavam, escudados em doze meses pintados a carvão, por vezes rasgados e reconstruídos com a fita cola da vida, e ninguém nota, ninguém vê! Vão continuar perfilados, viajantes cansados de uma bola de cristal, esperando pacientemente a sua vez, a sua glória, a sua luz! Ainda que partam, algures ficou gravada a natureza do sangue que luta e espera. E dessa prova de vida, começará a nobreza de um espírito imortal...

1.9.19

DO VALOR INTRÍNSECO



Temos sempre a tendência de credibilizar o outro pelo que faz ou pela quotização social que tem! Se num grupo de doutores todos se apresentarem e fazerem valer os currícula e méritos sociais, e chegada a vez de um colega simplesmente disser o nome e sorrir, não vão perceber a mensagem à primeira: de que aquele que temos à nossa frente não vale pelos títulos que tem, mas pela formação humana que demonstre e/ou lhe intuamos. E, no entanto, as pessoas continuam no mesmo registo:... de valorar o que o outro faz, para saber com que grau de cortesia e de respeito o deve tratar! Ora, confundindo o crédito com o valor, mesmo que este também exista - mas nem sempre o contrário é verdadeiro -, caímos arrogantemente ignorantes (ou cínicos) na aferição de que o cão bem cheiroso e tratado que vai ostensivo e feliz no carro do dono, vale mais do que aquele outro numa carrinha a caminho do canil... Valemos pelo somos. Não pelos títulos que temos. Um cão é sempre um cão, independentemente de estar num canil ou com todas as mordomias numa casa de ricos... E quem não sabe ver com o coração, terá sempre uma visão enquinada do outro, do mundo e da vida, na aferição adulterada que, mesmo sem saber, também faz de si...

28.8.19

DAS FÉRIAS E DO ESSENCIAL

Todos gostamos de férias. É uma das melhores coisas. Mas fazemos férias como se fosse uma interrupção da existência, tal como desejamos bom fim de semana para só voltarmos a falar na segunda feira seguinte.

Fazer férias não é tanto a desbunda hedonista, mas a descompressão, o retemperar das forcas vitais, lembrando-nos que também somos alma, espírito, essência - que cada um entende à sua maneira - e nesse descanso também físico e psicológico, encontrar o acolhimento e a disponibilidade interior que nem sempre temos.

Se me pedissem para me definir, seria pela simplicidade. Esta, subentende também a humildade e a alegria, mesmo quando não vislumbramos caminhos e só apetece afiar o dente.

Simplicidade é estar de mãos abertas e alma receptiva, e como sempre costumo dizer, não se deve confundir com ingenuidade mas requer inocência. Estamos muito habituados a erguer camadas sobre camadas de defesas, mas sem entrega e sentido de humor, desumanizamo-nos. A sociedade não é mais do que a soma de cada um de nós, pelo que nem sempre colhe o argumento do "é assim", mas coragem para sermos. O que é o essencial nas nossas vidas? Apegamo-nos a coisas, muitas coisas, como se pudéssemos dormir com elas ou receber o afago na solidão e dor.

Uma vida com o essencial nunca começa pelas coisas, passa por elas como cores que nos alegram a existência mas detém-se sempre no Encontro. É uma palavra muito importante. O Encontro. Connosco e com o outro igualmente cheio de tantas defesas. É esse encontro que faz pulsar as fibras humanas que se vitalizam e engrandecem, porque soubemos que viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do mero "eu social", numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir.

23.8.19

PERCEPÇÃO DISFUNCIONAL

O mundo está cheio de pessoas que pouco vêem além do seu próprio umbigo! Fazem das suas crenças a realidade e tornam-se injustas por isso! É esta, de resto, a definição de ignorância! Ignorante não é a pessoa que não sabe ler ou não tem um doutoramento! Ignorante é aquele que não tem noção do próprio mal que pratica, e que achando-se legitimado na própria ignorância, continua a praticar o mal, feliz e contente porque, tal como um tolo, não tem noção do que faz.

Tal como as multidões que são acéfalas e não pensam, antes vão guiadas pelo instinto colectivo e cego, assim as pessoas que não se conseguem distanciar de si mesmas! E sem conseguirmos ver além do umbigo, inflamam-se os egos e a injustiça corre como chuva de inverno achando todos que está um imenso sol. Nalguns impera o egoísmo, sob a capa de um pretenso amor, e tudo o que importa é o seu quinhão de existência! Interesses, preferências, hipocrisia, tudo servido com a egótica sensação de uma verdade absoluta e a máscara do socialmente correcto!

A capacidade de pararmos para reflectir e fazer um upgrade de nós mesmos, de nos distanciarmos dos nossos interesses e visões pessoais, é fonte de higiene mental e remete para a inteligência emocional que todos devíamos praticar! É por isso que valorizo os que têm coluna vertebral e coerência, e não sucumbem às conveniências, e que tantas vezes pagam com a solidão o preço de se manterem fiéis ao carácter e ao sentido de justiça, termos raramente encontrados em quem não sabe fazer da vida um lugar de amor e amizade numa dádiva constante de si!

Mas também valorizo os simples, os que não necessitam de aprovação social para simplesmente serem. E não precisam de uma quotização intelectual para brilharem! Não se colocam máscaras de austeridade comunicacional para fazerem valer o que são. Os grandes, são sempre assim: simples e humildes! Os que usam muito os cânones sociais, e fazem valer o que são pelos títulos que têm, são devedores de tanto, mas julgando-se pavões importantes. Não são. Do ponto de vista humano, o que conta é que damos, não o que temos…

E também valorizo a inteligência. Mas prefiro os sensíveis, se tiver de escolher! Uma pessoa inteligente sem sensibilidade, é praticamente um neanderthal moderno! A sensibilidade é um dom que se tem, para si, para as situações e para os outros..

E, claro, o humor! Só quem sabe rir de si e das situações, é interiormente livre porque não se tem mais do que à vida! E, neste gostar, se conhece e faz o conhecimento do Outro, da vida e do mundo ...

18.8.19

SUPER EU

Inculcámos em nós esta convicção do mais, de que podemos sempre mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado! Muitos workshops e coaching são centrados nessa vertente de auto realização, mas não há qualidade de vida nem de tempo sempre que o ramerrão nos escraviza em baratas tontas que já nem sabem que o são, nem a realização pessoal se faz sozinha. Um homem deixado numa ilha solitária com todas as mordomias ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial!!

Os cursos quando bem centrados na inteligência emocional ou na programação neurolinguística, são uma ferramenta poderosa e muito útil; o problema é quando descambam ou indirectamente transmitem a falsa ideia de que tudo podemos sozinhos, bastando conhecer as ferramentas... Não pode haver maior engano e há pessoas que acabam por julgar que se bastarão a si próprias...

Aquela ideia de que temos de ir sempre além de nós, é falsa. Como tão bem diz Carl Jung (outro grande nome da psicologia e que foi colaborador de Freud): "Na verdade não existe algo como dever-ir-além-de-si-mesmo. Por isso não aconselharia ninguém a querer ir além de si mesmo. Além disso, esta expressão também é falsa; não se pode ir além de si mesmo, mas apenas avançar mais para dentro de si mesmo!"

O caminho é sempre o da interioridade. Endeusar o ego e acreditar que nos realizamos sozinhos, é robotizarmos o que somos numa das maiores falácias de vida! Somos vítimas de nós mesmos sempre que não sabemos respirar a alma. E viciosamente encontramos argumentos e desculpas para o nosso próprio vazio

13.8.19

SER JOVEM É...

Escrevia, salvo erro, Camilo Castelo Branco, que "crescer é tornar-se adulto sem se adulterar". A 12 de Agosto, comemora-se o dia internacional da juventude, e se não devemos ser ingénuos, usando as ferramentas que permitam sem malícia, mas com firmeza, corrigir o outro, a verdade é que, da mesma maneira, nunca devemos perder a inocência. Ser jovem será sempre um estado de espírito, e é por isso que há jovens apáticos e adultos entusiastas!

Quando crescemos a afagar o ego e confundimos sobranceria e arrogância com auto estima, adulterámo-nos em vez de amadurecer, da mesma maneira que cerceamos a liberdade de sermos nós mesmos, sempre que nos rendemos aos cânones estabelecidos de uma quotização intelectual, de um status com atitudes pomposas, de cortesias para criar simpatia que de genuíno pouco têm, ou ainda quando sufocamos a vontade de educada, mas livremente, dizermos o que pensamos, não como quem critica, mas como quem partilha ou contribui.

Adulteramo-nos quando aplaudimos os fortes só porque têm um valor social, e quando relegamos os que, imunes às críticas sociais ou ao parecer canónico das modas, se sujeitam apenas a si mesmos, nos valores que verdadeiramente interessam... A juventude está na capacidade de sermos nós mesmos, que requer uma raiz profunda para aquilatar da qualidade humana, e dessa forma deixar confusos os que achavam que um aparente pateta ou zé ninguém, era, afinal, alguém com poder, doutorado ou CEO, mas cuja simbologia levou a descobrir quem verdadeiramente o rodeava. E também o contrário. Que aquele que fazia valer medalhas e ostentava os curricula sociais ou académicos, era, afinal, alguém pouco criterioso, interiormente pobre e humanamente repugnável. Mas também ainda a situação de quem, não tendo status, dinheiro ou poder, tem, afinal, uma sabedoria imensa de vida e uma delicadeza de alma, que tantos outros de renome jamais lhes chegarão a vislumbrar o início…

Saber ser jovem, é também saber ousar, arriscar o que em adulto parece mal ou não se faz, e confundindo tudo isto com classe social, perdemos a noção entre elegância e vulgaridade, porque elegante será sempre sermos nós na condição humana do abraço, e não o sorriso manipulado do jogo social... O oposto é que é vulgaridade!

Há uma diferença entre crescer e amadurecer. Já dizia Nietzsche "torna-te aquilo que és", e nós fazemos exactamente o caminho inverso. Não há mal nenhum em chegar sem gravata a uma reunião de doutores, em comer um iogurte lambuzando os dedos ou em preferir uma carrinha pão de forma a um Maserati para impressionar. Em pedir uma torrada com manteiga em vez de impressionar com um brunch, ou sujar-se a brincar com um cão que sem nos conhecer nos pede festas. Em chorar sem vergonha e em rir no meio da dor, não como quem a irreleva mas porque é demasiado forte para se aguentar, ou em ir descalço onde outros usam sapatos Armani. A diferença está na relevância e/ou necessidade que temos de dar para nos credibilizarmos a nós mesmos, mas o crédito vem de dentro, para poder suportar a dor com respeito mas sem se destruir, ou para poder abraçar quando todos fogem e acusam…

A ideia de felicidade, com tudo o que implica de viver a paz no meio da luta, e de sorrir mesmo com cinzas na alma, está ligada à maturidade emocional, não necessariamente ao crescimento. E isso requer liberdade interior para podermos ser verdadeiramente nós...

E então, comemorando-se hoje o dia da juventude, quantos de nós já não envelhecemos por dentro, rendidos ao embrulho e não à essência, e se crescer é tornar-se adulto sem se adulterar, então quantos anões não há por aí... Ser jovem é ousar. Ousarmos ser nós!

30.7.19

DESCANSO E FÉRIAS



A felicidade não se preenche com longos cruzeiros, festas sunset, e jantaradas contínuas onde depois não resta ninguém, mas na capacidade de saborear as pequenas coisas, os pequenos gestos, fruir o momento sempre tão cheio de ruído que também nos cabe silenciar...

Vivemos sozinhos juntos, e é por isso que os paradigmas existenciais se acentuam ainda mais. Mas é também na capacidade de aceitação da vulnerabilidade e solidão pessoais, que todo o resto se ergue e alavanca. De outra forma, vivemos encantadoramente felizes no desencanto que também nós criamos, e só estendendo as mãos e os braços ao Outro, fazemos brilhar o sol prisioneiro nas nuvens despóticas do eu!

O resto é vaidade e desconhecimento de que somos finitos, limitados, mesmo com portais de sabedoria que só a experiência humana da partilha e da humildade poderá dar...

Até lá, cabe fazer do barulho das jantaradas e das sunset parties, o silêncio partilhado de um ritmo solto e leve, como quem comunga e não como quem cumpre um evento.

As férias somos nós que as criamos na paz que conseguirmos ter, e não na agenda apertada onde não há tempo para ninguém, incluindo nós...

8.6.19

DIA DO MELHOR AMIGO


Diz que hoje é o dia dos melhores amigos. Ora tenho para mim que não são necessariamente as pessoas que conhecemos desde sempre, que automaticamente atingem este epíteto!


 Melhor amigo pode ser um desconhecido que ficou (somos todos estranhos até nos conhecermos), pode ser alguém recente com quem nasceu uma cumplicidade que não sai, porque melhor amigo é quem nos gosta de ver feliz, quem nos chama a atenção mesmo que não gostemos, que está presente mesmo na ausência, que se alegra e pula connosco, que intui o silêncio e seca as lágrimas, que se lambuza connosco e não afere pela aparência!


Podemos até não ter nenhum melhor amigo, e de repente alguém passar a sê-lo! A identificação é, muitas vezes, a cola suficiente que cria esse vínculo... e o tempo interior fará o resto!


O "best friend" pode simplesmente ser alguém que, apesar de um conhecimento recente, sabe ler-nos tão bem quanto a reciprocidade do carinho...


4.6.19

CLUBE DOS POETAS MORTOS


Comemoram-se 30 anos do "Clube dos Poetas Mortos", um filme exemplar de arrojo e emoção, onde a lição é a de nos desinstalarmos das vistas curtas do egoísmo, e planar com asas intemeratas além do politicamente correcto, esse impedimento odioso que trata com cortesia o desprezível, e com desprezo o sentido humanista de qualquer sentido de bem. E a loucura de ir contra o instituído, não por libertinagem, mas por dever de ser!

Gosto da inteligência, da seriedade, da estética e da beleza, da arte, da elevação e da justiça, como gosto do humor, do sentido de entrega, do riso desbragado, amigo e descomplicado, da simplicidade, da capacidade de nos empatizarmos com quem morre na solidão mesmo revelando sinais contrários, ou de quem se alegra porque o dia ou o momento lhe correu extremamente bem…

Andamos todos à procura de algo, impacientes e insatisfeitos, mas a vida não se faz numa determinada altura, como quando se termina um empreendimento, se casa ou se tem uma promoção! A vida faz-se em cada dia, como se ele fosse a estação alfa e ómega, mesmo sabendo que é com sonhos que continuamos, não para nos descomprometermos com o Hoje, mas para nos relançarmos em novas epopeias, cientes, porém, de que é sempre no Agora, no Momento, no instante, que devemos dar o que somos, sem medos de preços humanos, respeitos sociais ou cotações de credibilidade. E quando soubermos rasgar a vergonha de ser, e ultrapassarmos o medo de depender do crédito que nos possam dar, estaremos a cumprir com valor a mensagem do filme em ousarmos ser simplesmente nós, com a liberdade que as sujeições sociais, o politicamente correcto ou a adulação dos putativos mais fortes, não permite... Carpe diem!

3.6.19

DO AMOR

O Amor é paixão que se consome continuamente em inocência que não se perde, e por isso erra sempre no modo amar. O Amor entrega-se, vive pulsante cada instante e momento, depende e faz depender, leva a repensar toda a estrutura da paixão. O Amor é oferecimento contínuo, é precisar do outro e chorar, ter medo e raiva, ciúme e pesar, compreensão e felicidade. Sente a ausência de forma alegre porque continua a comunicar no silêncio e nas mensagens trocadas. Porque sendo fiel, sente a felicidade afectiva plenamente realizada na abertura descontraída de quem ama e é amado. Supera imperfeições, perdoa, mas também exige. Muito. E por isso, dando-se assim, na loucura que o correcto não consente, é amor apaixonado, inflamado, estúpido.

Mas o Amor é por natureza estúpido! Não no sentido negativo do termo, mas porque vai além das barreiras e dos conceitos estereotipados do que é o amor. Antes, os pais batiam nos filhos cruelmente e diziam que lhes custava mas que era para bem dos próprios filhos. Hoje temos os filhos a bater nos pais. Até nos idosos. Não é destes absurdos que falo. Referi-o apenas como exemplo dos conceitos e estereótipos do amor e o quão perigosos podem ser! O Amor afectivo e o amor íntimo quer a companhia do amado e dá-lhe a sua. Podem até sufocar-se mas a brecha de excesso que abrir dar-lhes-á de novo espaço para voltarem a amar de forma intensa.

O Amor adulto, correcto, social, que dá um beijo e se subsume às rédeas da vida com uma enorme falta de liberdade, é aquilo a que chamamos pomposamente de amor adulto, de fase posterior à paixão, e que não devemos confundir esta com aquele. Pois eu penso que o Amor, para o ser, tem de ser estúpido, tem de ser louco, tem de ser apaixonado. Um amor muito calmo, convencional, sossegado, cheio de compassos de espera, sem grandes variações emotivas, é uma ligação, não é amor.
O Amor tem de brilhar, começa por ser incandescente, solta radiações que os outros julgam nefastas, atrai e move-se em todas as direcções. Uns dias pode estar mais tranquilo, mas qual vulcão, tem uma energia potencial sempre preparada e que mantém e sustém a própria relação. Um amor adulto, como dizemos, que já se separou da barreira da paixão, do brilho e do encanto, é um amor apagado, tout court. Quais filmes e livros românticos e dramáticos, o amor é isso mesmo: perda, luta, entrega, sofrimento, felicidade, êxtase! Correr debaixo da chuva ao encontro do outro, deixar tudo para seguir um caminho, apanhar um avião para voltar no mesmo dia, suspirar até no sonho…

Sim, claro, há diferentes formas de amar. Sim, claro, o Amor espera. Sim, claro, o Amor tem de acompanhar as necessidades reais e não pode deter-se em lirismos ou fantasias, mas o Amor é mais do que isso! É muito mais do que isso. É a chama irrevogavelmente acesa que de tempos a tempos se pode até parecer extinguir, mas que no mesmo lapso de tempo se ergue renascido aumentada no estímulo constante da emoção. 
 
"Onde houver loucura há amor. Onde não houver loucura, já não há amor". É o caso da mãe que entra num prédio em chamas para salvar o filho quando todos os bombeiros a tentam impedir pelo avançado estado do incêndio. É o caso de alguém que tudo faz por um amigo. É o caso de quem chega a mudar de vida por amor. Sem paixão, aquilo a que chamamos Amor é apenas a rotinização de outra fase que já não se incendiando, entrou nos clichés sociais do correcto e não almeja mais do que companhia para a vida a que se habituou e para a solidão. Pode ser um enorme respeito, uma belíssima amizade, a melhor cumplicidade, mas não é Amor! É, aliás, por ser isto tudo de extraordinariamente louco, que as pessoas, na razão inversa da sua inexistência ou desaparecimento, deprimem, enlouquecem, retraem-se em voltar a amar, afundam-se e vegetam. Porque a força criadora e libertadora do Amor, encontra o seu equivalente inverso na destruição avassaladora, no limbo a que muitos se remetem durante anos, na morte e na loucura. E esse lado negro não existe pelo amor, mas pela sua ausência.

A única exigência do Amor é amar. Incondicionalmente. Sem recatos sociais nem observações moralistas ou cultivadas pela experiência que aqui pode ser falaciosa. Uma aurora boreal não existe para agradar quem a vê, mas porque as circunstâncias estavam preenchidas para que acontecesse. Determinar o modus vivendi do amor, é adulterá-lo. Amor recíproco, é sentir a falta e é servir na mesma proporção do outro. Mas a reciprocidade não é um dado endógeno do Amor. A reciprocidade deve ser a exigência primeira no amor íntimo. Que não será exigência se houver amor. Ainda assim condição fundamental para que ninguém ame quem eventualmente não mereça essa entrega. Tudo o que vier a seguir, uma vez mutuamente aquiescida a entrega, tem de ser amor, sob pena das depressões e dos limbos que tantos conhecemos. Ficar preso ao passado é um desrespeito pelo amor que ainda não travámos com quem o possa alimentar, e pedir reciprocidade no amor universal, pode conter um quê de egoísmo. Mas no amor íntimo, no amor afectivo que move mundos, a única exigência é simplesmente amar...

28.5.19

PARADOXO DO AUTO RESGATE


Há pessoas que vivem sós dentro de si. Dores emocionais e vidas de sofrimento. Há risos que são uma forma encapotada de chorar. Somos frágeis mesmo quando nos mostramos fortes. De nada valemos se não formos pessoas autênticas. Mesmo nos aspectos mais desonrados. Claro que as defesas todos as usamos. Até inconscientemente como mecanismo de adaptação e sobrevivência. Mas quando as defesas se tornam tão fortes que nos escudamos em seres que não somos, é um oxigénio artificial que respiramos, é uma outra vida que vivemos, e são muitas as fontes de desencanto e animia, de desconsolo e ansiedade, de frustração e de dor.

Não se trata dos serviços mínimos das defesas comuns para tapar fragilidades, mas daquelas que não nos permitem revelar a nossa própria condição, até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si...

22.5.19

DIA DO ABRAÇO






Descontado o facto de que é sempre que o quisermos e sem precisarmos de motivos, hoje é o dia do abraço. Já dizia Sebastião da Gama "venha daí esse abraço!". Na realidade, a linguagem dos afectos é relegada com vergonha pelos cânones sociais mas também pessoais! O abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Um estar, cura! Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas não. A ostentação obtusa do self made man e do ego leva ao exagero a distância interior, e metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor interrompido!

Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça, é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que, de outra forma, ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana.

Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! Só quem tem medo ou pouco para dar, se fecha no vazio do ego. É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes. Free hugs... Porque o melhor, não tem preço...

17.5.19

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA

O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia. Ora é muito claro que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas no género do objecto do desejo. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta. Os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz. Um absurdo total. O amor não tem sexo.

Somos fruto de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem não segue a suposta hetero normatividade. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação, e confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Somos ignorantes da própria condição humana, e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus, ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é também a sua identidade e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que não se assumem sequer para si mesmos, deprimem e se suicidam precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de desprezo e marginalização.

E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se amarem fosse crime! Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior rejeitar as diferenças do e no outro; antes, devemos aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que sendo de raça diferente deviam ser toleradas na comunidade.

O senso comum é o pior inimigo que conheço, e é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.

28.4.19

DIA MUNDIAL DO SORRISO

Diz que é o dia mundial do sorriso. Ora o peso da vida não é constante. E torna-se mais pesado sempre que se obnubila a esperança, sempre que o futuro se adensa negro, sempre que nos vemos prisioneiros de uma realidade que não queremos, não desejámos e não merecemos.
 
Sim, o peso da vida torna-se maior nesses momentos, como se nos fosse retirada a alma, como se o desencanto fosse a pele que vestimos, é como se o coração não tivesse chama, é como se acordar outro dia não tives se a menor importância.

Não advogo nenhum sofrimento gratuito ou qualquer forma de estoicismo, mas, além de sabedoria de vida, gosto daqueles que sabem relevar sem desresponsabilizar, dos que encolhem os ombros com um sorriso, como quem acaba de perder um comboio mas sem maldizerem o mundo por isso. É nestes momentos que mais nos precisamos de lembrar de que só valemos pelo que somos e não pelo que temos. De que apenas nos realizamos com o Outro, de que sozinhos, como diz o provérbio, chegamos mais depressa, mas não mais longe. E esta interiorização da vida, dolorosa, sim, não nos torna mais felizes por isso, mas a consciencialização dos factos é sempre meia resolução do problema.
 
Nunca gostei de quem reclama como se tivesse o primado de ter de ser mais feliz do que os outros, como se fosse imperativo que nenhum escolho pudesse haver no seu caminho, mas também aqui entra a humildade da condição humana, já que, paradoxalmente, um caminho sem problemas é, em si, indicação de que não é esse o caminho.

Um sorriso mesmo que triste, ou um silêncio como quem digere o problema, um atender ao outro como quem se acolhe a si mesmo, são apenas formas possíveis das beligerantes opções comuns. Não como quem não se insurge ou se resigna, mas como quem não gasta energias com o inevitável, quando o é!

É no abraço universal que beijamos a alma, e é com essa atitude do sorriso que o coração canta a dor e a exorciza. Só é preciso não desesperar, não tomar a contingência pelo definitivo, não afiar o dente nem maldizer o mundo, e sentir que muitas vezes a paz está no silêncio que não fazemos e no sorriso que não damos...

Entretanto, o humor é, além de um bálsamo, uma forma de exorcizar os dramas e as inevitáveis contrariedades que a vida traz, além de ser fonte de higiene mental, mas não deve ser confundido com ausência de problemas! A paz é aquela que se consegue no meio da luta, e os sorrisos são um encorajamento de alma, um vitamínico anónimo ou de amizade, e, vale muito mais do que os lamentos...

O sorriso é só outra forma de abraçar…

21.4.19

DOMINGO DE PÁSCOA

Finalmente a Páscoa. Deus fez-se Homem e ressuscitou. Dizia o Manoel de Oliveira que a dúvida é uma maneira de ser; sei que só com ela podemos ir mais longe, avançar na descoberta de mais e melhor, sem estagnarmos em certezas afinal tantas vezes fantasiosas, mas a dúvida em si não chega; precisamos de desbravar caminhos, e mesmo cometendo erros, aprender com eles e continuar, sobretudo dentro de nós, no conhecimento do que julgamos adquirido. A dúvida serve para não nos instalarmos em atitudes autodesresponsabilizadoras, mas precisamos de trilhar caminho, mesmo com dúvidas, mesmo sem certezas da firmeza do solo.

Não bastam as intenções piedosas, ou o não fazermos mal a ninguém; é necessário agir, ainda que tantas vezes o silêncio possa ser uma forma de comunicação. Mas precisamos de estar atentos em não ficarmos tão arredados em considerandos, que não vivemos com receio de tudo, incluindo o de agir... A dúvida pode ser um meio, mas não passa disso, e muitos pecados são perdoados a quem muito ama!

Deus ressuscita pelo exemplo do Seu próprio Amor, e certamente estaria longe das opulências milenares, mas também não nos pede o ar de queixume de quem não tem. Sabem lá os outros das nossas noites de dor ou das nossas madrugadas de angústia, ou se sequer teremos um ombro onde reclinar a cabeça, e todavia muitos não nos queixamos, não lastimamos de forma pessoal as madrinhas más que a vida nos dá... É a aprendizagem silenciosa do sofrimento, não para o consentir, mas para o aceitar como factor de crescimento, se for caso disso!

Todos convivemos com problemas e solidões, mas devemos mitigar a carga com o contrabalanço da entrega, da palavra amiga, do desabafo, do desbloqueio emocional que também se faz pelas alegrias simples que o dia e o momento têm. Esse é um dos problemas: esperar pelo dia, pelas férias, pelos anos, pelo natal, por aquela altura... e entretanto a vida faz-se e o tempo dilui-se sem esperança nem entrega nem amor...

Faz-se Páscoa na abertura ao outro, na luta ao preconceito e ao medo do desconhecido, na capacidade de amar sem condições, e de interiorizarmos a máxima de Terêncio que dizia: "sou homem; nada do que é humano reputo alheio a mim"... Foi isto que Cristo fez, tão despido de falsas certezas, de dedos acusadores, de ideias preconcebidas... E, quando com esta naturalidade e simplicidade soubermos viver, estaremos a contribuir para que haja páscoa à nossa volta em todas as mortes e renascimentos que todos os acontecimentos nos não-de proporcionar...

É desta Páscoa que vos desejo Boas Festas com o sorriso e a entrega, que mais do que se queixar do que não tem, partilha o que lhe falta... Por isso, hoje, sim, é o dia de dizer "uma Páscoa Feliz"

20.4.19

TRÍDUO PASCAL


Escreve assim um paleontólogo: "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstrato. Deus não é uma ideia. Tão pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer." Einstein dizia também que "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade".

Diz uma história que certo dia um homem ia a passar quando viu Cristo crucificado na cruz. Ficou tão entristecido que o quis ajudar. “Deixa-me tirar-te daí” – pediu o homem. Mas Jesus respondeu-lhe: “Não! Vai antes pelo mundo e diz aos homens que encontrares, que há um homem pregado na cruz”...

A verdade é que, em sexta feira santa, por volta das três da tarde, Jesus morre na cruz, vítima de uma trama política e religiosa, e com um grau tão grande de stress que o suor é sanguinolento (hematidrose, uma situação rara provocada por um violentíssimo stress). Porém, é a atitude que tem, vendo sempre mais além dos acontecimentos, nomeadamente durante a sua pregação pública durante três anos, que ensina a estar.
 
Num plano divino, a Deus não se chega pelo esforço intelectual que d'Ele possamos fazer. Fé e razão são planos distintos e não se invalidam. Seja como for, é sempre um caminho pessoal, de interioridade e fé onde o significado da Páscoa vai além da metafísica e de elaborados argumentos, num processo único de caminhada individual na espiritualidade do que somos, ao encontro de certezas que só a dúvida desfaz… Sempre de repetir que, sem vida interior, não se ama nem crê... E Ele ali está, de braços abertos, frágil e fraco, no meio das nossas certezas e egos...

13.4.19

DIA INTERNACIONAL DO BEIJO

Ninguém é feliz todos os dias e muito menos se não tiver e souber ser alma! É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o terror da morte, a força do amor e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim, sem termos tido, sequer, uma vida.

Hoje é o dia internacional do beijo, mas o beijo, tal como o sorriso, é só outra forma de abraçar! Quem é livre, é geralmente solitário, porque paga o preço de ser ele mesmo e não um personagem. Como diz Carlos Jung, inicialmente discípulo de Freud, "ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão... "

E a escuridão desinstala, obriga à mudança, e esse contacto a um nível tão profundo do self, do que cada um verdadeiramente é, aterroriza-nos, porque nos obriga a não aceitar o suficiente como bom, numa atitude em que mascaramos a felicidade por uma fingida recompensa imediata, as tais figuras de luz em vez de consciencializar a escuridão...

No dia internacional do beijo, saber dar e receber é outra reflexão importante, porque estamos socializados à ausência do contacto físico, quando ele é uma manifestação exterior do "quero-te bem", do "gosto de ti"! Só quem é verdadeiramente livre pode amar, seja o amor universal e oblativo, seja o romântico! O "free hugs" que todos nós já vimos, é precisamente uma forma de alertar para a hermetização em que vivemos. E todo o caminho se faz mais rápido e melhor, quando nos damos, na genuinidade do ser e não no blush social.
 
Aqui ficam beijos e abraços apertados, antes que nos robotizemos sem dar por isso, porque viver é cada hoje, cada aqui, cada agora. O resto é deslocar o verdadeiro objecto da felicidade e com isso nos queixarmos de nunca a encontrar... Por isso, deixo abraços e beijos, conforme os queiram receber, indistintamente do sexo, antes que nos robotizemos sem dar por isso... É que há feridas e mágoas que, se as víssemos, olhariamos para as pessoas com a mesma reverência com que as ignoramos... Há sempre alguém a precisar de ser beijado e acarinhado. Pela atitude...e manifestação física... Nem que esse alguém sejamos nós...

8.4.19

DIA MUNDIAL DA ASTROLOGIA


Hoje é o Dia Mundial da Astrologia! Tarots? Búzios? Linhas da mão? Nada disso... Melhor que a mãe de Sylvester Stallone que já tem 95 anos e é astróloga especialista em leitura de nádegas, é impossível!...

Mas falando a sério, a verdade é que não são as estrelas e os planetas que afectam o nosso modo de vida, como diz a astrologia; são as nossas acções, as nossas palavras, as nossas atitudes e também a ausência delas, porque também se faz muito (para o bem e para o mal) mesmo não se fazendo nada. Outorgar às estrelas a condução da vida, é o mesmo que atribuir aos anónimos transeuntes a responsabilidade por irmos numa direcção em vez de outra. 

Não são os astros que nos dedicam um mês fértil, propenso ao amor ou realização profissional; são os circunstancialismos que não dependem de nós, mas sobretudo as nossas acções e omissões, que dependem só do que decidimos fazer. E as nossas omissões também.  De resto, o silêncio não deve ser confundido com a inacção. Há gestos que valem mais do que palavras e as atitudes valem sempre mais do que as intenções. 

O mesmo com o karma. Não existe karma nenhum que não o pedaço que cada um de nós inevitavelmente carrega, fruto da própria condição humana. As estrelas não se conjugam a nosso favor nem contra. O karma são os outros e nós mesmos quando não temos lucidez bastante, humildade suficiente, inteligência que baste... O resto somos nós a arranjar desculpas para o que fazemos. E quantas vezes magoamos o outro, precisamente porque nos desculpamos em vez de vermos as coisas como elas são... 

Sem um grande sentido de autocrítica, vamos sempre justificar-nos, e achar que os outros é que estão mal, e assim se matam relações em nome de um ego imaturo... 

O Homem tem tanto de bom como de repugnante, mas é nos intervalos dos extremismos que somos e nos ajudamos, quando descobrimos que não temos de carregar destinos kármicos que nós mesmos construímos, sem nos apercebermos da dimensão autopunidora do seu próprio destino...