22.5.19

DIA DO ABRAÇO






Descontado o facto de que é sempre que o quisermos e sem precisarmos de motivos, hoje é o dia do abraço. Já dizia Sebastião da Gama "venha daí esse abraço!". Na realidade, a linguagem dos afectos é relegada com vergonha pelos cânones sociais mas também pessoais! O abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Um estar, cura! Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas não. A ostentação obtusa do self made man e do ego leva ao exagero a distância interior, e metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor interrompido!

Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça, é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que, de outra forma, ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana.

Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! Só quem tem medo ou pouco para dar, se fecha no vazio do ego. É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes. Free hugs... Porque o melhor, não tem preço...

17.5.19

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA

O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia. Ora é muito claro que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas no género do objecto do desejo. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta. Os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz. Um absurdo total. O amor não tem sexo.

Somos fruto de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem não segue a suposta hetero normatividade. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação, e confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Somos ignorantes da própria condição humana, e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus, ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é também a sua identidade e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que não se assumem sequer para si mesmos, deprimem e se suicidam precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de desprezo e marginalização.

E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se amarem fosse crime! Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior rejeitar as diferenças do e no outro; antes, devemos aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que sendo de raça diferente deviam ser toleradas na comunidade.

O senso comum é o pior inimigo que conheço, e é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.

28.4.19

DIA MUNDIAL DO SORRISO

Diz que é o dia mundial do sorriso. Ora o peso da vida não é constante. E torna-se mais pesado sempre que se obnubila a esperança, sempre que o futuro se adensa negro, sempre que nos vemos prisioneiros de uma realidade que não queremos, não desejámos e não merecemos.
 
Sim, o peso da vida torna-se maior nesses momentos, como se nos fosse retirada a alma, como se o desencanto fosse a pele que vestimos, é como se o coração não tivesse chama, é como se acordar outro dia não tives se a menor importância.

Não advogo nenhum sofrimento gratuito ou qualquer forma de estoicismo, mas, além de sabedoria de vida, gosto daqueles que sabem relevar sem desresponsabilizar, dos que encolhem os ombros com um sorriso, como quem acaba de perder um comboio mas sem maldizerem o mundo por isso. É nestes momentos que mais nos precisamos de lembrar de que só valemos pelo que somos e não pelo que temos. De que apenas nos realizamos com o Outro, de que sozinhos, como diz o provérbio, chegamos mais depressa, mas não mais longe. E esta interiorização da vida, dolorosa, sim, não nos torna mais felizes por isso, mas a consciencialização dos factos é sempre meia resolução do problema.
 
Nunca gostei de quem reclama como se tivesse o primado de ter de ser mais feliz do que os outros, como se fosse imperativo que nenhum escolho pudesse haver no seu caminho, mas também aqui entra a humildade da condição humana, já que, paradoxalmente, um caminho sem problemas é, em si, indicação de que não é esse o caminho.

Um sorriso mesmo que triste, ou um silêncio como quem digere o problema, um atender ao outro como quem se acolhe a si mesmo, são apenas formas possíveis das beligerantes opções comuns. Não como quem não se insurge ou se resigna, mas como quem não gasta energias com o inevitável, quando o é!

É no abraço universal que beijamos a alma, e é com essa atitude do sorriso que o coração canta a dor e a exorciza. Só é preciso não desesperar, não tomar a contingência pelo definitivo, não afiar o dente nem maldizer o mundo, e sentir que muitas vezes a paz está no silêncio que não fazemos e no sorriso que não damos...

Entretanto, o humor é, além de um bálsamo, uma forma de exorcizar os dramas e as inevitáveis contrariedades que a vida traz, além de ser fonte de higiene mental, mas não deve ser confundido com ausência de problemas! A paz é aquela que se consegue no meio da luta, e os sorrisos são um encorajamento de alma, um vitamínico anónimo ou de amizade, e, vale muito mais do que os lamentos...

O sorriso é só outra forma de abraçar…

21.4.19

DOMINGO DE PÁSCOA

Finalmente a Páscoa. Deus fez-se Homem e ressuscitou. Dizia o Manoel de Oliveira que a dúvida é uma maneira de ser; sei que só com ela podemos ir mais longe, avançar na descoberta de mais e melhor, sem estagnarmos em certezas afinal tantas vezes fantasiosas, mas a dúvida em si não chega; precisamos de desbravar caminhos, e mesmo cometendo erros, aprender com eles e continuar, sobretudo dentro de nós, no conhecimento do que julgamos adquirido. A dúvida serve para não nos instalarmos em atitudes autodesresponsabilizadoras, mas precisamos de trilhar caminho, mesmo com dúvidas, mesmo sem certezas da firmeza do solo.

Não bastam as intenções piedosas, ou o não fazermos mal a ninguém; é necessário agir, ainda que tantas vezes o silêncio possa ser uma forma de comunicação. Mas precisamos de estar atentos em não ficarmos tão arredados em considerandos, que não vivemos com receio de tudo, incluindo o de agir... A dúvida pode ser um meio, mas não passa disso, e muitos pecados são perdoados a quem muito ama!

Deus ressuscita pelo exemplo do Seu próprio Amor, e certamente estaria longe das opulências milenares, mas também não nos pede o ar de queixume de quem não tem. Sabem lá os outros das nossas noites de dor ou das nossas madrugadas de angústia, ou se sequer teremos um ombro onde reclinar a cabeça, e todavia muitos não nos queixamos, não lastimamos de forma pessoal as madrinhas más que a vida nos dá... É a aprendizagem silenciosa do sofrimento, não para o consentir, mas para o aceitar como factor de crescimento, se for caso disso!

Todos convivemos com problemas e solidões, mas devemos mitigar a carga com o contrabalanço da entrega, da palavra amiga, do desabafo, do desbloqueio emocional que também se faz pelas alegrias simples que o dia e o momento têm. Esse é um dos problemas: esperar pelo dia, pelas férias, pelos anos, pelo natal, por aquela altura... e entretanto a vida faz-se e o tempo dilui-se sem esperança nem entrega nem amor...

Faz-se Páscoa na abertura ao outro, na luta ao preconceito e ao medo do desconhecido, na capacidade de amar sem condições, e de interiorizarmos a máxima de Terêncio que dizia: "sou homem; nada do que é humano reputo alheio a mim"... Foi isto que Cristo fez, tão despido de falsas certezas, de dedos acusadores, de ideias preconcebidas... E, quando com esta naturalidade e simplicidade soubermos viver, estaremos a contribuir para que haja páscoa à nossa volta em todas as mortes e renascimentos que todos os acontecimentos nos não-de proporcionar...

É desta Páscoa que vos desejo Boas Festas com o sorriso e a entrega, que mais do que se queixar do que não tem, partilha o que lhe falta... Por isso, hoje, sim, é o dia de dizer "uma Páscoa Feliz"

20.4.19

TRÍDUO PASCAL


Escreve assim um paleontólogo: "A minha fé em Deus não é um puro assentimento racional a um credo abstrato. Deus não é uma ideia. Tão pouco uma divindade difusa no oceano dos confins do cosmos, como defende a New Age. O grande problema de muitos cientistas é que mantêm uma imagem infantil de Deus e essa imagem não se dá bem com a maturação de uma visão científica do mundo. O conflito cognitivo não se resolve e quebra na parte mais débil: a experiência interior. Sem vida interior, não é possível crer." Einstein dizia também que "uma espiritualidade que não brota do contacto com a vida, com as injustiças de inumanidade, não é espiritualidade".

Diz uma história que certo dia um homem ia a passar quando viu Cristo crucificado na cruz. Ficou tão entristecido que o quis ajudar. “Deixa-me tirar-te daí” – pediu o homem. Mas Jesus respondeu-lhe: “Não! Vai antes pelo mundo e diz aos homens que encontrares, que há um homem pregado na cruz”...

A verdade é que, em sexta feira santa, por volta das três da tarde, Jesus morre na cruz, vítima de uma trama política e religiosa, e com um grau tão grande de stress que o suor é sanguinolento (hematidrose, uma situação rara provocada por um violentíssimo stress). Porém, é a atitude que tem, vendo sempre mais além dos acontecimentos, nomeadamente durante a sua pregação pública durante três anos, que ensina a estar.
 
Num plano divino, a Deus não se chega pelo esforço intelectual que d'Ele possamos fazer. Fé e razão são planos distintos e não se invalidam. Seja como for, é sempre um caminho pessoal, de interioridade e fé onde o significado da Páscoa vai além da metafísica e de elaborados argumentos, num processo único de caminhada individual na espiritualidade do que somos, ao encontro de certezas que só a dúvida desfaz… Sempre de repetir que, sem vida interior, não se ama nem crê... E Ele ali está, de braços abertos, frágil e fraco, no meio das nossas certezas e egos...

13.4.19

DIA INTERNACIONAL DO BEIJO

Ninguém é feliz todos os dias e muito menos se não tiver e souber ser alma! É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o terror da morte, a força do amor e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim, sem termos tido, sequer, uma vida.

Hoje é o dia internacional do beijo, mas o beijo, tal como o sorriso, é só outra forma de abraçar! Quem é livre, é geralmente solitário, porque paga o preço de ser ele mesmo e não um personagem. Como diz Carlos Jung, inicialmente discípulo de Freud, "ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão... "

E a escuridão desinstala, obriga à mudança, e esse contacto a um nível tão profundo do self, do que cada um verdadeiramente é, aterroriza-nos, porque nos obriga a não aceitar o suficiente como bom, numa atitude em que mascaramos a felicidade por uma fingida recompensa imediata, as tais figuras de luz em vez de consciencializar a escuridão...

No dia internacional do beijo, saber dar e receber é outra reflexão importante, porque estamos socializados à ausência do contacto físico, quando ele é uma manifestação exterior do "quero-te bem", do "gosto de ti"! Só quem é verdadeiramente livre pode amar, seja o amor universal e oblativo, seja o romântico! O "free hugs" que todos nós já vimos, é precisamente uma forma de alertar para a hermetização em que vivemos. E todo o caminho se faz mais rápido e melhor, quando nos damos, na genuinidade do ser e não no blush social.
 
Aqui ficam beijos e abraços apertados, antes que nos robotizemos sem dar por isso, porque viver é cada hoje, cada aqui, cada agora. O resto é deslocar o verdadeiro objecto da felicidade e com isso nos queixarmos de nunca a encontrar... Por isso, deixo abraços e beijos, conforme os queiram receber, indistintamente do sexo, antes que nos robotizemos sem dar por isso... É que há feridas e mágoas que, se as víssemos, olhariamos para as pessoas com a mesma reverência com que as ignoramos... Há sempre alguém a precisar de ser beijado e acarinhado. Pela atitude...e manifestação física... Nem que esse alguém sejamos nós...

8.4.19

DIA MUNDIAL DA ASTROLOGIA


Hoje é o Dia Mundial da Astrologia! Tarots? Búzios? Linhas da mão? Nada disso... Melhor que a mãe de Sylvester Stallone que já tem 95 anos e é astróloga especialista em leitura de nádegas, é impossível!...

Mas falando a sério, a verdade é que não são as estrelas e os planetas que afectam o nosso modo de vida, como diz a astrologia; são as nossas acções, as nossas palavras, as nossas atitudes e também a ausência delas, porque também se faz muito (para o bem e para o mal) mesmo não se fazendo nada. Outorgar às estrelas a condução da vida, é o mesmo que atribuir aos anónimos transeuntes a responsabilidade por irmos numa direcção em vez de outra. 

Não são os astros que nos dedicam um mês fértil, propenso ao amor ou realização profissional; são os circunstancialismos que não dependem de nós, mas sobretudo as nossas acções e omissões, que dependem só do que decidimos fazer. E as nossas omissões também.  De resto, o silêncio não deve ser confundido com a inacção. Há gestos que valem mais do que palavras e as atitudes valem sempre mais do que as intenções. 

O mesmo com o karma. Não existe karma nenhum que não o pedaço que cada um de nós inevitavelmente carrega, fruto da própria condição humana. As estrelas não se conjugam a nosso favor nem contra. O karma são os outros e nós mesmos quando não temos lucidez bastante, humildade suficiente, inteligência que baste... O resto somos nós a arranjar desculpas para o que fazemos. E quantas vezes magoamos o outro, precisamente porque nos desculpamos em vez de vermos as coisas como elas são... 

Sem um grande sentido de autocrítica, vamos sempre justificar-nos, e achar que os outros é que estão mal, e assim se matam relações em nome de um ego imaturo... 

O Homem tem tanto de bom como de repugnante, mas é nos intervalos dos extremismos que somos e nos ajudamos, quando descobrimos que não temos de carregar destinos kármicos que nós mesmos construímos, sem nos apercebermos da dimensão autopunidora do seu próprio destino...

5.4.19

MESTRES PELA EMOÇÃO




...somos todos mestres da nossa condição… precisamos, porém, de a conhecer melhor; não na tentativa esgotante de racionalizar tudo, porque a única forma de treinar o cérebro é através da emoção, e os circuitos neuronais só se abrem quando sentimos as nossas emoções, e não quando nos pomos a reflectir sobre um problema ou uma mágoa profunda...

2.4.19

DO AUTISMO


O verdadeiro autismo (cujo dia mundial da consciencialização para este problema se celebra hoje), não é o distúrbio neurológico que compromete a interacção social, a comunicação e induz o comportamento restritivo e repetitivo.
O verdadeiro autismo é quando nos agarramos a crenças mentais onde, faltando autocrítica e humildade, passamos a tornar real aquilo que apenas achamos que é.

Por vezes existem feridas emocionais, dores que marcaram profundamente, mas é a nós que cabe o trabalho de não fazer pagar o outro pelo que nos aconteceu a nós, por mais doloroso que fosse, e com as cicatrizes na alma mas também com a consciência de que se não fizermos luz sobre nós mesmos, tentando perceber onde está a realidade e não aquilo que penso que ela é, se não tivermos lucidez e discernimento, inteligência emocional e humildade, cometeremos injustiças contra os outros, fechamo-nos ainda mais em nós, saindo todos magoados, mas o ego corre livre e feliz como um selvagem que não sabe que o é... impedindo-nos de crescer!

Ser autista, é sempre que nos recusamos mudar, cometendo imperfeições e injustiças, sob pena de um dia o barco afundar, queixando-nos recorrentemente porque é que fazemos tanto esforço a remar e o barco não sai do mesmo sítio. É porque, autismo, é quando a pedra que está do outro lado do barco impedindo-nos a avançar, somos nós...

DIA DO LIVRO INFANTIL


No dia do livro infantil que se celebra hoje, a "Fada Oriana" é o livro que mais retenho de quando criança (penso que o primeiro que li foi o "pequeno Polegarzinho")! Com a assinatura de Sophia de Mello Breyner, foi um livro que me tocou, tal como a série dos 15, e mais tarde Charles Dickens ou o impressivo e comovente conto de Oscar Wilde "O Príncipe Feliz"!

Num mundo cheio de estímulos avulsos e vazios, as crianças hoje não se envolvem emocionalmente com os brinquedos, e é por isso que querem sempre mais e metade vão para o lixo ou não ligam nenhuma: não houve essa apropriação afectiva que nós tínhamos dada a raridade de abundância que, neste caso, era uma bênção.

Oxalá os pais soubessem educar os filhos na medida exacta do que devem ter, contemplando a tecnologia ou a televisão qb sem descurar a importância, a descoberta e o encanto dos livros, tão pedagógicos e apropriados às idades, desenvolvendo aptidões e estimulando a imaginação, a criatividade e o encanto, que nos jogos de vídeo e nas aplicações de telemóveis apenas sugerem artificialmente o desenvolvimento...

29.3.19

UM EGO INFELIZ

Nos tempos do culto do eu, da auto estima, do sucesso pessoal, o que sobra do amor? Nos tempos em que o Outro é secundário, em que tudo deve girar à volta do bem estar pessoal, o que temos de verdadeiramente importante? Que valores, afinal, nos guiam, que rumos tomamos como ilhas vaidosas em luzes de néon disfarçadas de amor? 

Que restará de coisas simples como a simplicidade da entrega, a entreajuda, o amor desinteressado, a gratidão, os gestos simbólicos, as atitudes singelas, o agradecimento, a oferta e não o preço, o elogio e não a mera crítica, o enlevo, a preocupação pelo que não é apenas "eu", o abraço gratuito, a justiça em vez do populismo, a ética em vez da moda, a verdade em vez da realidade aumentada?

Nos tempos do culto do eu, da programação neurolinguística e do sucesso pessoal, torna-se ainda mais importante a capacidade da sageza e desse valor que reputo ainda mais importante do que a própria inteligência cognitiva: a lucidez, o discernimento, para aferir da verdadeira importância das coisas e do verdadeiro significado do que é ser humano!

É muito fácil inebriarmo-nos com o mero bem estar pessoal, mas é sempre e só na relação com o Outro, que o Homem verdadeiramente se faz, até com o sacrifício esporádico que, por amor, deixou de o ser.

21.3.19

DIA DA POESIA, DA ÁRVORE, TRISSOMIA 21 E DISCRIMINAÇÃO RACIAL






Hoje celebra-se, além do Dia Mundial da Poesia, e Dia da Árvore, o dia internacional da trissomia 21 e da luta contra a discriminação racial!

Mas podia ser sobre divorciados, mães solteiras, ciganos ou homossexuais!

O preconceito é um estigma que nós criamos, uma visão deturpada reveladora da ausência de formação humana e, é por isso que, na verdade, os deficientes somos nós!

8.3.19

DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Tecnicamente, não devia existir o Dia Internacional da Mulher que hoje se comemora, porque antes de mais a igualdade é intrínseca ao género humano, como a cor, a raça, orientação sexual, condição social!

Mas já que ainda estamos atrasados em preconceitos (a desigualdade é um preconceito, apenas) então que se usem estes dias para o lembrar.
 
Sobre a mulher, acho lapidar esta frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher! Torna-se!" Ainda assim, acrescentaria que podem sempre ser senhoras!
 
O resto, ter de haver "dias de..." são resquícios de uma sociedade no seu lento processo de civilidade e humanização...

5.3.19

DO CARNAVAL


A máscara tem o sentido catártico de uma disciplina socialmente imposta. As personagens que representamos confundem-se no real e no imaginário, porque tanto somos aquilo que pensamos ser, como as personagens que apenas pensamos representar.


Carnaval é todos os dias. Entre a defesa e a hipocrisia, entre o real e o intencional, as máscaras são produto de personalidades prensadas no despotismo de muitos. Neste aspecto valorizo os simples, a simpatia do riso, a desresponsabilização salutar por tantos males do mundo!


O homem médio é sem dúvida o mais feliz. O Carnaval não devia ser um tempo avulso como se fosse um workshop circense; não devia ser uma catarse lúdica concentrada num dia colectivo. Tal como fazer férias não é hipotecar numa quinzena ou num mês o restante tempo livre, também saber brincar todos os dias é do mais salutar que há, já que contribui para a higienização mental e contagia na promoção do desbloqueamento dos problemas diários que sempre nos afligem...


É bom matar a necessidade de se brincar às guerras: aquelas onde as próprias pessoas são os campos de batalha...

3.3.19

ESSÊNCIA E VERDADE


Freud diz que "é impossível eliminar os nossos sintomas todos sem perder juntamente com eles, aquilo que representa a nossa maneira de ser, aquilo que nos aproxima da obra de arte e nos afasta de sermos mera cópia de um original previamente definido, higienizado, polido e considerado normal." 
 
De facto, se é verdade que nos precisamos de desconstruir diariamente, isso também não pode significar uma negação àquilo que é a nossa essência, seja ela qual for! Nunca gostei do so...cialmente correcto, das pessoas perfeitas ou altamente seguras, descontando já o que tudo isso tem do seu oposto.

Tal como uma mente conservadora inibe o desenvolvimento, a ideia de nos travestirmos socialmente para uma imagem de invencibilidade, inibe a própria personalidade que fica refém de si mesma, em artificialidade e vazio. Os sinais práticos costumam ser a soberba intelectual, a arrogância, mas também aparentes simpatias que escondem acidez.

Freud tem razão. No fundo, crescer não é negarmo-nos, mas integrar o que somos com a perfeição possível... sem por isso deixarmos de ser nós...

25.2.19

HÁ ALMOÇOS GRÁTIS




"Não há almoços grátis" é aquela expressão que pretende significar que ninguém dá nada a ninguém gratuitamente, há sempre algo em troca, qualquer interesse velado ou directo, mas tal não é sempre verdade. Há dias, um sem abrigo pediu-me no MacDonald's se lhe dava dinheiro porque tinha fome; ar esgazeado, meio lunático e aparentemente perigoso. Sentou-se à minha frente e dele chegavam-me intuitivamente todas as más impressões! Coloquei um ar austero e defensivo porque era mesmo daqueles que armam confusão e se metem com todos! Pedir dinheiro é logo mau sinal... Ontem, porém, estando eu a jantar, vi outro sem abrigo nos armazéns do Chiado, aparentemente envergonhado e abordando de longe uma senhora que também jantava, logo se retirando de seguida. Já me tinha visto, mas continuou. Passado um pouco voltei a vê-lo, e ao contrário do primeiro sem abrigo no MacDonald's, este fazia-me chegar algo de bom!


 Deixei que visse que o olhava, e a passo lento aproximou-se de mim também guardando uma distância. "Olhe, o senhor desculpe, mas podia dar-me qualquer coisa para jantar?" - Eu não tinha dúvidas sobre o homem, mas testei-o para ver a reacção: "olhe, quer acabar de comer a picanha e as batatas fritas?" disse-lhe já eu jantado. "Olhe, com a fome que estou se não se importar"... O olhar era simultaneamente doce, expressivo e triste. Barba grande mas algo aparada, magro, roupa típica mas sem um desleixo de maior. Perguntei-lhe porque não tinha ido comer à carrinha, que sei todos os dias distribuirem refeições no Rossio aos sem abrigo e respondeu que sim, que todos os dias o faz e que a comida é muito boa mas hoje tinha chegado tarde e já não serviam, uma espécie de castigo para aprenderem a estar a horas... Na realidade, o sem abrigo perigoso do MacDonald's havia-me dito o mesmo…

Eu respondi a este samaritano nos armazéns do Chiado, que estava a brincar com ele, obviamente não estava à espera que comesse os meus restos, e que escolhesse o que quisesse. Fui com ele oferecer-lhe a refeição, falei um bocado com ele, notava-se inteligência e bondade, formação humana e dignidade, mas precisava de acreditar nele, de ter auto estima que não tem, e esperava que o chamassem para ser internado para sair das drogas, já tinha ido à segurança social, etc, dizia-me ele enquanto o prato era preparado. E naqueles momentos breves, disse-lhe que todas as ajudas são sempre ajudas, pessoas, instituições,, o que for... mas a verdadeira ajuda será sempre a nossa, a força de vontade, já que tudo o resto é temporário, momentâneo, como aquele jantar que eu lhe oferecia, ou mesmo ser institucionalizado. Respondeu que sim, sabia disso, mas continuava a faltar-lhe gostar dele mesmo. Perguntei-lhe o nome; hesitou em responder e disse: "Hélder"! Muito bem, Hélder, então agora tem de perguntar a si mesmo porque não gosta de si; e se é por causa das drogas então tem de fazer um esforço em tentar consumir menos; evitar ao máximo, porque a segurança é você que a faz e não esse desejo tão grande que tem de o chamarem para ser internado. É uma ajuda mas é você que precisa de fazer mais por si mesmo, Hélder! Se agora alguém lhe desse 10 ou 20 euros que faria você? Provavelmente ia para as drogas, mas são estes pequenos passos que você precisa de dar, acreditar em si mesmo, como você mesmo diz, Hélder" E disse-lhe que é também o mesmo problema de quem está agarrado ao tabaco ou álcool para se sentir num patamar mais natural dos "restantes" seres humanos…

Depois deixei-o sentar-se e jantar sozinho, à vontade. Estava entre o envergonhado e o tenho mesmo muita fome. Respondeu "nunca me vou esquecer disto", e independentemente das verdades que nos chegam do outro ou daquilo que intuimos de mal, como nestes dois casos de sem abrigo, a verdade é que não podemos estar à espera de santos para matar a fome ou proteger do frio, e com todas as cautelas que as ajudas implicam, mas também com muito do que percepcionamos, a ajuda é gratuita e não pede factura nem emenda, e o facto de generalizarmos que são sempre todos os mesmos, a verdade é que são pessoas como nós, e que mesmo que não seja para algo essencial à vida, todos merecemos ser felizes ainda que por momentos, e que só não há almoços grátis, como diz o adágio, se nos mantivermos arrogantemente bondosos sem nada fazer, no deve e haver das facturas relacionais…

Rasgar a vergonha para pedir, não é fácil, mas também não podemos morrer de fome. O que me chegava dele era entre a timidez, a vergonha e a necessidade, mas com gentileza, não aquele ar sonso que colocam a pedir dinheiro, e também por isso devemos estar atentos aos sinais. A mim tocou-me a humanidade do senhor, tinha 33 anos embora parecesse algo mais velho mas não muito mais. Fui eu que fiquei agradecido pela sua humanidade... E se partilho isto é só por um sentido pedagógico: precisamos de desintoxicar de tanta desconfiança...

HÁ ALMOÇOS GRÁRTIS

EGO

Autosuficiências ou orgulhos,
afastar-nos-ão continuamente do caminho,
até que abrandemos na encruzilhada
da desomnipotência e humildade,
onde o êxito não é o que fazemos,
 mas o que sentimos!

E só quando nos reconhecermos falíveis
 e, por isso, humanos,
podemos dar ao outro o melhor de nós!
 
Até lá,
será a vaidade do ego
a comandar a nossa vida...

6.2.19

A TUA CASA

Quando me deixares entrar em tua casa com o pó por sacudir, saberei que não é na geometria das coisas que vives, mas na diária tentativa de ergueres na alma o aprumo que te falta. E se o sorriso te esconder a vergonha, não confundirei com negligência a prisão do ser, que hipotecado em cíclicos desencantos e abúlica energia, aguarda que a chama se acenda num frágil pavio, sustendo os serviços mínimos do ânimo até que os grilhões te libertem, dando à vida novo rumo e nova cor, vestindo de alegria o cheiro a mofo de uma vida anémica.

Mas se só me convidares para a tua casa reluzente e bela com jardins e mesa para os convidados...! Se só me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se só me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...! Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...! Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou desconfiar que estejas bem, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.

Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que, embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos, e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala muito mas pouco se diz, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

Mas o festim simples e libertador da alma não é este, e pode durar uma noite inteira. Não teve convivas nem flutes, nem roupas de ocasião. Se calhar tinhas até o cabelo por lavar ou uma nódoa antiga, como os livros amarelados de serem lidos e mexidos, ou os objectos puídos pelo uso emocional que só tu vês! Mas é quando os outros regressam com portos de honra, para desembrulharem durante a semana toda a frustração e infelicidade, que metidos em fatos Armani ou vestidos Prada, não puderam desencarcerar numa festa que devia ser Encontro.

Por isso, convida-me só quando tiveres pó em tua casa, e saberei que o quarto fechado onde mais ninguém entra, para iludires nas restantes divisões da alma a felicidade que não tens, é exactamente aquele onde verdadeiramente és e te libertas, e onde me deste a honra de entrar, até à festa onde a alegria é já sentida e a harmonia das coisas são mimos que ofertas, e tudo é, então, belo, não porque estejas necessariamente feliz, mas porque a divisão mais bonita, será sempre aquela onde moram as nossas vulnerabilidades, e não já como o príncipe que recebe duzentos convivas no castelo, sabendo que na verdade não teve lá ninguém...

25.1.19

MODUS VIVENDI






A paz é aquela que se vive no meio da luta. Requer coragem e atitude. Coragem para enfrentarmos a vida, e atitude para não deixarmos que sejam as situações a afectar drasticamente o nosso viver. Como quando chove, e enquanto uns se molham, outros apreciam a beleza da chuva. 

 Na nossa atitude mental face aos problemas, está muita da sabedoria do viver.

No dia de hoje nascia Virginia Woolf, e escrevia ela assim: "Não encontrarás a paz ao evitares a vida".

DIA MUNDIAL DA ESCRITA À MÃO


21.1.19

DIA DA TRISTEZA E DO ABRAÇO



Hoje é o dia da tristeza e do abraço. A tristeza, apesar de a querermos sempre negar, é uma tensão de equilíbrio e, por isso, saudável, quando não se prolonga para além do motivo que a provocou - pode também aparecer sem hora marcada, nem dia, nem sequer motivo ou circunstância - e, recusá-la, será sempre um erro. Tal como chorar parece ser para fracos, a verdade é que, quem se permite fazê-lo, nem que seja só porque está triste ou porque se emocionou com um filme ou qualquer outra situação, é psicologicamente mais forte...

Mas hoje é também o dia do abraço, e ele é saudável, necessário, fraterno, amigo, terapêutico e motivador! O abraço, como o sorriso ou o beijo, será sempre catártico e retemperador para quem dá e para quem recebe, e não é por acaso que existe também terapia pelo abraço! E porque precisamos de ir além dos preconceitos sociais, e de tantas vezes sentir mais e falar ou teorizar menos, aqui fica um abraço, longo e apertado, sentido e grande, a todos os que me acompanham por aqui...