9.8.16

 
 
Todos gostamos de férias. É uma das melhores coisas. Mas fazemos férias como se fosse uma interrupção da existência, tal como desejamos bom fim de semana para só voltarmos a falar na segunda feira seguinte. Fazer férias não é tanto a desbunda hedonista, mas a descompressão, o retemperar das forcas vitais, lembrando-nos que também somos alma, espírito, essência - que cada um entende à sua maneira - e nesse descanso também físico e psicológico, encontrar o acolhimento e a disponibilidade interior que nem sempre temos.
 
 
Se me pedissem para me definir, seria pela simplicidade. Esta, subentende também a humildade e a alegria, mesmo quando não vislumbramos caminhos e só apetece afiar o dente. Simplicidade é estar de mãos abertas e alma receptiva, e como sempre costumo dizer, não se deve confundir com ingenuidade mas requer inocência. Estamos muito habituados a erguer camadas sobre camadas de defesas, mas sem entrega e sentido de humor, desumanizamo-nos. A sociedade não é mais do que a soma de cada um de nós, pelo que nem sempre colhe o argumento do "é assim", mas coragem para sermos.
 
 
O que é o essencial nas nossas vidas? Até aqui a confusão se instala, de tão endémica pertença às coisas e situações, e pouca às pessoas. Apegamo-nos a coisas, muitas coisas, como se pudéssemos dormir com elas ou receber o afago na solidão e dor. Em tantos locais do mundo, como África e outras comunidades, as pessoas vivem literalmente do essencial, sem invalidar as suas festas e rituais, que entre nós costumam ser mais para a foto com nomes pomposos como sunset party, entre outros eventos onde duvido que a felicidade resida. É tudo muito bom, claro, mas se pensarmos duas vezes na vida social que se leva, e se realmente queríamos ir se não fosse o convite, vamos acabar por perceber que no fundo dispensaríamos tanta dessa actividade, e teríamos mais espaço e muito menos stress dentro de nós.
 
 
Uma vida com o essencial nunca começa pelas coisas, passa por elas como cores que nos alegram a existência mas detém-se sempre no encontro. É uma palavra muito importante. O encontro. Connosco e com o outro igualmente cheio de tanta defesa. É esse encontro que faz pulsar as fibras humanas que se vitalizam e engrandecem, porque soubemos que viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do mero "eu social", numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir.
 
 
As férias deviam ser sempre uma belíssima oportunidade para retemperar forças, como quem massaja a alma, como quem vai nutrir-se de vida, ou quiçá espaço para reflexão de onde estou, por onde caminho, onde quero realmente ir, e dessa forma, sujeitar à existência o supérfluo e o que pelo hábito julgamos ser necessidade, quando afinal a verdadeira necessidade está sempre no encontro connosco e na efectiva capacidade de amar...

19.6.16

SER EM PLENITUDE

 
Para se ser Pessoa integral precisamos de ter mundo mesmo que não sejamos viajados. Precisamos de ter noção da brevidade das coisas e com isso relativizar o que não deve ser empolado.
 
Precisamos de ter carácter, firmeza e bonomia, sem cair em concessões frouxas ou em rupturas anacrónicas, e sem termos de andar com atitudes austeras como quem acha que a vida tem mais valor se formos humanamente distantes!
 
Precisamos de saber que não somos eternos, que a morte não é um acidente, e que por isso o Agora e o Aqui têm uma importância infinitamente maior do que aquela que lhe concedemos.
 
Estamos sempre hipotecados no futuro, esquecendo-nos que pode não chegar como o sonhamos, porque a vida é dinâmica e não existem cauções.
 
E precisamos também de sonhar. A beleza existe sempre que vemos além da superficialidade diária. E precisamos de voltar atrás em tantas decisões, de refazer diariamente o nosso guia de valores e atitudes, actualizar o nosso caminhar. Quem não muda já se afundou na soberba da sua suposta razão.
 
Precisamos ainda de apagar os fogos diários de lixo humano tóxico (recriminações de tudo e de nada, altivez, arrogância, vulgaridade) e de arranjar tempo para arejar a alma e parar deste carrossel exagerado de estímulos que mata a contemplação e o pensamento, suga as energias, mitifica a razão e endeusa o vazio.
 
Vive-se num constante estado de espectáculo mas somos muito mais que marionetas em grupos de lazer ou com funções sociais.
 
E com humor e alegria, mesmo que seja para espantar a fealdade da vida, fazermos também nós a parte que nos cabe, descobrindo a cada instante novos caminhares...
 
 

9.6.16

BRILHANTE




Nos búzios dos sonhos
e na cintilação das estrelas
está o pulsar da minha
própria liberdade.

 
E de minhas mãos
evolam-se as cinzas
que me farão de novo
no caminho de uma vida!

28.5.16

A VIDA É CADA HOJE


 
 
Hoje só valemos pelo que formos amanhã. Maximiza-se o valor de tudo o que é sensorial, dinâmico, quantitativo. Esvazia-se a pessoa da sua interioridade num mundo de estímulos alienantes consecutivos, a cada nano segundo. Mas sobretudo valemos pelo que somos hoje, agora, e não esses futuros idílicos ou alienantes a que podemos nem chegar. É como se suspendessemos tudo o que podemos fazer de melhor com as desculpas de estarmos a meio caminho, mas o caminho que importa é aquele em que estamos no momento presente, não outro!
 
É o Outro a chave da existência. É o Outro que lhe confere significado e, por isso, é no Outro que nos realizamos. De resto, muitas vezes não sabemos o bem que fizemos ao Outro. Nem o Outro se apercebe do bem que nos fez a nós.
 
E o pior de tudo, é que muitas vezes leva-se quase uma vida inteira para se perceber que não houve partilha nem entrega nem amor, mas é exactamente isso que dá razão à existência!

26.4.16

BLUSH SOCIAL

 
 
 
Até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém. Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala tanto e não se diz nada, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

10.4.16

SER, TER E DAR ALMA

A perda da alma é a fatalidade dos nossos tempos! Precisamos de dar alma às coisas e às pessoas, carregá-las de significado e existência! Precisamos de acreditar na vida e enfunar as velas da fé. De velejar em águas profundas que nos tragam à superfície a serenidade dos dias, mas também a paixão de ser! E precisamos de um olhar sincero e corrector de nós mesmos.
 
Só descendo à própria génese humana, conseguiremos a apreciação geral do que sentimos e a partilha interior dos nossos actos, e dessa forma perceber como vai a nossa crueldade e a nossa justiça, o nosso desamor e a nossa entrega, porque ninguém é feliz todos os dias e muito menos se não tiver e souber ser alma...
 
É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o terror da morte, a força do amor e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim sem qualificação de termos tido, sequer, uma vida.
 
 

3.4.16

EM TUAS MÃOS

 
 
Em tuas mãos
pousarei as minhas
e sentirei o que
os teus gestos
não expressam!
 
 
E desse sentir, 
saberás que
à indecisão e
ao medo, o coração
tem mais palavras!

28.3.16

O AMOR NÃO TEM GEOMETRIA

 
 
1. Não há arquitectura no amor... nem matemática, nem geometria. Um amor muito calmo, pensado, ponderado, sem variações emotivas, pode ser muita coisa mas não é amor...
 
2. Se desenhares um esboço, concepcionares o espaço e as variáveis arquitectónicas e o mandares executar, terás um  edifício giraço, moderno, à medida do desenho e do papel, e do estudo que fizeste para a sua concepção. Há ali muito trabalho, muito empenho, mas não há amor. Há apenas arte.
 
3. Na arquitectura dos afectos, não existem seguros de vida. Só a confiança no próprio acreditar...

25.3.16

PÁSCOA

 
Permitam-me esta citação em inglês como reflexão no período pascal.
 
Entretanto, e a todos, um SANTA PÁSCOA :)
 
 
 
"Supposing there was no intelligence behind the universe, no creative mind. In that case, nobody designed my brain for the purpose of thinking. It is merely that when the atoms inside my skull happen, for physical or chemical reasons, to arrange themselves in a certain way, this gives me, as a by-product, the sensation I call thought. But, if so, how can I trust my own thinking to be true? It's like upsetting a milk jug and hoping that the way it splashes itself will give you a map of London. But if I can't trust my own thinking, of course I can't trust the arguments leading to Atheism, and therefore have no reason to be an Atheist, or anything else. Unless I believe in God, I cannot believe in thought: so I can never use thought to disbelieve in God."
 

17.3.16

LIVROS DE AUTO AJUDA

Um amigo falava-me dos livros de auto ajuda como algo extraordinário e maravilhoso. Mas sem demérito de alguns deles, dei-lhe a minha opinião sobre o assunto. O problema dos livros de auto ajuda, é que enfatizam o pensamento positivo, apagam a experiência do sofrimento para novamente chamar à atenção do pensamento positivo, e fazem sempre um fortíssimo apelo à  auto satisfação e ao prazer.
 
É um erro. A vida não é um quadrado estanque onde nos realizamos hedonista e egoisticamente. Somos seres relacionais e precisamos de saber que a felicidade não é a mera satisfação de caprichos e prazeres, mas a capacidade de ser Pessoa e de partilhar valores de amizade, entreajuda, esperança e amor.
 
Quanto às experiências negativas, devem ser incorporadas para melhorarmos ou reconhecermos que não somos deuses, e só desta forma, integrando o sofrimento e sabendo que a felicidade não é o mais ter mas o mais ser, nos realizamos como Pessoas!

10.3.16

DA IMPORTÂNCIA DO HUMOR

 
 
 
 
Só a consciência do sofrimento nos consegue o desprendimento e higiene mental que é responder com humor aos nossos problemas.

De outra forma, seremos arrogantes a fazer pagar o mundo pelo quinhão de infelicidade que nos coube, e o (sor)riso é só para quem sabe discretamente suportar a sua própria dor.