5.12.19

DIA INTERNACIONAL DO VOLUNTÁRIO

Comemora-se, hoje, 5.feira, o dia internacional do voluntário. Precisamos de tempo! E, é isso, o que hoje, se comemora! Darmos ao outro o nosso tempo, é uma das maiores dádivas, mas tê-lo também para nós, é imperativo! Só quando nos oferecemos tempo, alimentamos a alma, ordenamos os pensamentos e desobnubilamos a mente, vemos com outra perspectiva!

Aquietar a mente, abrandar a azáfama de tudo e de nada, e reorganizar o espaço interior, é tão importante como respirar, sob pena de já não entendermos nada e não fruirmos o mundo nem a vida, enclausurados em arritmias com a capa do ritmo certo!

A higiene mental e o revigoramento anímico passam por aqui. Negarmos este espaço diário de silêncio connosco, é diminuir a capacidade de ouvir o Outro e de percebermos como vai o nosso próprio valor... Darmo-nos tempo, é também darmos tempo ao outro sem as desculpas de o não termos... Porque mais importante que uma prenda bonita, um jantar imaculado ou uma roupa cara, é o tempo que damos na simplicidade da alegria e do encontro interior.

Quando a aparência se sobrepõe e o tempo é artificial, está tudo enquinado, e cabe-nos a nós interromper o ciclo do vazio! Porque argumentos para não termos tempo, encontraremos sempre, e é também aí que importa priorizar! Hoje, que se comemora o dia do voluntariado, é tão mais louvável e meritório o que cada um desses voluntários faz, quanto a noção de que o tempo é um bem escasso e de que não o podemos prolongar: apenas gerir... Para podermos ver mais longe, para podermos respirar vida e não a mera existência, e só dessa forma alcançarmos outras dimensões...

4.12.19

DIA INTERNACIONAL DO DEFICIENTE



Comemora-se, a 03 de Dezembro, o Dia internacional do Deficiente! Ora, eu, não confio nas pessoas perfeitas, nas que se arrogam certezas que não têm, nas que salivam fel, nas que não sabem rir, nas que lhes falta liberdade interior, nas que não sabem actualizar decisões, nas que trocam a simplicidade pelo orgulho, a sabedoria pela arrogância, a humildade pela soberba intelectual!

Gosto dos simples e bem dispostos, dos que sabem apreciar o pormenor, dos que falam com o coração e têm a sensibilidade de viver, ao invés de competir! Geralmente é o ego a fonte do desamor, que caminha a par com a vaidade e a superficialidade!

Hoje é o Dia Internacional do Deficiente? Está bem visto! Precisamos sempre de saber, que há espelhos que se negam a validar as nossas suposições, ou, dito de outra forma, que em todas estas situações os deficientes somos nós!

23.11.19

noite silente

Na noite silente, calma e
amiga comungas a dor,
E na alvorada constante do
teu desencanto, sofres a vida
em tristeza e temor.
Aquieta teus olhos
pousados no chão,
Pacifica essa noite
existente e vencida.
Reergue-te assim do
abismo gracio, onde
as asas te consomem
no sonho perdido.
E de olhos no céu e
com mãos em dádiva
Mãos abertas de piedade
e mágoa, sorri, afinal, pela
tua oração, acordando baixinho
de um sono refém.
E na luz do olhar, do deserto e
da noite, encontra as
pegadas que um dia perdeste.
Levanta-te pó, cinza e cera
que as velas da vida
maceraram em ti.
Na morada caótica da
aflição e dor, moram
também espamos de luz.
Faz-te e refaz-te
com tudo e com nada que
tenhas em ti, e o vento que
lava, que traz e que leva,
adormece no colo do desejo e sentir.
E retomando, por fim, o mesmo
caminho, em glórias e fracassos
de um único ser,
entrega-te ao dom, à vida e
à morte, em sois de alegria
perturbada e veloz.
Teus olhos cansados dizem
na noite o brilho da luz.
E num deserto sereno
erguem-se, também, poços de amor.
Luares da alma em gotas
imensas saciados
de paz...
E serás para sempre
imagem cravada na
chuva que dorme.
E em ciclos eternos de
dor e de paz, em convulsões
amenas de um hábito antigo,
descobres que não há
universo sem ti,
naa constelações perdidas
dos que teu mundo habitam...

16.11.19

AUTO AJUDA

O problema dos livros de auto ajuda é que enfatizam o pensamento positivo, apagam a experiência do sofrimento para novamente chamar à atenção do pensamento positivo, e fazem sempre um fortíssimo apelo à auto satisfação e ao prazer. Alguns têm boas técnicas e tácticas úteis, mas no geral é isto!

É um erro. Tal como o amor não é o que idealizamos mas sim o que construímos, também a vida não é um quadrado estanque onde nos realizamos hedonista e egoisticamente. Nos tempos da realização pessoal e da inteligência emocional facilmente resvalada e/ou confundida com self made man, precisamos de nos lembrar que somos seres relacionais, e precisamos de saber que a felicidade não é a mera satisfação de caprichos e prazeres (esgotar-nos-iamos tão rapidamente que abriríamos uma ferida existencial), mas a capacidade de ser Pessoa e de partilhar valores de amizade, entreajuda, esperança e amor.

Quanto às experiências negativas, devem ser incorporadas para melhorarmos, para nos reconhecermos falíveis e aceitar o que for inevitável ou não depender de nós, e só desta forma, integrando o sofrimento e sabendo que a felicidade não é o mais ter mas o mais ser, nos realizarmos como Pessoas!

11.11.19

ASSIMETRIA DE VIDA

Falta-nos o encanto, a dose de humor, a entrega. Falta-nos saber conduzir o tempo e não de sermos levados animalescamente por ele. Falta-nos soltar as palavras belas e inconfundíveis como se fossem pequenas fontes de água fresca, e não uma sucessão verborreica a imitar um esgoto que a espaços convulsos deita água suja ao mar. 

Urge voltarmos a ser crianças e não apenas de pegarmos nelas. De desdramatizar o que dramatizamos e de valorizar o que desvalorizamos. 

De esquecer o vaidoso e enfatuado ego, para a simplicidade do sorriso e da partilha, de subordinar a altivez ao gesto humano da dádiva e comunhão. 

A vida existe e acontece na medida da nossa atitude. Há que fomentar o gesto diário e pessoal da comunicação, do sorriso, da frontalidade educada e da construção do edifício humano, do seu tecido valorativo nas relações interpessoais de serviço e amor. 

De outra forma, estaremos tristemente a viver um destino que não é o nosso...

2.11.19

DE CUJUS



Celebra-se hoje, o dia dos Fiéis Defuntos ("De Cujus", em terminologia jurídica) .
Ainda que mortos e, talvez por isso, dizem-nos consabidamente que o tempo é agora nosso.
Para isso, mais do que lembrar os mortos, é necessário reflectir sobre os vivos, e não na dor arrancada ao peito pelos que amámos e perdemos como se também uma parte de nós se tivesse extinguido, mas no juízo colectivo do socialmente correcto, nos cumprimentos e favores capciosos que fingem altruísmo e atenção, no passaporte obsessivamente carimbado com o visto da casa, do carro, do emprego e da família até à contracapa da reforma!
Se viver for isto, então mais do que lançar um olhar ao passado pela recordação sentida de quem amámos, há que atribuir-lhes o exclusivo da vida, porque se os mortos têm a natural legitimidade de nada poder fazer, nós temos a ínsita obrigação de saber morrer antes do dia final. Morrer não é extinguir-se, mas dar-se. E dar é um acto de amor, de criatividade e de Vida!
O que é isso de defunto? E o que é isso de fiel? Uma pessoa que soube fazer representar-se a si própria pela verticalidade dos seus valores e dos seus princípios? Se um “defunto” é um ser inanimado, então quase todos andamos em exéquias, e se ser-se “fiel” é possuir valores não domesticáveis, então a terminologia usada é uma homenagem graciosa.
A questão que se coloca não pende para os que desapareceram do nosso convívio, nem para a dor que nos arranca a alma por já não termos quem amamos, mas para nós que continuamos o fado da criação, seguindo exemplos, moldando atitudes, aprendendo o erro! A experiência faz-nos! A morte também. Afinal, que catálogo de emoções seguimos nós, ao ponto de hipotecarmos a vida? A que prescrições sociais estamos nós restringidos? À lógica do racionalismo puro? À moral egoísta? E tudo isto para quê? Credibilidade social?
Nada vale do que teorizamos na metafísica do viver. Nada vale sem o amor inteiro e não pluri-partido, como uma baby-sitter que presta atenção a todos e a ninguém! Porque como o Sol irradia o seu brilho e fulgor sem se importar com a sensibilidade de quem passa à luz, assim o Amor deve fazer, sem cuidar do egoísmo alheio. Muita gente foi ontem e vai hoje aos cemitérios, mas talvez, afinal, que os mortos sejamos nós.

27.10.19

TRANSPARÊNCIA

Temos um medo terrível de nos mostrarmos humanos, com as nossas fragilidades, mas não só é libertador, como pedagógico. Todos usamos defesas, mas quando se tornam tão fortes que nos escudamos em seres que não somos, é um oxigénio artificial que respiramos, é uma outra vida que vivemos, e são muitas as fontes de desencanto e animia, de desconsolo e ansiedade, de frustração e dor. Não se trata das defesas comuns para tapar fragilidades, mas daquelas que não nos permitem revelar a nossa própria condição. A ideia de sermos o super homem, quer com um riso constante onde nada nos parece afectar, quer massajando constantemente o ego e preferindo engolir a partilhar, corresponde à imagem adolescente da imortalidade e invencibilidade. De nada valemos se não formos pessoas autênticas. Mesmo nos aspectos mais desonrados. Precisamos de nos desconstruir para sermos em plenitude.
 
Tenho muito mais identificação e à vontade interior com os desnudos da vida, os feridos e os envergonhados, (não confundir com coitadinhos ou com os que se vitimizam ou com os que continuamente se lamentam numa espécie de reclamação ao contrário), do que com os fortalhaços sociais. Só a humildade do despojamento do ego e do abraço de alma, nos solta a confissão de quem somos, em lágrimas que, talvez por isso, não precisaram de chorar, até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si...

20.10.19

ESPERA













Saberás que vivo em teus silêncios,


até acordares pela palavra


o som inquietante do amor...

ASAS



Onde deixaste as asas?
Onde perdeste os sonhos?

Onde choraste a esperança
da manhã eternizada?


E onde ganhaste a dor?
E onde sofreste a morte?

E como vives a beleza
do encanto e da magia?


Que forças conseguiste
e que mistério ultrapassaste
para pisares o chão que te eleva?


A couraça de guerreiro
que a vida te fez vestir,
conhece a fragilidade
de um amor irracional.


Não a dispas!
Não a tires!

´
São as asas modernas
de um anjo feito homem...

10.10.19

DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL

Celebra-se hoje, 10 de Outubro, o Dia Mundial da Saúde Mental, e quando se fala sobre a gestão do stress, costuma dizer-se que não é o peso absoluto de uma coisa que conta, mas o tempo que a seguramos! Quanto mais tempo seguramos um objecto, mais pesado ficará, i.e., quanto mais tempo nos preocupamos, maior será o fardo! E não necessariamente do peso, mas da exagerada importância que damos a algumas pessoas e situações, tantas vezes na simples ânsia de as querer resolver.

Outro ponto extremamente importante quanto à saúde mental, tantas vezes decorrente de uma boa gestão emocional, são os sentimentos. Os sentimentos não são bons nem maus. Dizem-nos apenas o que se está a passar connosco: são sinais, alertas. A gestão emocional também passa por aqui: aprender a viver afectivamente bem consigo mesmo, e sempre que recusamos a emoção e o sentir, estamos a bloquear afectos e aprendizagens, a capacidade de sermos mais pessoas, mais humanos, mais nós, estamos a entrar no caminho fácil de não nos querermos conhecer! A questão não é deixar de sentir, mas saber o que fazer com aquilo que sentimos.

Um sentido autocrítico, o simplesmente ser, a capacidade do riso (não é por acaso que muitas empresas mesmo entre nós têm workshops do riso e começam logo de manhã com sessões de meia hora), a doação (através do amor, da amizade, da entreajuda e da partilha), a capacidade de relevar e esperar, a noção de que nem tudo depende de nós, etc., são tudo fonte de higiene mental, neste dia que lembra a sua incontornável importância, a começar nos bloqueios afectivos autoimpostos mesmo sem sempre o consciencializarmos…

A saúde mental requer a higiene que nem sempre temos, reféns que somos de crenças e perspectivas que tomamos como absolutamente certas só porque achamos que sim! Sem ferramentas tão simples como a humildade e a autocrítica, forjamos a realidade e dizemos que é ela que nos engana, precisamente porque no jogo de espelhos onde só nos queremos ver como super homens, está estampada a limitação que recusamos...

8.10.19

DESCER A NÓS

"Não sei qual é o meu destino, mas estou convencida de que estou num período de transição, como um retorno às minhas raízes, um retorno a mim mesma. Porque me perdi um pouco”, diz Angelina Jolie em recente entrevista. E acrescenta sobre o divórcio com Brad Pitt: “Senti uma profunda e genuína tristeza, fiquei ferida. Por outro lado, foi interessante reconectar-me com essa humildade e até essa insignificância que eu estava a sentir. Talvez seja isso o que é ser humano, no final...”.

São declarações de quem se analisa e desce a si, de quem se confronta com as sombras e afirma que foi necessário perder-se para se reencontrar. Gosto desta humildade, desta inteligência do coração, deste reconhecimento que, só tendo consciência da nossa insignificância, nos podemos tornar grandes, nos podemos tornar nós.
Isto fez-me lembrar o jornalista Jean Paul Kauffman - que foi feito refém durante três anos em Beirute - quando escreveu depois da sua libertação: "Estes anos foram atrozes. Chegámos ao grau mais próximo da estupidez humana a que um ser humano pode chegar, mas quando uma desgraça assim nos bate à porta, temos de saber usá-la para fazermos marcha atrás, para, de certo modo, nos testarmos. O sofrimento revela muita coisa. É horrível dizê-lo, mas eu podia ter morrido idiota, se não tivesse passado por tudo aquilo"!

Há tanta gente que se acha nas mais altas esferas seja do que for, mas cuja ausência de sentido de humidade e simplicidade lhes cava fossos de dessincronia entre a autenticidade e a superficialidade... É preciso sabermos ser Pessoas. É preciso sabermos ser nós!

3.10.19


Dizia Freud que "podíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons"! E assim é! Endeusamos sempre muito o intelecto, a inteligência cognitiva, e fazemos tábua rasa de outras valências e da própria inteligência emocional. Batemo-nos pelo ego como se fosse o alimento primordial, a massa unificadora de uma humanidade egoísta, outorgando à razão uma legitimidade que não tem. 

Somos muito mais do que pensamentos calculistas e aritméticas de vida, e não é no ego nem na inteligência cognitiva que está a realização pessoal; o ego precisa de ser cuidado até onde deve, garantindo a auto estima necessária, mas o resto é vaidade ou sobranceria. 

A melhor maneira de sermos, é sabermos quem somos, e geralmente apenas sabemos o que somos! E metidos nesta cegueira, deixamos o ego alastrar selvaticamente cortando cerce manifestações mais nobres de entrega, porque subservientes ao nosso eu racional que comanda a nossa vida com a idiota vaidade de quem julga saber tudo! Mas só a consciencialização das nossas verdadeiras motivações e porquês - o que implica um exercício de auto-análise e humildade -, nos livrará da arrogante opressão do eu, permitindo a liberdade de podermos ser verdadeiramente nós...

Só assim poderemos ter outra compreensão do mundo, do outro e de nós mesmos, e perceber que as dinâmicas da vida escapam ao desejo autoritário da visão egotista de quem não consegue ver mais além... É sempre nas coisas simples da vida e na partilha desinteressada, na comunhão com o Outro, que verdadeiramente somos felizes... Tudo o resto são fantasias do ego escudadas em inseguranças que nem sabe existir...

30.9.19

SERES DE AGENDA


Somos seres de agenda e inculcámos em nós esta convicção do mais, de que podemos sempre mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado! Muitos workshops e coaching são centrados nessa vertente de auto realização, mas não há qualidade de vida nem de tempo sempre que o ramerrão nos escraviza em baratas tontas que já nem sabem que o são, nem a realização pessoal se faz sozinha. Um homem deixado numa ilha solitária com todas as mordomias ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial!!

Os cursos quando bem centrados na inteligência emocional ou na programação neurolinguística, são uma ferramenta poderosa e muito útil; o problema é quando descambam ou indirectamente transmitem a falsa ideia de que tudo podemos sozinhos, bastando conhecer as ferramentas... Não pode haver maior engano e há pessoas que acabam por julgar que se bastarão a si próprias...

Aquela ideia de que temos de ir sempre além de nós, é falsa. Como tão bem diz Carl Jung (outro grande nome da psicologia e que foi colaborador de Freud): "Na verdade não existe algo como dever-ir-além-de-si-mesmo. Por isso não aconselharia ninguém a querer ir além de si mesmo. Além disso, esta expressão também é falsa; não se pode ir além de si mesmo, mas apenas avançar mais para dentro de si mesmo!"

O caminho é sempre o da interioridade. Endeusar o ego e acreditar que nos realizamos sozinhos, é robotizarmos o que somos numa das maiores falácias de vida! Somos vítimas de nós mesmos sempre que não sabemos respirar a alma. E viciosamente encontramos argumentos e desculpas para o nosso próprio vazio!

Há um provérbio africano delicioso que diz que sozinhos chegamos mais rápido, mas acompanhados chegamos mais longe. É uma belíssima analogia com a absolutização que fazemos de nós, descuidando a relação interior connosco mesmos, a tal que nos leva mais longe, porque a visão já não é a de uma mera realização pessoal, mas sim a de perceber a diferença entre o sucesso e a felicidade...

3.9.19

RECOMEÇO



As férias acabam. O ramerrão começa. Todos voltam aos lugares. Despiram-se anseios, descansou-se a alma, mitigou-se a diária chatice. Mas muitos ficaram, agarrando-se aos muros de cartolina que projecta a ilusão de um castelo bem guardado onde habitam seres de papel, inermes e leves, que não precisaram de se perfilar como os que agora regressam porque já lá estavam, escudados em doze meses pintados a carvão, por vezes rasgados e reconstruídos com a fita cola da vida, e ninguém nota, ninguém vê! Vão continuar perfilados, viajantes cansados de uma bola de cristal, esperando pacientemente a sua vez, a sua glória, a sua luz! Ainda que partam, algures ficou gravada a natureza do sangue que luta e espera. E dessa prova de vida, começará a nobreza de um espírito imortal...

1.9.19

DO VALOR INTRÍNSECO



Temos sempre a tendência de credibilizar o outro pelo que faz ou pela quotização social que tem! Se num grupo de doutores todos se apresentarem e fazerem valer os currícula e méritos sociais, e chegada a vez de um colega simplesmente disser o nome e sorrir, não vão perceber a mensagem à primeira: de que aquele que temos à nossa frente não vale pelos títulos que tem, mas pela formação humana que demonstre e/ou lhe intuamos. E, no entanto, as pessoas continuam no mesmo registo:... de valorar o que o outro faz, para saber com que grau de cortesia e de respeito o deve tratar! Ora, confundindo o crédito com o valor, mesmo que este também exista - mas nem sempre o contrário é verdadeiro -, caímos arrogantemente ignorantes (ou cínicos) na aferição de que o cão bem cheiroso e tratado que vai ostensivo e feliz no carro do dono, vale mais do que aquele outro numa carrinha a caminho do canil... Valemos pelo somos. Não pelos títulos que temos. Um cão é sempre um cão, independentemente de estar num canil ou com todas as mordomias numa casa de ricos... E quem não sabe ver com o coração, terá sempre uma visão enquinada do outro, do mundo e da vida, na aferição adulterada que, mesmo sem saber, também faz de si...

28.8.19

DAS FÉRIAS E DO ESSENCIAL

Todos gostamos de férias. É uma das melhores coisas. Mas fazemos férias como se fosse uma interrupção da existência, tal como desejamos bom fim de semana para só voltarmos a falar na segunda feira seguinte.

Fazer férias não é tanto a desbunda hedonista, mas a descompressão, o retemperar das forcas vitais, lembrando-nos que também somos alma, espírito, essência - que cada um entende à sua maneira - e nesse descanso também físico e psicológico, encontrar o acolhimento e a disponibilidade interior que nem sempre temos.

Se me pedissem para me definir, seria pela simplicidade. Esta, subentende também a humildade e a alegria, mesmo quando não vislumbramos caminhos e só apetece afiar o dente.

Simplicidade é estar de mãos abertas e alma receptiva, e como sempre costumo dizer, não se deve confundir com ingenuidade mas requer inocência. Estamos muito habituados a erguer camadas sobre camadas de defesas, mas sem entrega e sentido de humor, desumanizamo-nos. A sociedade não é mais do que a soma de cada um de nós, pelo que nem sempre colhe o argumento do "é assim", mas coragem para sermos. O que é o essencial nas nossas vidas? Apegamo-nos a coisas, muitas coisas, como se pudéssemos dormir com elas ou receber o afago na solidão e dor.

Uma vida com o essencial nunca começa pelas coisas, passa por elas como cores que nos alegram a existência mas detém-se sempre no Encontro. É uma palavra muito importante. O Encontro. Connosco e com o outro igualmente cheio de tantas defesas. É esse encontro que faz pulsar as fibras humanas que se vitalizam e engrandecem, porque soubemos que viver não é acumular coisas ou preencher a agenda, mas este descalçar do mero "eu social", numa partilha que cabe a cada um fazer e descobrir.

23.8.19

PERCEPÇÃO DISFUNCIONAL

O mundo está cheio de pessoas que pouco vêem além do seu próprio umbigo! Fazem das suas crenças a realidade e tornam-se injustas por isso! É esta, de resto, a definição de ignorância! Ignorante não é a pessoa que não sabe ler ou não tem um doutoramento! Ignorante é aquele que não tem noção do próprio mal que pratica, e que achando-se legitimado na própria ignorância, continua a praticar o mal, feliz e contente porque, tal como um tolo, não tem noção do que faz.

Tal como as multidões que são acéfalas e não pensam, antes vão guiadas pelo instinto colectivo e cego, assim as pessoas que não se conseguem distanciar de si mesmas! E sem conseguirmos ver além do umbigo, inflamam-se os egos e a injustiça corre como chuva de inverno achando todos que está um imenso sol. Nalguns impera o egoísmo, sob a capa de um pretenso amor, e tudo o que importa é o seu quinhão de existência! Interesses, preferências, hipocrisia, tudo servido com a egótica sensação de uma verdade absoluta e a máscara do socialmente correcto!

A capacidade de pararmos para reflectir e fazer um upgrade de nós mesmos, de nos distanciarmos dos nossos interesses e visões pessoais, é fonte de higiene mental e remete para a inteligência emocional que todos devíamos praticar! É por isso que valorizo os que têm coluna vertebral e coerência, e não sucumbem às conveniências, e que tantas vezes pagam com a solidão o preço de se manterem fiéis ao carácter e ao sentido de justiça, termos raramente encontrados em quem não sabe fazer da vida um lugar de amor e amizade numa dádiva constante de si!

Mas também valorizo os simples, os que não necessitam de aprovação social para simplesmente serem. E não precisam de uma quotização intelectual para brilharem! Não se colocam máscaras de austeridade comunicacional para fazerem valer o que são. Os grandes, são sempre assim: simples e humildes! Os que usam muito os cânones sociais, e fazem valer o que são pelos títulos que têm, são devedores de tanto, mas julgando-se pavões importantes. Não são. Do ponto de vista humano, o que conta é que damos, não o que temos…

E também valorizo a inteligência. Mas prefiro os sensíveis, se tiver de escolher! Uma pessoa inteligente sem sensibilidade, é praticamente um neanderthal moderno! A sensibilidade é um dom que se tem, para si, para as situações e para os outros..

E, claro, o humor! Só quem sabe rir de si e das situações, é interiormente livre porque não se tem mais do que à vida! E, neste gostar, se conhece e faz o conhecimento do Outro, da vida e do mundo ...

18.8.19

SUPER EU

Inculcámos em nós esta convicção do mais, de que podemos sempre mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado! Muitos workshops e coaching são centrados nessa vertente de auto realização, mas não há qualidade de vida nem de tempo sempre que o ramerrão nos escraviza em baratas tontas que já nem sabem que o são, nem a realização pessoal se faz sozinha. Um homem deixado numa ilha solitária com todas as mordomias ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial!!

Os cursos quando bem centrados na inteligência emocional ou na programação neurolinguística, são uma ferramenta poderosa e muito útil; o problema é quando descambam ou indirectamente transmitem a falsa ideia de que tudo podemos sozinhos, bastando conhecer as ferramentas... Não pode haver maior engano e há pessoas que acabam por julgar que se bastarão a si próprias...

Aquela ideia de que temos de ir sempre além de nós, é falsa. Como tão bem diz Carl Jung (outro grande nome da psicologia e que foi colaborador de Freud): "Na verdade não existe algo como dever-ir-além-de-si-mesmo. Por isso não aconselharia ninguém a querer ir além de si mesmo. Além disso, esta expressão também é falsa; não se pode ir além de si mesmo, mas apenas avançar mais para dentro de si mesmo!"

O caminho é sempre o da interioridade. Endeusar o ego e acreditar que nos realizamos sozinhos, é robotizarmos o que somos numa das maiores falácias de vida! Somos vítimas de nós mesmos sempre que não sabemos respirar a alma. E viciosamente encontramos argumentos e desculpas para o nosso próprio vazio

13.8.19

SER JOVEM É...

Escrevia, salvo erro, Camilo Castelo Branco, que "crescer é tornar-se adulto sem se adulterar". A 12 de Agosto, comemora-se o dia internacional da juventude, e se não devemos ser ingénuos, usando as ferramentas que permitam sem malícia, mas com firmeza, corrigir o outro, a verdade é que, da mesma maneira, nunca devemos perder a inocência. Ser jovem será sempre um estado de espírito, e é por isso que há jovens apáticos e adultos entusiastas!

Quando crescemos a afagar o ego e confundimos sobranceria e arrogância com auto estima, adulterámo-nos em vez de amadurecer, da mesma maneira que cerceamos a liberdade de sermos nós mesmos, sempre que nos rendemos aos cânones estabelecidos de uma quotização intelectual, de um status com atitudes pomposas, de cortesias para criar simpatia que de genuíno pouco têm, ou ainda quando sufocamos a vontade de educada, mas livremente, dizermos o que pensamos, não como quem critica, mas como quem partilha ou contribui.

Adulteramo-nos quando aplaudimos os fortes só porque têm um valor social, e quando relegamos os que, imunes às críticas sociais ou ao parecer canónico das modas, se sujeitam apenas a si mesmos, nos valores que verdadeiramente interessam... A juventude está na capacidade de sermos nós mesmos, que requer uma raiz profunda para aquilatar da qualidade humana, e dessa forma deixar confusos os que achavam que um aparente pateta ou zé ninguém, era, afinal, alguém com poder, doutorado ou CEO, mas cuja simbologia levou a descobrir quem verdadeiramente o rodeava. E também o contrário. Que aquele que fazia valer medalhas e ostentava os curricula sociais ou académicos, era, afinal, alguém pouco criterioso, interiormente pobre e humanamente repugnável. Mas também ainda a situação de quem, não tendo status, dinheiro ou poder, tem, afinal, uma sabedoria imensa de vida e uma delicadeza de alma, que tantos outros de renome jamais lhes chegarão a vislumbrar o início…

Saber ser jovem, é também saber ousar, arriscar o que em adulto parece mal ou não se faz, e confundindo tudo isto com classe social, perdemos a noção entre elegância e vulgaridade, porque elegante será sempre sermos nós na condição humana do abraço, e não o sorriso manipulado do jogo social... O oposto é que é vulgaridade!

Há uma diferença entre crescer e amadurecer. Já dizia Nietzsche "torna-te aquilo que és", e nós fazemos exactamente o caminho inverso. Não há mal nenhum em chegar sem gravata a uma reunião de doutores, em comer um iogurte lambuzando os dedos ou em preferir uma carrinha pão de forma a um Maserati para impressionar. Em pedir uma torrada com manteiga em vez de impressionar com um brunch, ou sujar-se a brincar com um cão que sem nos conhecer nos pede festas. Em chorar sem vergonha e em rir no meio da dor, não como quem a irreleva mas porque é demasiado forte para se aguentar, ou em ir descalço onde outros usam sapatos Armani. A diferença está na relevância e/ou necessidade que temos de dar para nos credibilizarmos a nós mesmos, mas o crédito vem de dentro, para poder suportar a dor com respeito mas sem se destruir, ou para poder abraçar quando todos fogem e acusam…

A ideia de felicidade, com tudo o que implica de viver a paz no meio da luta, e de sorrir mesmo com cinzas na alma, está ligada à maturidade emocional, não necessariamente ao crescimento. E isso requer liberdade interior para podermos ser verdadeiramente nós...

E então, comemorando-se hoje o dia da juventude, quantos de nós já não envelhecemos por dentro, rendidos ao embrulho e não à essência, e se crescer é tornar-se adulto sem se adulterar, então quantos anões não há por aí... Ser jovem é ousar. Ousarmos ser nós!