8.3.19

DO DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Tecnicamente, não devia existir o Dia Internacional da Mulher que hoje se comemora, porque antes de mais a igualdade é intrínseca ao género humano, como a cor, a raça, orientação sexual, condição social!

Mas já que ainda estamos atrasados em preconceitos (a desigualdade é um preconceito, apenas) então que se usem estes dias para o lembrar.
 
Sobre a mulher, acho lapidar esta frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher! Torna-se!" Ainda assim, acrescentaria que podem sempre ser senhoras!
 
O resto, ter de haver "dias de..." são resquícios de uma sociedade no seu lento processo de civilidade e humanização...

5.3.19

DO CARNAVAL


A máscara tem o sentido catártico de uma disciplina socialmente imposta. As personagens que representamos confundem-se no real e no imaginário, porque tanto somos aquilo que pensamos ser, como as personagens que apenas pensamos representar.


Carnaval é todos os dias. Entre a defesa e a hipocrisia, entre o real e o intencional, as máscaras são produto de personalidades prensadas no despotismo de muitos. Neste aspecto valorizo os simples, a simpatia do riso, a desresponsabilização salutar por tantos males do mundo!


O homem médio é sem dúvida o mais feliz. O Carnaval não devia ser um tempo avulso como se fosse um workshop circense; não devia ser uma catarse lúdica concentrada num dia colectivo. Tal como fazer férias não é hipotecar numa quinzena ou num mês o restante tempo livre, também saber brincar todos os dias é do mais salutar que há, já que contribui para a higienização mental e contagia na promoção do desbloqueamento dos problemas diários que sempre nos afligem...


É bom matar a necessidade de se brincar às guerras: aquelas onde as próprias pessoas são os campos de batalha...

3.3.19

ESSÊNCIA E VERDADE


Freud diz que "é impossível eliminar os nossos sintomas todos sem perder juntamente com eles, aquilo que representa a nossa maneira de ser, aquilo que nos aproxima da obra de arte e nos afasta de sermos mera cópia de um original previamente definido, higienizado, polido e considerado normal." 
 
De facto, se é verdade que nos precisamos de desconstruir diariamente, isso também não pode significar uma negação àquilo que é a nossa essência, seja ela qual for! Nunca gostei do so...cialmente correcto, das pessoas perfeitas ou altamente seguras, descontando já o que tudo isso tem do seu oposto.

Tal como uma mente conservadora inibe o desenvolvimento, a ideia de nos travestirmos socialmente para uma imagem de invencibilidade, inibe a própria personalidade que fica refém de si mesma, em artificialidade e vazio. Os sinais práticos costumam ser a soberba intelectual, a arrogância, mas também aparentes simpatias que escondem acidez.

Freud tem razão. No fundo, crescer não é negarmo-nos, mas integrar o que somos com a perfeição possível... sem por isso deixarmos de ser nós...

25.2.19

HÁ ALMOÇOS GRÁTIS




"Não há almoços grátis" é aquela expressão que pretende significar que ninguém dá nada a ninguém gratuitamente, há sempre algo em troca, qualquer interesse velado ou directo, mas tal não é sempre verdade. Há dias, um sem abrigo pediu-me no MacDonald's se lhe dava dinheiro porque tinha fome; ar esgazeado, meio lunático e aparentemente perigoso. Sentou-se à minha frente e dele chegavam-me intuitivamente todas as más impressões! Coloquei um ar austero e defensivo porque era mesmo daqueles que armam confusão e se metem com todos! Pedir dinheiro é logo mau sinal... Ontem, porém, estando eu a jantar, vi outro sem abrigo nos armazéns do Chiado, aparentemente envergonhado e abordando de longe uma senhora que também jantava, logo se retirando de seguida. Já me tinha visto, mas continuou. Passado um pouco voltei a vê-lo, e ao contrário do primeiro sem abrigo no MacDonald's, este fazia-me chegar algo de bom!


 Deixei que visse que o olhava, e a passo lento aproximou-se de mim também guardando uma distância. "Olhe, o senhor desculpe, mas podia dar-me qualquer coisa para jantar?" - Eu não tinha dúvidas sobre o homem, mas testei-o para ver a reacção: "olhe, quer acabar de comer a picanha e as batatas fritas?" disse-lhe já eu jantado. "Olhe, com a fome que estou se não se importar"... O olhar era simultaneamente doce, expressivo e triste. Barba grande mas algo aparada, magro, roupa típica mas sem um desleixo de maior. Perguntei-lhe porque não tinha ido comer à carrinha, que sei todos os dias distribuirem refeições no Rossio aos sem abrigo e respondeu que sim, que todos os dias o faz e que a comida é muito boa mas hoje tinha chegado tarde e já não serviam, uma espécie de castigo para aprenderem a estar a horas... Na realidade, o sem abrigo perigoso do MacDonald's havia-me dito o mesmo…

Eu respondi a este samaritano nos armazéns do Chiado, que estava a brincar com ele, obviamente não estava à espera que comesse os meus restos, e que escolhesse o que quisesse. Fui com ele oferecer-lhe a refeição, falei um bocado com ele, notava-se inteligência e bondade, formação humana e dignidade, mas precisava de acreditar nele, de ter auto estima que não tem, e esperava que o chamassem para ser internado para sair das drogas, já tinha ido à segurança social, etc, dizia-me ele enquanto o prato era preparado. E naqueles momentos breves, disse-lhe que todas as ajudas são sempre ajudas, pessoas, instituições,, o que for... mas a verdadeira ajuda será sempre a nossa, a força de vontade, já que tudo o resto é temporário, momentâneo, como aquele jantar que eu lhe oferecia, ou mesmo ser institucionalizado. Respondeu que sim, sabia disso, mas continuava a faltar-lhe gostar dele mesmo. Perguntei-lhe o nome; hesitou em responder e disse: "Hélder"! Muito bem, Hélder, então agora tem de perguntar a si mesmo porque não gosta de si; e se é por causa das drogas então tem de fazer um esforço em tentar consumir menos; evitar ao máximo, porque a segurança é você que a faz e não esse desejo tão grande que tem de o chamarem para ser internado. É uma ajuda mas é você que precisa de fazer mais por si mesmo, Hélder! Se agora alguém lhe desse 10 ou 20 euros que faria você? Provavelmente ia para as drogas, mas são estes pequenos passos que você precisa de dar, acreditar em si mesmo, como você mesmo diz, Hélder" E disse-lhe que é também o mesmo problema de quem está agarrado ao tabaco ou álcool para se sentir num patamar mais natural dos "restantes" seres humanos…

Depois deixei-o sentar-se e jantar sozinho, à vontade. Estava entre o envergonhado e o tenho mesmo muita fome. Respondeu "nunca me vou esquecer disto", e independentemente das verdades que nos chegam do outro ou daquilo que intuimos de mal, como nestes dois casos de sem abrigo, a verdade é que não podemos estar à espera de santos para matar a fome ou proteger do frio, e com todas as cautelas que as ajudas implicam, mas também com muito do que percepcionamos, a ajuda é gratuita e não pede factura nem emenda, e o facto de generalizarmos que são sempre todos os mesmos, a verdade é que são pessoas como nós, e que mesmo que não seja para algo essencial à vida, todos merecemos ser felizes ainda que por momentos, e que só não há almoços grátis, como diz o adágio, se nos mantivermos arrogantemente bondosos sem nada fazer, no deve e haver das facturas relacionais…

Rasgar a vergonha para pedir, não é fácil, mas também não podemos morrer de fome. O que me chegava dele era entre a timidez, a vergonha e a necessidade, mas com gentileza, não aquele ar sonso que colocam a pedir dinheiro, e também por isso devemos estar atentos aos sinais. A mim tocou-me a humanidade do senhor, tinha 33 anos embora parecesse algo mais velho mas não muito mais. Fui eu que fiquei agradecido pela sua humanidade... E se partilho isto é só por um sentido pedagógico: precisamos de desintoxicar de tanta desconfiança...

HÁ ALMOÇOS GRÁRTIS

EGO

Autosuficiências ou orgulhos,
afastar-nos-ão continuamente do caminho,
até que abrandemos na encruzilhada
da desomnipotência e humildade,
onde o êxito não é o que fazemos,
 mas o que sentimos!

E só quando nos reconhecermos falíveis
 e, por isso, humanos,
podemos dar ao outro o melhor de nós!
 
Até lá,
será a vaidade do ego
a comandar a nossa vida...

6.2.19

A TUA CASA

Quando me deixares entrar em tua casa com o pó por sacudir, saberei que não é na geometria das coisas que vives, mas na diária tentativa de ergueres na alma o aprumo que te falta. E se o sorriso te esconder a vergonha, não confundirei com negligência a prisão do ser, que hipotecado em cíclicos desencantos e abúlica energia, aguarda que a chama se acenda num frágil pavio, sustendo os serviços mínimos do ânimo até que os grilhões te libertem, dando à vida novo rumo e nova cor, vestindo de alegria o cheiro a mofo de uma vida anémica.

Mas se só me convidares para a tua casa reluzente e bela com jardins e mesa para os convidados...! Se só me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se só me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...! Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...! Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou desconfiar que estejas bem, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.

Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que, embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos, e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala muito mas pouco se diz, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

Mas o festim simples e libertador da alma não é este, e pode durar uma noite inteira. Não teve convivas nem flutes, nem roupas de ocasião. Se calhar tinhas até o cabelo por lavar ou uma nódoa antiga, como os livros amarelados de serem lidos e mexidos, ou os objectos puídos pelo uso emocional que só tu vês! Mas é quando os outros regressam com portos de honra, para desembrulharem durante a semana toda a frustração e infelicidade, que metidos em fatos Armani ou vestidos Prada, não puderam desencarcerar numa festa que devia ser Encontro.

Por isso, convida-me só quando tiveres pó em tua casa, e saberei que o quarto fechado onde mais ninguém entra, para iludires nas restantes divisões da alma a felicidade que não tens, é exactamente aquele onde verdadeiramente és e te libertas, e onde me deste a honra de entrar, até à festa onde a alegria é já sentida e a harmonia das coisas são mimos que ofertas, e tudo é, então, belo, não porque estejas necessariamente feliz, mas porque a divisão mais bonita, será sempre aquela onde moram as nossas vulnerabilidades, e não já como o príncipe que recebe duzentos convivas no castelo, sabendo que na verdade não teve lá ninguém...

25.1.19

MODUS VIVENDI






A paz é aquela que se vive no meio da luta. Requer coragem e atitude. Coragem para enfrentarmos a vida, e atitude para não deixarmos que sejam as situações a afectar drasticamente o nosso viver. Como quando chove, e enquanto uns se molham, outros apreciam a beleza da chuva. 

 Na nossa atitude mental face aos problemas, está muita da sabedoria do viver.

No dia de hoje nascia Virginia Woolf, e escrevia ela assim: "Não encontrarás a paz ao evitares a vida".

DIA MUNDIAL DA ESCRITA À MÃO


21.1.19

DIA DA TRISTEZA E DO ABRAÇO



Hoje é o dia da tristeza e do abraço. A tristeza, apesar de a querermos sempre negar, é uma tensão de equilíbrio e, por isso, saudável, quando não se prolonga para além do motivo que a provocou - pode também aparecer sem hora marcada, nem dia, nem sequer motivo ou circunstância - e, recusá-la, será sempre um erro. Tal como chorar parece ser para fracos, a verdade é que, quem se permite fazê-lo, nem que seja só porque está triste ou porque se emocionou com um filme ou qualquer outra situação, é psicologicamente mais forte...

Mas hoje é também o dia do abraço, e ele é saudável, necessário, fraterno, amigo, terapêutico e motivador! O abraço, como o sorriso ou o beijo, será sempre catártico e retemperador para quem dá e para quem recebe, e não é por acaso que existe também terapia pelo abraço! E porque precisamos de ir além dos preconceitos sociais, e de tantas vezes sentir mais e falar ou teorizar menos, aqui fica um abraço, longo e apertado, sentido e grande, a todos os que me acompanham por aqui...