9.2.17

QUANDO ME DEIXARES ENTRAR EM TUA CASA...

 
Quando me deixares entrar em tua casa com o pó por sacudir, saberei que não é na geometria das coisas que vives, mas na diária tentativa de ergueres na alma o aprumo que te falta. E se o sorriso te esconder a vergonha, não confundirei com negligência a prisão do ser, que hipotecado em cíclicos desencantos e abúlica energia, aguarda que a chama se acenda num frágil pavio, sustendo os serviços mínimos do ânimo até que os grilhões te libertem, dando à vida novo rumo e nova cor, vestindo de alegria o cheiro a mofo de uma vida anémica.

Mas se me convidares para tua casa reluzente e bela com jardins e mesa para os convidados...! Se me chamares a participar da perfeição das coisas num festim de luxo que te exulta a felicidade...! Se me mostrares que não há pó em tua casa e lavas a cara com o perfume que te invejam...! Se principescamente te vestires e tudo for majestático como os livros encadernados a ouro na estante da vida...! Se os móveis adornados em talha de pérola de títulos académicos, e as tapeçarias e sofás ampliarem o espaço exíguo da alma que não mostras... então vou desconfiar que estejas bem, e invento uma desculpa qualquer, porque até que outras nuvens passem sobre o teu céu, é nas cores esmaecidas que jazes vivente, qual divisão da casa fechada a todos, com a desculpa de não habitar lá ninguém.

Porque o erro da felicidade é confundi-la com a perfeição, mas eu só vejo perfeição naqueles que embora com brio e desvelo, têm sobretudo muito amor, e nem por isso se envergonham de uma casa desarrumada com livros pelos cantos e postais a forrar lembranças, tirando do frigorífico um iogurte quase fora de prazo ou o caviar da conversa humana, tão distinta daquela onde se fala tanto e não se diz nada, apenas aumentando os handicaps pela maledicência da vida, sucessos profissionais, veladas invejas e sorrisos petrificados no blush social.

Mas o festim simples e libertador da alma não é este, e pode durar uma noite inteira. Não teve convivas nem flutes, nem roupas de ocasião. Se calhar tinhas até o cabelo por lavar ou uma nódoa antiga, como os livros amarelados de serem lidos e mexidos, ou os objectos puídos pelo uso emocional que só tu vês! Mas é quando os outros regressam com portos de honra, para desembrulharem durante a semana, toda a frustração e infelicidade, que metidos em fatos Armani ou vestidos Prada, não puderam desencarcerar numa festa que devia ser encontro.

Convida-me só quando tiveres pó em tua casa, e saberei que o quarto fechado onde mais ninguém entra, para iludires nas restantes divisões da alma a felicidade que não tens, é exactamente aquele onde verdadeiramente és e te libertas, e onde me deste a honra de entrar até à festa onde a alegria é já sentida e a harmonia das coisas são mimos que ofertas, e não já como o príncipe que recebe duzentos convivas no castelo sabendo que na verdade não teve lá ninguém...

25.1.17

DO (DES)INTERESSE

Um amigo escreve assim: "já não espero coisas boas ou más,(...)e se calhar já não acredito assim sem mais nem menos nas pessoas(...)muita vezes parece que entro numa porta e me deparo com um beco sem saida (...).A questão é se aquilo que fazes tem impacto na vida das outras pessoas, aquilo que eu tenho visto foi pouco ou nenhum, ja nao estou para ensinar ninguém ou ate partilhar o que eu sei, e muito menos mudar as pessoas, cansei-me de fazer isso, deixei de me importar...".
 
Tantas vezes nos sentimos assim, desorientados e impotentes, e claro que em todos estes "já não me importo" está uma vontade contrária, apenas ofuscada pela falta de feedback! Precisamos de nos perdermos para nos encontrarmos, e mesmo que não nos encontremos o que importa é o caminho que fazemos!
Dos outros esperamos sempre mais porque também damos muito de nós, mas precisamos de saber que não está no nosso poder mudar o outro, que é em si um mundo de que apenas vemos uma parte, e que temos de viver com isso; resta-nos não desistir de sermos nós, ainda que não aprendam ou agradeçam!
 
Tal como não podemos controlar o que o outro sente e como se manifesta (deixando-nos tantas vezes revoltados com as suas atitudes tirando-nos a paz), também não podemos pretender que aprenda e mude como gostaríamos, o que não significa que tenhamos de elogiar o seu estilo, mas é em nós que está a diferença, não no outro, em aceitarmos com a paz possível num exercício que não é fácil mas que é o único possível, que as atitudes não dependem de nós, mas sim o que sentimos...

10.1.17

ACENOS?





É nos gestos efectivos que o amor (se) transforma.

Caso contrário, seremos meros reagentes a acenos de amizade!

1.1.17

PAISAGENS NA VIDA

 
 
Começa lentamente a viagem, e muitas paisagens se vão repetir em glória e em sangue. O ritmo aumentará e a distância também, até que nada reste do que ficou para trás, excepto a bagagem a nossos pés.
 
Os carris serão intermináveis e nunca se verá o revisor, cabendo avaliar a familiaridade dos sítios por onde passamos e saber se saímos.
 
O destino será sempre o momento da decisão que a qualquer instante se pode ter. O comboio pára várias vezes mas não o suficiente para prospectivar o local, mas o rumo pode sempre ser retomado.
 
E em terras áridas ou fecundas, nalgum lado se abrirão as portas para um novo caminhar...

29.12.16

DA SIMPLICIDADE E ALEGRIA DO COMUM


Dos fracos não reza a História, diz-se, mas talvez que a nossa concepção de fraqueza seja, afinal, a simetria da glória.
 
A azáfama diária pode dar a entender um ser perfeito, confiante e enérgico, mas a realidade convive sempre com os “apanhados”. Esse lado natural e espontâneo que dispensa o toque da roupa ou a imagem fabricada, a tecnologia de ponta ou a intelectualidade quotizada.
 
Compreendemos as defesas por imperativos pessoais, mas também não devemos esconder a fragili...dade que nos torna verdadeiramente humanos. Para mim não contam tanto os dias festivos, mas antes os anónimos dias da semana. São tão mais importantes, porque são eles que forjam o resultado continuado. As festas, encontros e afins têm o seu lado lúdico e mais do que isso, mas esgotam-se aí. Como diz a canção "Who's gonna drive you home?"
 
A noite prepara o dia mas não recebe os agradecimentos. Da simplicidade nasce a alegria dos pequenos nadas. As coisas grandes são para todos; as pequenas são, de uma forma ou de outra, para os que me são mais queridos.