14.9.20

INTERSEÇÃO




por ti meus caminhos e cansaços

por ti minhas lutas e fracassos

por ti minhas mãos mirradas
no fogo desaustinado de alcançar
em tempo o teu olhar.

por ti as hordes sem destino
de uma razão doente e consumida.

por ti os novos alfabetos
de uma carta escrita em querer.

por ti a alma rasgada em
ventos ciclónicos de um
deserto de esperança.

Há um grito em mudo som
até se ouvir longe o trovão da glória,
que fará no céu do olhar
a entrega agradecida
de quem não desesperou.

por ti
o suspiro último
do caminho que, afinal,
também era teu...

7.9.20

NÃO CONTES A NINGUÉM QUE ME VISTE...

 


Não contes a ninguém que me viste. Que despiste a armadura e conheceste a minha alma.

Não contes das ondas silenciosas que murmuravam o meu nome para eu não me envergonhar, e das gaivotas mansas que fingiam não perceber quem passava. Não contes que foi o vento a desintegrar as palavras que disseste, e que apenas eu ouvi na confissão que também eu faço.

Quando no fim do dia o sol se põe grandioso e ainda antes já a lua se manifesta transparente, não contes que neste crepúsculo os meus cansaços estavam guardados, e com eles construíste um novo olhar...

2.9.20

RECOMEÇO




As férias acabam. O ramerrão começa. Todos voltam aos lugares. Despiram-se anseios, descansou-se a alma, mitigou-se a diária chatice. Mas muitos ficaram, agarrando-se aos muros de cartolina que projecta a ilusão de um castelo bem guardado onde habitam seres de papel, inermes e leves, que não precisaram de se perfilar como os que agora regressam porque já lá estavam, escudados em doze meses pintados a carvão, por vezes rasgados e reconstruídos com a fita cola da vida, e ninguém nota, ninguém vê! Vão continuar perfilados, viajantes cansados de uma bola de cristal, esperando pacientemente a sua vez, a sua glória, a sua luz! Ainda que partam, algures ficou gravada a natureza do sangue que luta e espera. E dessa prova de vida, começará a nobreza de um espírito imortal...

24.8.20

VIÉS COGNITIVO

(Excepcionalmente, pelo motivo indicado no texto, hoje não coloco foto minha mas uma imagem).

Dizia Freud que "podíamos ser muito melhores se não quiséssemos ser tão bons".

De facto, o nosso crescimento é mais interdependente do que supomos. A ideia da independência e autonomia, é apenas uma projecção no espelho relacional, já que, para sermos livres, precisamos de não sermos prisioneiros do ego.


Aquele que se julga um selfmademan, não vive nem progride, nem se realiza como pessoa, se apenas olhar para o seu umbigo, até porque mesmo para o mero hedonismo de uma vida com tudo ao seu dispor, necessitaria sempre do(s) outro(s), e de alguém que o conheça em toda a sua interioridade, e o respeite e aceite por isso, (sob pena de não ter uma verdade existencial) e, nessa liberdade, seja ele mesmo, porque alguém lhe legitima a existência...

Sem uma constante autocrítica e análise, facilmente caímos em verdades que não existem, excepto na nossa cabeça, o que nos limita, não apenas na percepção da realidade, mas sobretudo quanto ao mundo do outro. Se acho é porque é, é uma falácia que requer diariamente uma desconstrução do eu! O ego é sempre cego e facilmente comete injustiças.

Precisamos de fazer luz sobre nós mesmos, e uma forma de o fazer é a desconstrução diária do eu, do que acho que é mas que, afinal, pode não ser. Esta imagem mostra dois blocos: um cinzento e outro branco. Mas só se não usarmos a auto reflexão, se prescindirmos do trabalho da auto consciência dos nossos actos, atitudes, do que achamos dos outros e das situações. A luz tem um papel muito importante. Se colocarmos o dedo entre os dois blocos, a tapar a linha do meio, e veremos que, afinal, um não é branco e outro cinzento. São ambos cinzentos... E é por isso que temos de estar sempre muito auto vigilantes, sob pena da auto ilusão, de lermos mal o mundo e os outros, quando, afinal, o erro podemos ser nós...

20.8.20

DOS NÓS DA ALMA

 


Só desapertando os nós da alma, insuflamos esse oxigénio de higiene mental que permite ver a vida em perspectiva, evitando as energias sem qualidade com que nos gastamos a sobrecentar os problemas!

Só arejando a alma e limpando a mente de emoções tóxicas e sufocantes, desbravaremos caminho para a libertação interior, que não se faz iludindo o que nos rasga a pele, ou negando o túnel sem luz onde tantas vezes nos encontramos, antes elevando-nos acima do próprio problema, concedendo-lhe apenas o espaço que tem, sem o aumentar nem diminuir, mas não lhe permitindo tornar-nos reféns dele!

A vida é dinâmica e o problema pode persistir, mas é a maneira como o encaramos que conta e não tanto a adversidade em si! Quando chove, enquanto uns se molham, outros apreciam a chuva; o que mudou não foi a chuva, mas a atitude face a ela.

E é por isso que é possível haver pessoas felizes no meio dos problemas, sem os negar nem os agigantar ou alimentar! Porque a paz é aquela que se vive no meio da luta, sem energias mal gastas ou pensamentos desgastantes e inúteis com que nos consumimos na voragem de querermos abolir tudo o que de mal nos apareça, mas não definha nem morre quem sente a alma devastada: definha e morre quem fica preso na dor, com lamento ou raiva, sem oxigenar esse jardim que é ele mesmo, capaz de sofrer e seguir em frente, porque assume a natureza humana e os seus contratempos pessoais como parte integrante da caminhada que não pode nem deve ofuscar a capacidade de nos darmos e de rirmos e brincarmos, não porque se nega, mas precisamente porque vale mais do que uma tempestade que só aparentemente parece querer ficar para sempre... 

E nesse caminhar mais lento, apressar o passo sorrindo e indo, porque a vida passa depressa e nós perdemos muito tempo a dar ouvidos à dor, essa que traz mais solidão e desencanto, cuja cadeia nos cabe quebrar além do que já é! 

Aceitar com serenidade o que não podemos mudar, mesmo que seja só por enquanto, mudarmos o que pudermos, colocar as coisas em perspectiva, e dar tempo à dinâmica própria existencial, estarmos além dos problemas, comungando com optimismo e esperança, brincando e relevando, num resgate psicológico imediato que só depende de nós.

Há tanto para amar e descobrir, tanto para sorrir e partilhar, mesmo nas noites mais escuras, e o tempo é sempre o Agora, mesmo que coxos em feridas que julgamos sempre que nos matam, mas que necessariamente vão passar... 

Há que saber viver a vida na nossa comum condição da fragilidade humana, sem negar o sofrimento ou a tristeza que tenhamos, como quem cuida da sua própria dor para melhor a suportar, mas também não negar à vida a sua força brutal e redentora, pulsante e pujante da criatividade e glória que tantas vezes lhe recusamos...

16.8.20

DAR E SER ALMA




Preparamos o ego para tudo e ignoramos o essencial: a alma! A perda da alma é o mal das sociedades e das pessoas, que julgam que a realização e bem estar pessoal residem no êxito, que é tantas vezes apenas o outro lado do fracasso. E isso acontece precisamente porque falta a alma, a natureza da partilha, das outras latitudes do eu, que estão bloqueadas em considerandos de suposta realização pessoal quando, por vezes, aquilo que existe são apenas intelectos estilizados e vazios na ilusão da plenitude, que, para se conseguir, está tão longe da ilusão do poder pessoal. 


Precisamos de alma! Só quando a alma está presente, a natureza vive, e sem darmos alma aos gestos, vivemos cinzentos como um sol tapado pelas nuvens da soberba fazendo definhar o melhor que há em nós, porque só aceitando a condição humana da força e da fragilidade, poderemos interiorizar que o super homem é uma fantasia do ego, cabendo-nos a humildade do abraço e do sorriso! Precisamos de dar alma às coisas, às situações e às pessoas. Precisamos de dar e ser alma. Colocar alma nos gestos, com tudo o que implica de dor e de glória, mas sem isso somos apenas cérebros erráticos metidos em corpos. É que, sem alma, o mar não passa de um monte de água...

30.7.20

DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE

Hoje é o Dia Internacional da Amizade! Como escrevia Saint-Exupéry:
"eu não preciso de ti
e tu não precisas de mim,
mas se tu me cativas,
nós precisaremos um do outro!"

30 de Julho é o dia oficialmente instituído pela ONU, embora no Brasil seja comemorado no dia 20 e o próprio Facebook tenha instituído o dia 04 de Fevereiro por ser o dia da sua criação, mas é hoje a data oficial. E a Amizade é todo um tratado.
Gosto de quem sofre. Porque está a sofrer. De quem abre o coração e lhe entra uma flecha. Porque a confiança foi traída. De quem acredita e é destituído. Porque entrou no desencanto. De quem investe e sai perdido, porque precisa de voltar a acreditar. Porque é aqui que ainda devem entrar mais os Amigos!
Gosto de amigos simples e sensíveis. Gosto dos amigos reais e dos virtuais, dos amigos que nos amam.
Dos que cometem loucuras e riem connosco!
Dos que o são de verdade e não por conveniência. Dos que dão tudo e não olham às hipocrisias do socialmente correcto.

Dos que com lágrimas vencem a dureza da rocha, e dão um murro à lamentação sem desrespeitar a mágoa que precisa de ser curada.
Dos que efusivamente abraçam, mesmo que os outros achem um desrespeito. O que interessa é que o abraço seja sentido, com os dois braços, e não uma cortesia momentânea.
Dos que estão presentes antes de chamar. Dos que mostram a sua dor porque também me ajudam a mostrar a minha.
Porque os amigos, os amigos de verdade, mesmo os que não precisam do tempo para se ter intimidade e empatia, seguram connosco a chave mestra da vida: sermos em plenitude, na sensibilidade, na alegria e no encanto, no sofrimento e na dor.
E é por isso que é tão importante esse amor universal da amizade... E de as criar, construir, alimentar e fazer, porque também há amigos que fazemos hoje, como se os tivéssemos tido desde sempre; basta que destapemos o crédito social, a vergonha ou as defesas exageradas, na atenção e no encontro que tantas vezes abortamos à nascença mas com vontade de os ter.
Gosto que me digam "estou aqui" porque posso ter receio de dizer "fica comigo"!
Mas é Vinícius de Morais quem diz tão bem este meu sentir: "Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objetivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grande chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive".
Gosto muito desta citação do Vinicius porque expressa tão bem a Amizade, e porque a Amizade é o gesto presente nos dias comuns e anónimos, de presença na ausência, de sorriso e partilha, de silêncio e palavras! O quotidiano carece tão mais de gestos amigos do que longos momentos em que todos brindam para depois todos voltarem a ficar sós. É aí, no dia a dia, que se revela em toda a sua verdade, porque é nos gestos efectivos que o amor (se) transforma. Caso contrário, seremos meros reagentes a acenos de amizade...
O meu abraço com os dois braços

27.7.20

PASSOS DA ALMA

É preciso abrandar a caminhada. Ouvir as nossas emoções e estar atento à dos outros. E se nada nos disserem, dizermos nós que estamos ali, e que esperamos também que o outro esteja para nós.
Por vezes, falar no silêncio é suficiente, porque o outro percebe a identificação ou o abraço interior. Outras vezes, é preciso insistir uma e outra vez, porque intuimos que algo não vai bem, perceber se se passa alguma coisa, se está triste, o que lhe vai na alma... E se não houver resposta sabendo que há dor, abraçar mesmo sem nada dizer, mas não usar o silêncio como desculpa para não querer falar, porque a ausência do verbo pode ser apenas o constrangimento de o transmitir, a vergonha de o assumir, mas a dor está lá.
Se dermos um abraço apertado, o outro pode falar por lágrimas. Se falarmos nós por lágrimas, o outro dar-nos-á um abraço apertado. Porque toda a dor magoa, e consciencializar o problema é só meia solução, porque é na noite que as estrelas se mostram como são, e cada um de nós pode ser essa noite que ilumina, o bálsamo que muitos sóis apenas disfarçam.
Em tudo isto, precisamos de abrandar a caminhada, aquietar a dor, enxugar as lágrimas, mesmo sem ninguém, mas a alma só se cura com amor, o nosso e o que tivermos a sorte de receber. Caso contrário, seremos erráticos condutores julgando encontrar no diagnóstico, a solução do problema.
Uma música suave e doce tem a mesma energia de uma música vibrante que faz pulsar a alma convidando ao festim da vida. E ambas são necessárias para um caminho mais feliz.
O que é importante, é que ir depressa a lado algum, é o mesmo que estarmos perdidos, e sem o Outro, sem a esfera relacional mesmo com um estranho, sem abrandarmos o ritmo para sentir as nossas emoções, a nossa força estará diminuída para defrontar a sólida rocha com a provocação da nossa própria vulnerabilidade.
Só assim se faz caminho. Porque vive mais autenticamente quem mais ama, e não quem mais triunfa...

26.6.20

NÃO HÁ SUPER HOMENS

Escreve a Agustina Bessa Luís na biografia de Santo António, um livro riquíssimo na sensibilidade da escrita, que "há homens que recebem o dom do amor porque há neles a coragem da sua humanidade". Este é o problema de muita gente, por vezes mais dos homens, ou seja, o de assumir e viver as suas próprias emoções, ao invés de as negar, reprimir ou sublimar.


A ideia do super homem é uma ideia infantil, mas é nesse padrão que nos movimentamos, escondendo a emoção e primaziando os quartos interiores vazios e desesperados, com papel de parede brilhante e colorido onde seguramente só alguém muito feliz pode ali viver...


Resgatar o que verdadeiramente somos, é um processo diário de construção, habituados que estamos às defesas e à ilusão da invencibilidade. Chorar, pedir ajuda, querer colo ou manifestar impotência face a tanto, não é fraqueza: é, pelo contrário, inteligente, não apenas porque abrimos comportas de oxigénio em pulmões sobrecarregados de tristeza, ansiedade e sofrimento, mas porque também permitimos que outros saibam que, afinal, não estão sozinhos nessa aparente fraqueza, e que, pedagogicamente, pela palavra e pelo exemplo, pelo sorriso e pelo olhar, pela lágrima e noção da finitude, podemos ser nós...

20.6.20

CARRASCO E VÍTIMA


Vivemos no limite. Estamos na geração Internet, self made e dantescamente só. 

Confunde-se informação com conhecimento e opinião com certezas absolutas! Vive-se o libertismo de uma vida onde cada um se esgota em si mesmo. E depois admiramo-nos que haja grosseria e vulgaridade! 

Falta a noção do erro e da finitude, o abraço amigo e não o dente afiado, o acolhimento das lágrimas e não a ostracização do fracasso, a entreajuda e não a competição feroz! 

Sem compreender que não é um fim em si mesmo, o Homem continua ignorantemente só, fazendo dos troféus aquilo que cabe ao Amor! 

E, assim vai, carrasco e vítima de um coração que não sabe ter...

13.6.20

DOS SANTOS POPULARES

Instintivamente somos impelidos ao Outro, somos impelidos à comunhão, está inscrito na nossa consituição como seres humanos que só somos com o Outro! Somos seres relacionais. É natural que o santo António receba tantos pedidos! De Amor e de Amizade!
Com ou sem covid, as Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de carnaval after hours, mas são diferentes. Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado, é o lado alegre que o português não tem. Mas é também a Partilha.
"O meu bairro é liiiiiindo" não cheira a competição mas a partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas, convocando do fundo de nós a saudável abertura de um abraço a um desconhecido, como um único coração na praça grande que são as ruas e a vida.
É assim que a humanidade se humaniza. Na partilha!
Mas voltemos ao início: a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade, é sempre maior do que supomos; a vida é dinâmica, uns casam, outros namoram, outros suspiram, outros acham que têm muitos amigos, outros simplesmente não têm nenhuns, outros gostam de estar sós, mas não é desse silêncio salutar que falo, mas da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos que serão sempre insuficientes para uma maior doação e realização como pessoas.
Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, reconhecer e intuir as dores escondidas, perceber que nem todas as alegrias são alegres mas que também nem todo o sofrimento é dramático, e com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, há sempre alguém que está só...

7.6.20

(DES)CONSTRUÇÃO

A desconstrução do eu requer muitos recursos, pelos quais devemos diariamente lutar. Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder! O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!

Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erradas da realidade, é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.

A resiliência é outro recurso indispensável, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção pessoal na sua fragilidade e no seu vigor. Sem a noção de que a asuência de uma atitude constante de autocrítica nos tornará balofos a massajar o ego, a mudança não se faz e o crescimento fica comprometido. Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos.

Precisamos de trabalhar diferentes recursos, para nos realizarmos na plenitude de seres humanos, que se devem a si e ao mundo, muito mais do que geralmente damos e somos.

1.6.20

DIA DA CRIANÇA

Ser alegre, não é estar necessariamente feliz, mas carregar com um sorriso libertador, aquilo que a vida não faz por nós.


Celebra-se hoje o dia da criança! Ora, da infância, nunca perdi a inocência (que não se deve confundir com ingenuidade) e, se me perguntarem quão adulto sou, responderei, como Guerra Junqueiro, que "crescer é tornar-se adulto sem se adulterar!"

Requer simplicidade, liberdade interior e não respeitos sociais, porque valemos pelo que somos e não pelos títulos académicos que possamos ostentar. E se crescer é "tornar-se adulto sem se adulterar", então quantos anões não há por aí...

Bom dia da Criança... Sobretudo também para os adultos que nunca a mataram em si, porque vão sempre a tempo de não se adulterar... 

22.5.20

DIA DO ABRAÇO

No dia do abraço que hoje se comemora, o que me preocupa com a novidade que vivemos e nos manterá em sobressalto algum tempo, é, que, se as pessoas já se tocavam pouco, já se abraçavam pouco, já se beijavam pouco - quando, por natureza, o Homem é um ser relacional, negando-se muitos às mais elementares manifestações de carinho e afecto em nome de uma veleidade pessoal de que não precisam de ninguém, constituindo uma mentira existencial para eles mesmos -, é que, com este novo "way of living", até ver, essas manifestações tão importantes, legitimem e justifiquem ainda mais uma sociedade já por natureza egocêntrica, fechada em si mesma.

Quando agora num velório do marido de uma vizinha que me viu crescer, e que, por isso, quer eu quer os meus irmãos somos para a senhora "os meus meninos", tudo tinha máscara e a devida distância, cuidando o filho e neto para que tudo se mantivesse asséptico, aproximei-me de máscara posta, mas aninhei-me junto a essa vizinha e abracei-a, assim ficando algum tempo porque entendi que, naquela situação, o silêncio com abraço faria mais sentido. De vez em quando fazia umas festas no cabelo ou no ombro, e o abraço manteve-se o verdadeiro discurso até a senhora colocar a sua cabeça no meu ombro por instantes. Era um risco calculado. E como já se passava algum tempo, eu mesmo olhei para o filho, que se mantinha sereno ao lado, e disse-lhe: "isto não podem ser só máscaras. A higiene mental também é importante".

Um abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas muitos persistem na ostentação obtusa do "self made man" levando ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor interrompido!

Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça, é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que, de outra forma, ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana. Cabe, a cada um de nós, saber pedi-los e intuí-los.

Até lá, o abraço e o toque de alma, não necessariamente como quem agarra um corpo, mas com quem também abraça por dentro, convoca emoções escondidas e obrigam a uma reflexão pessoal de descoberta. Porque é sempre na relação com o Outro que sabemos mais de nós, quer no processo individual de autoconhecimento, quer nos padrões mentais e comportamentais que nos levam à integração colectiva.

A auto análise e a redescoberta de nós mesmos nas potencialidades e limitações, estará sempre incompleta, se não se fizer também no processo relacional, mesmo naquele que possa incomodar, porque é nesse incómodo que o Outro nos provoca sem saber, que somos interpelados a descobrir e interpretar o seu significado, tal como é na sensação de bem estar e identificação interior, que damos pulos e avanços na assumpção de que, afinal, há tantos como nós, em caos e dor, mas também na capacidade directa ou tácita de que juntos somos mais fortes e nos amparamos sem o dizer, em sensações profundas de uma humanidade que se constrói e partilha e aceita assim, devedora da afectividade e da entrega, e credora de tanta beleza no deserto da alma que julgávamos ser o fim...

Viver reside essencialmente na tomada de consciência de que ninguém se faz sem o Outro, sem pilares básicos de interioridade e afectividade, na transcendência que também nos traz. E é neste estado que abraçamos o outro, numa dádiva suave de quem, ao tocar no outro com o corpo, ou por videochamada, mensagem escrita ou apenas voz, também o abraçou com a alma, porque é de dádiva, partilha e comunhão que se trata. E isso, faz toda a diferença. Como dizia Sto. Agostinho: "Ama... e faz o que quiseres"!

Precisamos de ir além de nós...
Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! 
É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes.

17.5.20

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA

O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU, declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia. 

Ora, é muito claro, que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas no género do objecto do desejo. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta. Os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz. Um absurdo total. O amor não tem sexo.

Somos fruto de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem não segue a suposta hetero normatividade. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Somos ignorantes da própria condição humana, e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal, escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua identidade e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que o fazem, precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de desprezo e
marginalização, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar o que são...

E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime!

Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior rejeitar as diferenças do e no outro; antes, devemos aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que, sendo de raça diferente, deviam ser toleradas na comunidade.

O senso comum é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.

INAUGURAÇÃO DO CRISTO REI



No dia de hoje, em 1959, 

era inaugurado 

o monumento ao Cristo Rei.

13.5.20

FÁTIMA: ESPIRITUALIDADE E RAZÃO



Muito embora para a igreja, Fátima não seja um dogma de fé, ela é toda uma exegese de amor, é a razão a ser desafiada nos seus limites porque se revolta em não compreender o Mistério. 

Na espiritualidade, razão e fé não se invalidam, já que, ao contrário das fadas e duendes, a ideia de Deus continua a ser racional. 

Mas não se vive a espiritualidade nem se chega a Deus ou ao Mistério, através do esforço intelectual que possamos fazer. É uma adesão interior, um caminho pessoal e único onde não entra o campo volitivo, tal como não escolhemos quem amamos numa lógica de decisão meramente racional. 

A religião é apenas a vivência comunitária dessa adesão interior, onde as manifestações de fé acontecem como quem, gostando de ouvir música, não deixa, por isso, de ir a um festival ou um concerto, ou simplesmente socializa com amigos num café, porque a dimensão comunitária existe, independentemente da celebração individual dessa adesão interior de fé. 

Fátima, tal como o Amor, estão para além da razão, mas temos dificuldade em não sermos nós a decidir...

12.5.20

DIA INTERNACIONAL DOS ENFERMEIROS


Os enfermeiros, cujo dia internacional hoje se comemora, e a quem parabenizo, - a par dos professores da primária -, são as profissões que mais valorizo. Nos primeiros, porque a sua função é a de cuidador e, isso, implica, só por si, uma valência fortíssima, a par com o conhecimento técnico mas que aqui, "desvalorizo", precisamente porque cuidar de um doente, é muito mais do que a administração medicamentosa ou diagnósticos laterais na enfermidade! É estar presente, dar a mão, ser um analgésico com um sorriso e um abraço, ser ouvinte e conselheiro, ser apoio... Uma profissão que considero mais nobre do que a do médico, porque, por natureza, o médico diagnostica e prescreve; não cuida... no caso dos professores da primária, porque são eles os segundos pais num processo de estímulo de conhecimento e fundadores de novas descobertas, para um caminho que será tão mais complexo, semeando as bases de toda uma formação... É sempre o rasto que deixamos que nos dignifica e valoriza o Outro...

6.5.20

FREUD





Nascido a 6 de Maio de 1856, Freud faria hoje anos. "A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia ele. Na realidade, muitos dos nossos problemas são fruto de solidão, de aguentar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor, de nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras. Mas nada disso é inteligente! 

A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não é a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autosuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta. 

Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que se permite sentir, que rega as emoções e se abre ao amor, essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro admitindo também a falha em nós! 

Ser humano não é ser perfeito, e endeusar a razão é alimentar a solidão! Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor; não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso, quando se esgotaram as hipóteses de concedermos a nós mesmos a capacidade de ser,, de sentir, e de amar...