26.6.20

NÃO HÁ SUPER HOMENS

Escreve a Agustina Bessa Luís na biografia de Santo António, um livro riquíssimo na sensibilidade da escrita, que "há homens que recebem o dom do amor porque há neles a coragem da sua humanidade". Este é o problema de muita gente, por vezes mais dos homens, ou seja, o de assumir e viver as suas próprias emoções, ao invés de as negar, reprimir ou sublimar.


A ideia do super homem é uma ideia infantil, mas é nesse padrão que nos movimentamos, escondendo a emoção e primaziando os quartos interiores vazios e desesperados, com papel de parede brilhante e colorido onde seguramente só alguém muito feliz pode ali viver...


Resgatar o que verdadeiramente somos, é um processo diário de construção, habituados que estamos às defesas e à ilusão da invencibilidade. Chorar, pedir ajuda, querer colo ou manifestar impotência face a tanto, não é fraqueza: é, pelo contrário, inteligente, não apenas porque abrimos comportas de oxigénio em pulmões sobrecarregados de tristeza, ansiedade e sofrimento, mas porque também permitimos que outros saibam que, afinal, não estão sozinhos nessa aparente fraqueza, e que, pedagogicamente, pela palavra e pelo exemplo, pelo sorriso e pelo olhar, pela lágrima e noção da finitude, podemos ser nós...

20.6.20

CARRASCO E VÍTIMA


Vivemos no limite. Estamos na geração Internet, self made e dantescamente só. 

Confunde-se informação com conhecimento e opinião com certezas absolutas! Vive-se o libertismo de uma vida onde cada um se esgota em si mesmo. E depois admiramo-nos que haja grosseria e vulgaridade! 

Falta a noção do erro e da finitude, o abraço amigo e não o dente afiado, o acolhimento das lágrimas e não a ostracização do fracasso, a entreajuda e não a competição feroz! 

Sem compreender que não é um fim em si mesmo, o Homem continua ignorantemente só, fazendo dos troféus aquilo que cabe ao Amor! 

E, assim vai, carrasco e vítima de um coração que não sabe ter...

13.6.20

DOS SANTOS POPULARES

Instintivamente somos impelidos ao Outro, somos impelidos à comunhão, está inscrito na nossa consituição como seres humanos que só somos com o Outro! Somos seres relacionais. É natural que o santo António receba tantos pedidos! De Amor e de Amizade!
Com ou sem covid, as Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. Podem ser, aqui e ali, um misto de canções populares com uma espécie de música de carnaval after hours, mas são diferentes. Também não é fado, que é do povo. É o outro lado do fado, é o lado alegre que o português não tem. Mas é também a Partilha.
"O meu bairro é liiiiiindo" não cheira a competição mas a partilha. As pessoas saem de casa e sentem colectivamente momentos assim, porque a noção de pertença e de partilha estão intimamente ligadas, convocando do fundo de nós a saudável abertura de um abraço a um desconhecido, como um único coração na praça grande que são as ruas e a vida.
É assim que a humanidade se humaniza. Na partilha!
Mas voltemos ao início: a quantidade de pedidos secretos de amor e amizade, é sempre maior do que supomos; a vida é dinâmica, uns casam, outros namoram, outros suspiram, outros acham que têm muitos amigos, outros simplesmente não têm nenhuns, outros gostam de estar sós, mas não é desse silêncio salutar que falo, mas da solidão de quem não tem companhia, excepto a intervalos avulsos que serão sempre insuficientes para uma maior doação e realização como pessoas.
Resta-nos oferecer gratuitamente o nosso sorriso a quem passa, reconhecer e intuir as dores escondidas, perceber que nem todas as alegrias são alegres mas que também nem todo o sofrimento é dramático, e com manjericos ou martelinhos, com cartas ou sardinhas assadas, com selfies ou pinotes, há sempre alguém que está só...

7.6.20

(DES)CONSTRUÇÃO

A desconstrução do eu requer muitos recursos, pelos quais devemos diariamente lutar. Humildade para nos reconhecermos mais falíveis e finitos do que nos pensamos, o que é nova machadada no ego sempre sequioso de mais brilho e poder! O ego é um centro de comando que necessita continuamente de vigilância, sob pena de autismo de valores e capacidades! Um pouco mais abaixo, e surgem complexos de inferioridade; um pouco mais acima, e já nos julgamos omnipotentes!

Outro recurso necessário à desconstrução do eu, sempre maquilhado com preconceitos, valorações distorcidas e percepções erradas da realidade, é a coragem para enfrentar a mudança, os medos e até as críticas de uma nova visão por parte de quem ainda não conseguiu esse trabalho.

A resiliência é outro recurso indispensável, dado que são vários os escolhos no caminho, lento o resultado, e obriga a caminhos mais solitários até à plenitude da assunção pessoal na sua fragilidade e no seu vigor. Sem a noção de que a asuência de uma atitude constante de autocrítica nos tornará balofos a massajar o ego, a mudança não se faz e o crescimento fica comprometido. Importa sermos grandes naquilo que verdadeiramente somos.

Precisamos de trabalhar diferentes recursos, para nos realizarmos na plenitude de seres humanos, que se devem a si e ao mundo, muito mais do que geralmente damos e somos.

1.6.20

DIA DA CRIANÇA

Ser alegre, não é estar necessariamente feliz, mas carregar com um sorriso libertador, aquilo que a vida não faz por nós.


Celebra-se hoje o dia da criança! Ora, da infância, nunca perdi a inocência (que não se deve confundir com ingenuidade) e, se me perguntarem quão adulto sou, responderei, como Guerra Junqueiro, que "crescer é tornar-se adulto sem se adulterar!"

Requer simplicidade, liberdade interior e não respeitos sociais, porque valemos pelo que somos e não pelos títulos académicos que possamos ostentar. E se crescer é "tornar-se adulto sem se adulterar", então quantos anões não há por aí...

Bom dia da Criança... Sobretudo também para os adultos que nunca a mataram em si, porque vão sempre a tempo de não se adulterar... 

22.5.20

DIA DO ABRAÇO

No dia do abraço que hoje se comemora, o que me preocupa com a novidade que vivemos e nos manterá em sobressalto algum tempo, é, que, se as pessoas já se tocavam pouco, já se abraçavam pouco, já se beijavam pouco - quando, por natureza, o Homem é um ser relacional, negando-se muitos às mais elementares manifestações de carinho e afecto em nome de uma veleidade pessoal de que não precisam de ninguém, constituindo uma mentira existencial para eles mesmos -, é que, com este novo "way of living", até ver, essas manifestações tão importantes, legitimem e justifiquem ainda mais uma sociedade já por natureza egocêntrica, fechada em si mesma.

Quando agora num velório do marido de uma vizinha que me viu crescer, e que, por isso, quer eu quer os meus irmãos somos para a senhora "os meus meninos", tudo tinha máscara e a devida distância, cuidando o filho e neto para que tudo se mantivesse asséptico, aproximei-me de máscara posta, mas aninhei-me junto a essa vizinha e abracei-a, assim ficando algum tempo porque entendi que, naquela situação, o silêncio com abraço faria mais sentido. De vez em quando fazia umas festas no cabelo ou no ombro, e o abraço manteve-se o verdadeiro discurso até a senhora colocar a sua cabeça no meu ombro por instantes. Era um risco calculado. E como já se passava algum tempo, eu mesmo olhei para o filho, que se mantinha sereno ao lado, e disse-lhe: "isto não podem ser só máscaras. A higiene mental também é importante".

Um abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas muitos persistem na ostentação obtusa do "self made man" levando ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor interrompido!

Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça, é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que, de outra forma, ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana. Cabe, a cada um de nós, saber pedi-los e intuí-los.

Até lá, o abraço e o toque de alma, não necessariamente como quem agarra um corpo, mas com quem também abraça por dentro, convoca emoções escondidas e obrigam a uma reflexão pessoal de descoberta. Porque é sempre na relação com o Outro que sabemos mais de nós, quer no processo individual de autoconhecimento, quer nos padrões mentais e comportamentais que nos levam à integração colectiva.

A auto análise e a redescoberta de nós mesmos nas potencialidades e limitações, estará sempre incompleta, se não se fizer também no processo relacional, mesmo naquele que possa incomodar, porque é nesse incómodo que o Outro nos provoca sem saber, que somos interpelados a descobrir e interpretar o seu significado, tal como é na sensação de bem estar e identificação interior, que damos pulos e avanços na assumpção de que, afinal, há tantos como nós, em caos e dor, mas também na capacidade directa ou tácita de que juntos somos mais fortes e nos amparamos sem o dizer, em sensações profundas de uma humanidade que se constrói e partilha e aceita assim, devedora da afectividade e da entrega, e credora de tanta beleza no deserto da alma que julgávamos ser o fim...

Viver reside essencialmente na tomada de consciência de que ninguém se faz sem o Outro, sem pilares básicos de interioridade e afectividade, na transcendência que também nos traz. E é neste estado que abraçamos o outro, numa dádiva suave de quem, ao tocar no outro com o corpo, ou por videochamada, mensagem escrita ou apenas voz, também o abraçou com a alma, porque é de dádiva, partilha e comunhão que se trata. E isso, faz toda a diferença. Como dizia Sto. Agostinho: "Ama... e faz o que quiseres"!

Precisamos de ir além de nós...
Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! 
É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes.

17.5.20

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA

O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU, declararam o dia 17 de Maio como Dia Internacional contra a Homofobia. 

Ora, é muito claro, que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas no género do objecto do desejo. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar alguém por ter um metro e oitenta. Os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos às pessoas homossexuais (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e, com ele, a capacidade de uma vida livre e feliz. Um absurdo total. O amor não tem sexo.

Somos fruto de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos, sendo que, muito importante, não podemos restringir a sexualidade à genitalidade, e com isso não lhe perceber toda a sua linguagem e realização afectiva.

Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem não segue a suposta hetero normatividade. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação e, confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte em determinados regimes, a sanções várias, ao bullying e à exclusão social.

Somos ignorantes da própria condição humana, e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal, escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é, também, a sua identidade e razão de estar ali, que é a sua normalidade, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que o fazem, precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de desprezo e
marginalização, sem falar nos que têm uma imensa dificuldade em aceitar o que são...

E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se amar fosse crime!

Não escolhemos os pais, os colegas de escola, a condição física, como não escolhemos o género, a cor da pele, a raça ou a orientação sexual, tornando-se, precisamente por isso, um absurdo maior rejeitar as diferenças do e no outro; antes, devemos aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que, sendo de raça diferente, deviam ser toleradas na comunidade.

O senso comum é o pior inimigo que conheço, e, é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.

INAUGURAÇÃO DO CRISTO REI



No dia de hoje, em 1959, 

era inaugurado 

o monumento ao Cristo Rei.

13.5.20

FÁTIMA: ESPIRITUALIDADE E RAZÃO



Muito embora para a igreja, Fátima não seja um dogma de fé, ela é toda uma exegese de amor, é a razão a ser desafiada nos seus limites porque se revolta em não compreender o Mistério. 

Na espiritualidade, razão e fé não se invalidam, já que, ao contrário das fadas e duendes, a ideia de Deus continua a ser racional. 

Mas não se vive a espiritualidade nem se chega a Deus ou ao Mistério, através do esforço intelectual que possamos fazer. É uma adesão interior, um caminho pessoal e único onde não entra o campo volitivo, tal como não escolhemos quem amamos numa lógica de decisão meramente racional. 

A religião é apenas a vivência comunitária dessa adesão interior, onde as manifestações de fé acontecem como quem, gostando de ouvir música, não deixa, por isso, de ir a um festival ou um concerto, ou simplesmente socializa com amigos num café, porque a dimensão comunitária existe, independentemente da celebração individual dessa adesão interior de fé. 

Fátima, tal como o Amor, estão para além da razão, mas temos dificuldade em não sermos nós a decidir...

12.5.20

DIA INTERNACIONAL DOS ENFERMEIROS


Os enfermeiros, cujo dia internacional hoje se comemora, e a quem parabenizo, - a par dos professores da primária -, são as profissões que mais valorizo. Nos primeiros, porque a sua função é a de cuidador e, isso, implica, só por si, uma valência fortíssima, a par com o conhecimento técnico mas que aqui, "desvalorizo", precisamente porque cuidar de um doente, é muito mais do que a administração medicamentosa ou diagnósticos laterais na enfermidade! É estar presente, dar a mão, ser um analgésico com um sorriso e um abraço, ser ouvinte e conselheiro, ser apoio... Uma profissão que considero mais nobre do que a do médico, porque, por natureza, o médico diagnostica e prescreve; não cuida... no caso dos professores da primária, porque são eles os segundos pais num processo de estímulo de conhecimento e fundadores de novas descobertas, para um caminho que será tão mais complexo, semeando as bases de toda uma formação... É sempre o rasto que deixamos que nos dignifica e valoriza o Outro...

6.5.20

FREUD





Nascido a 6 de Maio de 1856, Freud faria hoje anos. "A psicanálise é, na sua essência, uma cura pelo amor", dizia ele. Na realidade, muitos dos nossos problemas são fruto de solidão, de aguentar a todo o custo o fardo emocional da competição e do desamor, de nos rasgarmos interiormente para brilharmos com um fulgor que esconde as nossas próprias sombras. Mas nada disso é inteligente! 

A resiliência, a persistência, o acreditar em ir mais longe e não desistir, não é a competição do mais forte ou a inflamação do ego que, não raras vezes, leva à depressão e ao psiquiatra, mesmo que se negue a síndrome da autosuficiência, campo ilusório que invariavelmente conduz ao sofá do terapeuta. 

Ninguém se faz sozinho mesmo quando pensa que sim, e só é inteligente aquele que se permite sentir, que rega as emoções e se abre ao amor, essa capacidade de nos reconhecermos humanos no Outro admitindo também a falha em nós! 

Ser humano não é ser perfeito, e endeusar a razão é alimentar a solidão! Freud tinha razão quando dizia que a psicanálise era uma cura pelo amor; não porque seja esse o único caminho, mas sim por ser o último recurso, quando se esgotaram as hipóteses de concedermos a nós mesmos a capacidade de ser,, de sentir, e de amar...

5.5.20

DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA

Celebra-se hoje, pela primeira vez, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, falada por 260 milhões de pessoas em todo o mundo e a mais difundida no hemisfério sul. 

No final do século deverão ser 500 milhões. 

O pior é quando ouvimos e lemos que tem "a haver" com isto ou aquilo, que é "derivado", que "houveram" e "hadem", "quaisqueres", "standers", "poderiam-se", "opção de escolha" e outras preciosidades. 

Isto acontece também com académicos e na comunicação social em geral. 

E, já agora, não confundir o acordo ortográfico, com a supressão liminar de tudo o que sejam consoantes mudas, quando "facto" não é "fato", por ex! 

Já há demasiados "foramos" e "fizeramos" para continuar a maltratar a língua desta maneira embaraçosa...

3.5.20

QUEM É MÃE?




Será sempre Mãe, aquele ou aquela que suaviza na alma a dor e fortalece na prossecução da caminhada, mesmo até naqueles em que não os unam laços biológicos de sangue, mas o abraço interior desse despojamento humano e divino, que geralmente se encontra em quem sabe reconhecer no Outro, a sua própria Humanidade!

25.4.20

A MAIOR REVOLUÇÃO

A maior revolução que alguma vez poderemos fazer, será sempre uma revolução interior. Na descoberta do que e de quem somos, que forças temos e que energias nos faltam, de que nos podemos orgulhar de nós sem altivez, e do que precisamos de melhorar sem autopiedade. Permitirmo-nos ser o que verdadeiramente somos, obriga a desconstruir camadas pessoais e sociais de imagens auto impostas e reflexos sociais. A liberdade só se alcança quando nos conhecemos o suficiente para conseguir amar indistintamente, elogiar sem hipocrisia, criticar sem má fé visando outra perspectiva, e aceitarmos em nós a vulnerabilidade e o fracasso, a raiva e o choro, as lágrimas tristes e a dor que as não deita, a alegria e a vitória, o sucesso e a felicidade, porque foi uma revolução interior que requereu humildade para a mudança, inteligência para perceber o caminho, e amor para prosseguir a caminhada. Estes são os verdadeiros 25 de Abris, porque não existe mudança colectiva que não comece no indivíduo, com tudo o que tem de tortuoso e de inglório, mas também de gratificação, libertação e glória...

22.4.20

PÓS COVID OU A FALTA DA MUDANÇA

Tenho lido e ouvido as melhores intenções de que tudo vai mudar pós Covid 19, mas não partilho de quase nenhuma dessas opiniões dos mais diversos quadrantes, de cientistas a escritores, filósofos ou gestores. Claro que todas as crises são sempre uma oportunidade para algo, mais que não seja, para pararmos um pouco e reflectir nos porquês, nas atitudes comportamentais, o que devemos mudar, e por aí fora, mas a natureza humana está lá, centrada no umbigo e na individualidade (o sentido comunitário sem necessitar de crises, praticamente só acontece em culturas fora do ocidente), pelo que, uma vez restabelecida a normalidade que sabemos vai levar tempo - sendo que, a melhor referência para esse tempo pleno, já sem o fantasma da regressão dr novas vagas, será uma vacina nunca antes de 12 a 18 meses - os interesses pessoais e corporativos sobrepor-se-ão com a mesma ferocidade com que nos indiferenciavamos antes do Covid ou poluíamos o planeta. 

As correntes de solidariedade que acontecem em tempos de crise, independentemente da génese dessa crise, também se sustentam no facto de, vendo tanto sofrimento ao nosso redor, suportarmos melhor o nosso, mas debelados os problemas, o homem continua orgulhosamente metido em si mesmo, pedantemente triunfante mesmo com miséria ao redor, e sem quaisquer sinais de empatia colectiva de comunidade.... 

Sim, vai ficar tudo como dantes, e é por isso que, de tudo o que aprendemos, há sempre muita coisa errada, pelo que precisamos de desaprendê-las logo a um nível de uma consciência individual profunda, para, erradicando ou corrigindo crenças, preconceitos e hábitos disruptivos, podermos, então, quando chegam crises nacionais, internacionais ou mundiais, estarmos verdadeiramente preparados para aprendermos com elas sem voltar atrás no colectivo, que apenas a partir dessa tomada de consciência pessoal, se poderá dar, atingindo as sociedades...

É por isso que o sentido crítico, a começar sobre nós mesmos, aliado à humildade da desomnipotência e à coerência, pode fazer a mudança, como um contágio de pessoa para pessoa aberto e saudável, e que só assim poderá mudar o mundo...

18.4.20

PRIORIZAR HUMANO


Aquilo que deixamos quando um dia chegar a nossa vez, muito depois do Covid 19 - que, tal como tantos outros vírus, existirá sempre -, não é o ar austero ou pomposo que colocavamos, as roupas que usavamos, os carros que tínhamos, os perfis politicamente correctos de uma rede social, ou a intelectualidade que dávamos às coisas. 

Aquilo que deixamos na memória de quem fica, será o anonimato do bem, a ajuda desinteressada, as vezes que conseguimos gestos de amor escancarados sem cuidar das etiquetas sociais, ou o desbloqueio dos problemas pela atitude previdente mas não dramatizada em assumir o sofrimento, a simpatia e a capacidade de rir mesmo no meio da tempestade, porque significa que somos nós a assumir o comando da atitude, quando não pode ser o da situação. É por isso que seremos lembrados, pela capacidade de unirmos os corações e darmos as mãos, e não por constantemente termos pensado egoisticamente, ou termos tido aparentes gestos de bondade que, na realidade, serviam para nos satisfazer o ego. 

Só damos verdadeiramente quando damos o que também nos falta, ou, como diz uma frase de alguém, nunca seremos ricos enquanto não tivermos aquilo que o dinheiro não pode comprar... O nosso legado será sempre o da autenticidade no bem e no amor, pelo que, assumirmos um ar demasiado sério e/ou vaidoso, será apenas a melhor maneira de desperdiçar a vida!...

13.4.20

DIA INTERNACIONAL DO BEIJO

Ninguém é feliz todos os dias, e muito menos se não tiver e souber ser alma! É preciso corrigir o nosso eu. É necessário viver com paixão, sentindo a profundidade do abismo e o terror da morte, a força do amor e o estremeção da alegria, sob pena de chegarmos ao fim, sem termos tido, sequer, uma vida.
Hoje é o dia internacional do beijo, mas o beijo, tal como o sorriso, é só outra forma de abraçar!
Quem é livre, é geralmente solitário, porque paga o preço de ser ele mesmo e não um personagem. Como diz Carlos Jung, inicialmente discípulo de Freud, "ninguém se torna iluminado por imaginar figuras de luz, mas por tornar consciente a escuridão... "

E a escuridão desinstala, obriga à mudança, e esse contacto a um nível tão profundo do self, do que cada um verdadeiramente é, aterroriza-nos, porque nos obriga a não aceitar o suficiente como bom, numa atitude em que mascaramos a felicidade por uma fingida recompensa imediata, as tais figuras de luz em vez de consciencializar a escuridão...
No dia internacional do beijo, saber dar e receber é outra reflexão importante, porque estamos socializados à ausência do contacto físico, Covid 19 à parte, quando ele é uma manifestação exterior do "quero-te bem", do "gosto de ti"! Só quem é verdadeiramente livre pode amar, seja o amor universal e oblativo, seja o romântico! O "free hugs" que todos nós já vimos, é precisamente uma forma de alertar para a hermetização em que vivemos. E todo o caminho se faz mais rápido e melhor, quando nos damos, na genuinidade do ser e não no blush social.
Aqui ficam beijos e abraços apertados, antes que nos robotizemos sem dar por isso, porque viver é cada hoje, cada aqui, cada agora. O resto é deslocar o verdadeiro objecto da felicidade e com isso nos queixarmos de nunca a encontrar... É que há feridas e mágoas que, se as víssemos, olhariamos para as pessoas com a mesma reverência com que as ignoramos... Há sempre alguém a precisar de ser beijado e acarinhado. Pela atitude...e manifestação física... Nem que esse alguém sejamos nós...

12.4.20

PÁSCOA DENTRO DE NÓS

Finalmente a Páscoa. Deus fez-se Homem e ressuscitou. Dizia o Manoel de Oliveira que "a dúvida é uma maneira de ser"! O facto é que só com ela podemos ir mais longe, avançar na descoberta de mais e melhor, sem estagnarmos em certezas, afinal, tantas vezes fantasiosas, mas a dúvida em si não chega; precisamos de desbravar caminhos, e mesmo cometendo erros, aprender com eles e continuar, sobretudo dentro de nós, no conhecimento do que julgamos adquirido. A dúvida serve para não nos instalarmos em atitudes autodesresponsabilizadoras, mas precisamos de trilhar caminho, mesmo com dúvidas, mesmo sem certezas da firmeza do solo.
Não bastam as intenções piedosas, ou o não fazermos mal a ninguém; é necessário agir, ainda que tantas vezes o silêncio possa ser uma forma de comunicação. Mas precisamos de estar atentos em não ficarmos tão arredados em considerandos, que não vivemos com receio de tudo, incluindo o de agir... A dúvida pode ser um meio, mas não passa disso, e muitos pecados são perdoados a quem muito ama!
Deus ressuscita pelo exemplo do Seu próprio Amor, mas também não nos pede o ar de queixume de quem não tem. Sabem lá os outros das nossas noites de dor ou das nossas madrugadas de angústia, ou sequer se teremos um ombro onde reclinar a cabeça, e todavia muitos não nos queixamos, não lastimamos de forma pessoal as madrinhas más que a vida nos dá... É a aprendizagem silenciosa do sofrimento, não para o consentir, mas para o aceitar como factor de crescimento, se for caso disso!
Todos convivemos com problemas e solidões, mas devemos mitigar a carga com o contrabalanço da entrega, da palavra amiga, do desabafo, do desbloqueio emocional que também se faz pelas alegrias simples que o dia e o momento têm. Esse é um dos problemas: esperar pelo dia, pelas férias, pelos anos, pelo natal, por aquela altura... e entretanto a vida faz-se e o tempo dilui-se sem esperança nem entrega nem amor...
Faz-se Páscoa na abertura ao Outro, na luta ao preconceito e ao medo do desconhecido, na capacidade de amar sem condições, e de interiorizarmos a máxima de Terêncio que dizia: "sou homem; nada do que é humano reputo alheio a mim"... Foi isto que Cristo fez, tão despido de falsas certezas, de dedos acusadores, de ideias preconcebidas... E, quando com esta naturalidade e simplicidade, soubermos viver, estaremos a contribuir para que haja páscoa à nossa volta, em todas as mortes e renascimentos que todos os acontecimentos nos hão-de proporcionar...
É desta Páscoa que vos desejo Boas Festas, com o sorriso e a entrega dos que, mais do que se queixarem do que não têm, partilham o que lhes falta... Por isso, hoje, sim, é o dia de dizer "uma Páscoa Feliz" 💎💎😀

11.4.20

SILÊNCIO E AJUDA

Faz-se silêncio. E num mundo de estímulos alienantes em que nos custa parar para ler, reflectir, pensar, simplesmente estar, meditar ou parar, o silêncio torna-se, ainda mais importante...
Há solidões disfarçadas, mansões desabitadas, cruzes que se carregam sem ninguém imaginar. Pode até parecer patológico, mas são apenas defesas propostas pelo inconsciente para mascarar a própria fragilidade. Precisamos mais do Outro do que supomos, mas se não houver silêncio interior suficiente nesse Outro, e se da inteligência lhe falta a sensibilidade, os nossos ecos estarão perdidos até que tomemos ao colo as nossas dores, não para as expiar, mas para nos suprir essa carência latente mas sempre velada.
É que também o Outro não pode tomar as nossas dores, e o nosso crescimento seria débil e dependente, num ciclo de vaidade e soberba intelectual camuflado em miséria e tristeza, se nós não nos soubermos escutar a nós mesmos... Os sentimentos mais nobres geralmente são os que se intuem, porque tal como um pobre envergonhado, dificilmente exporá em praça pública a sua condição, porque a sua dignidade não está comprometida. E, é também por isso, que a inteligência sem sensibilidade é um mero instrumento ao uso da razão. Ou seja, todos estamos comprometidos. Ou ainda, como diz Pessoa "ser austero é não saber esconder que se tem pena de não ser amado".
Precisamos de estar connosco para crescermos, mas não nos podemos separar do Outro para continuar e evoluir! Porque o verdadeiro alimento não está mais em nós do que no outro, nem mais no outro do que em nós. E é nesse equilibrio que nos precisamos de dar e de ser...