21.1.20

DIA DA TRISTEZA E DO ABRAÇO

Hoje é o dia da tristeza e o dia do abraço. A tristeza, apesar de a querermos sempre negar, é uma tensão de equilíbrio e, por isso, saudável, quando não se prolonga para além do motivo que a provocou - pode também aparecer sem hora marcada, nem dia, nem sequer motivo ou circunstância - e, recusá-la, será sempre um erro. Precisamos sempre de reconhecer e aceitar as nossas emoções. Tal como chorar parece ser para fracos, a verdade é que, quem se permite fazê-lo, nem que seja só porque está triste ou porque se emocionou com um filme ou qualquer outra situação, é psicologicamente mais forte...
Mas hoje é também o dia do abraço, e ele é saudável, necessário, fraterno, amigo, terapêutico e motivador! O abraço, como o sorriso ou o beijo, será sempre catártico e retemperador para quem dá e para quem recebe, e não é por acaso que existe também terapia pelo abraço! E porque precisamos de ir além dos preconceitos sociais, e de tantas vezes sentir mais e falar ou teorizar menos, aqui fica um abraço, longo e apertado, sentido e grande, a todos os que me visitam por aqui 

18.1.20

DIA DO RISO

Celebra-se hoje, o Dia internacional do Riso, e o riso é uma arma poderosa. Não porque existam sempre motivos para rir, quando tantas vezes é exactamente o contrário, mas porque o riso é uma terapia. Existem empresas, também portuguesas, que começam o dia com uma sessão de meia hora de riso, mais ou menos orientado, o que parece ridículo, mas leva a que, necessariamente, a predisposição (e, com ela, a eficácia laboral), acabe por ser outra.
Quando rimos, atiramos para longe a carga emocional e psicológica do sofrimento, abrindo comportas de oxigénio para a alma, também esta constantemente invadida pela poluição humana da sobrepreocupação, do quadrado da existência, do ruído, da ansiedade e da urgência.
Esta higiene mental do riso, é, também, saúde pessoal e colectiva, porque se contamina com humanidade, o que outros cospem com acidez e frustração.
Somos todos mortais, de nada vale afiar o dente em modos de vida desiguais, nem confundir a aparente felicidade com um modo de encarar a vida.
Muitas vezes a dor é forte, o pessimismo é terrivel, o desalento mata os sonhos, a solidão destrói e encarcera, e em tudo isto, a resiliência, a capacidade de superar e acreditar, a entreajuda e essa formula mágica que é o amor nas suas diversas manifestações, têm um papel crucial na noção nem sempre presente de que a vida é dinâmica, e de que muito do que teorizamos e planeamos, acaba por acontecer ao lado ou nem acontecer.
Saber rir, está longe de representar uma pessoa feliz, antes alguém que não faz pagar o mundo pela parte que lhe coube, e que relativiza artificialmente o seu próprio sofrimento, exorcizando-o!
É certo que o crédito social costuma estar associado a um ar mais pomposo, austero ou obtuso, mas são estas disfuncionalidades sociais que enclausuram e bloqueiam, já que recalcamos a emoção por interditos sociais, e isso não apenas é uma desinteligência, como um atentado, sem falar nas consequências práticas dessa rejeição auto imposta...
Estar alegre, não é estar necessariamente feliz, mas carregar com um sorriso libertador, aquilo que a vida não faz por nós...

13.1.20

O MILAGRE DE SER

Os milagres acontecem, por mais que racionalizemos tudo. E, o mais curioso, é que acontecem nas coisas mais simples e imperceptiveis. Sem sensibilidade para elas, a inteligência é um instrumento cego e insuflado de vaidade, porque nos torna o criador e não a criatura!
Gosto de saber que nem tudo é efémero, volátil, ao sabor das modas! Gosto de saber que as coisas não são só boas enquanto duram, que cada um pode fazer do momento a sua própria eternidade! Não me assusta a constância das coisas se nela houver a possibilidade, não apenas do erro, mas do desvio criador, do riso que se solta para aligeirar e suportar o drama, da palavra que desinstala do bolor interior. De saber que podemos surpreender e ser arrebatados à novidade que não conhecíamos. Gosto dessa constância, que, não deixando de ser dinâmica, nos marca como seres distintos e únicos, porém tão iguais nas necessidades psicológicas de amor e compreensão, de segurança e conforto! Precisamos de aprender com os erros e não de os legitimar, de abraçar e não de ferir, e de instigar sempre no outro a aceitação do novo e do recomeço pela desconstrução do próprio eu!
A fatalidade pode existir nas coisas que acontecem, e o desamor nas atitudes que possamos tomar, mas nenhuma felicidade se constrói sobre as cinzas que deixámos nos outros; as nossas acções podem ser tão graves quanto as nossas omissões, mas não saem das nossas mãos, cuja génese é dar e receber, apaziguar e acalmar, abençoar ou a esconder, nem o coração o sente assim; esses sim, são momentos de prova, mas momentos, e não a constância da perenidade que quisermos ter! Precisamos de educar nos outros a veleidade escondida em nós, e de ser firmes na exigência do amor: esse que não é uma tolerância ao erro ou um arrastamento da passividade.
Só com um amor firme mas suave, nos amaremos a nós mesmos, e estaremos em condições de perceber que também a vida espera muitas vezes mais de nós. O resto são falácias do ego em atitudes constantes de um alter ego que muitas vezes nem sabemos ter...

6.1.20

DIA DE REIS

Terminam hoje, oficialmente, as festas. Era o dia de desmanchar a árvore e o presépio que se costumava montar dia 08 de Dezembro. Hoje faz-se mais cedo e desmonta-se mais tarde. Neste interlúdio houve elfos, pais natal e uma plêiade de personagens encantatórios mas que são só personagens. Olho sempre para o lado B da vida mesmo quando me estou a divertir. Penso sempre no que está por detrás da pessoa ou serviço prestado, no trabalho que houve para que, naquele momento, tudo estivesse a correr bem. Uma vez cheguei de madrugada a um país, ainda escuro, e enquanto atravessavamos um jardim e alguns iam pré admirando a cidade a que chegaramos, eu detinha-me na senhora dos serviços de limpeza que apanhava o lixo e as folhas do chão antes que o sol se instalasse, exactamente como com este rapaz na cidade do natal em Algés que, por momentos, parecia querer admirar o recinto como se não fosse um trabalhador...
Temos um medo terrível de nos mostrarmos humanos, com as nossas fragilidades, mas não só é libertador, como pedagógico. Todos usamos defesas, mas quando se tornam tão fortes que nos escudamos em seres que não somos, é um oxigénio artificial que respiramos, é uma outra vida que vivemos, e são muitas as fontes de desencanto e animia, de desconsolo e ansiedade, de frustração e dor. Não se trata das defesas comuns para tapar fragilidades, mas daquelas que não nos permitem revelar a nossa própria condição. A ideia de sermos o super homem, quer com um riso constante onde nada nos parece afectar, quer massajando constantemente o ego e preferindo engolir a partilhar, corresponde à imagem adolescente da imortalidade e invencibilidade. De nada valemos se não formos pessoas autênticas. Mesmo nos aspectos mais desonrados. Precisamos de nos desconstruir para sermos em plenitude.
Tenho muito mais identificação e à vontade interior com os desnudos da vida, os feridos e os envergonhados, (não confundir com coitadinhos ou com os que se vitimizam ou com os que continuamente se lamentam numa espécie de reclamação ao contrário), do que com os fortalhaços sociais, até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si... Só a humildade do despojamento do ego e do abraço de alma, nos solta a confissão de quem somos, em lágrimas que, talvez por isso, não precisaram de chorar...

4.1.20

DA SABEDORIA DO VIVER


Começou um ano novo, mas isso é meramente psicológico, e tão importante como ser dia 4 ou 26 de qualquer mês. 

São as atitudes na amizade e na entrega que fazem as pessoas, e as diferenciam entre profundas e superficiais. 

Precisamos de repensar a rapidez da vida para lhe podermos tomar o sabor, e ao encontrar o ritmo certo (que se faz sempre das coisas simples e do contacto com os outros, a partilha) mudamos também o mundo através do nosso pequeno espaço. 

A pedagogia do exemplo foi sempre melhor que muitos discursos. E no sorriso e no abraço, na atitude perante a dor e nas coisas simples da vida, está muito da sabedoria de viver...

2.1.20

LIBERDADE INTERIOR

Gosto de ser livre, despido dos cânones sociais e dos respeitos humanos, das quotizações intelectuais que enclausuram o espírito, de não ter problema algum em educadamente expressar o meu sentir sem limitações de ficar ou não bem nos círculos intelectuais e sociais, de brincar com as situações, de ser simples... Mas é preciso também muita interioridade. Precisamos, não apenas de não estarmos presos a uma credibilidade social que é fantasiosa, como de não deificarmos o ego. A razão é cega, não vê as coisas como elas são, não olha para o homem como ele é, não olha para a realidade como ela é, não olha para o mundo como ele é! E é por isso que não se surpreende com o espanto, com a novidade, nem regista a mudança. A magia acontece sempre que acreditamos nela, e o ano corre bem se fizermos a nossa parte, desconstruindo preconceitos, abraçando sem pruridos, sabendo que o humor é uma preciosa ferramenta para os reveses da vida, e que se esperamos muito da vida e do ano, também a vida e o ano esperam muito de nós. O Aqui é Agora será sempre mais importante do que a matemática do viver...
No início de mais um ano, com tudo o que tem de psicológico, os meus renovados votos de um caminho interior que desemboque sempre na essência, e saiba fugir à superficialidade das coisas, usando o catártico humor porque já todos temos a parte de sofrimento e precisamos de oxigénio para a caminhada, e não esquecendo de alimentar a alma com as coisas simples da vida, essas que trazem a verdadeira felicidade, desde um sorriso partilhado, uma contemplação do mar, a escuta do bonito silêncio da noite, a Partilha humana, a assumpção das nossas fragilidades num desabafo terapêutico, e muita liberdade interior...
Bom 2020... na humanidade que também nos cabe fazer 🌟 

29.12.19

O VERDADEIRO SENTIDO DA FESTA

Estamos em época de festas e aproxima-se o réveillon, mas para mim não contam tanto os dias festivos, mas antes os anónimos dias da semana. São tão mais importantes, porque são eles que forjam o resultado continuado. As festas, encontros, jantares têm o seu lado lúdico e mais do que isso, mas esgotam-se aí. Como diz a canção: "Who's gonna drive you home?" Não se nutre a serenidade, a magia, o manto da noite ou o encanto do mar ou das conversas em tom intimista como se revelassemos segredos ou desabafassemos naturalmente o que por vezes não tem a carga que julgamos ter... Nada disto acontece em festas grupais. É nos dias de semana, nos momentos sós, nos dias comuns... A psicologia colectiva é outra e depois dos exageros lidimos, as pirotecnias humanas, os risos efusivos, o desbragamento saudável, continuamos sós! A noite prepara o dia mas não recebe os agradecimentos. Da simplicidade nasce a alegria dos pequenos nadas. As coisas grandes são para todos; as pequenas são, de uma forma ou de outra, para os que nos são mais queridos... E eu sou um amante dos dias comuns, dos pormenores e das pequenas atitudes, aí, onde a beleza dos gestos faz a diferença e a verdadeira festa... 

22.12.19

SER NATAL



Na raiz do Natal está um facto humano e não uma invenção como o pai natal; é um nascimento, na humildade e na pobreza de uma gruta, e é isso que justifica as luzes e cânticos, não o consumimo e hedonismo.
É que, no Natal, não celebramos nenhuma fantasia, como o Halloween ou o Carnaval. O Natal comemora o nascimento de Jesus há mais de dois mil anos, numa noite que hoje corresponderia, eventualmente, à altura do verão, e que os primeiros cristãos adoptaram para esta altura devido ao solstício de inverno, onde se comemora a festa da luz, sendo Jesus apresentado como a Luz.
O Menino Jesus nasce despojado de grandezas numa gruta entre animais e, é por isso, que o verdadeiro Natal, é sempre o presépio do nosso coração.
Quem dorme nas palhas da fealdade da vida, dos cobertores que cobrem o frio da rua, dos envergonhados na pobreza e humildade, estão tantas vezes - nesses estábulos que indiferenciamos ou nem reconhecemos os sinais -, muito mais perto daquele Presépio verdadeiro, do que muitos de nós com cânticos natalícios regados com vinhos, perus, bacalhau, borregos, doces de toda a espécie, estonteamento material de prendas e risos, circos finos e mesas fartas e até missas do galo.
Mas Natal é simplicidade e interioridade, é a fragilidade assumida e a força da entreajuda, nas lágrimas e sorrisos, nos abraços sentidos e na alegria da partilha do continuado parto de Belém... É isso que é Natal!

SUAVE MILAGRE

Eça de Queiroz tem um impressivo conto que desde criança me impressionou. Partilho apenas o final, com cortes, porque longo. É passado na Judeia e baseado numa história da Bíblia onde são apresentados os ricos e os prepotentes, que contrastam com a dor e a miséria de uma criança pobre e entrevada que vivia com a mãe num casebre perdido na serra, longe do povoado. Passa-se numa época em que a fama de Jesus se estendia pela Judeia e em que os poderosos e ricos o procuravam. Mas a acção principal desenrola-se em torno dessa criança que, apesar da descrença e desalento da mãe, acredita fervorosamente que só Ele o pode salvar.
"– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?
A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:
– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!
E a mãe, em soluços:
– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.
De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:
– Mãe, eu queria ver Jesus...
E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:
- Aqui estou."

17.12.19

QUANDO É NATAL?



Um grande violinista tocava uma música celestial na Central Station em Nova York, com um violino Stradivarius valioso (3.000.000 de dólares), mas ninguém lhe ligava. O mesmo violinista tinha tocado uma semana antes no teatro principal de Nova York diante de uma plateia entusiasta, onde o preço de cada bilhete de entrada era pelo menos 500 dólares.
É a velha questão de darmos valor ao socialmente correcto e aceite, de idolatrarmos os famosos só porque o são, sem reconhecer intrínseco valor a outros que não estão nos holofotes, mas têm essa centelha divina da importância que farisaicamente apenas reconhecemos aos que já estão socialmente creditados!
Tal como no Natal, confundido com consumismo puro, prendas e galhardetes, assistimos a essa anomalia, com a deturpação dos símbolos em centros comerciais transformados em viveiros de oficinas ambulantes do pai Natal, e a azáfama de baratas tontas que acomete as pessoas até ao último minuto antes da consoada...
Dou tanto mais valor aos dias anónimos do ano, aqueles de 2ª a 6ª em que ninguém se lembra de ninguém e muito menos são épocas festivas.... E é quando podemos oferecer o melhor que temos: amor e tempo, fazendo com que as prendas institucionais do Natal percam maior significado, porque sabemos presentear durante todo o ano com amizade imaterial e em gestos concretos de alma...
Porque aquilo que é decisivo é o amor, dado e recebido, nesta escolha que é necessário fazer todos os dias, aí, onde é verdadeiramente Natal.

5.12.19

DIA INTERNACIONAL DO VOLUNTÁRIO

Comemora-se, hoje, 5.feira, o dia internacional do voluntário. Precisamos de tempo! E, é isso, o que hoje, se comemora! Darmos ao outro o nosso tempo, é uma das maiores dádivas, mas tê-lo também para nós, é imperativo! Só quando nos oferecemos tempo, alimentamos a alma, ordenamos os pensamentos e desobnubilamos a mente, vemos com outra perspectiva!

Aquietar a mente, abrandar a azáfama de tudo e de nada, e reorganizar o espaço interior, é tão importante como respirar, sob pena de já não entendermos nada e não fruirmos o mundo nem a vida, enclausurados em arritmias com a capa do ritmo certo!

A higiene mental e o revigoramento anímico passam por aqui. Negarmos este espaço diário de silêncio connosco, é diminuir a capacidade de ouvir o Outro e de percebermos como vai o nosso próprio valor... Darmo-nos tempo, é também darmos tempo ao outro sem as desculpas de o não termos... Porque mais importante que uma prenda bonita, um jantar imaculado ou uma roupa cara, é o tempo que damos na simplicidade da alegria e do encontro interior.

Quando a aparência se sobrepõe e o tempo é artificial, está tudo enquinado, e cabe-nos a nós interromper o ciclo do vazio! Porque argumentos para não termos tempo, encontraremos sempre, e é também aí que importa priorizar! Hoje, que se comemora o dia do voluntariado, é tão mais louvável e meritório o que cada um desses voluntários faz, quanto a noção de que o tempo é um bem escasso e de que não o podemos prolongar: apenas gerir... Para podermos ver mais longe, para podermos respirar vida e não a mera existência, e só dessa forma alcançarmos outras dimensões...

4.12.19

DIA INTERNACIONAL DO DEFICIENTE



Comemora-se, a 03 de Dezembro, o Dia internacional do Deficiente! Ora, eu, não confio nas pessoas perfeitas, nas que se arrogam certezas que não têm, nas que salivam fel, nas que não sabem rir, nas que lhes falta liberdade interior, nas que não sabem actualizar decisões, nas que trocam a simplicidade pelo orgulho, a sabedoria pela arrogância, a humildade pela soberba intelectual!

Gosto dos simples e bem dispostos, dos que sabem apreciar o pormenor, dos que falam com o coração e têm a sensibilidade de viver, ao invés de competir! Geralmente é o ego a fonte do desamor, que caminha a par com a vaidade e a superficialidade!

Hoje é o Dia Internacional do Deficiente? Está bem visto! Precisamos sempre de saber, que há espelhos que se negam a validar as nossas suposições, ou, dito de outra forma, que em todas estas situações os deficientes somos nós!

23.11.19

noite silente

Na noite silente, calma e
amiga comungas a dor,
E na alvorada constante do
teu desencanto, sofres a vida
em tristeza e temor.
Aquieta teus olhos
pousados no chão,
Pacifica essa noite
existente e vencida.
Reergue-te assim do
abismo gracio, onde
as asas te consomem
no sonho perdido.
E de olhos no céu e
com mãos em dádiva
Mãos abertas de piedade
e mágoa, sorri, afinal, pela
tua oração, acordando baixinho
de um sono refém.
E na luz do olhar, do deserto e
da noite, encontra as
pegadas que um dia perdeste.
Levanta-te pó, cinza e cera
que as velas da vida
maceraram em ti.
Na morada caótica da
aflição e dor, moram
também espamos de luz.
Faz-te e refaz-te
com tudo e com nada que
tenhas em ti, e o vento que
lava, que traz e que leva,
adormece no colo do desejo e sentir.
E retomando, por fim, o mesmo
caminho, em glórias e fracassos
de um único ser,
entrega-te ao dom, à vida e
à morte, em sois de alegria
perturbada e veloz.
Teus olhos cansados dizem
na noite o brilho da luz.
E num deserto sereno
erguem-se, também, poços de amor.
Luares da alma em gotas
imensas saciados
de paz...
E serás para sempre
imagem cravada na
chuva que dorme.
E em ciclos eternos de
dor e de paz, em convulsões
amenas de um hábito antigo,
descobres que não há
universo sem ti,
naa constelações perdidas
dos que teu mundo habitam...

16.11.19

AUTO AJUDA

O problema dos livros de auto ajuda é que enfatizam o pensamento positivo, apagam a experiência do sofrimento para novamente chamar à atenção do pensamento positivo, e fazem sempre um fortíssimo apelo à auto satisfação e ao prazer. Alguns têm boas técnicas e tácticas úteis, mas no geral é isto!

É um erro. Tal como o amor não é o que idealizamos mas sim o que construímos, também a vida não é um quadrado estanque onde nos realizamos hedonista e egoisticamente. Nos tempos da realização pessoal e da inteligência emocional facilmente resvalada e/ou confundida com self made man, precisamos de nos lembrar que somos seres relacionais, e precisamos de saber que a felicidade não é a mera satisfação de caprichos e prazeres (esgotar-nos-iamos tão rapidamente que abriríamos uma ferida existencial), mas a capacidade de ser Pessoa e de partilhar valores de amizade, entreajuda, esperança e amor.

Quanto às experiências negativas, devem ser incorporadas para melhorarmos, para nos reconhecermos falíveis e aceitar o que for inevitável ou não depender de nós, e só desta forma, integrando o sofrimento e sabendo que a felicidade não é o mais ter mas o mais ser, nos realizarmos como Pessoas!

11.11.19

ASSIMETRIA DE VIDA

Falta-nos o encanto, a dose de humor, a entrega. Falta-nos saber conduzir o tempo e não de sermos levados animalescamente por ele. Falta-nos soltar as palavras belas e inconfundíveis como se fossem pequenas fontes de água fresca, e não uma sucessão verborreica a imitar um esgoto que a espaços convulsos deita água suja ao mar. 

Urge voltarmos a ser crianças e não apenas de pegarmos nelas. De desdramatizar o que dramatizamos e de valorizar o que desvalorizamos. 

De esquecer o vaidoso e enfatuado ego, para a simplicidade do sorriso e da partilha, de subordinar a altivez ao gesto humano da dádiva e comunhão. 

A vida existe e acontece na medida da nossa atitude. Há que fomentar o gesto diário e pessoal da comunicação, do sorriso, da frontalidade educada e da construção do edifício humano, do seu tecido valorativo nas relações interpessoais de serviço e amor. 

De outra forma, estaremos tristemente a viver um destino que não é o nosso...

2.11.19

DE CUJUS



Celebra-se hoje, o dia dos Fiéis Defuntos ("De Cujus", em terminologia jurídica) .
Ainda que mortos e, talvez por isso, dizem-nos consabidamente que o tempo é agora nosso.
Para isso, mais do que lembrar os mortos, é necessário reflectir sobre os vivos, e não na dor arrancada ao peito pelos que amámos e perdemos como se também uma parte de nós se tivesse extinguido, mas no juízo colectivo do socialmente correcto, nos cumprimentos e favores capciosos que fingem altruísmo e atenção, no passaporte obsessivamente carimbado com o visto da casa, do carro, do emprego e da família até à contracapa da reforma!
Se viver for isto, então mais do que lançar um olhar ao passado pela recordação sentida de quem amámos, há que atribuir-lhes o exclusivo da vida, porque se os mortos têm a natural legitimidade de nada poder fazer, nós temos a ínsita obrigação de saber morrer antes do dia final. Morrer não é extinguir-se, mas dar-se. E dar é um acto de amor, de criatividade e de Vida!
O que é isso de defunto? E o que é isso de fiel? Uma pessoa que soube fazer representar-se a si própria pela verticalidade dos seus valores e dos seus princípios? Se um “defunto” é um ser inanimado, então quase todos andamos em exéquias, e se ser-se “fiel” é possuir valores não domesticáveis, então a terminologia usada é uma homenagem graciosa.
A questão que se coloca não pende para os que desapareceram do nosso convívio, nem para a dor que nos arranca a alma por já não termos quem amamos, mas para nós que continuamos o fado da criação, seguindo exemplos, moldando atitudes, aprendendo o erro! A experiência faz-nos! A morte também. Afinal, que catálogo de emoções seguimos nós, ao ponto de hipotecarmos a vida? A que prescrições sociais estamos nós restringidos? À lógica do racionalismo puro? À moral egoísta? E tudo isto para quê? Credibilidade social?
Nada vale do que teorizamos na metafísica do viver. Nada vale sem o amor inteiro e não pluri-partido, como uma baby-sitter que presta atenção a todos e a ninguém! Porque como o Sol irradia o seu brilho e fulgor sem se importar com a sensibilidade de quem passa à luz, assim o Amor deve fazer, sem cuidar do egoísmo alheio. Muita gente foi ontem e vai hoje aos cemitérios, mas talvez, afinal, que os mortos sejamos nós.

27.10.19

TRANSPARÊNCIA

Temos um medo terrível de nos mostrarmos humanos, com as nossas fragilidades, mas não só é libertador, como pedagógico. Todos usamos defesas, mas quando se tornam tão fortes que nos escudamos em seres que não somos, é um oxigénio artificial que respiramos, é uma outra vida que vivemos, e são muitas as fontes de desencanto e animia, de desconsolo e ansiedade, de frustração e dor. Não se trata das defesas comuns para tapar fragilidades, mas daquelas que não nos permitem revelar a nossa própria condição. A ideia de sermos o super homem, quer com um riso constante onde nada nos parece afectar, quer massajando constantemente o ego e preferindo engolir a partilhar, corresponde à imagem adolescente da imortalidade e invencibilidade. De nada valemos se não formos pessoas autênticas. Mesmo nos aspectos mais desonrados. Precisamos de nos desconstruir para sermos em plenitude.
 
Tenho muito mais identificação e à vontade interior com os desnudos da vida, os feridos e os envergonhados, (não confundir com coitadinhos ou com os que se vitimizam ou com os que continuamente se lamentam numa espécie de reclamação ao contrário), do que com os fortalhaços sociais. Só a humildade do despojamento do ego e do abraço de alma, nos solta a confissão de quem somos, em lágrimas que, talvez por isso, não precisaram de chorar, até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si...

20.10.19

ESPERA













Saberás que vivo em teus silêncios,


até acordares pela palavra


o som inquietante do amor...

ASAS



Onde deixaste as asas?
Onde perdeste os sonhos?

Onde choraste a esperança
da manhã eternizada?


E onde ganhaste a dor?
E onde sofreste a morte?

E como vives a beleza
do encanto e da magia?


Que forças conseguiste
e que mistério ultrapassaste
para pisares o chão que te eleva?


A couraça de guerreiro
que a vida te fez vestir,
conhece a fragilidade
de um amor irracional.


Não a dispas!
Não a tires!

´
São as asas modernas
de um anjo feito homem...