28.5.17

AREJAR A ALMA COM HIGIENE MENTAL

Vou rápido mas páro para fotografar a árvore onde muitas vezes passo sem a observar devidamente. Contemplo o ritmo estonteante com que as pessoas passam e por vezes se atropelam. Onde vão como autómatos comandados? Que pressa as rege como notícia urgente de última hora? O frenesim não pára e algumas quase se atropelam. Decerto haverá jantar para fazer, almoço ou horários a cumprir, mesmo que já só façam parte da rotina automatizada a que muitos não querem escapar sob pena de desnorte. Mas o desnorte é a própria rotina que nos afunda num tanque existencial sempre justificado com tanta ocupação e afazeres. E com tanta inanidade. 

Tenho um amigo que pensa que ando sempre com uma vida social intensa, e não acredita que ela é feita de muitos espaços interiores. Precisamos de respirar, e se tivermos com quem, melhor, mas este arejamento da alma é basilar da higiene mental.

As coisas mais belas são as mais simples, não as mais caras. E é nesses instantes que acontece a felicidade. Tê-la, é perpetuar esses momentos diariamente reinventados, ir por outros caminhos, sentar na esplanada onde só se passa, sentir como o manto crepuscular suavemente cobre o dia e a cidade se ilumina, ler nas pessoas o enfado automático da espera ou da viagem depois do trabalho e não lhes reconhecer nada que as faça sorrir! E solidão. Muita solidão em pó de arroz e gravata. E ver tantos diálogos nados-mortos em pessoas predispostas. 

Dinheiro. Talvez o dinheiro explique tudo. Não teriam de andar macambúzias, sorumbáticas, de má cara. Talvez nem tivessem de trabalhar! Seriam felizes como turistas sorridentes que parecem estar sempre na iminência de meter conversa. E bem. Mas não. O dinheiro é apenas o pretexto colectivo para cada um individualizar o ar sisudo e descontente da vida que tem. Mas o euromilhoes só brilha no início a quem lhe sai. Porque o dinheiro não compra amigos. Nem os faz. E os que se aproximam por dinheiro são outra coisa. O dinheiro pode pagar viagens, jantaradas e festarolas. Pode comprar casas, carros e acções na bolsa, mas não, não compra amigos. E são os amigos e aqueles que mais amamos, que nos permitem ser felizes, porque a partilha é o passaporte da felicidade. 

Felicidade e Amizade têm tudo em comum: são insusceptíveis de avaliação pecuniária, não se encontram aos pontapés, e requerem sensibilidade suficiente para as não banalizarmos.

Seize the day, carpe diem, parece-me continuar a ser a única maneira para que a vida seja em si alegria constante, porque sustentada no precioso valor de cada momento, que muitos por automatização ou incapacidade de ver beleza nas coisas simples e nos gestos amigos e simpáticos, continuarão a correr como baratas tontas para todo o lado e nenhum, julgando encontrar na correria rotineira, a plenitude da sua realização.

22.5.17

DIA DO ABRAÇO

Hoje é o dia do abraço. Na realidade, a linguagem dos afectos é relegada com vergonha pelos cânones sociais mas também pessoais! Um abraço cura. Um beijo cura. Um sorriso cura. Um estar cura! Revigora a energia psíquica, humaniza, pacifica! Mas não. A ostentação obtusa do self made man leva ao exagero a distância interior, e julgando-nos metidos numa couraça vistosa, sufocamos a nidificação da própria alma! No reverso de uma moeda guerreira, opulenta e forte, está sempre a fragilidade de um amor interrompido!
 
Um "estou aqui" é bálsamo, ansiolítico e antidepressivo na prossecução da caminhada, porque importante não é a rua habitual, mas os becos que nela desembocam. Calcorreá-los como quem se pavoneia numa praça é aviltante da dignidade alheia; mas senti-los e percebê-los como únicos e diferentes, é ser digno de um santuário que de outra forma ninguém saberá existir. E há muitos pedidos mudos e envergonhados, recusando-se a admitir a fragilidade da condição humana. Que venha daí esse abraço, e esse beijo e essas lágrimas e sorrisos! É que só temos uma vida. Ainda que com muitos nomes.

21.5.17

DO RESPEITO PELA DIVERSIDADE

 
 
 
 
Celebra-se hoje, decretado pela ONU, o Dia Mundial da Diversidade Cultural onde se apela ao respeito pela diferença e riqueza comuns! Este apelo, porém, faz ainda mais sentido numa perspectiva individual, i.e., a capacidade de respeitarmos no outro a diferença também de valores e opinião, numa óptica de valorização e crescimento. Sempre que estamos metidos nos nossos dogmas, impedimos o nosso próprio crescimento, porque de forma mais directa ou velada tentamos vergar o outro ao peso dos nossos argumentos, e o enriquecimento humano faz-se precisamente pela compreensão das diferenças e valores, numa perspectiva de que devemos crescer sempre, se não para aceitar pelo menos para compreender e muito mais para respeitar, nessa riqueza imensa que é também sempre o mundo do outro e que mutuamente cabe explorar e, uma vez mais, respeitar...

17.5.17

DIA INTERNACIONAL CONTRA A HOMOFOBIA




O preconceito é uma defesa ignorante do que não conhecemos. O Parlamento Europeu e a ONU declararam o dia de hoje como Dia Internacional contra a Homofobia. Ora é muito claro que uma pessoa homossexual difere de uma heterossexual apenas na esfera íntima. Ostracizar uma pessoa homossexual, homem ou mulher, é o mesmo que culpar uma pessoa por ter um metro e oitenta. Estúpido, não é? Só os falsos moralismos, a ignorância e a incapacidade da aceitação do diferente, são obstáculos a estas pessoas (não a sua homossexualidade), acabando por se verem impedidas de se realizarem afectivamente, hipotecando o amor e com ele a capacidade de uma vida livre e feliz. De novo, cabe perguntar: estúpido, não é?

Somos frutos de uma cultura e também vítimas dela. Há que aceitar as diferenças, e de as pessoas viverem os afectos e a sexualidade na sua perspectiva psicodinâmica, e não apenas até onde as deixamos. Na realidade, existe um estigma fortíssimo, directo ou omisso, contra quem parece fugir à norma. O problema não reside na diferença, mas na rejeição à sua aceitação, e confundindo isto, arranjamos um silogismo social e cultural que leva, no extremo, à pena de morte, a sanções várias e à exclusão social.
 
Somos ignorantes da própria condição humana e sempre que não percebemos conceitos básicos de respeito pelo outro, entramos em caminhos medievais de despotismo pessoal escudado no brilhante argumento da suposta normalidade. Poderá um peixe dar uma volta pelos céus, ou um pássaro viver debaixo de água? Se ambos não entenderem que a sua diversidade é também a sua identidade e razão de estar ali, vão passar a vida a tentar voar ou mergulhar, numa tentativa suicida de denegação existencial. E tantos são os que não se assumem sequer para si mesmos, deprimem e se suicidam precisamente por causa destes mimos colectivos e sociais de deprezo e marginalização.
 
E não se trata apenas de tolerar um comportamento; é muitíssimo mais do que isso. Porque para as pessoas amputadas à sua própria realização pessoal e amorosa por meros interditos sociais, é, além de uma desinteligência colectiva, um drama para os próprios, como se criminosos por simplesmente amarem!
 
Não podemos ostracizar quem difere no seu modus vivendi, sobretudo quando é determinado pelo seu próprio código genético, mas aceitá-lo como acabámos por aceitar pessoas que antes tinhamos como escravos por não terem dignidade de seres humanos (os escravos eram coisas), ou que sendo de raça diferente deviam ser toleradas na comunidade.
 
O senso comum é o pior inimigo que conheço, e é assim que estamos em pleno séc. XXI: com a Internet numa mão, e a pedra lascada da ignorância noutra! E no mundo dos afectos não existe bitola, regra, lei, norma, jurisprudência ou mandamento que diga como é. É como cada um sente, na liberdade de ser ele mesmo, o Outro, aquele a quem devemos vénia numa reciprocidade respeitosa e amiga de quem comunga a própria humanidade.