11.1.21

INDIVIDUALIDADE E EGOÍSMO


Excepcionalmente não coloco uma fotografia tirada por mim, mas esta imagem. É uma imagem interessante que dá para reflectir. A ideia da auto suficiência, do auto crédito, do auto elogio, tem como correspondente simétrico uma necessidade de afirmação quase infantil, que tanto passa despercebida, como roça o egocentrismo ou uma centralidade do "eu", encapotada.

Autonomia é uma coisa: achar que sozinhos conseguimos tudo, engordando ainda mais o ego já por si enquinado e, por isso mesmo, com constante necessidade de se auto vangloriar, ainda que de forma velada, é outra.
Há um adágio que diz que "precisamos de mãe e de pai para nascer, mas são outras mãos que nos enterram", mas no entretanto muitos têm uma vaidade tal, um egotismo a roçar a soberba, que pensam que nesse intervalo de tempo se bastam a si mesmos.
Uma pessoa confiante, madura, sabe pedir ajuda, sabe dá-la, sabe reconhecer a finitude humana, e está preparada para não se ofender com mentes que, julgando-se brilhantes, são apenas um reflexo artificial do seu próprio vazio.
Só uma pessoa que não precisa de bajular nem que a bajulem, percorre o seu caminho na serenidade de que cairá, de que se erguerá, de que o politicamente correcto é para quem tem problemas de afirmação, tal como quem venera os socialmente bem cotados e famosos tem necessidade de ser apreciada.
Caso contrário, talvez conseguisse ver mais longe, nomeadamente que ser famoso não significa ter necessariamente formação humana, e que bem cotado não significa que o crédito que lhe dão seja, de facto, o que merece. E encontraria em tantos anónimos, o mérito e o crédito que outros não vêem, porque são pessoas anónimas, comuns, mas de uma riqueza singular ofuscada pela preocupação em estarmos ao lado dos que já são famosos e que nos fica bem mencionar.
A individualidade não é egoísmo, e sabe dar as mãos para juntos se chegar mais longe. Caso contrário, não passam de egoístas disfarçados em simpatias, que não alcançando o que pretendem, arranjarão sempre desculpas para a árvore ser alta, em vez de reconhecer que se não tivesse o ego inchado, teria chegado lá...

1.1.21

FELIZ ANO NOVO


No início de mais um ano, com tudo o que tem de psicológico, os meus renovados votos de um caminho interior que desemboque sempre na essência, e saiba fugir à superficialidade das coisas, usando o catártico humor.

Ser alegre não é estar necessariamente feliz, mas carregar com um sorriso libertador, aquilo que a vida não faz por nós...
Já basta a quota de sofrimento, e precisamos de oxigénio para a caminhada, não esquecendo de alimentar a alma com as coisas simples da vida, essas que trazem a verdadeira felicidade, desde um sorriso partilhado, um testemunho de humanidade, a escuta do Outro e do silêncio, a delicadeza dos gestos, a assumpção das nossas fragilidades num desabafo terapêutico e pedagógico, ao invés de vaidades ou egos inchados.
O Aqui e Agora será sempre mais importante do que a matemática do viver. Basta lembrar como começámos 2020 e ao fim de dois meses o mundo como que paralisou...
Bom 2021... na humanidade e atitude que também nos cabe fazer.

28.12.20

REALIDADE E ESPELHO



Há tantos "sem abrigo" que são uma pérola humana, e tantas supostas pessoas virtuosas em montras vazias. Só posso reverenciar a simplicidade, a genuinidade e autenticidade, porque os defeitos nessas pessoas não são defeitos, mas o preço educado de se ter a coragem de sermos nós mesmos, sem respeitos sociais. O resto é vaidade do ego sempre sedento de altares...
É como os sorrisos amarelos, as falsas posturas, o políticamente correcto, a perfídia encapotada em amabilidades sociais, o angariar de crédito social pela denegação da autenticidade, a reverência aos já idolatrados.
A dissimulação dá a entender um ser perfeito, confiante e enérgico, mas a realidade convive sempre com os “apanhados”. Esse lado natural e espontâneo que dispensa o toque da roupa ou a imagem fabricada, a tecnologia de ponta ou a intelectualidade quotizada, os sorrisos que na realidade são o espelho do que detestam...

Para mim não contam tanto os dias festivos, mas antes os anónimos dias da semana. São tão mais importantes, porque são eles que forjam o resultado continuado. As festas, encontros, têm o seu lado importante, e mais do que isso, mas esgotam-se aí. Como diz a canção "Who's gonna drive you home?"

O que vem do coração a gente sente. A dissimulação da simpatia e amizade também. É por isso que prefiro os simples, os despojados, os que brincam para exorcizar os problemas e não porque não os têm.

Só assim se faz humanidade num mundo frio, porque o aquecedor será sempre a autenticidade, e não a hipocrisia disfarçada em simpatias envenenadas.

Let's mind our hearts, não o politicamente correcto ou artificialidade de não ficar mal na fotografia...

É nos dias de semana, nos momentos sós, nos dias comuns e anónimos, que precisamos dos gestos efectivos de gentileza e verdadeira amizade, não apenas nos fáceis dias de festa onde todos estão.

A noite prepara o dia mas não recebe os agradecimentos. As coisas grandes são para todos; as pequenas são, de uma forma ou de outra, para os que nos são mais queridos.

É por isso que amo os simples, os verdadeiros, os despojados, tantas vezes confundidos com ovelhas negras, mas que são, afinal, quem reposiciona o termómetro da Humanidade...

23.12.20

O VERDADEIRO PRESÉPIO

 


No Natal, não celebramos nenhuma fantasia, como o Halloween ou o Carnaval.
Na raiz do Natal está um facto humano e não uma invenção como o pai natal; é um nascimento, na humildade e na pobreza de uma gruta.

O Natal comemora o nascimento de Jesus há mais de dois mil anos, numa noite que hoje corresponderia, eventualmente, à altura do verão, e que os primeiros cristãos adoptaram para esta altura devido ao solstício de inverno, onde se comemora a festa da luz, sendo Jesus apresentado como a Luz.
O Menino Jesus nasce despojado de grandezas numa gruta entre animais e, é por isso, que o verdadeiro Natal, é sempre o presépio do nosso coração.
Quem dorme nas palhas da fealdade da vida, dos cobertores que cobrem o frio da rua, dos envergonhados na pobreza e humildade, estão tantas vezes - nesses estábulos que indiferenciamos ou nem reconhecemos os sinais -, muito mais perto daquele Presépio verdadeiro, do que muitos de nós com cânticos natalícios regados com vinhos, perus, bacalhau, borregos, doces de toda a espécie, estonteamento material de prendas e risos, circos finos e mesas fartas.
Mas Natal é simplicidade e interioridade, é a fragilidade assumida e a força da entreajuda, nas lágrimas e sorrisos, nos abraços sentidos e na alegria da partilha do continuado parto de Belém...

O Natal sê-lo-á, sempre que estivermos onde mais ninguém está.

É por isso que só quem oferece Natal aos outros, poderá ter Natal para si.

A todos quantos passam por este canto, os meus votos de um Natal assim...


19.12.20

NATAL : FORTMA E SUBSTÂNCIA



Um grande violinista tocava uma música celestial na Central Station em Nova York, com um violino Stradivarius valioso (3.000.000 de dólares), mas ninguém lhe ligava. O mesmo violinista tinha tocado uma semana antes no teatro principal de Nova York diante de uma plateia entusiasta, onde o preço de cada bilhete de entrada era pelo menos 500 dólares.É a velha questão de darmos valor ao socialmente correcto e aceite, de idolatrarmos os famosos só porque o são, sem reconhecer intrínseco valor a outros que não estão nos holofotes, mas têm essa centelha divina da importância que farisaicamente apenas reconhecemos aos que já estão socialmente creditados!

Tal como no Natal, confundido com consumismo puro, com a deturpação dos símbolos em centros comerciais transformados em viveiros de oficinas ambulantes do pai Natal, e a azáfama de baratas tontas que acomete as pessoas até ao último minuto antes da consoada...
Dou tanto mais valor aos dias anónimos do ano, aqueles de 2ª a 6ª em que ninguém se lembra de ninguém e muito menos são épocas festivas.... E é quando podemos oferecer o melhor que temos: amor e tempo, fazendo com que as prendas institucionais do Natal percam maior significado, porque sabemos presentear durante todo o ano com amizade imaterial e em gestos concretos de alma...
Porque aquilo que é decisivo é o amor, dado e recebido, nesta escolha que é necessário fazer todos os dias, aí, onde é verdadeiramente Natal.

15.12.20

O ESPÍRITO DO NATAL



Nesta época, mesmo com a economia asfixiada, a atenção está voltada para as prendas - que simbolicamente têm a sua importância quando significadas e não um dar por dar -; outros incomodam-se com as luzes, presépios e decorações e esperam ansiosamente que passe o Natal, mas estão enganados na forma!
O que provoca isso é o consumismo e a relatividade dos valores. Confunde-se o Menino Jesus com o pai natal, ou seja, a interioridade com o comércio, porque o Natal não é a celebração do vazio, mas o despojamento simples e autêntico de quem se faz como Pessoa!
É por isso que as melhores prendas não são ouro, incenso e mirra, mas o gesto de um pastor com um manto para aquecer o Menino, ou o acolhimento de um abraço a José e Maria cansados e agastados num estábulo.

As melhores prendas são os gestos imateriais de carinho, independentemente da forma como o fazemos. Muitas vezes não precisamos de coisas, mas de um mimo, seja a forma que esse miminho tiver. E é isto que é Natal: fazermo-nos presentes, dando-nos... Porque, por vezes, tudo o que precisamos, é de alguém que nos escute... e ame...

8.12.20

O COVID E NÓS

 


Tirei esta foto há um ano dos armazéns do Chiado, antes de ir a um jantar aqui a meio da rua Garrett. Com todos os problemas que todos temos, porque não há ninguém imune a vicissitudes, todos éramos um bocadinho mais felizes mesmo sem o sabermos pelo simples facto do que revela a fotografia: ajuntamentos despreocupados, vivência natalícia ou qualquer outra da forma mais aberta possível, encontros, saídas, ausência de receio de contactos...

Quando tudo tiver passado com este monte de matéria orgânica que nem vírus é, baptizado de covid, e já não forem precisas máscaras nem cuidados maiores do que os normais mesmo antes do sars cov 2, muita gente continuará excessivamente cautelosa, quer por mero receio, quer pelas sequelas psicológicas do tempo dos confinamentos e uso de máscaras.

Nunca me coibí da vida social, salvaguardada a distância mínima sem exageros, ou de máscara colocada sem necessidade estrita. Sempre achei exagerado quem se barricou em casa ou se desinfectava várias vezes ao dia incluindo a roupa. Se quem faz parte dos grupos de risco tiver alguma distância e máscara, e um lavar de mãos mais frequente, pode fazer a vida normal naquilo que é possível, dado que estamos quase sem actividades sociais e tudo se olha de soslaio com um temor exagerado. É tão desinteligente quanto ir são a uma enfermaria covid sem protecção.

As vacinas estão a caminho, o tempo demorará ainda, mas provavelmente no verão, quando todos já terão sido inoculados e o risco é tão residual quanto apanharmos quaisquer outras doenças, as sequelas sociais da máscara, da desinfecção e do distanciamento, ainda perdurarão (não falo das sequelas na saúde mental, nem nas crianças que isso é outra história muito séria), e sendo o homem um ser relacional, os afectos serão sempre importantes para preservar essa mesma saúde mental, num mundo que já era frio de interioridade e comunhão e, que, agora, por dois ou três anos, continuará a ser com o efeito psicológico de tanta emergência.

Precisamos de nos conectar de novo, mesmo correndo riscos moderados, porque é isso que é a vida: por natureza um risco, e não há nenhuma pandemia que possa alterar o DNA da Humanidade: o de sermos com o Outro...

5.12.20

DIA INTERNACIONAL DO VOLUNTÁRIO




No dia internacional do voluntariado que hoje se comemora, importa começar por dizer que as necessidades umbilicais de quem faz de si o centro do universo, radicam numa desatenção ao próprio valor, que sendo de pouca profundidade, traveste-se numa revalorização exagerada!

Não sou dos que criticam tudo e todos, muito embora crítico a tudo o que me rodeia, acompanhando sempre com humor para não desacreditar a humanidade, mas primazio sempre o recanto da alma, a confidência do testemunho pessoal, e fico também agradecido por ser digno de os poder receber.
A infalibilidade humana torna-se ainda mais ilusória do que já sabemos ser, quando nos colocam no regaço problemas e dúvidas, dramas, angústias e anseios, e muitas vezes tudo o que podemos dar, é um sorriso de compreensão para atenuar a densidade do drama, acolhendo também pela nossa história, o sofrimento que se quer erradicado.
Escutar, é já um meio de desapertar a tensão emocional, e melhor voluntariado natural não pode haver. Claro que existem também ferramentas várias ao nível do trabalho psicológico que devemos fazer, que ajudam e contribuem na conversa. É a escuta de quem não pode resolver o problema, mas o ouve, diagnostica em modo conjunto, e aponta caminhos, mesmo sem saber a solução. Porque essa será encontrada na dinâmica da vida, na desconstrução do problema e não apenas nos conhecimentos que recebeu. Essa é a parte racional, a de aprender o que fazer, mas o processo da exequibilidade é, não raras vezes, longo, e vem sempre de dentro de nós, com altos e baixos, com algumas receitas, sim, mas generalistas, e que só pelo trabalho do reconhecimento das nossas emoções, poderemos com paciência e, aí sim, com inteligência - que é uma mera ferramenta, um meio para um fim, já que é no tecido emocional que se plasma a vida e reconhece como e quem somos -, aceitarmos o que for inevitável, encontrando outros caminhos sem negar o que nos trava.
Porque a vida é dinâmica, e aquilo que hoje é um drama já não é amanhã, tal como aquilo que achamos superficial, poder revelar, afinal, um tsunami interior.
Precisamos de tempo! E é isso o que dá um voluntário, não meramente nessa qualidade, mas de partilha. Darmos ao outro o nosso tempo, é uma das maiores dádivas, mas tê-lo também para nós, é imperativo! Não podemos ajudar ninguém se não estivermos nós alimentados. E embora seja o outro a arcar com a dor, a presença do olhar ou das mãos, da escuta ou da palavra, o sms ou o messenger, o whatsapp ou o telefone, atenuam essa dor a um patamar cujo efeito psicológico, no tempo, pode vir a revelar-se a própria solução.
É importante reorganizar o espaço interior, sob pena de ficarmos enclausurados em arritmias com a capa do ritmo certo! A higiene mental e o revigoramento anímico passam por aqui.
Negarmos este espaço diário de silêncio interior para nos percebermos melhor e melhor reconhecermos as nossas emoções, é diminuir a capacidade de ouvir o outro e de percebermos como vai o nosso próprio valor...
Darmo-nos tempo, é também darmos tempo ao outro sem as desculpas de o não termos...
Porque mais importante que um vinho caro, uma prenda bonita, ou um restaurante fino, é o tempo que damos, na partilha e na escuta, como se presos num elevador da vida onde todos os segredos são expostos, porque nos permitimos ser sem capas nalgum encalhe de vida, quando temos ali ao lado o outro que nos ouve.
Quando a aparência se sobrepõe, e o tempo é artificial, está tudo enquinado, e cabe-nos a nós interromper esse ciclo. No dia do voluntariado, é tão louvável e meritório o que cada uma dessas pessoas em contextos sociais, comunitários e também pessoais faz, quanto a higiene mental e o arejar de alma que connosco e com os outros possamos ter.
"Foi o tempo que perdeste com a rosa que tornou a rosa tão importante para ti", dizia o Principezinho. Neste caso, é a importância do desbloqueio pelo tempo em que fomos inteiramente nós, coisa a que raramente nos damos ao luxo por defesas e mecanismos vários, legítimos, mas muitas vezes exagerados e, por isso, pouco inteligentes nessa hermetização que fazemos de nós mesmos.
O vento pergunta-nos onde vamos e respondemos que sabemos remendar a alma. Nas noites longas do sentir e nas tardes breves da razão, sentam-se hóspedes que não convidámos e entram perigos que não conhecíamos. A alma não se remenda cortando com palavras o que o coração sente. Mesmo quando não sabe o quê.
É por isso que oferecermos o nosso tempo mesmo que apenas para apoiar, é uma das mais nobres provas de amizade, ainda que com desconhecidos, porque somos todos estranhos até nos conhecermos...

Curar a alma, é tão importante quanto o sentido de humor e o convívio despretensioso, sem se importar com mais nada, que não uma saudável partilha de inanidades mas que têm o seu valor e contributo no imediato. Simplificar, rir, brincar, porque o humor tem benefícios comprovados na saúde física e mental e serve de desbloqueador, e falar de tudo e de nada como tolinhos despreocupados é, além de saudável, inteligente. O pior é quando nos colamos à imagem e não ao ser. Porque todos os caminhos vão dar à fonte que abandonámos...

3.12.20

DIA INTERNACIONAL DO DEFICIENTE


Hoje, dia 03, comemora-se o Dia internacional do Deficiente! Ora, eu, não confio nas pessoas perfeitas, nas que se arrogam certezas que não têm, nas que salivam fel, nas que não sabem rir, nas que lhes falta liberdade interior, nas que não sabem actualizar decisões, nas que trocam a simplicidade pelo orgulho, a sabedoria pela arrogância, a humildade pela soberba intelectual!
Gosto dos simples e bem dispostos, dos que sabem apreciar o pormenor, dos que falam com o coração e têm a sensibilidade de viver, ao invés de competir! Geralmente é o ego a fonte do desamor, que caminha a par com a vaidade e a superficialidade!
Hoje é o Dia Internacional do Deficiente? Está bem visto! Precisamos sempre de saber, que há espelhos que se negam a validar as nossas suposições, ou, dito de outra forma, que em todas estas situações os deficientes somos nós!

20.11.20

DIA UNIVERSAL DOS DIREITOS DA CRIANÇA



E os adultos, Senhor? Hoje é o Dia Universal dos Direitos da Criança, e houve um tempo em que ser criança era quase sinónimo de sub humano, vergadas às imposições dos adultos e quase equiparadas a coisas, mas fez-se uma tão grande apologia em contraposição a outros inglórios tempos, que o paradigma quase mudou, e além de já nascerem numa época ainda mais globalizada e tecnológica, só falta virem com livro de reclamações.A pedagogia educacional reveste-se sempre de uma importância maior, quando se acentuam declives onde ter é um direito adquirido e reclamar é uma consagração!
As crianças merecem tudo, e educar é sempre uma tarefa exigente, mas igualmente um tremendo desafio numa era de convulsão de valores, onde, paradoxalmente, os pais e educadores em particular, se tornaram os escravos dos caprichos das crianças, endeusando muitas vezes egos em construção, sem se aperceberem que agora, os oprimidos são eles...
Não é perguntando constantemente às crianças o que é que elas querem, ou enchê-las de coisas, apenas coisas, sem pedagogia nem encanto nem magia, como os videojogos ou a tecnologia em geral, que se dá o melhor! É preciso estimular o dom da apreciação, do encanto, do tradicional, do simbolismo, da partilha e dos valores de entreajuda, do acessório e do essencial, e não da engorda cega de panfletos para escolherem o que querem, ou da tecnologia e hedonismo onde os valores estão ausentes e a formação humana desvirtuada, para não assistirmos a situações onde em vez de crianças temos Trumps em formação, caprichosos, néscios e arrogantes...

19.11.20

DIA INTERNACIONAL DO HOMEM




O que é ser homem no dia que hoje se comemora? Comemora-se o dia internacional do homem, não do super-homem. É-se homem quando assumimos as fragilidades, a condição humana de que não somos super homens, mas saber sorrir e brincar no meio dos problemas, é uma forma de não lhes aumentarmos a carga, e, tantos, quão dramáticos são. É é também por isso que o humor é importante por ser um desbloqueador. É como a covid. Sem desprezar o seu impacto, não podemos conceder-lhe maior importância do que tem.
Não se é homem quando nos manifestamos em pessoas que verdadeiramente não somos, usando personagens ludibriadas pelo ego em constantes manifestações de vazio e de vaidade.
Inculcámos em nós esta convicção do mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado! Muitos workshops e coaching são centrados nessa vertente de auto realização, mas não há qualidade de vida nem de tempo sempre que o ramerrão nos escraviza em baratas tontas que já nem sabem que o são, nem a realização pessoal se faz sozinha. Um homem deixado numa ilha solitária com todas as mordomias ao seu dispor, depressa esgotava a sua verdade existencial!!
A terrível ideia de que ser homem é bastar-se a si mesmo e continuamente passar aos outros a ideia de força e poder, é uma falácia das piores, porque se limita a endeusar o ego tornando-se vítima de si mesmo e viciosamente encontrando argumentos e desculpas para o seu próprio vazio!
É sempre na relação com o Outro que sabemos mais de nós, quer no processo individual de autoconhecimento, quer nos padrões mentais e comportamentais que nos levam à integração da nossa própria história.
A auto análise e a redescoberta de nós mesmos nas potencialidades e limitações, estará sempre incompleta se não se fizer também no processo relacional, mesmo naquele que possa incomodar, porque é nesse incómodo que o Outro nos provoca sem saber, que somos interpelados a descobrir e interpretar o seu significado, tal como é na sensação de bem estar e identificação interior, que damos pulos e avanços na assumpção de que, afinal, há tantos como nós, em caos e dor, mas também na capacidade directa ou tácita de que juntos somos mais fortes e nos amparamos sem o dizer, em sensações profundas de uma humanidade que se constrói e partilha e aceita assim, devedora da afectividade e da entrega, e credora de tanta beleza no deserto da alma que julgávamos ser o fim... E tudo isto é que é ser homem, porque requer liberdade interior e humildade, irmos às nossas profundezas e sairmos de nós e dos nossos escudos medievais.
Sempre que nos recusamos a emoção e o sentir, estamos a bloquear afectos e aprendizagens, a capacidade de sermos mais pessoas, mais humanos, mais nós! É muito pouco inteligente aquele que reprime as emoções porque se auto limita e não cresce!
Existe a ideia de que ser homem é ser superior e autosuficiente, mas ser homem é estar acima da maledicência, das indirectas e invejas, é ser verdadeiro e inteiro, não temer quem fale pelas costas porque nada deve, é exprimir as suas emoções mesmo com lágrimas se for o que sente.
Não se trata dos serviços mínimos das defesas comuns para tapar fragilidades, mas daquelas que não nos permitem revelar a nossa própria condição, até porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si...
Muitos pensam que ser homem é ser um super herói, mas geralmente quem pensa e age assim, é porque é ele que está a precisar que o salvem...

16.11.20

MOMENTO




 

Podiam as asas servir-te de fuga e longe voares na doce mentira.

Podia teu rosto alegrar-se na chuva e docemente sentires o cheiro da terra.
Fazeres da noite o dia infindo que alberga o sorriso e destrói os porquês.
Mas há pássaros feridos no voo que fazes e rosas com espinhos a guardar o perfume.
E sóis doentes na cama das nuvens em meteorológica febre que te desalenta o andar.
Há preços altos em prestações doridas que julgavas saldados em tempo de amor.
E anjos caídos levantando no vento a poeira da alma que os sucumbiu. Das velhas dúvidas e eternas perguntas, terás apenas o caminhar solitário.
Sente a brisa em dia tórrido e a chuva em canção de embalar.
Ouve os gestos que se erguem de mãos sublimes, e sente nos olhares o que da dor as palavras não ousam.
Nobre é o serviço aos outros como quem reza na vida pelos sonhos que tem, e algum dia nalgum tempo, serás tu a curar as asas, dos que caídos te oferecem agora o que nunca sonhaste ser!

9.11.20

ESSÊNCIA E VERDADE




Tenho muito mais identificação e à vontade interior com os desnudos da vida, os feridos e os envergonhados, (não confundir com coitadinhos ou com os que se vitimizam ou com os que continuamente se lamentam numa espécie de reclamação ao contrário), do que com os fortalhaços sociais. Só a humildade do despojamento do ego e do abraço de alma, nos solta a confissão de quem verdadeiramente somos.

Temos um medo terrível de nos mostrarmos humanos, com as nossas fragilidades, mas não só é libertador, como pedagógico. Todos usamos defesas, mas quando se tornam tão fortes que nos escudamos em seres que não somos, é um oxigénio artificial que respiramos, é uma outra vida que vivemos. 

A ideia de sermos o super homem, quer com um riso constante onde nada nos parece afectar, quer massajando constantemente o ego e preferindo ser estóico a partilhar, além dos que usam a maledicência para tapar um orgulho monumental, pseudo cheios de si e achando-se inerrantes, desdenhando do que não gostam como se as suas preferências, gostos, ideologias ou credos fossem, obviamente melhores, e já agora incontestáveis, são, afinal, ignorantes da sua própria mediocridade, sem sequer o reconhecerem por terem endeusado o seu próprio ego, o que corresponde à imagem adolescente da imortalidade e invencibilidade.

De nada valemos se não formos pessoas autênticas, genuínas, com formação humana (porque há muitos iletrados que dão lições de humanidade a tantos doutores já automitificados e bajulados por outros tantos, que apenas os idolatram pelo crédito social), mas também há muitos letrados que sob a capa de muita cordialidade e simpatia invejam os pares...

Precisamos de nos desconstruir para sermos em plenitude, mesmo nos aspectos mais desonrados. Só os verdadeiramente grandes são simples e humildes, porque uma pessoa continuamente forte, segura e feliz, com maledicência, orgulho ou cínicos sorrisos sociais, ou idolatrando os que estão no podium ou são famosos sem cuidar que não é daí que advém o valor de alguém, algures perdeu a noção de quem é, na imagem que forçadamente quer dar de si...

2.11.20

DE CUJUS

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Celebra-se hoje o dia dos Fiéis Defuntos ("De Cujus", em terminologia jurídica). Ainda que mortos e, talvez por isso, dizem-nos consabidamente que o tempo é agora nosso, com ou sem covids.

Para isso, mais do que lembrar os mortos, é necessário reflectir sobre os vivos, e não na dor arrancada ao peito pelos que amámos e perdemos como se também uma parte de nós se tivesse extinguido, mas no juízo colectivo do socialmente correcto, nos cumprimentos e favores capciosos que fingem altruísmo e atenção, no passaporte obsessivamente carimbado com o visto da casa, do carro, do emprego e da família até à contracapa da reforma!

Se viver for isto, então mais do que lançar um olhar ao passado pela recordação sentida de quem amámos, há que atribuir-lhes o exclusivo da vida, porque se os mortos têm a natural legitimidade de nada poder fazer, nós temos a ínsita obrigação de saber morrer antes do dia final. Morrer não é extinguir-se, mas dar-se. E dar é um acto de amor, de criatividade e de Vida!

A questão que se coloca não pende para os que desapareceram do nosso convívio, nem para a dor que nos arranca a alma por já não termos quem amamos, mas para nós que continuamos o fado da criação, seguindo exemplos, moldando atitudes, aprendendo o erro! A experiência faz-nos! A morte também. Afinal, que catálogo de emoções seguimos nós, ao ponto de hipotecarmos a vida? A que prescrições sociais estamos nós restringidos? À lógica do racionalismo puro? À moral egoísta? E tudo isto para quê? Credibilidade social?

Nada vale do que teorizamos na metafísica do viver. Nada vale sem o amor inteiro e não pluri-partido, como uma baby-sitter que presta atenção a todos e a ninguém! Porque como o Sol irradia o seu brilho e fulgor sem se importar com a sensibilidade de quem passa à luz, assim o Amor deve fazer, sem cuidar do egoísmo alheio.

Muita gente foi ontem e vai hoje aos cemitérios, mas talvez, afinal, que muitos dos mortos sejamos nós.

25.10.20

DO VALOR PESSOAL INTRÍNSECO



Não valemos mais do que ninguém, e ao ver uma foto onde um senhor idoso, - o bispo emérito Casaldáliga de S. Félix de Araguaia, defensor do povo indígena, a beijar a mão de um nativo (como Cristo fizera lavando e beijando os pés aos apóstolos que, naturalmente, se achavam indignos de tal gesto pelo mestre) -, veio-me à mente o termo grandeza! Porque, efectivamente, não somos mais do que ninguém mesmo que achemos que sim! A grandeza está no sentido crítico sem o tornar um julgamento, no saber ouvir as partes sem ficar com a versão de uma, no dar crédito ao outro pelo que é e não pelo que tem ou aparenta ser, no sabermos descortinar as más intenções por detrás de encapotadas simpatias e falsas cortesias.
A grandeza está também no silêncio em não corresponder à provocação, está em dar sem fazermos notícia disso, está em elevar quem não recebe mérito mas tem muito mais valor do que tantos idolatrados sociais. Como este bispo reformado que beija a mão do indígena, porque tem a mesma dignidade independentemente das medalhas sociais.
A grandeza está em cair, sabendo que se levantará, está em estar prostrado por terra sem retirar o sorriso ou culpar o outro, está em conseguir levantar-se porque teve a humildade de pedir ajuda e também de não se vitimizar.
A grandeza está em saber que os amigos são demais importantes, porque a amizade é um amor sem o qual cresceríamos mancos, mas também em ter a noção de que mesmo que nos deixem ou sorrateiramente se afastem até ficarmos só com cinco, dois ou nenhum, o nosso valor dependia de nós, e que, se se afastam, o problema foi deles, ou da inveja, ou da falsa genuinidade.
A grandeza está em apanhar uma carga de água até fazer um raio de sol sem maldizermos o mundo por isso, e de novo sorrirnos ao vermos ao longe no caminho alguém como nós...

19.10.20

DA IMPORTÂNCIA DO SORRISO

Adicionar legenda

Celebrou-se há dias, o Dia Mundial do sorriso, cuja importância é tão grande, que passa pelos benefícios orgânicos e psicológicos que traz, como a diminuição do stress, da tensão arterial, aumento da autoestima, produtividade, fortalecimento do sistema imunitário e por aí fora, e daí a necessidade de falar dele, porque a verdade é que devemos dar gratuitamente o que gratuitamente recebemos, e há sempre muita gente fechada nos mausoléus do ego. Não advogo nenhum sofrimento gratuito ou qualquer forma de estoicismo, mas, além de sabedoria de vida, gosto daqueles que sabem relevar sem desresponsabilizar, dos que encolhem os ombros com um sorriso, como quem acaba de perder um comboio ou fica ensopado com uma inesperada chuvada mas sem maldizerem o mundo por isso.
Precisamos de lembrar de que só valemos pelo que somos e não pelo que temos. De que apenas nos realizamos com o Outro, de que sozinhos, como diz um provérbio africano, chegamos mais depressa, mas não mais longe. E esta interiorização da vida, dolorosa, sim, não nos torna mais felizes por isso, mas a consciencialização dos factos é sempre meia resolução do problema.
Nunca gostei de quem reclama como se tivesse o primado de ter de ser mais feliz do que os outros, como se fosse imperativo que nenhum escolho pudesse haver no seu caminho, mas também aqui entra a humildade da condição humana, já que, paradoxalmente, um caminho sem problemas é, em si, indicação de que não é esse o caminho. Haverá sempre chuva e sol, dia e noite.
Um sorriso mesmo que triste, ou um silêncio como quem digere o problema, um atender ao outro como quem se acolhe a si mesmo, são apenas formas possíveis das beligerantes opções comuns. Não como quem não se insurge ou se resigna, mas como quem não gasta energias com o inevitável, quando o é!
É no abraço universal que beijamos a alma, e é com essa atitude do sorriso que o coração canta a dor e a exorciza. Só é preciso não desesperar, não tomar a contingência pelo definitivo, não afiar o dente nem maldizer o mundo, e sentir que muitas vezes a paz está no silêncio que não fazemos e no sorriso que não damos...
Entretanto, o humor é, além de um bálsamo, uma forma de exorcizar os dramas e as inevitáveis contrariedades que a vida traz, além de ser fonte de higiene mental, mas não deve ser confundido com ausência de problemas! A paz é aquela que se consegue no meio da luta, e os sorrisos são um encorajamento de alma, um vitamínico anónimo de amizade, e, vale muito mais do que os lamentos...
É sempre na doação de nós mesmos que a vida acontece, não nos austeros perfis ou pomposas atitudes que assumimos em exageradas defesas de comunicação...
Dizia Sebastião da Gama, "venha daí esse abraço!" Essa é a simplicidade que muitos não conseguem ter, a verdadeira elegância que tantos confundem com as roupas ou o tratamento reverencial como que a fazer valer medalhas ou títulos, como se fossem um bocadinho mais do que os outros. Mas não são. Existe uma vaidade encapotada na afirmação do distanciamento interior.
O sorriso é como que um irmão da simplicidade, porque abraça, suaviza e comunga. Um sorriso, tal como uma palavra ou um abraço, pode salvar vidas e mitigar sofrimentos. Charles Dickens tem uma expressão fabulosa ao dizer que "ninguém pode achar que falhou a sua missão neste mundo, se aliviou o fardo de outra pessoa." E por vezes basta um sorriso.
O sorriso
🙂
é só outra forma de abraçar...

11.10.20

DIA MUNDIAL DA SAÚDE MENTAL


Celebrou-se ontem o Dia Mundial da Saúde Mental, e quando se fala sobre a gestão do stress, costuma dizer-se que não é o peso absoluto de uma coisa que conta, mas o tempo que a seguramos! Quanto mais tempo seguramos um objecto, mais pesado ficará, i.e., quanto mais tempo nos preocupamos, maior será o fardo! E não necessariamente do peso, mas da exagerada importância que lhe damos. Como quando chove e, enquanto uns se molham, outros apreciam a chuva. O que mudou não foi a chuva, aqui exemplificativa do problema, mas a atitude perante ela...
Outro ponto extremamente importante quanto à saúde mental, são as emoções. As emoções não são boas nem más. Dizem-nos apenas o que se está a passar connosco: são sinais, alertas. A gestão emocional também passa por aqui: escutar o que nos está a dizer aquilo que sentimos. Umas vezes sabemo-lo intuitivamente mas fazemos uma negação; outras vezes descuramos com o argumento de adiar, mas é importante aprender a viver afectivamente bem connosco mesmos, e sempre que recusamos a emoção e o sentir, estamos a bloquear afectos e aprendizagens, a capacidade de sermos mais pessoas, mais humanos, mais nós, estamos a entrar no caminho fácil de não nos querermos conhecer e muito menos trabalhar, porque requer desconstrução para nos voltarmos a construir. É muito importante actualizarnos as nossas decisões. A questão não é deixar de sentir, mas saber o que fazer com aquilo que sentimos e reconhecer a necessidade que representa e não queremos ter. Mas está lá.
Um sentido autocrítico, o simplesmente ser, a capacidade do riso (não é por acaso que muitas empresas mesmo entre nós têm workshops do riso e começam logo de manhã com sessões de meia hora), a doação (através do amor, da amizade, da entreajuda e da partilha), a capacidade de relevar e esperar, a noção de que nem tudo depende de nós, etc., são tudo fonte de higiene mental, neste dia que lembra a sua incontornável importância, a começar nos bloqueios afectivos autoimpostos mesmo sem sempre o consciencializarmos...
A saúde mental requer a higiene que nem sempre temos, reféns que somos de crenças e perspectivas que tomamos como absolutamente certas só porque achamos que sim! Sem ferramentas tão simples como a humildade e a autocrítica, forjamos a realidade e dizemos que é ela que nos engana, precisamente porque no jogo de espelhos onde só nos queremos ver como super homens, está estampada a limitação que recusamos ou que nem sequer temos a capacidade de a perceber...