2.4.20

DIA MUNDIAL DA CONSCIENCIALIZAÇÃO DO AUTISMO

O verdadeiro autismo (cujo dia mundial da consciencialização para este problema se celebra hoje), não é o distúrbio neurológico que compromete a interacção social, a comunicação e induz o comportamento restritivo e repetitivo. O verdadeiro autismo ,é quando nos agarramos a crenças mentais, onde, faltando autocrítica e humildade, passamos a tornar real aquilo que apenas achamos que é. Mas não só.
Ser autista é sempre que nos recusamos mudar, cometendo imperfeições e injustiças mas justificando-as, - sob pena de um dia o barco afundar -, queixando-nos recorrentemente porque é que fazemos tanto esforço a remar sem o barco sair do mesmo sítio.

Austismo, é quando nos achamos donos da razão, quando não calçamos os sapatos do outro, quando formulamos juízos higiénicos sobre realidades complexas que requerem maturidade e sensibilidade para as podermos entender. Austismo é achar que podemos prescindir do Outro, autismo é não amar e compartimentar-se na ilusão do ego. Autismo é não vermos a realidade como ela é, é preferir o conforto do suficiente ao desinstalar da excelência, o políticamente correcto à genuinidade do ser.
Há uma imagem onde uma pessoa tenta remar na direcção oposta ao de uma pedra que, com o seu peso, impede o barco de prosseguir. É uma boa imagem a chamar à colação, porque, autismo, é quando a pedra somos nós...

DIA DO LIVRO INFANTIL



Também hoje se comemora o dia do livro infantil. A "Fada Oriana" é o livro que mais retenho de quando criança (penso que o primeiro que li foi o "pequeno Polegarzinho")! Com a assinatura de Sophia de Mello Breyner, foi um livro que me tocou, tal como a série dos 15, e mais tarde Charles Dickens ou o impressivo e comovente conto de Oscar Wilde "O Príncipe Feliz"!
Num mundo cheio de estímulos avulsos e vazios, as crianças hoje não se envolvem emocionalmente com os brinquedos, e é por isso que querem sempre mais e metade vão para o lixo ou não ligam nenhuma: não houve essa apropriação afectiva que nós tínhamos dada a raridade de abundância que, neste caso, era uma bênção. 

Oxalá os pais soubessem educar os filhos na medida exacta do que devem ter, contemplando a tecnologia ou a televisão qb sem descurar a importância, a descoberta e o encanto dos livros, tão pedagógicos e apropriados às idades, desenvolvendo aptidões e estimulando a imaginação, a criatividade, a empatia e o sentido crítico, que nos jogos de vídeo e nas aplicações de telemóveis apenas sugerem artificialmente o desenvolvimento...

1.4.20

O DESTINO NÃO ESTÁ NOS ASTROS



Este podia ser o horóscopo do mês de Abril que hoje começa. Não são as estrelas e os planetas que afectam o nosso modo de vida, como diz a astrologia; são as nossas acções, as nossas palavras, as nossas atitudes e também a ausência delas, porque também se faz muito (para o bem e para o mal) mesmo não se fazendo nada.
Não são os astros que nos dedicam um mês fértil, propenso ao amor ou realização profissional; são os circunstancialismos que não dependem de nós, mas sobretudo as nossas acções e omissões, que dependem só do que decidimos (ou não) fazer. De resto, o silêncio não deve ser confundido com a inação. Há gestos que valem mais do que palavras e as atitudes valem sempre mais do que as intenções.
O mesmo com o karma. Não existe karma nenhum que não o pedaço que cada um de nós inevitavelmente carrega, fruto da própria condição humana. As estrelas não se conjugam a nosso favor nem contra. O karma são os outros e nós mesmos quando não temos lucidez bastante, humildade suficiente, inteligência que baste... O resto somos nós a arranjar desculpas... e a vida.

25.3.20

COVID 19

Tão importante como lavar e/ou desinfectar as mãos, em particular neste tempo de Covid 19, é ter uma boa higiene mental, confinados que estamos ao espaço, e com o aumento do nível de ansiedade, provocado também pela incerteza e pelo medo. Podemos manter uma vida praticamente normal, salvaguardadas as restrições conhecidas, se mantivermos rotinas, ainda que adaptadas, mas também usando mecanismos visando diminuir a ansiedade ao invés de a aumentar, bem como comportamentos simples que passam, por exemplo, por não estar constantemente a querer saber notícias, que, naturalmente não são boas, mas são decorrentes de uma lógica normal instaurada por um vírus desconhecido.
Uma das ferramentas para não agudizarmos a situação que se vive, é a de estarmos informados genericamente sobre o que se passa, particularmente as orientações da direcção geral de saúde e das autoridades locais, sem querermos andar a contar estatísticas e o número diário de infectados, recuperados e mortos em cada país. É uma obrigação que cabe aos media, mas devemos ser parcimoniosos no consumo continuado de informação ao minuto, não apenas porque aumenta a espiral de ansiedade e agudiza os casos de depressão numa altura em que os nossos mecanismos de defesa já se encontram automaticamente em estado de alerta, trazendo nervosismo e stress acrescidos, como porque não nos permite a normalidade possível durante estes tempos que requerem estratégias pessoais e colectivas de redescoberta, avaliação e tranquilidade.
Outras ferramentas para serenar as preocupações que todos vivemos, vão desde a espiritualidade, à própria racionalidade (ter a noção exacta do perigo, dos grupos de risco, de que não se apanha o vírus pelo ar, de que as indicações gerais das autoridades de saúde, sendo cumpridas, não podemos fazer muito mais, de que mesmo que alguém fique infectado, depende se falamos de grupos de risco geralmente com patologias diversas e sistemas imunitários fragilizados levando muitos ao óbito por esse motivo e não pelo vírus em si, não sendo nenhuma sentença de morte nem doença oncológica para quem não pertence aos grupos vulneráveis), e além da espiritualidade para uns, da racionalidade para outros (que inclui não ficar aterrorizado se se faz um passeio higiénico ou se vai passear o cão), há outras formas de resgatar a paz interior, seja pela oração, pelo mindfulness, yoga, práticas de respiração, de relaxamento muscular, do mero exercício físico, leitura... sem esquecer o que há pouco referi, em que, uma coisa é estar actualizado no geral, outra é querer saber notícias de meia em meia hora.
Pessoalmente, preocupa-me muito mais a debilidade do tecido económico financeiro do país nos próximos tempos, com a incidência particular nas famílias que passarão ainda mais dificuldades, do que aquilo que se está a passar agora nas nossas práticas redobradas de higiene e algum distanciamento grupal e social requeridos. Ter o foco noutras latitudes da nossa vida, que não apenas o vírus, é tão mais salutar e higiénico, porque vivemos tempos onde sem relativizar mas também sem dramatizar, compete a cada um de nós pôr em prática, mais do que nunca, todos estes mecanismos de gestão pessoal do stress, e aproveitando a oportunidade para tanto que reclamamos nunca ter tempo, reinventando-nos no autoconhecimento e no diálogo interno sobre o que são perigos reais, o que estamos a aumentar, e que energias estamos a gastar em vão, quando as podemos usar para a qualidade de vida agora mais diminuída mas não impossível.
A mudança vem sempre de dentro, também na nossa forma de agir e pensar, de deixar fluir as emoções, de reequilibrarmos as variáveis às nossa volta pelas diversas ferramentas (e outras que cada um encontre).
A um nível mais universal, fica uma palavra para a reflexão de que estas coisas nos devem levar a fazer, como a ideia falaciosa de que temos sempre controle sobre tudo, de que somos deuses, invencíveis, e que não podemos parar porque a vida é um ramerrão sem descanso e onde não há tempo para nada. Pois agora há. Saber usá-lo, sem ser como se fossemos súbitos jornalistas, é inteligência e qualidade de vida, primaziando muito do que fazíamos antes da epidemia, descontadas as limitações, e não em correntes nervosas de que temos de ficar bem. Claro que vamos ficar bem. Nem o vírus se extinguirá. Aprender a gerir tudo isto parece hercúleo, mas não é. Eu, que já por natureza uso muito as tecnologias via tlm ou PC, e, por isso, com frequência revisito, por exemplo, o Facebook, não deixo de usar o humor e o tipo de postagens de reflexão, fotos ou imagens, primaziando a naturalidade possível ao invés de continuamente lembrar uma situação em que todos, por demais, sabemos que estamos. O humor, é, à semelhança das sugestões há pouco referidas, apenas outra ferramenta para lidar com as situações, sem as minimizar mas também sem lhes conceder o exagero do pânico ou da paralisia pelo medo.
O contágio da higiene mental é imperioso, onde, além das várias estratégias que referi e outras que cada um vá adoptando, possamos interiorizar que aquilo que fazemos tem sempre repercussões, de que, ao contrário dos individualistas, somos seres sociais, somos seres relacionais e estamos sempre todos comprometidos...

21.3.20

DAS DIFERENÇAS




Monumentos e testemunhas vivas de solidão, alegria e esperança, comemora-se hoje o dia nacional da árvore, mas é, também, dia internacional da trissomia 21 e da luta contra a discriminação racial! Mas podia ser sobre divorciados, mães solteiras, ciganos ou homossexuais! 

O preconceito é um estigma que nós criamos, uma visão deturpada reveladora da ausência de formação humana e, é por isso que, na verdade, os deficientes somos nós!

20.3.20

DIA INTERNACIONAL DA FELICIDADE




Comemora-se hoje, 20 de Março, além do início da primavera, o Dia Internacional da Felicidade, e embora pudesse aqui elocubrar sobre os seus índices, estudos e variantes, cinjo-me ao essencial: de que embora o dinheiro possa trazer conforto e alegria, ou uma momentânea felicidade, a verdadeira é insusceptível de avaliação pecuniária, porque a Felicidade é Amor. É sentir que caminham connosco, que somos compreendidos e desejados, é beijar um cão, é ser abraçado, é ter o coração a palpitar de esperança e de sonhos, ver o mar e a lua, o nascer do sol, secar uma lágrima, rirmos desbragadamente inocentes sem clichés sociais do politicamente correcto, ajudar o Outro, fazer caminho com pessoas inteiras, partilhar, ouvir a noite, oferecer e receber um sorriso, uma mensagem... 

É sempre nas coisas simples que se encontra a felicidade.

Muitos há que trabalham e lutam pelo sucesso, mas esquecem-se de que este é apenas uma componente da felicidade, essa que se encontra sempre na Presença, na Partilha e no Amor...

18.3.20

GUERRAS INVISÍVEIS

Excepcionalmente coloco uma foto que não é minha, mas de um fotógrafo de guerra, de há três anos. 

Tratava-se de alguém com 70 anos, que ouvia calmamente o gramofone que restou do quarto em Alepo! 

Hoje, a guerra continua assim por aquelas bandas, mas embora a "nossa" seja invisível, confinando-nos ao espaço da casa, é igualmente uma metáfora de tantos quartos interiores, onde os viventes somos nós!

8.3.20

DIA INTERNACIONAL DA MULHER



Tecnicamente, não devia ser preciso existir o Dia Internacional da Mulher que hoje se comemora, porque antes de mais a igualdade é intrínseca ao género humano, como a cor, a raça, orientação sexual, condição social! Mas já que ainda estamos atrasados em preconceitos (a desigualdade é um preconceito, apenas) então que se usem estes dias para o lembrar.

Sobre a mulher, acho lapidar esta frase de Simone de Beauvoir: "Não se nasce mulher! Torna-se!" Ainda assim, acrescentaria que podem sempre ser senhoras!

O resto, ter de haver "dias de..." são resquícios de uma sociedade no seu lento processo de civilidade e humanização...

3.3.20

LER OS OUTROS

Precisamos de saber ler nos outros as lágrimas escondidas, e as forças ocultas, as solidões disfarçadas, e as alegrias contidas!
Nas torrentes energizadas dos encontros, nas saídas onde estão todos e ninguém, há sempre um clamor que passa ao lado dos sensores internos, como uma baby sitter que, de ter o olho em todos, acaba por não ter em ninguém!
Mas as crianças estão vigiadas e saem ilesas de mais um dia, mesmo que não lhes tivessem percebido um outro sentir, outra postura mais macambúzia, ou sintomaticamente mais agitadas!
Assim são as variações emocionais no ramerrão da vida, olá bom dia tudo bem obrigado, e a chuva só se vê por dentro pintada com um sol garrido de muita alegria e actividade.
O tempo. Esse é outro espaço para a solidão da vida, sempre ocupados com tanta coisa que, no fundo, é uma manta que não tapa, mostrada como altivas cortinas de seda em cores clássicas e pomposas que escondem o pátio interior, envergonhado de tão pouco, uns suspiros, umas dores, uns pequenos feitos, e que, afinal, são o terraço para o mar onde o horizonte está num olhar, numa mão que dá, num abraço que aconchega!
Gosto de sentir a alegria dos simples, o riso de quem não dramatiza a sua própria dor, como se dissesse a si mesmo "shhhh, está tudo bem" e prosseguisse confiante na sua própria fragilidade!
Dos que olham e vêem, e sentem e dão. E no estertor de tantas vidas, encontram o caudal onde também se banham, envergonhados é certo, mas sempre prontos na prossecução da caminhada, cheia de sol e de luz, de amor e solidão, em canteiros diários que vão deixando a quem passa, sob a forma de um sorriso ou de um olhar, de uma palavra ou interjeição, rompendo com o anonimato de que só estamos disponíveis para quem conhecemos bem.
Gosto desses sem credenciais, os que nós intuímos como o Outro, e quebramos barreiras que nunca seriam desfeitas, como turistas muito agradecidos quando se lhes dão palavras abertas de circunstância. E não só.
E o mundo faz-se luz da noite vencida assim, onde, sem ingenuidade mas com inocência, deixamos de ser presença ausente a tanto alguém como nós...

26.2.20

QUARTA FEIRA DE CINZAS



Hoje é 4.feira de Cinzas. A História da Humanidade tem tanto de heroísmo como de cobardia. Certo é que serpenteamos entre a ética e a coisificação; entre o amor e o poder;
Para muitos, o tempo quaresmal que hoje se inicia ("lembra-te que és pó e ao pó hás-de voltar" e, por isso o nome de 4.feira de cinzas), e que culmina no Domingo de Páscoa, é simplesmente desconhecido. Iliteracia religiosa. Mas reveste-se para os crentes de especial significado. Cristo soube fazer a denúncia do achincalhamento da dignidade humana sem se render aos poderes instituídos, políticos e religiosos embora também sem os desrespeitar. Geraram-se grupos à sua volta que o apoiavam como o libertador de querelas políticas, mas Cristo sabia ler acima das minudências e manigâncias. Diz que somos seres humanos com toque do divino, sem no entanto desrespeitar a hierarquia existente ou convidar à insurreição. Mas não pactua: denuncia. E soube denunciar com frontalidade e coerência ao ponto de perder amigos, como previra com a negação de Pedro ou a traição de Judas!
António Damásio, o neurologista e neurocientista português conhecido por obras como o "Erro de Descartes" e que trabalha no estudo não só do cérebro mas, sobretudo das emoções, fez ontem anos, e Jesus Cristo é um belíssimo exemplo de inteligência emocional, sabendo perceber a necessidade do outro e de calçar os seus sapatos, havendo autores que escreveram precisamente sobre isso, analisando a sua inteligência e sensibilidade, a sua empatia, já tão avançados na altura e ainda tão descurados hoje...
Perguntaram a várias crianças o que era o amor, e Max, uma criança de 5 anos, respondeu: "Deus poderia ter dito palavras mágicas para que os pregos caíssem do crucifixo, mas ele não disse isso. Isso é amor".

25.2.20

DO CARNAVAL

Não ligo particularmente ao Carnaval, mas como tudo, este dia como interregno lúdico e livre que é, não passa da representação de uma sociedade no que seria se se declinassem as normas.
A máscara tem o sentido catártico de uma disciplina socialmente imposta. As personagens que representamos, confundem-se no real e no imaginário, porque tanto somos aquilo que pensamos ser, como as personagens que apenas pensamos representar.
Neste nevoeiro do conhecimento, todos os dias temos os mais variados corsos, onde o papel principal é sempre o nosso. Daí que o dia de carnaval seja hoje uma mera festa pública, porque a verdadeira, a genuína e formal, é aquela em que os carros alegóricos (pessoais ou colectivos) passam todos os dias por nós.
Entre a defesa e a hipocrisia, entre o real e o intencional, as máscaras são produto de personalidades prensadas no despotismo de muitos. Neste aspecto valorizo os simples, a simpatia do riso, a desresponsabilização salutar por tantos males do mundo! E esses sim, sabem brincar. Sem precisar de corsos ou trajes forçados. O homem médio é, sem dúvida, o mais feliz.
De resto, a brincadeira despreconceituosa e simples do quotidiano, o humor e a alegria, são imperativos, numa sociedade tão dada ao formal, ao poder, ao status e ao dinheiro, como se apenas legitimassemos o ar pomposo e descredibilizássemos a simplicidade do ser.
Sou dos que liga muito pouco à quotização intelectual e ao socialmente correcto! E quanto mais verifico isso nos outros, mais me afasto deles! Que seja carnaval, carnaval sem máscaras pessoais, essas onde as pessoas são os seus próprios campos de batalha...

23.2.20

DAS MÁSCARAS

As sombras são sempre o que somos e guardamos. A perfeição só existe quando assumimos a nossa própria fragilidade...

No entanto, inculcámos em nós esta convicção do mais, de que podemos sempre mais, da eficácia e da força, do ser mais e ter mais, da competição tácita, do tempo ocupado! Mas não há qualidade de vida nem de tempo, sempre que deixamos de ser verdadeiramente nós, e é isto que nos traz ocupados e interiormente indisponíveis, esgotando-nos até ao limiar do precipício. Somos vítimas de nós mesmos sempre que não sabemos respirar a alma. E viciosamente encontramos argumentos e desculpas para o nosso próprio vazio!

As pessoas muito arrumadas, a puxar ao crédito social, podem ser belíssimas pessoas, mas falta-lhes a capacidade de conseguirem ser elas mesmas onde todos se abrilhantam, a coragem de serem o que sentem. As pessoas interiormente livres, não precisam de esperar pelos cânones sociais para aplaudir quem gostam, os "marginalizados" ou o que fica mal fazer. E são também as mais felizes... porque elas mesmas dão expressão ao seu próprio sentir...

As verdadeiras máscaras, as que usamos tão coladas à pele que já as confundimos com quem somos, são as que mais doem, seja por imperativos sociais, por medo de rejeição ou por receio de enfrentar os nossos próprios medos, mas só passando pela noite mais escura chegaremos a ver o sol...

14.2.20

AMAR-(SE)

Saber precisar daquele que amamos, pode ser uma prova de amor, mas a primeira prova de amor é sempre connosco mesmos, e sempre que não nos amamos o suficiente (não como quem se idolatra mas como quem se dignifica), ficamos reféns de um príncipe ou princesa que pode não apenas não existir, como nem sequer ser melhor do que nós! E da nossa necessidade de amor e protecção, nascem valorações exageradas ao outro, muitas vezes diminuindo-nos, quando, afinal, somos grandes, e aumentando a importância que o outro pode não ter!

Somos seres relacionais e só nos realizamos na partilha e na comunhão com o Outro. É o Amor oblativo e universal, tal como o romântico, que dá razão à existência...
Estarmos nos braços e no coração do outro, vem das necessidades mais profundas de vínculo e protecção, mas facilmente nos desvalorizamos sobrevalorizando o outro, que tanta vez é mais um apego do que uma identificação. E neste caminhar, precisamos também de aprender que, no fundo, somos seres solitários, precisando do outro, sim, mas não devendo emprestar ao tempo uma espera por alguém que verdadeiramente nos ame, se nós não formos os primeiros a conseguir essa própria construção...
Seguir o Amor é lindo e necessário; mas só se nos soubermos amar também a nós, porque muitos amores são apenas um afago do ego...
E se tivermos a sorte de sobrevir esse Alguém, de nunca hipotecarmos a felicidade numa imagem construída do que gostaríamos que fosse e não do que verdadeiramente possa ser, dando a esse Amor o que merece e partilha, mas sem nunca endeusarmos o objecto dessa entrega, sob pena de mendigarmos algo cuja riqueza, afinal, está em nós...
É que, se não tivermos para nós, também não poderemos verdadeiramente dar aos outros. E então sim, o Amor torna-se dádiva e entrega, porque nenhum vale mais do que o outro: é que, só tendo para nós , podemos igualmente dar...
Coisa diferente é o receio de amar: podendo estar ligado a experiências negativas ou ao medo de vir a ser traído ou abandonado, deve, porém, ser ultrapassado, porque amar implica sempre algum sofrimento e tensão, mas também o seu de reverso de liberdade e realização...

2.2.20

EQUILIBRIO


Como se define uma pessoa se o exterior é tantas vezes a antítese do sentir? Há solidões disfarçadas, mansões desabitadas, cruzes que se carregam sem ninguém imaginar. Pode até parecer patológico, mas são apenas defesas propostas pelo inconsciente para mascarar a própria fragilidade. Precisamos mais do Outro do que supomos, mas se não houver silêncio interior suficiente nesse Outro e se da inteligência lhe falta a sensibilidade, os nossos ecos estarão perdidos até que tomemos ao colo as nossas dores, não para as expiar, mas para nos suprir essa carência latente mas sempre velada.


É que também o Outro não pode tomar as nossas dores, e o nosso crescimento seria débil e dependente, num ciclo de vaidade e soberba intelectual camuflado em miséria e tristeza. Os sentimentos mais nobres geralmente são os que se intuem, porque tal como um pobre envergonhado, dificilmente exporá em praça pública a sua condição, porque a sua dignidade não está comprometida. E, é também por isso, que a inteligência sem sensibilidade é um mero instrumento ao uso da razão. Ou seja, todos estamos comprometidos. Ou ainda, como diz Pessoa "ser austero é não saber esconder que se tem pena de não ser amado".

Precisamos de estar connosco para crescermos, mas não nos podemos separar do Outro para continuar e evoluir! Porque o verdadeiro alimento não está mais em nós do que no outro, nem mais no outro do que em nós. E é nesse equilibrio que nos precisamos de dar e de ser...

1.2.20

DISFUNÇÃO EGÓTICA

O excesso de confiança é proporcionalmente negativo a quem tem falta dela! Mas se no segundo caso requer a consciência do valor pessoal e intrínseco que cada um tem, mesmo que pense que não e que é algo que se deve trabalhar, é o primeiro caso que mais grassa. Cheios de nós, presunçosos de que conseguimos muito e sabemos tudo, endeusada a razão e o ego, facilmente se cai na vanidade, na soberba intelectual e na arrogância, mesmo que facilmente se disfarce a coisa.
A formação humana será sempre a melhor forma de aferir do valor de uma pessoa. Sem um sobrecentramento narcísico, importa reconhecermos que a realização pessoal passa sempre pelo Outro, mesmo os desconhecidos. Caso contrário, seremos egos balofos, julgando encontrar no espelho a realização que só a partilha pode dar!

21.1.20

DIA DA TRISTEZA E DO ABRAÇO

Hoje é o dia da tristeza e o dia do abraço. A tristeza, apesar de a querermos sempre negar, é uma tensão de equilíbrio e, por isso, saudável, quando não se prolonga para além do motivo que a provocou - pode também aparecer sem hora marcada, nem dia, nem sequer motivo ou circunstância - e, recusá-la, será sempre um erro. Precisamos sempre de reconhecer e aceitar as nossas emoções. Tal como chorar parece ser para fracos, a verdade é que, quem se permite fazê-lo, nem que seja só porque está triste ou porque se emocionou com um filme ou qualquer outra situação, é psicologicamente mais forte...
Mas hoje é também o dia do abraço, e ele é saudável, necessário, fraterno, amigo, terapêutico e motivador! O abraço, como o sorriso ou o beijo, será sempre catártico e retemperador para quem dá e para quem recebe, e não é por acaso que existe também terapia pelo abraço! E porque precisamos de ir além dos preconceitos sociais, e de tantas vezes sentir mais e falar ou teorizar menos, aqui fica um abraço, longo e apertado, sentido e grande, a todos os que me visitam por aqui 

18.1.20

DIA DO RISO

Celebra-se hoje, o Dia internacional do Riso, e o riso é uma arma poderosa. Não porque existam sempre motivos para rir, quando tantas vezes é exactamente o contrário, mas porque o riso é uma terapia. Existem empresas, também portuguesas, que começam o dia com uma sessão de meia hora de riso, mais ou menos orientado, o que parece ridículo, mas leva a que, necessariamente, a predisposição (e, com ela, a eficácia laboral), acabe por ser outra.
Quando rimos, atiramos para longe a carga emocional e psicológica do sofrimento, abrindo comportas de oxigénio para a alma, também esta constantemente invadida pela poluição humana da sobrepreocupação, do quadrado da existência, do ruído, da ansiedade e da urgência.
Esta higiene mental do riso, é, também, saúde pessoal e colectiva, porque se contamina com humanidade, o que outros cospem com acidez e frustração.
Somos todos mortais, de nada vale afiar o dente em modos de vida desiguais, nem confundir a aparente felicidade com um modo de encarar a vida.
Muitas vezes a dor é forte, o pessimismo é terrivel, o desalento mata os sonhos, a solidão destrói e encarcera, e em tudo isto, a resiliência, a capacidade de superar e acreditar, a entreajuda e essa formula mágica que é o amor nas suas diversas manifestações, têm um papel crucial na noção nem sempre presente de que a vida é dinâmica, e de que muito do que teorizamos e planeamos, acaba por acontecer ao lado ou nem acontecer.
Saber rir, está longe de representar uma pessoa feliz, antes alguém que não faz pagar o mundo pela parte que lhe coube, e que relativiza artificialmente o seu próprio sofrimento, exorcizando-o!
É certo que o crédito social costuma estar associado a um ar mais pomposo, austero ou obtuso, mas são estas disfuncionalidades sociais que enclausuram e bloqueiam, já que recalcamos a emoção por interditos sociais, e isso não apenas é uma desinteligência, como um atentado, sem falar nas consequências práticas dessa rejeição auto imposta...
Estar alegre, não é estar necessariamente feliz, mas carregar com um sorriso libertador, aquilo que a vida não faz por nós...

13.1.20

O MILAGRE DE SER

Os milagres acontecem, por mais que racionalizemos tudo. E, o mais curioso, é que acontecem nas coisas mais simples e imperceptiveis. Sem sensibilidade para elas, a inteligência é um instrumento cego e insuflado de vaidade, porque nos torna o criador e não a criatura!
Gosto de saber que nem tudo é efémero, volátil, ao sabor das modas! Gosto de saber que as coisas não são só boas enquanto duram, que cada um pode fazer do momento a sua própria eternidade! Não me assusta a constância das coisas se nela houver a possibilidade, não apenas do erro, mas do desvio criador, do riso que se solta para aligeirar e suportar o drama, da palavra que desinstala do bolor interior. De saber que podemos surpreender e ser arrebatados à novidade que não conhecíamos. Gosto dessa constância, que, não deixando de ser dinâmica, nos marca como seres distintos e únicos, porém tão iguais nas necessidades psicológicas de amor e compreensão, de segurança e conforto! Precisamos de aprender com os erros e não de os legitimar, de abraçar e não de ferir, e de instigar sempre no outro a aceitação do novo e do recomeço pela desconstrução do próprio eu!
A fatalidade pode existir nas coisas que acontecem, e o desamor nas atitudes que possamos tomar, mas nenhuma felicidade se constrói sobre as cinzas que deixámos nos outros; as nossas acções podem ser tão graves quanto as nossas omissões, mas não saem das nossas mãos, cuja génese é dar e receber, apaziguar e acalmar, abençoar ou a esconder, nem o coração o sente assim; esses sim, são momentos de prova, mas momentos, e não a constância da perenidade que quisermos ter! Precisamos de educar nos outros a veleidade escondida em nós, e de ser firmes na exigência do amor: esse que não é uma tolerância ao erro ou um arrastamento da passividade.
Só com um amor firme mas suave, nos amaremos a nós mesmos, e estaremos em condições de perceber que também a vida espera muitas vezes mais de nós. O resto são falácias do ego em atitudes constantes de um alter ego que muitas vezes nem sabemos ter...