31.12.09

2010


Nestes últimos dias tenho tido preocupações e afazeres, sem falar numa ajuda de última hora que me ocupou muito do meu tempo, o que me provoca a tal indisponibilidade interior de que vos falava no penúltimo post. Só ontem me apercebi que hoje era dia 31. Não pensava, sequer, voltar aqui antes do ano novo. Mas a minha mensagem essencial de Ano Novo caso não viesse antes, ficou dita no post anterior. Felizmente tenho amigos que me deixaram tantos comentários, o que suavizava o meu peso por estes dias e desobrigava de alguma forma de escrever novo post, mas já que consegui chegar aqui, quero de forma mais intimista do que a mensagem anterior, fazer também os meus particulares votos de Amor e Amizade. Não vos desejo muita alegria e passas e champanhe e música e dança e com notas na mão em cima da cadeira, não apenas porque tudo isso vos está já garantido, como porque tudo se esfuma nos primeiros minutos de 2010. Venho antes desejar aquela felicidade que se tem ao longo do ano pelos pequenos gestos de partilha e entrega que perduram, quer nos momentos de alegria, quer nos momentos mais sombrios, porque a felicidade é sustentada nos pequenos gestos, e a alegria é um estado passageiro que amanhã já não se dá por ela. Seja 2010 esse estado de Felicidade na partilha e entreajuda porque só assim se pode ser feliz. É esta Felicidade que vos desejo em cada dia do ano que vem.


Um FELIZ ANO NOVO!



29.12.09

VAI HAVER UM ANO NOVO?


O novo ano não é um ano novo. É a continuidade da vida com um interlúdio festivo. Não mudamos porque o ano seja novo! Mudamos porque a vida nos bate na cara, ou porque a nossa inteligência e o nosso amor nos dizem que devemos ser mais humildes aqui ou mais reivindicativos acolá, mas sempre mais humanos! E ser mais humano não é deixar cair os nossos legítimos interesses e direitos, mas usá-los como quem sabe que possui uma força que deve ser habilmente conduzida, e não uma verborreia de impropérios que apenas nos satisfaz momentaneamente. Há que ter horizonte na relação pessoal com os outros e connosco mesmos. Devemos querer ver para além do nevoeiro que talvez em determinadas circunstâncias até tenha sido um porto de abrigo, fazendo-nos pensar naquilo que de outra forma não reflectiríamos. De uma vez por todas clamemos pelo autoconhecimento abstraindo-nos daquilo que pensamos ser, para procurar com autenticidade o que somos de facto. Talvez não fosse mau sabermos que só somos bons porque fazemos algo de sentido e não forçosamente útil. Porque só assim podemos cumprir a missão de nos realizarmos no que queremos e podemos fazer, e não apenas porque achamos que devemos fazer.

Mesmo sabendo que muita gente gosta de gumes afiados, e mesmo sabendo que aprendemos com os outros a ser assassinos da condição humana, há que continuar a acreditar e a não seguir esses exemplos. Agir com responsabilidade, humanismo e sensatez, como quem sabe que qualquer actuação interfere - ainda que não se queira -, com a vida dos outros. Por actos deliberados e puras omissões. Dizermos que não fazemos mal a ninguém, pode ser afinal maior erro do que o erro como o concebemos. Devia haver o Dia Internacional da Responsabilização por Omissão. Sempre nos levava a reflectir alguma coisa. Dizemos que não fazemos mal a ninguém, mas se o Ano falasse por certo não teria essa certeza. Imprescindível, pois, não são os votos de boas entradas no ano novo, mas a disponibilidade que possamos ter para nós mesmos e para os outros, numa vertente concertada de espaço inter-relacional. Então sim, será um novo ano, não no calendário, mas dentro das nossas vidas.

27.12.09

SEM TÍTULO

"Sou um mero espectador da vida. Não sei nada, e saio deste mundo com a convicção de que não é a razão nem a verdade que nos guiam: só a paixão e a quimera nos levam a resoluções definitivas. Também entendo que é tão difícil asseverar a exactidão de um facto como julgar um homem com justiça. É por isso que não condeno nem explico nada, e fujo até de descer de mim próprio, para não reconhecer com espanto que sou absurdo".

Raul Brandão

Estou em falta para com muitos blogues e sinto necessidade de pedir desculpa por isso. Mas não tenho tido disponibilidade interior. Escrevo este post mais para vos deixar uma satisfação, porque amizade também é isso. Obrigado.

25.12.09

THE DAY AFTER

tirada em 2007

Escrevi no anterior post que depois do Natal a família continuará dividida, os meninos chorarão a ausência dos pais e o dia 24 e 25 será apenas uma recordação de brinquedos abandonados pela sala e de uma festa que para o ano se repetirá. E dizia também que a loucura do amor não está aí. Está na carícia, na ternura, no colo e no amor que damos. Hoje venho repetir a mensagem: que mesmo no frio do desencanto, ou da dor, ou do cansaço de uma vida por viver, ou... não deixe de ser Natal. Vive mais autenticamente quem mais ama e não quem mais triunfa, ou se preferirem, quem verdadeiramente triunfa é quem mais ama. Continuemos a amar. Incondicionalmente.

A todos, a continuação de Boas Festas, com a convicção de que o móbil e a responsabilidade de tudo, somos sempre nós.

***

Nota: Obrigado pelas mensagens de Boas Festas (53 comentários para mim, é obra). Confesso que não sei se sou digno de tanta admiração (Pedro Ferreira, o teu verso parafraseando John Lennon ultrapassa o que realmente mereço, mas fiquei contente porque o sei sentido), e tanta gente que de forma mais sentida ou mais cortez, se quis expressar na amizade (algumas reais, outras virtuais). Sem qualquer imodestia, eu é que digo: obrigado por estarem aí.

22.12.09

QUE O NATAL NÃO SEJA CORTÊS

No Natal da sociedade actual, os anjos estão parados, os sinos não tocam e as estrelas não cintilam. A família continuará dividida, os meninos chorarão a ausência dos pais e o Natal será apenas uma recordação de brinquedos abandonados pela sala e de uma festa que para o ano se repetirá. Mas a loucura do amor não está aí. Está na carícia, na ternura, no colo e no amor que damos a todos na noite longa, que deveria durar todo o ano. Natal não é esperar um rei todo poderoso que resolva os problemas desta humanidade e, sobretudo os meus problemas. Natal revela a fraqueza de Deus, que é a verdadeira força que mobiliza para o combate de um mundo onde se viva a paz e, onde nos desarmamos diante do sorriso do Deus Menino. Só livres e pequenos poderemos amar os outros. É esta a minha prenda de Natal.

A todos os que por bem passam por aqui, desejo do fundo do coração, um FELIZ NATAL!

Daniel Silva - Lobinho

21.12.09

NATAL VIP


Há dias veio parar-me às mãos uma dessas muitas revistas que nos mostram famílias e decorações de Natal como se fossem cartões estáticos de Boas Festas VIP. Pessoas vestidas com roupas aveludadas, enfeites de mesa como se a aguardar algum banquete real, presépios de vários feitios e formas, mistificados e dourados, árvores de Natal perfeitas, outras menos tradicionais com arames e estruturas metálicas, plásticos e papel a substituir os troncos e os ramos, enfim, todo um ambiente de luz, cor e luxo que me fizeram reflectir um pouco. Serão estas fotografias de gente feliz (com tudo o que isso esconde) que alimentam o sonho do homem médio ao afobar-se no calor das compras, invadindo feiras, Continentes e Jumbos, como quem se abraça a um preço mais sorridente, qual Harrod’s português natalício? Serão estas famílias VIP que seguram o desejo de imitar o luxo e uma casa descabidamente grande? E o homem comum lá continua entre o desencanto do frio e da chuva, enquanto espera cheio de sacos pelo autocarro, e a idealização de uma outra vida embrulhada numa revista.

Falta-nos calor autêntico, mas ainda há gente com faces rosadas de partilha e de ânsia, até mesmo de encanto e de brilho, apesar da mecanização que outros fazem do acto. São os simples da vida, já que a verdadeira riqueza é o dom do Amor. Temos de saber preparar o Natal como festa de amor humano e divino, como tempo de descanso e reencontro, e não como o motor em movimento de uma fábrica desumanizada de prendas e agitação interior. Assim, também o Menino entrará em nossas casas se houver um coração quente, e não apenas uma lareira dourada.

20.12.09

AMOR GRATUITO


Tùnel Metro Avenida


Encontro
Waiting...

Restauração (Chiado): barulho sem ninguém

Chiado madrugando

Convite


Hoje tentei colocar em dia as visitas, por mail e/ou blogues a alguns dos muitos amig@s virtuais que, aos poucos, acabam por se tornar mais reais. Encontrei, como já sabia que ia encontrar, pérolas diferentes, estados de alma, poesias, fotos. Mas há dois que partilho porque me identifico tanto.

Num deles, um jovem enfermeiro escreve em homenagem a um doente que havia escrito uma carta ao pai natal que tornou pública no seu blogue: "Hoje faria 24 anos… Ainda me lembro que há dois anos atrás celebrei o seu aniversário oferecendo-lhe a pulseira da amizade, o símbolo que uniria para sempre a nossa relação".

No outro blogue leio isto:

"Conheço a C. apenas 4 meses mas já a trato por amiga. A C. é uma mulher fantástica. Tem uma simpatia contagiante, está sempre a sorrir e tem um sorriso lindo, tem sempre uma palavra amiga para nos dizer, é a primeira a levantar-se quando alguém precisa de ajuda (não se limita a dizer: queres ajuda?, ela levanta-se sem dizer nada e vai ajudar), tem um amor incondicional pelos animais, é super divertida e é a minha C. :) (...) Perco a conta das vezes que ela me faz o jantar. Perco a conta das vezes que me liga só para saber se estou bem. Perco a conta das vezes que já me ajudou."

Depois termina, dizendo que essa amiga conseguiu entrar num mestrado para a Austrália para onde irá já em Fevereiro, o que deixa uma ponta de tristeza, mas uma grande alegria pela amiga.

Mais do que palavras, o meu conceito de Amizade é exactamente isto. A resposta expressa de um jovem enfermeiro a outro jovem em estado terminal, através da pulseira da Amizade, e esta amizade espontânea entre estas duas amigas de apenas quatro meses, onde enfoco o que coloco a bold.

São estas Amizades assim, que sempre enalteço e de que tanto falo. As amizades que nos regam com telefonemas, s.m.s., ajudas práticas, e não se ficam pelo socialmente correcto ou até onde se pode ir. Pode ir-se até onde quisermos. Quantos gestos de amor por fazer. Por mim, também tento naquilo que, mais do que possível, me é permitido fazer. Já fizeram algum gesto "mais além" hoje? Quem (me) arrisca?

Estamos no Natal. Natal é isto. Darmo-nos por inteiro. No matter what.

19.12.09

DE NÓS

Não sei se escrevo um post, se vou visitar todos os vossos blogues, se passo os selos que tão amigavelmente recebi! Eu não digo que a blogosfera é stressante? E ainda falam no twitter! A nossa vida não é uma agência de notícias, e gosto mais dos blogues onde falamos da interioridade das coisas e sobretudo de nós. Mas falar de nós, não são apenas as impressões que as trivialidades diárias nos causam. Isso é falar do que passa por nós, mas não necessariamente de nós. São meras constatações do dia a dia das quais nada se infere do próprio. Move-me a partilha e o amor.


E sou um felizardo com comentários tão belos - e acredito sentidos -, que me deixam (e pelo meu blogue ser "digno de existir", como refere este selo oferecido pelo Gonçalo do blogue "O Sabor da Palavra"! (olá Gonçalo, foi bom ver-te de novo a passar por aqui nos comments). Diz ele que devemos fazer o elogio fácil, não o gratuito, mas o fácil, ou seja, aquele que é sentido e que geralmente não dizemos porque sim. Ele defende, tal como eu, que devemos fazer elogios sempre que sentidos porque isso aumenta a pessoa, não a idolatra nem vangloria: apenas diz o que sentimos dela, apenas a afaga com a palavra (porque sincera e sentida) e um sorriso, um elogio fazem muito bem à alma, ao mood, ao animus, enfim, à pessoa como um todo. Quantas pessoas não nos merecem admiração mas por entranhados motivos na sub-consciência social e pessoal não damos (parece mal? vergonha? queremos só para nós?). Por isso há que elogiar sempre e repetidamente o que sentimos e vemos no outro, porque o elogio fácil não é o elogio gratuito.

Ninguém é perfeito e a vida já é tantas vezes complexa, que andar a reclamar de tudo e de todos como escribas irritados que quase só apontam as incorrecções (ainda que o não sejam), não apenas não contribui para o nosso bem-estar como também não aumenta o bem-estar dos outros. Denunciemos o que achamos mal pelo nosso prisma de valores e pela perspectiva individual, mas não façamos disso um hobbie profissionalizado que nos esquecemos também de elogiar. Sempre. Muito. Qualquer pessoa. Repetidas vezes. Condição única: valorizarmos efectivamente aquela pessoa pela sua atitude, gesto, atributo, pelo que vemos nela, e não porque fica bem elogiar dado que outros o fazem ou porque seria socialmente correcto. Pessoalmente, repito, sou um felizardo ao falar de vocês, porque me mimam de uma maneira que sinto sentida, e não apenas um comentário de ocasião (embora também os possa haver e por certo haverá).

Quando sabendo que não ia estar com disponibilidade interior e também de tempo para vir à blogosfera e já passavam cinco dias, escrevi-vos o "Myosotis" (olá amiga com esse nome de blogue) em que não apenas vos dizia que não estavam esquecidos, como atribuía o significado de myosotis: "Não te esqueças de mim". E ao escrever esse post, os vossos comentários não deixaram de me surpreender, mesmo quando já penso conhecer alguns melhor.

Ler coisas como "Longe ou perto estarás sempre aqui"; "depois de tanta dedicação só faltava agora tu esqueceres-te de nós"; "Esquecer de alguém tão pleno como tu é uma missão impossível", "Achas viável que te possamos esquecer", "Quero-te bem", "espero que não fiques longe muito tempo pelo menos para sabermos que estas bem", "na dúvida vou-te escrever", " sei bem que não é preciso vir aqui para me lembrar de ti", "obrigado amigo, pela disponibilidade interior que sempre que podes nos dedicas e fica sabendo que fazes imensa falta", "és muito especial" "só para dizer que nunca te esqueço" "não me esqueço de si...mas de vez em quando diga somente:OLÁ! estou bem.", entre outros... faz com que eu possa morrer em paz. :)

Acende-se um sorriso emocionado dentro de mim e como poderia querer mais desejos aqui na blogosfera se não o tal elogio fácil, porque sentido e não meras palavras de simpatia ou cortesia? É por isso que quando visito um blogue é exactamente isso que tento fazer: visitar, como quem se senta e ouve o que o outro está a dizer e não para galgar comentários e ter a missão cumprida. Como são muitos, há sempre uns que me escapam ou que, pelo factor tempo, leio mas não comento. Mas leio. Não olho na diagonal para passar ao próximo. Por isso gosto de ver e não de olhar os blogues, como se costuma dizer ( e apesar de eu não gostar de usar clichés).

O selo do pai natal foi-me gentilissimamente oferecido pela Malu, do blogue Infinito Particular, uma amiga que descobri recentemente, tal como o Gonçalo. As regras são indicar 12 blogs para recebê-lo e mencionar os nossos desejos neste Natal. (*)

Escolham o selo que quiserem. É para todos, mas vou enfatizar alguns:

Paulo Intemporal, Pedro Ferreira, Fragmentos Repartidos, Gonçalo Cardoso, →a' , Élio Filomena, Susana (Terra de Encanto), Natália Augusto, Luis Gonçalves Ferreira, Miguel Ribeiro (Em Cada Despedida), Teresa Santos, Arco Íris, Moonlight, Carla (Tatuagens), Rui (Templo do Amor), Ana Sofia Serrano (mortalerosa), Charlotte, Kotta, Khora, Mikas, Tenessee, Gonçalo Duarte Reis...

... e vão ver, quando explorarem melhor alguns destes blogues, que afinal o meu não é tão especial quanto isso. Limito-me a brotar as palavras directamente da Emoção, a educadamente dizer o que sinto (mesmo quando não gosto), e a indefectivelmente reclamar a Justiça mas não me armar em justiceiro (e aí sou inamovível porque se mexe com o mais sagrado do ser humano). Saem-me ganas de Justiça, mas não a brutalidade das palavras e dos gestos.

(*) O que quero para o Natal? Não falhar a vida, como penso que venho falhando. Nem todos são auto-suficientes e preciso muito dos outros. Sou loucamente alegre (as crianças são sempre alegres e brincalhonas) mas no blogue dou mais o meu outro lado. (Viram como falei de mim e não do que passa por mim?) Just try it :) E, sim, claro que posso dar o meu número a quem me escreveu: mas enviem s.m.s. (Acho tão mais bonito do que uma fala entrecortada). De qualquer forma isto não é uma carta para o mundo por isso não vou falar muito mais de mim. Tenho de arranjar outro registo para não me perder nestas divagações.

A todos, até já... e obrigado pela amizade que creio sincera.

16.12.09

MYOSOTIS


Porque a Amizade mesmo quando virtual - porque detrás de cada blogue existe uma pessoa -, se reconhece sem ser apenas nos comentários, venho apenas deixar-vos a sms da imagem :)

Lembram-se de ter falado na serenidade do Natal em resposta a um e-mail? Não apenas por isso, mas também por isso, não quero fazer da blogosfera um espaço stressante que nem sempre se consegue acompanhar, mas antes saborear com olhos de ler (e eventualmente comentar) os blogues [e são tantos :) ] que visito.

Há umas semanas li na Terra de Encanto (Susana) - agora não tenho disponibilidade interior para ir lá ou aos vossos blogues ( e por isso esta mensagem ) - o significado de Myosotis. Significa "Não te esqueças de mim".

E é isso que hoje quero dizer em ambos os sentidos: que não me esqueço de vocês e... que continuem a não se esquecer de mim.

Obrigado por isso :)

10.12.09

QUERO LÁ SABER DE TI...


Acabo de comentar as vossas palavras do e no anterior post. Obrigado. Sem falsas modéstias.

Hoje, direi isto: O défice de sensibilidade (já que estamos no Natal) é a causa principal da indiferença e da crueldade (como o ódio e a inveja) que faz com que certos seres humanos deixem de ser humanos. Necessitamos de educar a sensibilidade. Muitos estão de tal forma embrutecidos, alienados, ofuscados pelo mal dizer e pelos conluios coniventes das suas pretensas razões, que não vão chegar a ver quem é realmente o Outro (quem quer que seja), e muito menos um Deus que se fez Criança para ensinar que, na nossa pequenez de nos pensarmos grandes, podemos sempre contar com o seu Amor. Se não educarmos a nossa sensibilidade à dor e às necessidades dos outros e aos juizos que deles possamos fazer, de que adianta falar do Natal? Perguntaram-me num e-mail: "O Natal para ti é muito alegre, não é?" E eu respondi com a mesma certeza do meu nome: Não. É apenas sereno".

8.12.09

08 de DEZEMBRO


Há 363 anos, D. João IV proclamava Nossa Senhora da Conceição - que é o feriado que hoje gozamos - padroeira de Portugal. A Universidade de Coimbra associou-se a essa proclamação, pelo que a partir de então ninguém podia obter um grau académico sem antes prestar juramento de que Nossa senhora foi concebida sem pecado original. Só quando o Papa Pio IX o tornou como dogma em 1854, é que o juramento deixou de ser feito. Foi a partir daí que começou o culto mariano em Braga, no Santuário do Sameiro, onde ainda hoje lá se encontra entronizada a imagem da Senhora da Conceição, mandada vir de Roma onde foi benzida pelo Papa. Mas não é a história que me importa, apesar da curiosidade. Também no momento da coroação os reis deixaram de colocar a coroa na cabeça, porque Ela era Rainha de Portugal, outro pormenor muito interessante.

Mas não é a história que me importa contar, apesar da curiosidade. O dia 8 de Dezembro (dia do nascimento de Jim Morrison de quem falarei noutro post) era o Dia da Mãe que, como sabemos, hoje se comemora no primeiro domingo do mês de Maio, por ser o mês das flores, do coração, embora também de Maria. Esqueçam as religiões e as crenças. Estou no plano dos factos. Nós, cá em casa, passámos a comemorar o Dia da Mãe duas vezes ao ano, com muito maior ênfase no dia de hoje. Infelizmente, aquela senhora de sorriso bonito e suave, doce e terno, de uma bonomia como quem tem as mãos abertas e uma simplicidade e humildade desconcertantes, ficou em meus braços há cerca de quatro anos, na razão inversa da Pietá de Miguel Ângelo, em que é a Mãe que tem o Filho no regaço. Mas não é das coisas que ficam gravadas a sangue que vos quero falar (porque o amor sendo mais forte do que a morte não deixa de ser suave, firme mas suave e simplesmente não se conseguem dizer), mas de que antes se celebrava neste dia, o Dia da Mãe. E que também neste dia se iniciava como que oficialmente a época natalícia, com a feitura do Presépio, a árvore de Natal, o musgo, o encanto e a magia da época em que já estamos. E tudo era desfeito no dia de Reis, a 6 de Janeiro. Nós continuamos assim, embora com algumas variações nos dias, mas nunca antecipando muito para antes do dia 8. E por isso como que inauguro oficialmente o tom festivo deste blogue, porque é o Menino Jesus que comemoramos, e não o Pai Natal ou de como variar a rotina por esta altura. Dia da Mãe, ainda para muitos hoje, e início do presépio e enfeites da casa.

mães afectivas que são verdadeiramente mães, e mães biológicas que de facto não o são. Mas esta história que vos conto a seguir, serve para mostrar o amor maternal independentemente dos laços de sangue, porque os laços que unem a verdadeira família são os da alegria, do respeito, do amor e da amizade dentro da vida de cada outro. É uma história bonita para exemplificar o amor de Mãe. É a história de um homem que morre mas não vai parar ao céu porque S. Pedro lhe negou a entrada. Uns dias depois, S. Pedro vê o homem no Céu, e furibundo foi ter com Deus perguntando como estava o Homem ali, sentindo-se desautorizado. E Deus respondeu-lhe: "Foi Nossa senhora que o deixou entrar por um alçapão". "Então e Tu, permististe, Senhor?", ao que Deus responde: "Sabes, Pedro, não se pode negar o pedido de uma Mãe".

Não sei se Nossa Senhora que hoje torna o dia em feriado, é aquela Nossa Senhora revelada e de quem até os reis se deixaram de coroar porque Rainha de Portugal, nem sei se Nosso senhor, o Menino Deus que comemoramos nesta época, me ouve no silêncio que nos dá supostos argumentos para O negar, mas permito-me fazer esta oração, como o Amor que em vez de intelectualizar, simplesmente acredita sem necessitar de provas. De outra forma, que mérito haveria em acreditar?

Ajuda-nos, Mãe, a saber dizer como tu "Faça-se", a ter a Tua disponibilidade e discrição, a ter essa entrega sem porquês, a não pensarmos arrogantemente que, sendo nós a criatura, julgamos ser o Criador, a essa simplicidade enternecida e a essa humildade sem capas. Que o Teu olhar de bondade e Luz possa ser o nosso conforto ao ver aquilo que os outros não conseguem ou que a nossa aparência esconde, e já agora, Senhora, que a minha outra Mãe que me deste, e cujo corpo está numa campa mas não ela, assim acredito, te esteja a louvar sorridente e serena, perfumando com o seu amor o coração dos filhos, desajeitados e desacreditados. Tal como no Nascimento do Deus-Menino. Aí. Onde reside a fé.

5.12.09

SUAVE MILAGRE


Sempre me tocou desde miúdo o impressivo conto de Eça de Queiroz, Suave Milagre que hoje partilho com vocês, embora com cortes meus porque muito longo. Passado na Judeia e baseado numa história da Bíblia, são caracterizados e apresentados sugestivamente os ricos e os prepotentes, que contrastam com a dor e a miséria de uma criança pobre e entrevada que vivia com a mãe num casebre perdido na serra, longe do povoado. Passa-se numa época em que a fama de Jesus se estendia pela Judeia e em que os poderosos e ricos o procuravam e solicitavam a sua presença. Mas a acção principal desenrola-se em torno dessa criança que, apesar da descrença e desalento da mãe, acredita fervorosamente que só Ele o pode salvar. E, de facto, o milagre acontece, provando que a providência divina não atende à voz da autoridade e do poder mas ao clamor da humildade. Isto é Natal. E não tão metafórico quanto isso.

Até já.

***
"Ora entre Enganim e Cesareia, num casebre desgarrado, vivia a esse tempo uma viúva, mais desgraçada mulher que todas mulheres de Israel. O seu filhinho único, todo aleijado, passara do magro peito a que ela o criara para os farrapos de enxerga apodrecida, onde jazera, sete anos passados, mirrando e gemendo. Também a ela a doença a engelhara dentro dos trapos nunca mudados, mais escura e torcida que uma cepa arrancada. E, sobre ambos espessamente a miséria cresceu como o bolor sobre cacos perdidos num ermo. Até na lâmpada de barro vermelho secara há muito o azeite. Dentro da arca pintada não restava grão ou côdea. No Estio, sem pasto, a cabra morrera. Depois, no quinteiro, secara a figueira. Tão longe do povoado, nunca esmola de pão ou mel entrava o portal. E só ervas apanhadas nas fendas das rochas, cozidas sem sal, nutriam aquelas criaturas de Deus na Terra Escolhida, onde até às aves maléficas sobrava o sustento! Um dia um mendigo entrou no casebre, repartiu do seu farnel com a mãe amargurada, e um momento sentado na pedra da lareira, coçando as feridas das pernas, contou dessa grande esperança dos tristes, esse rabi que aparecera na Galileia, e de um pão no mesmo cesto fazia sete, e amava todas as criancinhas, e enxugava todos os prantos, e prometia aos pobres um grande e luminoso reino, de abundância maior que a corte de Salomão.

A mulher escutava, com olhos famintos. E esse doce rabi, esperança dos tristes, onde se encontrava? O mendigo suspirou. Ah esse doce rabi! quantos o desejavam, que se desesperançavam! A sua fama andava por sobre toda a Judeia. Obed, tão rico, mandara os seus servos por toda a Galileia para que procurassem Jesus, o chamassem com promessas; E todos voltavam, como derrotados, com as sandálias rotas sem ter descoberto em que mata ou cidade, em que toca ou palácio, se escondia Jesus.A tarde caía.
O mendigo apanhou o seu bordão, desceu pelo duro trilho, entre a urze e a rocha. A mãe retomou o seu canto mais vergada, mais abandonada. E então o filhinho, num murmúrio mais débil que o roçar de uma asa, pediu à mãe que lhe trouxesse esse rabi que amava as criancinhas, ainda as mais pobres, sarava os males ainda os mais antigos. A mãe apertou a cabeça esguedelhada:

– Oh filho e como queres que te deixe, e me meta aos caminhos à procura do rabi da Galileia? Obed é rico e tem servos, e debalde buscaram Jesus, por areais e colinas, e debalde correram por Jesus, desde o Hébron até ao mar! Como queres que te deixe! Jesus anda por muito longe e a nossa dor mora connosco, dentro destas paredes, e dentro delas nos prende. E mesmo que o encontrasse, como convenceria eu o rabi tão desejado, por quem ricos e fortes suspiram, a que descesse através das cidades até este ermo, para sarar um entrevadinho tão pobre, sobre enxerga tão rota?

A criança, com duas longas lágrimas na face magrinha, murmurou:

– Oh mãe! Jesus ama todos os pequenos. E eu ainda tão pequeno, e com um mal tão pesado, e que tanto queria sarar!

E a mãe, em soluços:

– Oh meu filho, como te posso deixar? Longas são as estradas da Galileia, e curta a piedade dos homens. Tão rota, tão trôpega, tão triste, até os cães me ladrariam da porta dos casais. Ninguém atenderia o meu recado, e me apontaria a morada do doce rabi. Oh filho! Talvez Jesus morresse... Nem mesmo os ricos e os fortes o encontram. O Céu o trouxe, o Céu o levou. E com ele para sempre morreu a esperança dos tristes.

De entre os negros trapos, erguendo as suas pobres mãozinhas que tremiam, a criança murmurou:

– Mãe, eu queria ver Jesus...

E logo, abrindo devagar a porta e sorrindo, Jesus disse à criança:

– Aqui estou."

4.12.09

LEVA-ME DE MIM...


Leva-me de mim. Não te conheço, não sei quem és. Mas leva-me de mim. Ousa. E tu vens. Abres as asas e mostras-te Luz. Como a dizeres que fui incrédulo. Que não acreditei nas harpas e nos clarins. Abres a mão. Tocas na minha sem me olhar.Tens feito muito caminho - murmuras suave. Mas ainda não aprendeste a conquistá-lo. O caminho que tenho feito deixa marcas indeléveis. Invisíveis. Não sabem ler os meus sinais. Que orgulho poderia ter num caminho assim? Largas-me então a mão e voltas aos teus céus. Tens asas bonitas e grandes. Brancas. Embalas-me assim. E no chão cai uma pétala. Mas não sei da flor. Não sei de mim. Um dia haverá um concerto majestático. Por ora só o meu silêncio me embala. As minhas asas são demasiado grandes para poder voar, mas é com esse peso que todos os dias afasto o meu clamor.

2.12.09

DEZEMBRO

A Ana e o Gonçalo decidiram ofertar-me um selinho/desafio. O do Gonçalo podem tirá-lo aqui, e o da Ana aqui, responder e passar aos vossos amigos.

Passo-os a todos, (Gonçalo, passo-te o da Ana; Ana, passo-te o do Gonçalo) com estes obrigatórios: Susana (Terra de Encanto); Susana (Wake up little Susie); Luis Gonçalves Ferreira, AnAndrade, Karochinha, Elio-Filomena, Sad Tear, Myosotis, Korrosiva, mf, Gato do Castelo, Arco Íris e Clips de Vidro. Mas mesmo sem o nome aqui colocado, os desafios vão para todos porque seria impossível nomear-vos.

Queria também agradecer as tocantes palavras relativas ao post anterior "De Profundis". Nem que seja um "olá" foi já gratificante para mim recebê-lo, mas sem demérito de literalmente ninguém, enfatizaria as palavras da querida Ailime, Malu, Graça Pereira, Eli, Teresa Santos, Natália e Elio-Filomena. Registam bem o coração e as entrelinhas. Obrigado por isso. Não sei o que pensam os que me lêem de raramente responder aos comentários, mas se preferirem respostas, como geralmente todos os bloguistas dão, digam e eu passarei a dá-las. Não o faço muito porque a minha opinião ficou registada no post em si, e a menos que seja para esclarecer algo geralmente deixo ecoar quem comenta. Mas se independentemente disso preferirem ver comentários, digam.

Ainda relativamente ao post do jantar, talvez pelo carácter amigo e intimista que teve, foi de facto algo extraordinário dado que, não apenas se conheceram um pouco melhor os participantes, como porque agora os blogues revestem-se de outra particularidade: muito menos virtuais. Valeu por todos os outros que venham a acontecer, uma vez que sou mais dado a encontros pessoais do que colectivos. Insistem, todavia, para que escreva sobre cada um, e é só por isso que volto ao tema. Direi que houve um Lobinho que guarda para o blog o que tem de mais íntimo e sensível (em grupo é complicado), tal como a Eli que é uma força de alma; um Gonçalo irrepetível cujo maior dom é a Amizade, qual menino inocente que sorri a vida e flui com naturalidade o seu sentir (basta ler o blog ou a resposta do seu desafio acima ); uma Nathalie que transborda, mais do que delicadeza, leveza e graciosidade; uma Fatucha que é um diamante humano tal a transparência e o conseguir fazer equivaler com uma precisão raras, aquilo que é o blog e ela mesma; um Nando e um Jorge que são um mimo de pessoas; uma Tânia cuja disponibilidade e simpatia contagiam, e até um Alexandre e um Afonso que escondidos em si mesmos, hão-de ter mais que contar.


E começou Dezembro. Esquecemos sempre que quem faz anos é o tal Menino Jesus do presépio e não a ostensiva mundanice de compras e entrega de prendas à ultima hora. Pode haver melhor prenda do que um coração disponível 24h por dia, durante um ano inteiro? Li uma vez esta belíssima definição de amizade: "Amigo é aquele que podemos acordar às 4h da manhã".

As prendas adocicam, são gestos de amizade e partilha, mas jamais, jamais conseguirão compensar os buracos de alma deixados, os afectos por dar, as ajudas também materiais e efectivas. Há tanta gente a morrer de solidão... e de fome. Pensem nisto. Porque tanta forma de ajudar aqueles que distantes dos luxos natalícios de uma sociedade consumista, ficariam contentes com um brinquedo podre e partido, uma fatia de bolo meia bolorenta, ou um simples beijinho ou abraço independentemente do sexo (esqueçam o sexo nos beijos e abraços, por amor de Deus). E também ao nosso lado, anonimamente, ou nem tanto. Levem isto muito a sério. É que só o amor tem força para transformar.