28.9.09

* SILÊNCIO E SOLIDÃO *



Vejo muito esta expressão: "gosto da solidão". Silêncio e solidão são coisas diferentes. No suporte social o que conta não é o tangível. Uma pessoa pode ter com quem verdadeiramente contar, falar, desabafar, amigos, colegas, gente de família que pode dar algum tipo de suporte emocional, mas estes suportes têm expressões diferentes de pessoa para pessoa. Há quem todos os fins de semana saia com um grupo de amigos e há quem goste de se encontrar com um único amigo e ir passear, ou conversar sobre politica, e esta percepção de se estar ou não só, varia de pessoa para pessoa. Pode ter-se uma família grande e sentirmo-nos sós. A percepção da solidão é uma elaboração pessoal. Há pessoas que gostam de ir ao cinema sozinhas, por exemplo, e que estão bem, mas há outras que sofrem por não ter ninguém com quem ir ao cinema. A solidão não é um atributo da comunidade, é uma percepção pessoal. Gostar de estar sozinho e solidão são coisas diferentes. E não estou a falar dos que estão na Second Life e têm uma vida social riquíssima no computador.

As pessoas sofrem muito com a solidão, sobretudo quando pensam que estão sós porque ninguém gosta delas, porque não prestam para nada, com sentimentos de autodesvalorização. Mas também há quem tenha os sentimentos de sobrevalorização, o que vai dar no mesmo só que com outro rosto. São pessoas solitárias por defeito de ego, mesmo que o não percebam a nível do consciente.

Se as pessoas estiverem mal consigo próprias (nem desvalorização nem sobrevalorizaçao, o que implica auto-estima por um lado e humildade por outro) então sentem-se sós: não por não terem outros, mas porque não se têm a si próprias.

***

Nota: Do post anterior, tenho de abrir a excepção num agradecimento público por tanto testemunho e gesto de amizade. Era apenas eu a falar de mim, mas alguns comentários deixaram-me comovido às lágrimas. Esses, guardo-os nos tesouros do meu coração. :)

22.9.09

MY PROFILE

Este meu canto começou em Janeiro de 2009. Entrar na blogosfera foi um pouco perceber que os blogs eram muito umbilicais, excepção feita a blogs temáticos (poesia, fotografia, cinema...), e como visse muita hermetização nos blogs, com nicks, avatares embora também com nomes verdadeiros, foi assim que nasceu o nome “Sair das Palavras”, como quem se dá para além do que escreve, como quem falando sobre um livro que suscitou interesse, um filme que viu, uma música que ouviu, não deixa por isso de se dar a conhecer melhor também como pessoa e não mero bloguista.

Quem me segue ou me vem descobrindo, repara que existem duas naturezas que costumo usar nos posts: o lado lúdico, de entretenimento, e o lado sério. No caso dos posts descontraídos não o faço com textos humorísticos que não tenho jeito nenhum (para isso recomendo blogs como o Peter of Pan ou o Rafeiro Perfumado), mas com montagens da net caricaturando situações, umas surreais, outras divertidas e brinquei também comigo mesmo usando montagens em vários posts. Os restantes posts são geralmente sobre tudo menos economia, desporto, televisão... São sobre o tecido humano, a ética e a filosofia dos valores, experiências e partilhas.

Talvez resulte daqui uma ideia de ser muito sério e compenetrado, mas sou muito ambivalente: tão contemplativo, introspectivo, amante da partilha e intrépido defensor do Ser Humano, do ser-se Pessoa com tudo o que lhe é inerente, quanto divertido, brincalhão (aquele humor fácil do Herman José ou o diferente humor dos Gato Fedorento, são-me ambos imensamente apelativos).


O sentido de justiça é o que mais mexe comigo e sou tão defensor da verdade como amante do riso, da gargalhada simples e descontraída, e sobretudo, amante da partilha, do venha daí esse abraço, o que me coloca na lista de ingénuos. Não que me orgulhe disso, pelo contrário, mas porque quando julgamos os outros por nós, estamos a moldar dioptrias que outros não precisam ou ainda lhes falta. Por isso aludo sempre ao sentido de autocrítica, de isenção, de respeito e amor à verdade, mas também orientando o pensamento para a justiça e não para o justiceiro. Devemos actualizar sempre as nossas decisões, com tudo o que isso implica de perda, de auto-estima, de mostrar a nossa fragilidade e vulnerabilidade, mas é quando somos mais bonitos, porque não nos mostramos construídos, totais, senhores de certezas, deixando espaço para a dúvida, a reserva de honra, e sabendo que mudar mexe com toda a estrutura do ser, o que torna mais difícil a auto-análise.

Sou um adolescente no entusiasmo, não me identifico com as pessoas que estão sempre a dizer mal de tudo, entre o criticismo e o reaccionário, parecendo nunca haver nada de bom no mundo, e prefiro escrever o que penso do que dizer o que não acho apenas para não criar ondas ou agradar, sob pena de me custar eventuais perseguições ou mal entendidos.

Sou uma pessoa estruturalmente dinâmica mas sem suporte pessoal. Preciso muito dos outros. Ajo por incentivos. A minha fragilidade é tão grande que os mecanismos propostos pelo inconsciente fazem ter aquela postura que não passa de uma defesa. Se alguém me aborda sou do mais natural e empático que há. Há pessoas que se interrogam se lhes tocam, se as abordam por qualquer coisinha e quase ficam ofendidas. Eu não. Como costumo dizer, sou muito povo.


Gosto do cheiro a terra molhada pela chuva, do silencio do amanhecer com os fortes vínculos da aurora, da noite silente, do barulho das ondas, da chuva miudinha a bater nos vidros da janela, da intimidade, dos velhos jogos de mesa como o monopólio por exemplo, de fotografia, do som das pedras debaixo dos sapatos em caminhos desses, dos pormenores que escapam quando se vai na rua e que podem estar no canto de uma vitrine, ou da forma de uma chávena de café, ou da arquitectura de uma cadeira, ou do olhar das pessoas, sou muito afável, meigo, terno,... violentamente estúpido, portanto. Mas apesar de tudo, continuo igual a mim mesmo, embora tendo criado alguns anticorpos que julguei nunca ser preciso.

Ainda não percorri a estrada do sensato. A paixão dá cor e forma à vida. Alimenta-o. Sou muito violento nos afectos. Para mim uma relação só faz sentido se for tendencialmente eterna. De resto, não encontro lógica no amor. Encontro entrega, abismo, energia e vida. Isto aplica-se tanto no amor como na amizade.

Dizem também que sou muito paciente e empreendedor. Eu sou é muito frágil por menos que possa parecer, e não gosto de pessoas rudes e brutas. Lamento que tenham histórias pessoais de canhão, mas não sou obrigado a seguir os padrões dos outros. O que não invalida toda a irascibilidade (sem jamais desejar mal a alguém) na defesa do que estiver a professar.

Ninguém fala com quem não conhece, ninguém esboça sorrisos gratuitos. Mas há sempre alguém que ainda vai quebrando as regras ;)

Que a blogosfera possa ser uma rede social de união e não de afastamento, sectarismos, ou egoismos velados. No que me diz respeito, é o que tento, ainda que possa eventualmente não conseguir.

Sintentizando sobre mim, recorreria a Miguel Torga: "Fui sempre todo doente, todo agónico, todo sensual, todo inocente, todo pecador. O caixão que me levar dentro, leva uma vida humana maciça".


Obrigado por estarem aí.



21.9.09

BEN, OU O AMOR A FUNDO PERDIDO


Ao pedir-me lume para o cigarro, o rapaz que usava brincos na parte superior da orelha esquerda, uma camisola com uma Torre Eiffel electrizada, umas calças de ganga justas, e umas botas de biqueira quadrada, apesar de um ar limpo como se tivesse acabado de comprar a indumentária e com um cabelo muito penteado, parou um pouco como se interrompesse o pedido, olhou-me com os olhos humedecidos e afastou-se em passo largo. Não tive tempo de lhe dizer que não fumava, mas intrigou-me o comportamento, e entre ficar apreensivo por mais algum tempo ou arriscar abordá-lo, optei por arriscar.

Era alto e avançava rapidamente. Por isso, já perto dele, e porque aparentava ser estrangeiro, estendi-lhe um: “Hi”! Surpreendentemente, voltou-se. Óculos escuros redondos, mala preta ao ombro. Sorry, but i’ve been so lonely”... – disse a sorrir como que desculpando-se. Estas coisas acontecem geralmente num filme ou lêem-se no enredo de um livro, mas estava-me a acontecer ali naquele momento. Fiquei, não sei se por isso, momentaneamente gratificado, mas também porque tinha ido ao seu encontro, não deixando escapar aquela reacção que eu não tinha compreendido. E foi assim que acompanhei o seu passo estugado, apenas vendo-o de perfil.

Falámos. Era fotógrafo de grupos musicais estrangeiros, estava há dois meses em Lisboa e partia no dia seguinte para a Croácia. Vive nos Estados Unidos, em Seattle, onde tem o seu círculo de amigos a quem chamava família, e fazia uma viagem de trabalho onde tentava recuperar a auto-estima.

Vinte cinco anos, um quê de confiança e um caminho que desconhece. “Affection”, disse-me já sentado num banco da Gulbenkian depois de uns passos transpirados. E daí fez o puzzle todo. Ali estava um desconhecido apetrechado de coisas que afinal eram o sinal amarelo para um vermelho interior. Vi-o vulnerável, débil e vacilante. Não lhe dei conselhos, mas opinei. E dei testemunhos pessoais. E interroguei-o, falei-lhe depois na tibieza, na dependência que ele dizia ter de estímulos exteriores, e também na tensão emocional daí resultante. E como baixar a tensão? “How, how, Daniel”? Perguntava-me depois em tom quase familiar, mas também sôfrego e sequioso.

Deixei ouvir o silêncio e disse-lhe depois em voz baixa que se ouvisse a si mesmo e que não tentasse uma resposta com “R” maiúsculo, mas tão só uma resposta ou pelo menos pistas para ela. Ele tinha as coisas já equacionadas, apenas não conseguia dominá-las, superá-las, vencê-las. No fundo, a impotência que todos nós experimentamos em diversas situações. E eu estava particularmente sensível a algo de que também padecia: a dependência de forte motivação. E ao seu olhar quase terno, correspondi com um sorriso de empatia e outras quantas palavras como quem pinta de branco nuvens negras que prometem desfazer-se em água.

Affection”, disse ele uma outra vez. Medo do mundo e das pessoas. Dependente dos seus próprios labirintos numa viagem de descoberta, mais do que de trabalho. Inteligente. Humano. Perdido. E despedimo-nos com a promessa de que ele continuaria a tentar deixar de fumar ou de tomar drogas, de deixar de comer ou... para aliviar a tensão. Pediu-me se me podia prometer isso a mim. Compreendi que surtiria um efeito psicológico diferente. “No Ben, you can’t. You MUST promisse me that!” E depois de um aperto de mão entre dois cidadãos anónimos (ou nem tanto), seguiu para Campolide onde alguém do grupo o esperava, presumo. Seguimos direcções opostas, certamente pensativos.


Aquele gesto abortado ao pedir-me lume para o cigarro, foram afinal lágrimas que reclamaram sair traindo-o no mais inesperado momento. E a única coisa que agora lamento, a uma distância do sucedido, foi não lhe ter dado um contacto ou pedido o dele. Talvez que ele um dia pudesse escrever uma nota a dizer qualquer coisa como “perhaps i still didn’t quite strange habits at all, but i’m trusting myself more than giving myself a try”. E eu ficaria feliz por saber que uma conversa inesperada, contribuíra afinal para o que de mais importante existe na crise da afectividade: amar a fundo perdido.

...HÁ UM SILÊNCIO DESCONHECIDO...



Chora na noite. Às estrelas!

Atrás de ti
ficam as casas
iluminadas
e os dias
que foram teus.

Agora
nada te pertence.

Tudo é escuro.

Chora na noite.
Grita ao universo.

Há sempre um silêncio desconhecido
que te traz de novo a alegria.

Tatuagens e Clips de Vidro


Agradeço este bonito prémio "Este blog dá vontade de abraçar" à Carla Silva e ao Clips de Vidro

Às pessoas que me têm distinguido com o seu carinho pelos selos, tenho agradecido aqui no blog em nota de rodapé sem mostrar o selo, colocando-o directamente na galeria aí ao lado, mas para que outros possam levá-lo, se o quiserem, vou passar a colocar o selo sem ser o simples agradecimento em nota de rodapé.


Como sabem instituí o o Prémio "Sair das Palavras" que vou ofertando directamente nos blogs que acompanho ou que, por algum motivo, me dizem mais do que outros. A primeira vez fi-lo publicamente com indicação dos laureados, mas seria recorrente estar sempre a colocar o meu próprio prémio sempre que o ofereço a blogs que vou descobrindo, pelo que o faço directamente nos blogs que me apraz laurear.


Verificando, todavia, como a blogosfera anda tão parada, cada um falando de si e pouco mais, quando instituir um novo prémio daqui deste cantinho, fá-lo-ei publicamente com a menção dos nomeados, mas depois, tal como o actual selo "Prémio Sair das Palavras", ficará na barra lateral para ir oferecendo à medida que encontre outros blogs que valham por si e/ou pelas pessoas que estão por detrás deles.


Obrigado, uma vez mais, Carla do blog Tatuagens e Clips de Vidro.

20.9.09

ADENDA SOBRE BLOGS

Adicionei dois outros blogs relativamente desconhecidos ao post anterior, pelo que, de forma a dar maior ênfase, recoloco-os aqui. É bom partilharmos aquilo que poucos conhecem, e se este espaço puder ser um divulgador de alguns desses blogs (que me perdoe quem sigo e que esteja nestas condições mas que nao me lembre), então terá valido postar esta pequena divulgação. Vão lá e descubram-nos melhor. A ordem é aleatória.

O blog do Luis Ene, o Caderno da Alma do Jorge que tem pérolas literárias que me deixam sem fôlego e uma indescritível escrita, sobretudo na prosa e no registo epistolar (tomara eu escrever assim), o blog Clips de Vidro, blog Bruma da Manhã e o blog Tatuagens, sem esquecer o do Jobé, o da minha amiga Maria, Espaço das Letras, e o blog de um jovem motorista de taxi, o gomazia.


Vão lá e descubram-nos melhor. Todos gostamos de ser lidos, mas sem divulgação acabamos por perder muito. Eu já os sigo há um pedaço, e espero encontrar-me em muitos destes blogs com vocês, que amigavelmente me seguem. Hoje, pois, um particular "Até já" :)

19.9.09

BLOGS



Agradecendo os sempre comentários, hoje venho deixar um filme que dispõe bem ;) e aproveitar para falar destes blogues:

O da Graça, uma amiga que fiz há pouco tempo na net, e que tendo chegado às 25.000 visitas (parabéns Graça) decidiu colocar um selo comemorativo que acima reproduzo.

O Maravilhoso Mundo de Pedro Ferreira, um segundo blog por si criado que define como um "espaço que pretende testemunhar a real beleza deste planeta, assim como ser mais um incentivo para a preservação das espécies que o habitam", e "um registo das diferentes culturas e tradições, povos e raças existentes no mundo e do legado que os nossos antepassados nos deixaram".

Refiro ainda o blog do Jobé, o blog do Luis Ene e o da minha amiga Maria, Espaço das Letras, o Caderno da Alma do Jorge que tem pérolas lietrárias que me deixam sem fôlego e uma indescritível escrita, sobretudo na prosa e no registo epistolar (tomara eu escrever assim) sem esquecer o blog de um jovem motorista de taxi, o gomazia. Acrescento ainda o blog Clips de Vidro, Bruma da Manhã e Tatuagens.

Todos estes últimos blogs referenciados, têm em comum, ou o desconhecimento relativo ou a falta de comentários. Sei que muitos me lêem mesmo não comentando, mas pelo menos conhecem este meu "Sair das Palavras", enquanto que estes oito últimos blogs que refiro, provavelmente não são sequer conhecidos, e se o meu espaço servir para os publicitar, ficarei muito feliz, porque quando entrei há oito meses nesta verdadeira aventura da blogosfera com tudo o que tem de visceral e efémero, também era um ilustre desconhecido e gostei dos meus primeiros selos e das pessoas que amavelmente me fizeram referência e se tornaram minhas leitoras e amigas mesmo sem me conhecerem de lado algum.

Fica o convite feito para visitarem estes blogs pelos motivos expostos, agradeço mais uma vez a vossa amizade em me irem lendo, registei o que foram escrevendo nalguns comentários sobre os desafios e sondagens que costumava colocar (já agora, acham mesmo que deva voltar às sondagens ou nem por isso?) e termino com o tal filminho que falo no início e que achei de tal forma hilariante que me vejo obrigado a partilhar porque é importante rir.

Beijinhos e abraços a tod@s e... até já :)


17.9.09

O VERDADEIRO AMIGO RECONHECE-SE NA SORTE

Juízo Final (Capela Sistina)

Enquanto o ciúme é um sentimento que podemos chamar triangular (e até é possível confessar porque envolve a presença de três pessoas e, ao fim e ao cabo, é aceite e comunicado), a inveja é bi-pessoal e não se pode confessar, porque há dois actores e nunca se pode mostrar às claras, porque perde-se toda a consideração.

A inveja, como é fácil intuir, é também o único vício que não procura prazer. Diria mais: é algo que macera e atormenta interiormente, que isola da realidade e falsifica as relações. O que aparece completamente evidente é que neste vício encontra-se uma grande percentagem de auto-destruição dado que o invejoso também é sempre uma pessoa descontente e uma pessoa melindrada. Bem sabemos todos como o ressentimento polui a vida, coloca-a numa realidade de estagnação e putrefacção. Isso acontece, por exemplo, quando ficamos ligados a uma cadeia de culpa, quando não conseguimos perdoarmo-nos a nós próprios, ou quando o nosso pensamento se centra de modo obsessivo numa ofensa recebida.

O invejoso detesta de modo visceral o bem dos outros, porque o bem dos outros é percebido pelo invejoso como uma derrota para ele, como um julgamento, como um falhanço de si próprio. O que o invejoso deixa transparecer é a dificuldade – para não dizer a impossibilidade – de se alegrar com o próximo, de compartilhar os sucessos. E isso acontece no círculo mais restrito, no mesmo grupo, até na mesma família, como nos ensina o episódio de Abel e Caim. Deste ponto de vista, talvez possa ser reformulado o ditado que diz que o amigo se reconhece na desgraça. De facto, o verdadeiro amigo pode ser reconhecido quando tudo corre maravilhosamente bem, até bem em excesso.
O remédio para a inveja encontra-se, portanto, na aceitação do outro tal como ele é, naquilo que o distingue e o qualifica. Sem rancor, sem formular confrontos, sem alimentar sentimentos de inferioridade ou superioridade.

Rebaixar os outros, seja de que maneira for, não nos torna melhores.




Para quem acompanhou directa e/ou indirectamente o caso, o Francisco enviou-me hoje um mail que era a minha resposta inicial ao post que colocou sobre mim. Disse que estava no spam e aproveitou para me responder para o mail com improprérios, acusações e falando de pessoas que nem conhece. Se estava no spam, penso que o minimo que podia fazer era publicá-la no respectivo post e não responder-me para o mail, e como já alguém disse que os mails são manipuláveis, não vou colocar o mail que recebi, não apenas para que não voltem a dizer que os mails são facilmente manipuláveis como porque usa uma linguagem imprópria do bom nome dos outros. Todavia, a quem quiser, poderei obviamente enviar o mail que hoje recebi, que contendo a minha resposta aos post que sobre mim escreveu, contém também a contra-resposta que estranhamente me envia para mim não colocando no post onde o meu nome ficou maculado. Não desejo mal a ninguém, mas também não gosto de ver pessoas vilipendiadas, seja eu ou quaisquer outros. Neste caso coincidiu ser eu. O assunto está encerrado. Quem quiser o mail basta pedi-lo por mail. Não trato em praça pública o que os outros gostam de fazer. A blogosfera é, afinal, um espelho fiel do que são as pessoas. Mas nem por isso me tenho de tornar igual aos outros.

16.9.09

JULGAMENTOS


Hoje falamos em tudo menos naquilo que é o mais importante: nós mesmos! Ou seja, falamos das intrigas diárias, dos problemas reais e fictícios, das inopinadas correntes ideológicas e práticas, das infindáveis sensaborias quotidianas, das mazelas do sistema, das realezas da Internet, do "glamour" dos topos de gama, do escândalo que alimenta a maledicência.

Neste quadro falamos literalmente de tudo. Da fotografia mal tirada naquele jornal (e será fotografia?), da má dicção de um locutor, da gravata às bolinhas de um conhecido alguém, da estupidez dos outros (que sem referirmos, aumenta a nossa soberba intelectual), da garrafa partida no chão, da criança que nos deixa aturdidos pelo seu berrar, de um painel de publicidade que devia antes dizer o que nós queremos, de um nariz que talvez precise de uma intervenção cirúrgica, da ofensa que é pensarmos que nem todos são amigos da maneira como queríamos que fossem, do livro cujo autor é que está em julgamento e da própria irritação que é andarmos sempre a dizer mal de tudo. Paradoxo: não falamos, afinal, de nós. De nós como pessoas, como agentes responsáveis de uma realidade que também é nossa! Esquecemo-nos de falar como vai o nosso tecido valorativo, a nossa ordem de valores! De nos interrogarmos sobre o que estes representam para nós e na sociedade em que vivemos. Esquecemo-nos de chamar a depor no tribunal da consciência, a dignidade, a honestidade e a reserva de dúvida. Relegamos o ser humano-essência para falarmos do ser humano-vestígio. Apoiamos e condenamos, anestesiados num poder que não temos. Admoestamos e vangloriamo-nos sem fazer referência ao essencial. Somos mestres do acessório, procuramos lógicas e compramos interesses. Afogamos com temperaturas irrealistas, bússolas e termómetros que acabamos por perder. Espezinhamos com a única “certeza” do que ouvimos dizer, e se é verdade que a psicologia explica muita coisa, não é menos verdade que Ser Pessoa vem sempre em primeiro lugar.

No seu livro, François Miterrand escreve: “Achava que o mundo era belo e harmonioso; tive uma infância feliz, pensava que as amizades eram eternas, que os amores eram duráveis, que as pessoas eram feitas para se amar”. Sem dúvida que não devemos ser ingénuos, mas tal não significa que devamos ser uns humanos sonegados ou equivalermo-nos aos outros. É bom lembrar que ser Pessoa não é crime, que ter valores não significa ser-se moralista, e que a dignificação não é sinónimo de fraqueza. E se o que tinhamos como certo, afinal estava errado? E se a aferição de um juizo não correspondia afinal à realidade? E se as nossas certezas forem, afinal, a maior desilusão?
Se crescer é tornar-se adulto sem se adulterar, então quantos anões não há por aí?
***

Quero agradecer à Terra de Encanto os selos que amavelmente me ofertou e que já estão colocados junto aos outros. Obrigado Susana, pela distinção.

15.9.09

QUANTO BASTE À DOR



Não pretendo fazer a apologia do sofrimento, nem tão pouco um elogio, mas ao contrário do que muitos de nós pensamos, o sofrimento educa-nos para outros valores, outros prismas da mesma realidade. Por meio dele tornamo-nos mais homens, mais fortes, mas empáticos, ainda que pela negativa. Por meio dele aprendemos a frágil condição humana e, paradoxalmente, é este diferente sentir que nos confia o mister de viver, mesmo quando somos naíves em acreditar no ser humano.

Nietzsche escreveu que “só o grande sofrimento é o grande libertador do espírito”, e Camus refere que é ele que ensina tudo! O próprio Cristo é a face visível do sofrimento, mas não de uma forma estóica ou masoquista, antes de uma força libertadora que provém do próprio sofrer. Não se fala aqui de coitadinhos, de curiosos, de reality shows, mas de acidentes reais do viver que por sinuosas estradas nos levam a sofrê-los por inteiro, sem dó nem piedade, como o trepidar de uma bala de canhão que subitamente ecoou no nosso armazém desprotegido. E sofrer faz doer, estigmatiza-nos até à medula, cristaliza as lágrimas e deixa-nos num longo e estéril deserto até à revolta ou insensibilidade! Mas a nossa atitude perante a dor, pode ser o passo de gigante que de outra forma talvez nunca déssemos. Exangues no sentir, física e psicologicamente depauperados, moralmente abalados, tristemente vivos. É talvez nesta fase de atitude de aceitação para a mudança, que se compreende melhor aquele frase de Sting: “how fragile we are”! Porque quase desacreditamos a Humanidade.

Talvez aqui se compreenda a afirmação de que só os homens sofrem e os animais sentem dor. E fortalecidos pela não-lógica, podemos então ver os outros nas suas verdadeiras relações, e não já nessas aferições dogmáticas que apenas diagnosticam o exterior. Procurar o sofrimento é do mais patológico que há, mas saber aceitá-lo quando se interpõe no caminho, com uma atitude de resistência activa como quem procura retirar o que de produtivo possa haver nisso - por mais que o termo possa parecer estranho e desqualificado -, é imperativo. Mas é, acima de tudo, a capacidade de perceber o sofrimento, por menos racional que possa ser a sua fonte, que nos deve remeter para a experiência humana da humildade. E, dessa forma, lutar até ao limite pela dignidade diminuída, mesmo nos aspectos mais desonrados.

12.9.09

ONDAS DE VIVER

Ao largo da Ilha de Capri

De repente estava lá. Todo o mar oculto desabrochando em vivos rochedos. Harmonia grandiosa, paisagens belas, magníficas, naturais, paradisíacas. Ilha de aroma revitalizante com gaivotas pelas encostas. Um chão de rocha ladeado pela água. Alguns corredores naturais numa água translúcida, apetitosa e calma.

De lá, daquele recanto meu, escrevi-te o que era o Mundo. Disse-te que as lágrimas se confundem com o próprio mar, salgado, forte, ondulante e não apenas revoltoso como triste. Mas também depende da carga emocional e dos desejos transpostos do mundo interior e das frustrações que obrigam as pessoas a uma metamorfose rígida, temporariamente necessária, incessante. Dali abarcava o mundo e as suas ondas, imagina. Ondas vivas, propagadas pela água, pelo vento forte, pela espuma cerrada depois do mar espaldado contra a rocha. Ondas de viver...

Exilado podia ser um bom termo com pequenas ambições de pescar outros sonhos e realidades do mar da Vida ali plantado, ao lado, por baixo e sobre a rocha, onde alguns se confundiam, como eu, com o amanhecer e o deleitar de uma tarde, transmissores humanos de vozes alheias. Compreendi tanto olhando apenas aquele universo, sem tristeza ou alegria, que não mais quis regressar. Fosse eu contar o que vira, o que sentira, o que compreendera. Mas não iam entender. Ali, sob aquela rocha. Ali imenso no oceano calmo e turbulento. A sondar actos do viver. Ali enchi-me de azul e de mar, de cinzento e de gaivota, de silêncio e de entendimento universal. Compreendi tudo. Não te tinha eu prometido? Não voltes a deixar que te firam o espírito. Há ondas de mar que te trazem a paz que as palavras não dão, que as respostas não acreditam, e que os espíritos assaltam. A ilha da paz, da paz interior, depois do custo das tormentas, acabava de se tornar realidade. Basta saberes que os tubarões não podem sobrevoar a costa, e as gaivotas estarão a salvo.

11.9.09

NOSTALGIA

Mar Adriático ao largo da Ilha de Capri


É noite. A música toca baixo. Lá fora ouve-se chover. Chover? No verão? Não há nada a fazer. É deixar correr a chuva pelos olhos e saborear o salgado do mar. Mar. Sempre o mar. Tudo acaba por ser possível. Deixou de haver transição. Verão-inverno. Febre-frio. Aventura-recordação.

É dia. Qualquer pessoa compra o jornal como disfarce da timidez e como companheiro. Olha pelo vidro do comboio e vê o mar, o seu próprio bafo batido no vidro. O tempo convida à introspecção. Folheia o jornal , lê e volta a dobrar. Passa-se pela manhã sonolenta no comboio, no automóvel pela marginal rumo ao nevoeiro conhecido. Oh céus como chove. Até a chuva parece um censor de pensamentos. No outro lado da linha, talvez um acelerador de emoções. Nostalgia. Uma sensação de voltar a casa quando já nos encontramos nela. A chuva, o mar e as lágrimas. Sinto-me anacrónico se traçar paralelos de existência vivida ou... não, não é isso. Posso ter a sensação de obsoleto, algo que caiu em desuso, como os valores, mas não é assim. Não existe anacronismo algum. Talvez sejam os outros que estao avançados demais e já espezinharam a verticalidade do ser. É como esta chuva: o verão não se pode sentir culpado apenas porque o Inverno decidiu espreitar ou nascer prematuro. Estão a ver? É a tal coisa das expectativas, das surpresas, das boas noticias, das inesperadas emoções fortes. Taciturno? Contratempos. Porque quero ser assim e sou assado, porque o meu dia há-de chegar com certeza, pleno de subtileza, solicitude e tranquilidade. Porque no Natal vai nascer o Menino Jesus e... Oh Menino Jesus, enquanto não és Homem e não padeces, sorri nos meus olhos, dá-me a esperança e sobretudo o conforto de dormir tranquilo e acordar com o coração a saltitar de esperança ainda que as árvores se abanem violentamente e o vento diga à chuva para reinarem os dois. Ah ano novo, tens de ser diferente, , ainda que seja por uma lágrima furtiva deitada à meia noite quando meio mundo pulula freneticamente e dança estrondosamente com cálices de champanhe e falta tão alto que...

Oh céus. Lembro-me passar na rua quando era puto. Uma mixórdia de emoções. Lá está o Daniel com o anorak azul e as calças igualmente azuis – olha agora para a livraria – poderei tocá-lo? Vou... vou correr o risco... Enxuto as lágrimas como moscas mas nasceu o choro e balbucio. Corro estrondosamente, deixo cair um expositor ao entrar na livraria. Estaco. Avanço um, dois passos. “Da...” quero chamá-lo mas não consigo. “Da...niel...”.

Ele olha-me com os seus olhos verdes cintilantes, alegres, confiantes. Fecho os olhos. E quando me vou abraçar a ele, tentando tocar em mim mesmo, aparece-me a mãe dele. Senhora linda que passou o tempo.

Nostalgia. Choro. Vento. Saudades. Mar.

É o código das estações em que estamos imiscuídos. O mar salta sadio numa ondulação viva e gritante. O universo assiste ao nascimento e morte de um ser humano. Puro.

9.9.09

A BORBOLETA E O CAVALINHO

Ruínas de Pompeia



Esta é a história de duas criaturas que viviam numa floresta distante há muitos anos atrás. Eram elas, um cavalinho e uma borboleta. Na verdade, não tinham praticamente nada em comum, mas em certo momento das suas vidas aproximaram-se e criaram um elo.

A borboleta era livre, voava por todos os cantos da floresta enfeitando a paisagem. Já o cavalinho, tinha grandes limitações, não era bicho solto que pudesse viver entregue à natureza. Nele, certa vez, foi colocado um cabresto por alguém que visitou a floresta e a partir daí a sua liberdade foi cerceada.

A borboleta, no entanto, embora tivesse a amizade de muitos outros animais e a liberdade de voar por toda a floresta, gostava de fazer companhia ao cavalinho, agradava-lhe ficar ao seu lado e não era por pena, era por companheirismo, afeição, dedicação e carinho. Assim, todos os dias, ia visitá-lo e lá chegando levava sempre um coice, depois então um sorriso.

Entre um e outro ela optava por esquecer o coice e guardar dentro do seu coração o sorriso. O cavalinho insistia sempre com a borboleta que lhe ajudasse a carregar o seu cabresto por causa do seu enorme peso. Ela, muito carinhosamente, tentava de todas as formas ajudá-lo, mas isso nem sempre era possível por ser ela uma criaturinha tão frágil.

Os anos passaram-se e numa manhã de verão a borboleta não apareceu para visitar o seu companheiro. Ele nem percebeu, preocupado que ainda estava em se livrar do cabresto. E vieram outras manhãs e mais outras e milhares de outras, até que chegou o inverno e o cavalinho sentiu-se só e finalmente percebeu a ausência da borboleta. Resolveu então sair do seu canto e procurar por ela. Caminhou por toda a floresta a observar cada cantinho onde ela se poderia ter escondido mas não a encontrou. Cansado, deitou-se em baixo de uma árvore. Logo em seguida um elefante aproximou-se e perguntou-lhe quem era ele e o que fazia por ali.

-Eu sou o cavalinho do cabresto e estou à procura de uma borboleta.
-Ah, és então o famoso cavalinho?
-Famoso, eu?
-É que eu tive uma grande amiga que me disse que também era tua amiga e falava muito bem de ti. Mas afinal, que borboleta procuras?

-É uma borboleta colorida, alegre, que sobrevoa a floresta todos os dias visitando todos os animais amigos.
-Ah, era justamente nela que eu estava a falar. Não soubeste? Ela morreu e já faz muito tempo.
- Morreu? Como foi isso?
-Dizem que ela conhecia, aqui na floresta, um cavalinho, assim como tu e todos os dias quando ela ia visitá-lo, ele dava-lhe um coice. Ela voltava sempre com marcas horríveis e todos lhe perguntavam quem havia feito aquilo, mas ela nunca contou a ninguém. Insistíamos muito para saber quem era o autor daquela malvadeza e ela respondia que só ia falar das visitas boas que tinha feito naquela manhã e era aí que ela falava com a maior alegria de ti.
Nesse momento o cavalinho já derramava lágrimas de tristeza e de arrependimento.

- Não chores meu amigo, sei o quanto também deves estar a sofrer. Ela disse-me sempre que tu eras um grande amigo, mas entende, foram tantos os coices que ela recebeu desse outro cavalinho, que ela acabou por perder as asas, depois ficou muito doente, triste, sucumbiu e morreu.

-E ela não me mandou chamar nos seus últimos dias?
-Não, todos os animais da floresta quiseram avisar, mas ela disse o seguinte:
"Não perturbem o meu amigo com coisas pequenas, ele tem um grande problema que eu nunca pude ajudá-lo a resolver. Carrega no seu dorso um cabresto, então será cansativo demais pra ele vir até aqui."

Moral da história meus amigos: Podemos até aceitar os coices que nos derem quando eles vierem acompanhados de beijos, mas nunca as feridas que eles vão causar, porque já não serão possíveis de serem cicatrizadas. Quanto ao cabresto que tivermos de carregar durante a existência, não culpemos ninguém por isso, afinal muitas vezes, fomos nós mesmos que o colocámos no nosso dorso.


Até já.


DESEJO-TE QUE SONHES

Fonte de Trevi



Sonhar...
Quero desejar-te que sonhes de olhos abertos.
O importante é que tenhas coragem sadia
e o bom senso realista de sonhar.

Sonha com todas as forças da tua alma,
com toda a tua capacidade de construir um mundo novo,
um mundo ideal em que se concretizem
todos os teus anseios.

Quando estiveres prostrado
sob o fardo da dor mais amarga
e da decepção mais cruel,
aí é chegado o momento de recorreres ao sonho.

Sonha com a sinceridade.
Dá realidade à tua fantasia.
Acredita no teu interior
que a felicidade existe,
que a aventura acontece,
que o amor vence tudo.

Sonha tudo isso com bravura e coragem.
Mas povoa esse sonho legítimo e belo
com ternura,
com as tintas de um pintor inspirado
e levado pela própria quimera.

Sonha com profundidade.
Atreve-te a construir uma vida nova,
ousa sonhar castelos de nuvens.

O importante é que devaneies,
que te libertes de tudo o que te oprime e decepciona,
diminui ou é rasteiro.

Sonha com grandeza e sem limites.
Quem não sonha e vê apenas o aspecto frio e
existencial das coisas, vê unicamente o exterior.

Somente a sonhar se pode sentir
o calor de um coração,
a vida de um pensamento,
a doçura de um afecto,
a verdade de um sentir.

Sonha, assim;
busca no sonho aquilo que te falta
e o que gostarias de dar, de transmitir
e te sentes incapacitado
ou inferiorizado de oferecer.

Quando te doer o fracasso,
sonha que a vitória está à frente.
Assim não desanimarás
no combate mais rude
e não sucumbirás
na luta mais cruel.

Sonha que o perdão virá
e que o perdão darás
Assim o arrependimento
não terá sentido
e não será apenas um remorso
que nada repara.

Sonha que a vida não pára,
que a vida continua.

Assim não temerás o próprio fim,
nem recearás a própria morte.

Sonha que a alegria coroará tudo.
Assim os raios trarão luz e não medo.
e a noite será bem-vinda,
porque dentro dela e com ela
é mais fácil continuar a sonhar.

Sente que o beijo
tem gosto que não envelhece
e a alma tem carinhos que
ainda precisam de ser inventados
para serem entendidos.
Assim como o teu ser.

Se queres que a realidade não te abata
e não te leve ao pesadelo constante
de não poderes fantasiar,
vive intima mas intensamente
a beleza de não haver limites à tua frente
nem barreiras em teu redor.

Para isso abre os olhos e mergulha no infinito.
Sonha, sonha tudo aquilo que jamais realizes,
mas que a imaginação te trará
dentro da musica e da poesia.

Sonha
hoje
e para sempre...
Mas sonha!
Mesmo que te achem frio
ofensivo, cruel ou impostor.
Tu sabes que a fragilidade do ser
se esconde na defesa férrea
mas quem ousa ver para além da armadura?

Por isso sonhando encontras a fonte
que te leva ao mar...
O mar do qual habitas
em vidas límpidas, puras, cristalinas...

Sonha... e as tuas lágrimas
converter-se-ão em gotas de mar

Depois... bem, depois são horas de acordar!

Mas por ora, por favor, sonha...
Há um menino que se recusa a lutar...

7.9.09

O ESPÍRITO HUMANISTA E OS SENHORES DOUTORES

Florença

Que importância terá a nossa vida em sociedade se não houver partilha e uma inter-relação pessoal verdadeira? Seria ingenuidade minha dizer que não devemos ser ambiciosos, ou que toda a nossa vida se deve pautar por um comportamento que visasse sempre primeiro os outros e só depois nós, embora eu tenha sido toda a vida assim, mas aprende-se. Todavia, é também uma realidade que, se não se deve pecar por defeito, também o não deverá ser por excesso.
Vive-se um grande individualismo. Todos são amigos de todos mas o facto agudizante é que cada um olha para si como um ser quase absoluto, um novo yuppie, embora tardio e consequentemente deslocado numa perspectiva de self made man.

Presta-se vassalagem ao culto do eu, afirma-se a proponderância da personalidade individual, salienta-se a propósito de tudo e de nada o curriculum vitae de cada um. E o que haverá de mais excelso do que afirmar-se sobre os outros, vincar as opiniões, fazer prevalecer os seus pontos de vista e, se preferível, derrotar o seu adversário, vergá-lo ao peso dos seus argumentos e dos seus interesses? Penso que, para se ser eficiente não é necessário extrapolarmos tudo o que somos e pensamos, como se mostrássemos uma espécie de vísceras intelectuais abonatórias de uma capacidade infinita.

Somos, antes de tudo, seres humanos que devem mostrar sê-lo, mesmo quando não colocam as medalhas em primeiro lugar, ainda que delas tenhamos legitimamente orgulho. Conheço pessoas com importantes funções mas que despertam e emitem um sentido de humildade e de serviço, que quase não as teríamos como o que são: engenheiros de física experimental no doutoramento onde, quer a postura, quer a simplicidade do diálogo, revelam acima de tudo a excelência do ser humano; juízes que de forma muito natural e sem preciosismos no vocabulário falam a linguagem do quotidiano sem que primeiro dêem um toque à sua imagem ou façam constatar que são juízes, advogados, médicos e professores que uma vez o sendo, têm como principal preocupação ser gente, ser Pessoa, e poder servir com os seus conhecimentos.

Ser competente sim, ser capaz de desenvolver todas as nossas capacidades, sim, é claro. Mas perder o ser no meio da ostentação (por natureza balofa) do curriculum, da conversa pseudo-desinteressada, da absoluta certeza a todo o custo, não será uma forma grave de egoísmo? E já nem falo dos arruaceiros, dos que dizem mal de tudo e opinam como meros revolucionários. É importante a ousadia, a irreverência, mas apenas numa óptica de frontalidade educada. E não devemos confundir educação formal com substância de opinião. A má educação também se revela na opinião em si. Criticar nao equivale a tirar olhos, desvalorizar e parodiar o outro. Criticar significa mostrar as divergências numa perspectiva construtiva e nao de mera constatação de facto. Assim nao se aprende mais do que aquilo que julgamos saber.

A inteligência não se mede pela admiração que possamos causar nos outros, mas pela capacidade de viver em toda a plenitude as minhas potencialidades mas também as minhas limitações...

***

Nota: Agradeço a exterma bondade da malinha viajante que me ofertou o prémio "Este blog é um sonho". tal como os anteriores recebidos, está com muito orgulho colocado na barra dos premios recebidos. Em breve também eu instituirei novo prémio, para além do já oficial que vou oferecendo aqui e ali. Obrigado, malinha viajante :)

5.9.09

EM REDOR DE NÓS


O que é o luxo? Um carro topo de gama? Uma casa com jacuzzi na varanda e vista para o campo de golfe e para o mar? Um sistema de som high-tech, uma refeição de ostras, trufas, caviar e champanhe? Pensar em luxos não é difícil. Todos temos ambições, sonhos... e frustrações. Todos já imaginámos um dia-a-dia sem o sufoco da contagem, todos já ansiámos sair desta vide de filme de baixo orçamento.

Quando já não se aspira uma viagem a um lugar exótico, aspira-se por uma ida à lua., e se um carro topo de gama já não anda o suficiente, um avião a jacto certamente andará. Os nossos sonhos e ambições são feitos à nossa medida, à medida das nossas insatisfações, porque o homem é, por natureza e definição um ser angustiado, inatamente frustrado, eternamente insatisfeito...

Vivemos na era do ter. Se tu tens e ele tem, eu também tenho de ter. Claro que o dinheiro ajuda, mesmo não trazendo felicidade. O pior é quando a felicidade pode estar nalgumas coisas que o dinheiro pode comprar. E quanto mais se pode, mais se tem. E quanto mais se tem, mais se quer. Quanto "custa" sermos felizes?

Umas férias alegram-nos, uma refeição satisfaz-nos, um pedaço de verde e de brisa também. E as férias tanto podem ser no Dubai como num recanto esquecido da Gulbenkian, de um jardim municipal, de recantos que não conhecemos tão perto de nós, ou apenas não os valoramos. A felicidade pode estar tanto nas grandes como nas pequenas viagens. Viagens ao interior de nós, no "silêncio e tanta gente", viagens para descobrirmos outras terras, outras latitudes, outros prismas de visão: todo um mundo dentro de nós! O dinheiro ajuda. Mas não compra nada, não dá nada, não oferta a visão de um prado refrescante com amigos e pessoas que nos sejam queridas. E com pessoas que acabámos de conhecer, mesmo ali, e que são produtos naturais da espontaneidade num amor universal.

A felicidade pode estar nas pequenas viagens e nos sítios e momentos que menos tomamos como a sendo. Basta não estarmos constantemente à procura da viagem. A felicidade também se encontra nos momentos, no deixarmo-nos perder... para nos admirarmos como nos encontrámos pelo braço de alguém desconhecido. Tudo o resto é o peso das teias de aranha que acumulamos na impreterível maneira de ser, justificando com isso todas as nossas atitudes. Quantos não acabam sós logo no início em nome do orgulho e de viagens que nao fazem ao interior de si? Temos sempre de repensar e actualizar as nossas decisões. É que a felicidade é, também e sobretudo, o simples gesto do encontro, o riso descontraído e aberto, o ser confiante, a comunicação autêntica. Se não soubermos viajar assim, então estaremos sempre a fugir de nós.


Nota: Obrigado, Gonçalo pelo prémio "Vale a pena ficar de olho neste blog", e obrigado André Couto pelo prémio de "blog viciante". Já os coloquei orgulhosamente aí na barra lateral direita junto com os outros que me foram amavelmente oferecendo :)

3.9.09

SETEMBRO

Olá a todos!

Agradeço, antes de mais, os comentários e a amizade demonstrados de diversas formas no post anterior. Desde a preocupação inicial da Lusibero, passando pelos que se "chateavam" brincando por nunca mais voltar, como o Luis Ferreira, Kotta ou o André Couto, e, obviamente, não apenas os que me desejaram boas férias, mas também os que discorreram sobre o post em si, agradecendo desde já palavras sempre tão elogiosas de tantos, mas ainda mais carregadas em casos como Forteifeio, Tiago David, Tenessee, Charlotte, Terra de Encanto, Ricardo Calmon, Pena, Silvy ou Fragmentos Culturais. Acreditem que sabe bem reencontrar estes amigos virtuais mas que existem, têm um nome próprio e uma vida real. Todavia, não estive sempre de férias desde o dia em que postei o "Até Já" a 14 de Agosto, ou melhor, fiz férias sem ser a viajar. Penso que devemos dar férias a nós mesmos sem ser em viagens por cidades, terras, países, i.e., chegar das férias no sentido clássico do termo e ficarmos uns dias por casa, no campo, com som dos grilos, e desligado da blogosfera ainda que espreitando os e.mails. Foi o que fiz, embora também demorasse para vos ofertar um filminho de fotos por Itália onde bisei Roma mas onde não conhecia o resto. Deixo-vos com um filminho (o mínimo que posso fazer para quem preconiza tanto fotos pessoais nos blogues... olá AnAndrade já reparei que puseste umas recentes e assim deviam fazer todos os bloguistas de quando em vez). O filminho de fotos é um cheirinho dado que apenas posso colocar 60 fotos e de resto nao queria maçar com fotos a mais.

Não vou conseguir por-me em update dos vossos blogues, pois não apenas são muitos como consumiria imenso tempo, mas verei os posts mais recentes.

Obrigado por continuarem aí, pela amizade expressa e deixo-vos então com algumas fotos mais turísticas de Itália num périplo que fiz.

Até já, amigos.