30.6.09

DA AMIZADE (A SÉRIO E A BRINCAR)

Recebi do Cafezinho (nome de código de uma amiga minha) este mail que perpassa na net. Fala da amizade.


"Um jovem recém-casado estava sentado num sofá num dia quente e húmido, bebericando chá gelado durante uma visita ao seu pai. - Ao conversarem sobre a vida, o casamento, as responsabilidades da vida, as obrigações da pessoa adulta, o pai remexia pensativamente os cubos de gelo no seu copo e lançou um olhar claro e sóbrio para seu filho. - Nunca esqueça seus amigos, aconselhou! Serão mais importantes à medida em que você envelhecer. - Independentemente do quanto você ame sua família, os filhos que porventura venham a ter, você sempre precisará de amigos. - Lembre-se de ocasionalmente ir a lugares com eles; faça coisas com eles; telefone-lhes ... - Que estranho conselho!, pensou o jovem. - Acabo de ingressar no mundo dos casados. Sou adulto. Com certeza minha esposa e a família que iniciaremos serão tudo que necessito para dar sentido à minha vida!Contudo, ele obedeceu ao pai.Manteve contacto com seus amigos e anualmente aumentava o número deles.

À medida que os anos passavam, ele foi compreendendo que seu pai sabia do que falava. Conforme o tempo e a natureza realizam suas mudanças e mistérios sobre um homem, amigos são baluartes de sua vida.

Passados mais de 40 anos, eis o que ele aprendeu: O Tempo passa. A vida acontece. A distância separa. As crianças crescem.Os empregos vão e vêem. O amor fica mais frouxo.As pessoas não fazem o que deveriam fazer. O coração se rompe. Os pais morrem. Os colegas esquecem os favores. As carreiras terminam. MAS... os verdadeiros amigos estão lá, não importa quanto tempo e quantos quilómetros estão entre a gente.
Um amigo nunca está mais distante do que o alcance de uma necessidade, torcendo pela gente, intervindo em nosso favor, e esperando de braços abertos, abençoando nossa vida!Quando iniciamos esta aventura chamada vida, não sabíamos das incríveis alegrias ou tristezas que estavam adiante. Nem sabíamos o quanto precisaríamos uns dos outros."



*****


Pessoalmente concordo bastante. E a propósito deste tema, rejubilem com mais um post do Peter of Pan. Não porque me referencie lá, mas porque fala da Amizade em tom simultaneamente sério e a brincar, e porque tem as pérolas humorísticas do costume. Citava algumas mas prefiro mostrar-vos o post por inteiro. Carreguem aqui :) Atenção que ele tem posts em que pode ferir a susceptibilidade. ;)


O BAILADO DO SURFISTA

Não é que me identifique com desportos radicais (apenas gosto de ténis) mas o vídeo está soberbo na imensidão da onda e na perfeição do bailado do surfista.

28.6.09

O OUTRO LADO DA QUESTÃO

Somos todos muito novos para pensar que sabemos tudo.

Ou, se preferirem, vemos as coisas pelo nosso prisma, irredutivelmente lógico, mas outras coisas a ter em conta, e se não formos por aí, não seremos mais do que pretensos sábios da nossa própria inerrância. E atenção: isto aplica-se a qualquer área da vida de cada um. E na política, na sociedade, nas relações entre pessoas. De outro modo, não deixaremos cair a nossa teimosia mesmo quando nos provam que se calhar não estamos tão certos quanto isso.

27.6.09

DO POST ANTERIOR

Fiquei muitíssimo impressionado com as vossas palavras relativas ao post anterior, que acredito sinceras e agradeço tanto elogio. É um facto que falo pouco do meu quotidiano, mas costumo falar de mim de outra forma :)

Previ responder individualmente mas faço antes um agradecimento geral pela representação de um "painel humano" que se identifica com a verticalidade dos valores, mas também com a Simplicidade, o valor da Amizade e a Humildade.

Muito obrigado a tod@s. Sinto que devo postar mais sobre interstícios meus, do meu daily life, é uma espécie de tácito pedido vosso, mas também não sou exactamente do tipo de pessoa que embora legitimamente, usa o blog para coisas como "hoje parti uma unha" ou "fiquei três horas à espera de ser atendido no médico" ou "está sol vou aproveitar para fumar um cigarro" e recebem 500 comentários por isso. Espero não melindrar ninguém, mas se tal acontecer, as minhas antecipadas desculpas por isso.

Comemora-se agora o twitter no seu 3º aniversario. Eu penso o contrário. Não é a informação em súmula e em catadupa que interessa no ramerrão diário. É do tempo interior que necessitamos, com conversas que nos interpelem, com vídeos mais longos de musica e imagens, sem ser tudo em que cada post faz com que o anterior fique automaticamente desactualizado.

Antes os diários serviam de catarse e eram sempre pessoais e com chavinhas e tudo. Hoje são na versão blog, com pérolas interessantes como as que mencionei acima ou "o que acham deste relógio?", "Comi um Haggen Dazz" ou "Sinto frio"... Não haveria twitter que valesse. E, contudo, lá vão 500 comentários, lídimos, obviamente, mas que deixam a pensar, quando ainda por cima tanta gente nem se conhece sequer pessoalmente e os blogues não têm identificação fotográfica da pessoa, o que leva a uma maior abertura para o bem e para o mal. A maledicência corre melhor.

Bem, lá estou eu nas minhas reflexões. Se coisa que gosto é a Partilha, e ver o que cada um diz do seu sentir em cada dia, é bom, é partilha, mas há partilhas e partilhas, sem detrimento nenhum de se poder falar de coisas simples e leves como "encontrei um amigo de longa data, pusemos a escrita em dia, foi gratificante etc"... Já remete para algo mais consistente se se desenvolver o que aconteceu nesse encontro, por exemplo, do que "engasguei-me ao pequeno almoço". Ponto final. Fim de post.

Obrigado, pois, por tanto elogio. Se sou merecedor, sabem que não faço elogios grátis, que sou mais simples do que talvez devesse, que perdoo com a mesma facilidade com que me sinto eventualmente melindrado ou sensibilizado, e que tenho a noção de que não temos aqui morada permanente. Não vale a pena gastar o hiato de tempo que temos em minudências que nada acrescentam ao Ser Humano, que pode desenvolver valores éticos e morais, professá-los e vivê-los com alegria, simplicidade e humildade, numa dádiva constante de amor universal.

Aprecio o humor. Amando-me para o chão a rir com o que me faz rir mesmo, mas embora considere o registo do sarcasmo e da subtil ironia como produto da inteligência, nem por isso me revejo nele. Gosto mais da brincadeira solta, leve, despreconceituosa, amiga, sem acidez nem sarcasmo que facilmente pode desembocar em atritos nas ténues fronteiras das relações humanas.

E por aqui me fico, antes que adormeçam a ler-me. Sabem, sempre tive dificuldade em fazer sinopses. Sou demasiado analítico. É um terrível defeito meu.
Abraços e beijinhos mil e muito obrigado por me terem eleito merecedor de tanta admiração, carinho, amizade e respeito. Sinceramente.
Com SIMPLICIDADE e a amizade que me é possível por este meio

Daniel Lobinho
(e venham lá as propostas de férias) :)

25.6.09

SUAVE DIA DE VERÃO



Só para não dizer que não apareço e para vos invectivar no que em tempos fiz: postem fotos vossas. Há amizades que nunca chegam a acontecer.

Hoje fui mimado por tantas colegas de trabalho, que fica sempre a gratidão de sermos autênticos e de, por isso, sabermos que só é verdadeiramente amigo quem sabe aceitar a crítica num plano construtivo, quem tem sentido de humor (quem não sabe rir de si e das suas mazelas tem problemas de auto-estima), e por isso fica sempre um manto espalhado de um riso contagiante e autêntico.

É bom reencontrar tanta gente que me sabe frontal mas educado, directo mas sensível, extrovertido mas respeitoso e amigo.

Todos temos defeitos e curiosamente gosto que apontem os meus porque assim aprendo mais a melhorar mais. Não que tenha havido qualquer defeito ou mal entendido; estou apenas a falar da minha atitude relacional (i.e., com os outros: ser autêntico, não dizer por trás, falar com educação e algum humor os aspectos negativos (assim não magoamos e ajudamos a crescer e vice-versa porque amigo não é aquele que nos bate nas costas a dar um grande apoio quando sabe no fundo que até estamos errados) e essa minha atitude relacional com os outros, tem sido conseguida na maior parte dos aspectos da minha vida. Ao ser sincero, autêntico, divertido, sem deixar de ser o mais simples possível e sem nunca ser socialmente correcto dizendo as coisas em jeito de brincadeira ou in extremis dizer com um ar mais formal no que discordo, estou a reeditar a minha atitude relacional que sempre tive.

Por vezes as pessoas podem pensar-nos uns anormaizinhos, uns ineptos, uns simplórios, e só quando por alguma coisa que viram, leram, souberam... é que dizem que afinal somos muito dotados, muito isto, muito aquilo, e eu pergunto-me: das duas uma: ou era suposto vangloriarmo-nos do que somos no dia a dia, ou simplesmente sermos (e começamos sempre por ser Pessoas, assim, com P grande, e só depois pessoas com formações académicas ou desempregados mas com emprego na vida (carácter, liberdade, simplicidade, autenticidade, sentido de justiça).

Não costumo falar das coisas mais ou menos "comezinhas" do dia a dia no blog, mas o reencontro soube bem ao fim de tantos meses com tanta gente com quem privo, de uma forma ou de outra, que para a foto não ficar aí tipo moldura embora tentando incentivar-vos a fazer o mesmo, mais uma vez, escrevo estas linhas num dia de verão suave... Gosto do calor assim. sem ser em excesso.

Escrevam sempre. E por favor, não me endeusem. Sou do mais simples que há. Gosto de elogios, fico babado, claro que sim. Gosto dos prémios, dos desafios, claro que sim. Mas também gosto de ser simples e mais do que isso, de encontrar pessoas simples, não cheias de si, e como tal, receptivas a adubar o campo humano.

Faz tanta falta simplesmente sermos, não faz?

Um grande abraço e beijinhos para todos vocês que me acompanham neste cantinho e para quem estarei sempre disponível como tantas vezes tenho feito menção.

Ah, é verdade. Férias? Vão-se fazendo. Mas sim, podem continuar a escrever :) Afinal, como digo, há amizades que nunca chegam a acontecer que não na virtualidade dos blogues.

Até já.


22.6.09

... SEM TI...

Não tenho visitado as vossas páginas, mas continuo aqui. Mesmo que fugido. Aproveito apenas para postar este video que uma amiga me enviou e em que o valor da amizade está tão presente.



19.6.09

DE QUEM SOMOS ESPELHOS?

Quantas vezes nos armamos no "quero, posso e mando" das nossas vidas? E das vidas dos outros! Porque cultivamos tão pouco a serenidade e a confiança perante ideias diferentes e propostas novas? O medo e uma sobrevalorizada autoconsideração distorcem a nossa percepção do mundo e até dos outros. Ficar na segurança da nossa verdade, é contrário ao sentido de auto-crítica de que tanto falo, do justo valor (porque por vezes julgamo-nos mais daquilo que somos, outras vezes julgamo-nos menos). E como ficamos na segurança da nossa verdade, endeusamo-nos. É por isso que, quando os nossos maravilhosos projectos falham, ou uma experiência dramática nos atinge, reagimos como arruaceiros ou entramos em depressão. Poucos têm a humildade de reconhecer o erro, ou simplesmente aceitar a natureza das coisas.Sem desistir de se tornar melhor a si e ao mundo.

A vida não tem seguros contra todos os riscos. Existe uma caução a pagar da nossa parte. Precisamos da grandeza de coração e de confiança para ir às outras margens, para ultrapassar muros e fronteiras. Incluindo os nossos. De amarmos a simplicidade em detrimento da sobranceria e arrogância intelectual. O julgar que tudo podemos e somos. É por isso que precisamos da grandeza de coração puro, da humildade em nos calarmos quando for o caso reconhecendo que não somos detentores da verdade absoluta, mas também da dignidade em nos opormos pela verticalidade dos valores. Que são coisas diferentes.

Considero também aqui, o aspecto estrutural de cada pessoa. Umas mais macambúzias, outras mais "mexilhonas", mais deprimidas, extrovertidas, contidas, irritáveis e irritantes, descontentes com tudo, rezingonas, calmas, dóceis, razoáveis, assertivos, modestos, arrogantes, vaidosos... e toda uma mescla sempre indefinida no marvavilhoso mundo que é o Homem e a mente. Pessoalmente, revejo-me nos risos abertos, espontâneos, naturais, falador e sorridente, embora igualmente contemplativo, como quem assiste com a mesma alegria, pulando e cantando num concerto de música pop/rock ou assistindo a uma peça dramática de teatro, a um concerto de violino e oboé ou simplesmente a olhar o mar. Mas possa embora a personalidade influenciar os nossos estados de espírito, não deve, não pode, sob pena de falta de higiene mental e suas eventuais consequências, encapotar os juizos que fazemos dos outros e de nós mesmos, embaciar a sensatez que se requer nas mais simples atitudes do quotidiano, ou falsear as nossas "certezas", qual esquizofrénico que apenas pensa reconhecer-se a si mesmo.

De qualquer forma, independentemente da predisposição estrutural da personalidade de cada um, se não tivermos essa humildade da revisão dos nossos actos, de nos olharmos em espelhos que não distorçam a realidade e só digam como na história da Branca de Neve que somos os mais belos (neste caso, seria os melhores), não só nos afundamos em distimias ou mesmo depressões graves, como andamos desfasados de uma vida que não é a nossa, nem de ninguém, crentes de que as nossas certezas são infalíveis e de que não é o mundo que gira à nossa volta mas sim nós à volta dele.

Estamos no Verão. Fruir, sair, fazer férias também em fins de semana, fazer férias dentro de nós (e sim, continuo receptivo a propostas, conforme perguntado num comentário no post anterior) ou usar uma tarde para saborear um gelado, ver o mar, rir desbocadamente de inocentes anedotas, descobrir locais, exposições itinerantes, feiras medievais, e simplesmente deixar de pensar é, não apenas salutar, como sabermos que as férias não devem ser um interstício nas vida uma vez por ano, em que descarregamos tudo de um ano inteiro que não se compadece só destes tempos estivais, e por isso, dosear as férias, como quem faz um descanso, vai ao cinema, convive com amigos, não pensa muito nas coisas, lê um livro descontraidamente, cruza as pernas numa esplanada, ou simplesmente faz novas amizades, é muito mais importante do que saber onde se vão gastar os dias oficiais de férias, sendo que o gastar deve ser sinónimo de ganhar e não de perder, no sentido do Principezinho quando diz "foi o tempo que perdeste com a rosa que tornou a rosa tão importante para ti".

Esse tempo, para nós e para os outros, numa vida inter-relacional, não pode ser apenas o tempo de verão, mas um descanso continuado e faseado dentro das possibilidades que possamos ir encontrando, ou faremos parte das estatísticas dos enfartes de miocárdio, de stresse emocional, de AVC's ou de uma vida que julgamos boa e descomplexada, repletos de nós, cheios de nós, quando afinal o que temos são falsas certezas, e as opiniões extremam-se, as atitudes erram, e julgamos estar sempre no caminho certo.

Obrigado por todos os comentários do post anterior. Já lá respondi - como agora faço quando ao escrever novo post -, mas de alguma forma enfatizei de novo aqui o sentido das férias dentro de nós, de que falava no post anterior.
Tá calor...

Até já :)

18.6.09

FÉRIAS DE NÓS?

foto tirada de avião
O calor aperta. Abafado ou natural, aperta. Alguns fizeram férias, outros preparam-se para elas. Dos mais variados tipos. Férias de si mesmo, de um ano lectivo, de exames ou projectos a ultimar um curso, de teses ou trabalhos numa pós graduação, do trabalho de sempre, de uma vida por viver... outros simplesmente estão de férias involuntárias há muito, ou gozam férias dentro de férias.

O que me traz à colação é o tema das férias neste tempo já estival, e não tanto o tipo de férias. É mais a substância e não a forma. Se conseguirmos esboroar metade das defesas que diariamente usamos, certamente faremos mais amizades e seremos tão predispostos como os nossos emigrantes que, quando lhes pedimos uma direcção, dizem-nos "vai sempre em frente, depois vira tout à gauche, e depois da esquina é tout à droite". Ficamos sem saber se agradecemos, se perguntamos de novo ou se percebemos a direcção. E assim, neste tempo repleto de festas e romarias, lá vamos encontrando também outras pessoas, novos e velhos, uns na loucura da novidade, outros na placidez do quotidiano. No meio de tantos "Ola Ti Manel, comment va o senhor? ou Mas o que é que tu queres, filho? Toma lá um cadeau"... fica a simplicidade da abertura e alguns vaidosismos estéreis.

Quando as férias servem para retemperarmos forças, para nos banharmos no azul da tranquilidade, nas ondas do descanso, de sensações agradáveis e despreocupadas, então vale a pena francamente tê-las. Mas se as férias se tornam sociais (dizer que se esteve fora, etc) então podem ser uma óptima simulação e acabamos por voltar a Setembro (ou ao mês que for) com a sensação de desgaste. Foi, sem dúvida, um diferente período de tempo, mas terão sido férias?

É necessário um convívio autêntico que permita a intimidade e o descanso. Não apenas o mais fotografar, o mais ver, como se fossemos repórteres de uma revista de viagens em que temos de anotar os locais, os percursos e tirar fotos obrigatórias. Fazer férias sem pressas, sem querer ver e estar em todo o lado. Pessoalmente fui -passe a rendundância- algumas três vezes às Berlengas. E, numa delas, fui sozinho, ficando uma semana no forte da Barra, num quarto que mais devo dizer cela, com um antiquissimo postigo de ferro, uma cama, uma mesinha antiga com um antigo-lava mãos e a caliça da parede num espaço ligeiramente exíguo. Mas ouvia o som das gaivotas a deitarem-se por volta das seis da tarde, o marulhar, e sentia a dimensão humana de tão pequeninos, quando estava nos pontos mais altos e olhava o porto conseguindo medir as pessoas quase unindo o polegar com o indicador.

Quem faria férias num sitio povoado pelo silêncio, água tanslúcida, rochas, gaivotas e lagartixas? E, todavia, senti-me interiormente banhado de paz, de um sorriso que desculpa tanta atitude alheia, e que nos faz relevar aquilo que noutras épocas tentariamos explicar à exaustão. Sorrimos como quem está num avião e olhando para baixo quando este vai a aterrar ou descola, deixamos de ver terra e locais, e passamos a ver manchas cada vez mais ínfimas até estarmos literalmente nas nuvens e sentirmos que tanta gente lá em baixo a "formigar-se" por espaços pessoais, em quadradinhos de existência como se aquele fosse o único lugar e os problemas os únicos no mundo... Tudo se relativiza. Assim ali, como se estivéssemos no Monte Sinai, longe de tudo e de todos numa paz que a natureza transmite e nos obriga a aprender que a sabedoria não é conhecimento.

pessoas que se cansam de procurar um sitio para passar as férias. Istambul, Las Palmas, Gibraltar, Estados Unidos, Malta, India, Egipto ou Ibiza. Algarve, Sameiro, Cuba, Nepal, Canadá, Florença, Republica Dominicana, Tibete ou Estoril? Campismo ou excursões? Auto-férias ou cruzeiros? E agora, porque não ficar em casa?... Importante é partilharmos e saborerar momentos continuados de prazer, melhor será dizer de fruição, de descanso, de um mundo temporariamente desaparecido (do trabalho, da política, das recriminaçõees, do ramerrão rotineiro ...) e enriquecermo-nos mais pelo simples gesto de sorrir. É que quando voltarmos ao mundo por onde instantes saímos, por certo estaremos revigorados e felizes por termos sido verdadeiramente nós, de que muitas vezes nos esquecemos, entrando em atitudes grupais e seguidismos de moda, conveniência ou pura ignorância.

Férias? Férias (também) de nós... sozinhos ou não.

16.6.09

* CARTA *

Foto tirada a um quadro de hotel


Sinto-me tentado a não fazer balanços da minha partitura. Tento observá-la neutralmente como uma simples análise. Nas melodias, nos tons profundos, nas notas suaves! De que servirá esta música? Para que servirá esta pauta? Para ser tocada pela sapiência secular da orquestra do mundo? Para ser dirigida por um maestro que racional e equilibradamente conduza as notas em tons mais sintonantes?


Mas é a minha vida. Uma partitura escrita com andamentos do tempo e da experiência. Com fragilidades que descobriria a emoção ao mais cruel dos homens, e pujantes ritmos que deixariam boquiabertos os mais convencidos! Não existe interlúdios nem traços contínuos. Existem agudos e graves que se misturam incessantemente na harmonia de um sentimento caótico. Por isso não sei viver, dado que não sei catalogar a música. Não sei compartimentar a vida. Viver é relacionar uma amálgama de experiências a cada segundo actualizadas. E, no entanto, todos os dias perguntam quando sai o disco. Mas pode acabar-se uma vida como se fosse a construção de um prédio?


Caminho para nenhures mesmo sabendo que o faço. Pior é quando pensamos saber o fim mas não conhecemos o meio. Até a morte é um momento, não um passo irreversível. Fica a obra, fica o estilo de música, e novos autores darão enfoque a outros precursores.


Não. O disco não sairá como resultado final. O disco sou eu, diariamente tocado por elegias com coros profundos a lembrar as trevas, e vozes doridas a materializar a dor. Com sons carregados de tristeza e nostalgia, mas não tétricos. Com ritmos enérgicos que convidam à dança, com pulsares de alegria que instintivamente nos fazem mexer o pezinho como quem se embala descontraidamente até se aperceber que na realidade fruía o momento em vez de o formalizar. Com notas brilhantes e distintas, simples e claras, sem junção de instrumentos que não o próprio sentir.


A chuva cai lenta, miudinha, transversal. Depois torna-se cinzenta e austera. Assustadora. As vozes calam-se. Por instantes o mundo fica silente. Depois uma nuvem brincalhona afasta-se e empurra o sol para mais perto. As vozes voltam a ouvir-se como um tropel que se insinua. Outras vezes nada disto acontece.


No verão também o tempo fica estático. Como nós. O cheiro intenso a alcatrão de alguma estrada inundada de sol tórrido! Sem angústias. Sem anseios. Doentio. São. E tudo isso é música. O próprio silêncio. Tudo isso é vida. Instrumentos naturais de uma sinfonia tocada mesmo quando dormimos. Universal.


A vida não é um catálogo de compras nem um panfleto eleitoral onde constam promessas de um projecto. Por isso, quando me perguntam quem sou ou o que faço, respondo apenas a sorrir, porque o valor da nossa vida não depende do êxito do trabalho. Outras vezes digo uma frase que li algures, e que espantando o meu interlocutor, me deixa a mim livre para seguir o que quer que seja. A frase diz assim: Só na escola dos baldões da vida se faz o doutoramento para a tarefa de viver...

15.6.09

A LENDA DA VERDADE

Pormenor de um altar que gostei


Numa manhã de Domingo, durante a missa, a comunidade de dois mil membros é surpreendida ao ver dois homens entrar. Ambos encapuçados e cobertos de preto de cabeça aos pés, armados com metralhadoras.

Um deles disse: “Quem quiser receber uma bala por Cristo fique onde está"!

Imediatamente os diáconos fugiram, o coro fugiu e a maior parte da comunidade fugiu. Dos dois mil ficaram vinte.

O homem que tinha falado tirou o capucho. Depois, olhou para o padre e disse: "Ok Padre, pus todos os hipócritas na rua. Agora pode começar a sua missa. Tenha um bom dia. "

E os dois homens voltaram as costas e saíram.

Quantos sorrisos amarelos não há por aí? Quantas supostas Amizades não sucumbem à primeira dúvida? Quantas invejas escamoteadas com palavras doces?

Uma boa semana a tod@s

14.6.09

Videos curtos e giros ;)

Não tenho feito montagens, como dois ou três comentários têm referido e a quem agradeço por gostarem ;), mas deixo-vos estes clips que talvez já conheçam mas são sempre engraçados. Não os posto no sentido do gozo, obviamente, mas dão sempre vontade de rir. É o povo português, e qual é o mal?

atenção à linguagem

concorrência ao Ronaldo

Cuidado: tem bolinha *** ;)

13.6.09

TUDO MAS NADA NOS PERTENCE


Vimos ao mundo sem coisa alguma.
Por isso, uma coisa é certa: nada nos pertence.
Vimos absolutamente despidos, porém com ilusões.

A criança nasce com as mãos fechadas,
com a ilusão de que traz tesouros ao mundo,
mas não há nada nas mãos.
Nada lhe pertence,

então porque estamos preocupados com a nossa insegurança?

Nada pode ser roubado,
nada nos pode ser tirado.
Tudo o que usamos pertence ao mundo.
E um dia teremos de deixar tudo aqui.

Será que estamos no caminho certo?

Há indicadores que são muito simples:

As tensões começam a desaparecer. Ficamos mais senhores de nós (atenção à soberba intelectual e à arrogância na qual podemos cair se não fizermos constantes auto-críticas); ficamos mais calmos, encontraremos beleza em coisas que jamais achássemos poder ser belas; as menores coisas começarão a ter imenso significado. Tornar-nos-emos menos e menos cultos e mais e mais inocentes -como uma criança que corre atrás de borboletas, ou quando pega nas conchas do mar numa praia. Sentiremos a vida não como um problema, mas como uma dádiva, uma bênção, uma graça.

Estas indicações crescerão continuamente se estivermos na pista certa. Se estivermos na pista errada, acontecerá exactamente o oposto. Tudo mas nada nos pertence.

Até já.


12.6.09

MARCHAS POPULARES


As Festas dos Santos Populares não são o Teatro Nacional de São Carlos, uma ópera, um concerto de música erudita, uma palestra literária ou um bailado russo. Também não são um concerto de música hard-rock, eléctrica ou uma rave. São, tão-só, a manifestação popular da devoção aos respectivos santos, numa componente lúdica de bairros, cada qual pretendendo mostrar o seu melhor, com as decorações, as bandas, as marchas, os padrinhos e madrinhas, os arraiais em si (mais ou menos ricos) com sardinhas, tascos, sangrias, vinho, batata a murro, vendedores de ocasião a vender "nogauhts", amendoins e algodão doce, e todo um ror de pequenas grandes coisas que cada bairro, cada cidade, por sua vez, tenta engalanar da melhor maneira, atraindo pessoas de fora e de dentro numa festa que não é exclusiva de ninguém, que não carece de convite nem de fato, e onde cada um é exactamente aquilo que é, porque está ao ar livre, porque fala ao telemóvel, ri, dança, senta-se, come, bebe, observa, não faz nada, sem quaisquer imposições como num teatro, num cinema, numa palestra, num "cof cof" a mais...


Sempre gostei dos santos populares. Vejo as pessoas a passarem de barco do outro lado de da margem dirigindo-se para Lisboa e a fazerem o sentido inverso quando terminam as festas, que os barcos não duram até às tantas embora se prolongue o horário, tal como comboio da linha de Cascais, com pessoas de vários quadrantes e cores segurando vasos com manjericos, ainda lendo os papelinhos que lhes coube em sorte, risos estampados no rosto, fazendo dos transportes públicos um prolongamento natural de uma festa que não podia terminar apenas porque se vieram embora, e por isso seguram os vasos e riem... e os barcos e comboios transformam-se num palco ambulante de quem se divertiu muito e bem numa noite que é de todos.


Gosto muito de ver toda esta emoção e cor. Porque é natural, porque é povo, porque é Amália (costumo dizer que sou muito Amália, muito povo, no sentido da naturalidade e da espontaneidade) da mesma maneira que admiro pessoas assim. Simples, naturais, sinceras, com quem podemos sempre contar, embora possam igualmente ter gostos mais rebuscados por outras áreas mas que não deixam, por isso, de ser simples. A inteligência por si só de nada vale se nao houver sensibilidade (ou seremos arrogantes) e a sensibilidade remete para a natureza de cada um mas deixando entrever a honestidade, a naturalidade, a franqueza do sorriso e da partilha, o deixar que precisemos do outro, e assim sermos verdadeiramente pessoas. E só por isso, escrevi este post. Porque sendo o Santo António em Lisboa, o São João no Porto, o São Pedro (em Sintra e noutros lados, certamente) e os santinhos da devoção popular um pouco por todo o lado embora em alturas diferentes, importa que ali as pessoas SÃO, natural e espontaneamente, como um único coração na praça grande que são as ruas e a vida.


9.6.09

REDIMENSIONAR A VIDA

Num curto jogo de ténis

Ouvimos todos os dias, falar de crise, de falta de emprego e habitação condigna, de exclusão social, de violência e tantas outras coisas, sem encontrarmos remédios que contrariem esta situação. O que falta? É natural que baralhemos as estatísticas e já não nos lembremos dos pés descalços pelo chão e do pão escasso em cima das mesas de outrora. Ontem, os pobres lutavam por sobreviver, amando-se. Havia para o vizinho e o amor e a solidariedade andavam lado a lado. Hoje, o egoísmo reparte-se e deixamos de pensar nos outros, extinguindo os verdadeiros valores da vida.

Temos de aprender a verdadeira arte da vida. Tanta gente que nasce, vive e morre sem nunca se terem conhecido. Morrer sem nunca ter dito um poema, ou cantado uma canção. Só na compreensão de nós mesmos se pode melhorar e permitir que a personalidade melhore a humanidade. Mas quantos olham para si e não apenas não se conhecem como se julgam conhecer. Doutos ignorantes, dizia Sócrates. Há que esvaziar os conceitos vazios do que somos e levantarmo-nos de encontro à vida. Não se pode deixar que a poeira da rua ou da cidade nos cegue, e penetrar na essência das coisas.

O segredo da vida é a humildade que nos transforma em pessoas enérgicas e eficientes, capazes de dominarmos situações adversas e os ventos contrários da existência humana. Se o elevador cai ou se incendeia por qualquer escada se sobe. Mas é muito importante não nos determos apenas no lado brilhante da coisa: a humildade da finitude, o saber que nada sabemos ou que, pelo menos, não sabemos tudo, é tão importante como o resto que acabo de dizer. São duas faces da mesma moeda: o ser humano todo, e não apenas a falsas forças e certezas de quem se julga eterno e ominiscente.

Hoje somos levados pelos impulsos libertinos dos tempos modernos, que não geram felicidade; pelo contrário, trazem insatisfação, sofrimento, confusão, desnorteamento e, até repulsa e nojo. É por isso que temos de saber ser críticos em relação a nós mesmos para depois o podermos ser em relação aos outros, às coisas e ao mundo. Não podemos meter a vida numa garagem. que fazermo-nos ao largo. Há muito amor para dar e para construir, uma força interior que une e um amor que modela e uma paz de espírito que valem mais do que todos os bens materiais ou empenhos desnecessários em vidas que mais são existências.

O coração tem a grandeza do mundo. Só quem não o dimensiona à infinitude se torna cerebral e não sabe o que é viver.

***

7.6.09

A HUMILDADE É SAPIÊNCIA DE VIDA

Arte sacra: sacrário
fotografado na capela do
Centro Comercial Colombo em Lisboa
no parque de estacionamento subterrâneo.



Partilho convosco este "Aprendi" cuja autoria desconheço. Não será novidade para muitos como não o foi para mim, mas é bom lembrarmo-nos das coisas simples que formatam o nosso viver e nos colocam no verdadeiro pódium da existência: a humildade de saber que pouco sabemos, e que temos sempre muito que aprender. Se não estivermos cegos nas nossas certezas infundadas e relativas.


Abraços e beijinhos a tod@ e até já.



*************


"Aprendi que não se espera pela felicidade: procura-se por ela;
Que quando penso saber tudo, ainda não aprendi nada;
Que amar significa dar-se por inteiro;

Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos;

Que se pode conversar com as estrelas;
Que se pode fazer confidências com a lua;

Que se pode viajar além do infinito;
Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde;

Que sonhar é preciso;

Aprendi que se aprende errando;

Que o silêncio é a melhor resposta

quando se ouve uma tolice;

Que trabalhar não significa ganhar dinheiro;
Que os amigos conquistamos
mostrando o que somos;


Que os verdadeiros amigos
ficam sempre connosco até o fim;

Que a maldade pode esconder-se onde não pensamos;

Que se deve ser criança a vida toda;

Que a nossa alma é livre;

Que o que realmente importa é a paz interior;

Aprendi que não importa o tipo de relacionamento
que se tenha com os pais:
sentiremos falta deles quando partirem.

Aprendi que saber ganhar a vida
não é a mesma coisa que saber vivê-la.

Que viver não é só receber, é também dar.

Aprendi que, se se procura a felicidade,
vamos iludir-nos.

Mas se centrarmos a atenção na família, nos amigos,
nas necessidades dos outros,
procurando fazer o melhor,
a felicidade vai encontrar-nos.

Aprendi que sempre que decido algo
com o coração aberto,
geralmente acerto.

Aprendi que quando sinto dores,
não preciso ser uma dor para outros.

Aprendi que diariamente preciso
alcançar e tocar alguém.
As pessoas gostam de um toque humano
segurar na mão,
receber um abraço afectuoso
ou simplesmente uma tampinha amiga nas costas.

E finalmente aprendi que não se precisa morrer se para aprender a viver! "




6.6.09

O meu coelhinho e outras coisas

Estou cansado, mas venho actualizar o blog. É também terapêutico depois de um susto com o meu pai (a quem chamo ternamente coelhinho, esqueçam não iam entender...) e que já está fora de perigo em enfermaria mas a quem tive de fazer reanimação ainda em casa e a quem a idade vai pesando e os males antigos, embora desta vez ainda seja um diagnóstico inconclusivo. Quando a minha mãe se foi embora em meus braços há três anos, e acima de Deus há a minha mãe , o meu pai, apesar de eu ter dois irmãos e uma irmã e sermos daquelas famílias muito unidas sempre a perguntar uns pelos outros e em contacto directo, é o meu coelhinho, e a minha mãe era a minha galinhinha. Esqueçam, também não iam entender estas fofurinhas.

Mas quero agradecer à Lusibero a amabilidade com que me honrou com o prémio Violeta (abaixo), que coloco junto aos outros e que ofereço a quem me lê e segue. "Este selo representa as sensações que a cor violeta traz para a nossa mente.É atribuído a blogues que nos lembram algumas das sensações da cor violeta: magia, encanto, graciosidade, magnetismo e tudo aquilo que parece mágico". Obrigado, querida amiga Maria Ribeiro (Lusibero).

Da mesma forma, quero agradecer à Formiga o prémio Friends, que me escreveu num comentário para não me esquecer de o ir buscar, embora o dedique, tal como eu, a todos quanto a lêem, sem especificar ninguém, por isso também vos dedico a vocês, como é meu hábito oferecer os prémios que recebo a todos quantos me visitam. Obrigado por mais este prémio, Formiga. É um prémio que já me havia sido oferecido pelo Bruno e por isso já está ao lado na "galeria dos prémios", pequenos gestos simbólicos que ofertamos uns aos outros.

No que diz respeito às sondagens, a resposta à primeira pergunta:

"[ Quem disse "A compreensão é a melhor prenda que um ser humano pode oferecer a outro"? ]

Ninguém acertou na resposta entre as hipóteses dadas (Madre Teresa, Victor Hugo e Christin Orban). Madre Teresa estava em primeiro lugar, Victor Hugo em 2º e Christin Orban não foi votada, mas a citação é dela.

A resposta à pergunta de quantos esquilos vivem em Nova York (5 .000, 8.000 ou 10.000) a resposta correcta era a última, ou seja, cerca de 10.000

Finalmente a resposta à terceira pergunta

[ Quem escreveu: "A nossa época, embora fale tanto de economia, é esbanjadora: esbanja o que é mais precioso, o espírito". ]

de entre as opções que dei (S. Francisco de Assis, Friedrich Nietzsche ou Bento XVI) a resposta certa é a vencedora: Friedrich Nietzsche.




Entretanto, o Rafeiro Perfumado, editou a sua segunda compilação de textos humorísticos publicados no blog, cujo capa está abaixo e com um título hilariante, como se pode ver :) Está agora em digressão na apresentação do livro pelo que podem ver as datas no seu blog. Não queria, porém, deixar passar outro blogue de temática hilariante. Trata-se do Peter of Pan, que está ao nível (com o registo diferente mas não menos apetitoso) do Rafeiro Perfumado.



Last but not the least, a exposição recomendável de Hélder Rocha, que está aqui ao lado na barra lateral (sempre actualizada) e que repito abaixo. Trata-se da Exposição de Pintura na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa. Vão ver. Até dia 24 de Julho.


Ainda uma palavra para uma bloguista. A Fatucha do Para Lá das lentes que, como podem ver pelo link, será " 3 personagens na peça 'A Birra do Morto' ;a estrear dia 27 de Junho pela tarde, no Auditório Carlos Paredes na Junta de Freguesia de Benfica".


E é tudo o que quis partilhar convosco.
Daniel (Lobinho)

4.6.09

SE ME DEFINISSE SERIA ASSIM...

Tirada em 2008


"Fui sempre todo doente, todo agónico, todo inocente, todo sensual, todo humilde, todo violento, todo sincero, todo pecador, todo poeta!... O caixão que me levar dentro, leva uma vida humana maciça". (Miguel Torga)


Se me tivesse de definir, definir-me-ia assim. Porque só temos uma vida, e não valemos nada para além do que julgamos. Precisamos de desmascarar a hipocrisia, alimentar a amizade sem a confundirmos com partidarismos, lançarmo-nos no Amor mesmo que batamos com a cabeça e fiquemos aos cacos, estender a mão a quem não conhecemos mesmo que se afigure um andrajoso barbudo e mal cheiroso, derrubar o Tempo e viver nele. De que servem as cortesias, os sorrisos de ocasião, os gestos interesseiros, o estar com todos e querer a todos agradar? Nada. Só temos uma vida. Gastemos a voz pela verdade; a sensibilidade pelo amor (e há várias formas de amar); a verticalidade dos valores pela solidão, se necessário for. Mas vivamos. Para que o caixão leve dentro uma vida e não um corpo...


Até já :)

3.6.09

ELOGIO DA PAZ

Tirada no verão passado

Precisamos de Paz. Precisamos de parar a contagem do calendário. Precisamos de recostar a cabeça, de fechar os olhos por instantes e respirar silêncio. Não fomos feitos para a aceleração que nos envolve. Não fomos criados com toda esta indizível riqueza humana para ouvirmos ecos ruidosos dentro e fora de nós, incessantemente, numa batalha sem sentido. Precisamos de reaprender os vocábulos. Precisamos de nos lembrar do significado da Tranquilidade, da Afeição, da Serenidade. Precisamos de reencontrar a Paz.

Nada disto é discurso, se apesar da geada ou do calor pela manhã, do sono interrompido, da irritação provocada, do stresse epidérmico, da refeição apressadamente engolida, dos problemas constantes, considerarmos que necessitamos de maior respeito por nós mesmos, e calar essas vozes colectivas de ruídos tumultuosos que nada nos dizem. Podem fazer parte da nossa realidade, mas não quer dizer que sejam nossos. Podem por vezes ser inevitáveis, mas não significa que tenhamos de corresponder no mesmo grau. A resposta está na atitude e não no agir objectivo.

Vivemos na inquietude, na intranquilidade, na agitação forçada a que nos habituámos. Curiosamente há até quem não prescinda dela. E no entanto, quem disse que tinha de ser assim? Não devemos ser escravos de um ritmo que não é nosso. Precisamos de Paz. Não porque não saibamos o que ela é, mas porque começamos perigosamente a perder-lhe o sentido e a pensar que é um privilégio de monges ou eremitas. Não temos necessariamente de contemplar a imensidão do mar ou o azul do céu. Mas a serenidade interior, caminho para a Paz, não é um estado de contemplação. É um estado de quem se insurge, de quem se irrita, mas também de quem sabe zangar-se com os próprios motivos que nos tiram a tranquilidade. E quando as nossas cinzas não fizerem jus à nossa labuta, restará a explicação de que nos afadigámos pela mera sobrevivência. E, então, o que teremos sido? Insectos?
Arredados que andamos da serenidade interior, talvez levemos algum tempo a reconquistá-la, mas cada um, no seu ritmo próprio, acabará por perceber que se não regar a flor, ela definha e morre.

Até já.

2.6.09

DESSACRALIZAR A RAZÃO

Roma, 2008

As emoções são o motor vital que impulsionam – para o melhor e para o pior – todo o nosso modo de agir. É inegável a carga que a emoção produz em cada um de nós, ao ponto de se poder configurar situações que nos tornariam afectivo-dependentes ou sem domínio real da vontade (sem que para isso haja qualquer espécie de lesão orgânica). Na realidade, medir a inteligência do Homem descurando o animus, a fisiologia de um todo, é o mesmo que julgar alguém por uma acção isolada que não caracteriza um comportamento habitual. Os testes de QI em pessoas com resultados elevados desaprovaram milhares de candidatos ao emprego, tão-só porque mediam, por grelhas padronizadas com bitolas métricas, relegando por completo a forte componente emotiva que nos rege.


O império dogmático e avassalador da razão desumanizou o Homem, precisamente porque não compreendia no seu estrito âmbito, o factor da ponderabilidade emotiva, objectivando um caminho lógico e demasiado racional. Aquilo que a Psiquiatria e a Psicologia explicam, era disfunção, anormalidade e doença para o homem racional. Felizmente que a ciência com passo de gigante no conhecimento dos enredos intra-psíquicos e emocionais, compreende os mecanismos que nos despertam os mais variados sentimentos, com respostas orgânicas desastrosas ou curativas. Cientificamente seria difícil demonstrar o não-racional como algo tão natural e intrinsecamente nosso, já que, socializados que somos, ou há normas consensuais de actuação, ou na falta desse comportamento haverá lugar a perturbações como os distúrbios psíquicos. Mas não. Pelo estudo aturado do comportamento humano, vemos vários ramos das ciências humanas (particularmente a Psiquiatria, como mãe da Psicologia), a fazer luz sobre as zonas mais recônditas do eu. E são essas zonas que teimosamente pretendemos desligar do corpo, como que negando as próprias emoções ou aceitando-as num plano puramente inferior e secundário. Na realidade, são essas as mais intensamente actuantes. Pessoas muito pacíficas e de temperamento calmo, podem ter zonas de agressividade que nunca venham a descobrir, e que todavia interferem num fluxo inconsciencializado de actuações pessoais. Há depois todo um mundo de processos psicológicos do qual não nos apercebemos imediatamente, mas que materializamos de forma automática: racionalizações, sublimação, transferência, recalcamentos... e são essas zonas que inter-agem com aquilo que pensamos ser meramente racional.


António Damásio pôs em livro o seu contributo na pesquisa dos fenómenos naturais, e Daniel Goleman vem falar-nos da Inteligência Emocional. Temos de ter em conta, sem dúvida, todo o edifício da personalidade, e não nos determos no falacioso império do racional como sendo a nossa caixa negra. Não é. Se nos lembrarmos há uns anos da derrota de Kasparov frente ao computador Deep Blue, será fácil compreender tudo isto ainda com mais clareza. O computador usa uma lógica pura, normalmente binária, para um (in)determinado número de jogadas feitas e previstas. Não se cansa, não teme resultados, não sofre de sudação, não existe para além da função com que foi programado.


Atender às emoções, é sabermos (com a naturalidade que não queremos assumir) que a razão tem razões que o coração conhece. E se conhece é porque não é inferior a ela. É sempre bom lembrar, porém, que a emoção não é um compartimento estanque de sentimentos cor de rosa ou de zonas impetuosas: é todo um mundo interior que pesquisa no exterior, no código genético e nas ancestrais raízes antropológicas, estados de espírito e linhas de acção que por vezes nos confundem onde não queremos. Devemos olhar-nos na nossa riqueza, não obstante complexa, com naturalidade, sabendo que o autoconhecimento é a chave principal para o debelar de tantos novelinhos que, assim, talvez não existissem.


Nota: Devido à minha escassez de tempo e também à falta de disponibilidade interior, não tenho visitado os vossos blogues e, como tal, não tenho comentado. Tentarei fazê-lo com a calma com que gosto de o fazer e não a correr, à medida que me for possível, agradecendo, porém, todos os vossos comentários que geralmente leio no telemóvel e, por isso, a dificuldade em saber como vão vocês e os vossos blogues. Pela vossa amizade, obrigado a todos.


Beijinhos e abraços amigos e sentidos.


Até já.