30.1.09

Sublima-me


A todos e ninguém. depende da resposta.

Chove. Lentamente. Numa valsa sonolenta.
Estou aqui. A olhar a chuva. E a vida.
Emoções, pensamentos, vazio.

Somos todos gotas de água,
até que alguma chuva nos sublime.
Traz-me o Sol de inverno. E sublima-me.


29.1.09

Ben, ou o Amor a fundo perdido


Ao pedir-me lume para o cigarro, o rapaz que usava brincos na parte superior da orelha esquerda, uma camisola com uma Torre Eiffel electrizada, umas calças de ganga justas, e umas botas de biqueira quadrada, apesar de um ar limpo como se tivesse acabado de comprar a indumentária e com um cabelo muito penteado, parou um pouco como se interrompesse o pedido, olhou-me com os olhos humedecidos e afastou-se em passo largo.

Não tive tempo de lhe dizer que não fumava, mas intrigou-me o comportamento, e entre ficar apreensivo por mais algum tempo ou arriscar abordá-lo, optei por arriscar.

Era alto e avançava rapidamente. Por isso, já perto dele, e porque aparentava ser estrangeiro, estendi-lhe um: “Hi”! Surpreendentemente, voltou-se. Óculos escuros redondos, mala preta ao ombro. “Sorry, but i’ve been so lonely”... – disse a sorrir como que desculpando-se. Estas coisas acontecem geralmente num filme ou lêem-se no enredo de um livro, mas estava-me a acontecer ali naquele momento. Fiquei, não sei se por isso, momentaneamente gratificado, mas também porque tinha ao seu encontro, não deixando escapar aquela reacção que eu não tinha compreendido. E foi assim que acompanhei o seu passo estugado, apenas vendo-o de perfil.

Falámos. Era fotógrafo de grupos musicais estrangeiros, estava há dois meses em Lisboa e partia no dia seguinte para a Croácia. Vive nos Estados Unidos, em Seattle, onde tem a namorada e o seu círculo de amigos a quem chamava família, e fazia uma viagem de trabalho onde tentava recuperar a auto-estima.

Vinte cinco anos, um quê de confiança e um caminho que desconhece. “Affection”, disse-me já sentado num banco da Gulbenkian depois de uns passos transpirados. E daí fez o puzzle todo. Ali estava um desconhecido apetrechado de coisas que afinal eram o sinal amarelo para um vermelho interior. Vi-o vulnerável, débil e vacilante. Não lhe dei conselhos, mas opinei. E dei testemunhos pessoais. E interroguei-o, falei-lhe depois na tibieza, na dependência que ele dizia ter de estímulos exteriores, e também na tensão emocional daí resultante. E como baixar a tensão? “How, how, Daniel”? Perguntava-me depois em tom quase familiar, mas também sôfrego e sequioso.

Deixei ouvir o silêncio e disse-lhe depois em voz baixa que se ouvisse a si mesmo e que não tentasse uma resposta com “R” maiúsculo, mas tão só uma resposta ou pelo menos pistas para ela. Ele tinha as coisas já equacionadas, apenas não conseguia dominá-las, superá-las, vencê-las. No fundo, a impotência que todos nós experimentamos em diversas situações. E eu estava particularmente sensível a algo de que também padecia: a dependência de forte motivação. E ao seu olhar quase terno, correspondi com um sorriso de empatia e outras quantas palavras como quem pinta de branco nuvens negras que prometem desfazer-se em água.

“Affection”, disse ele uma outra vez. Medo do mundo e das pessoas. Dependente dos seus próprios labirintos numa viagem de descoberta, mais do que de trabalho. Inteligente. Humano. Perdido. E despedimo-nos com a promessa de que ele continuaria a tentar deixar de fumar ou de tomar drogas, de deixar de comer ou... para aliviar a tensão. Pediu-me se me podia prometer isso a mim. Compreendi que surtiria um efeito psicológico diferente. “No Ben, you can’t. You MUST promisse me that!” E depois de um aperto de mão entre dois cidadãos anónimos (ou nem tanto), seguiu para Campolide onde alguém do grupo o esperava, presumo. Seguimos direcções opostas, certamente pensativos.

Aquele gesto abortado ao pedir-me lume para o cigarro, foram afinal lágrimas que reclamaram sair traindo-o no mais inesperado momento. E a única coisa que agora lamento, a uma distância do sucedido, foi não lhe ter dado um contacto ou pedido o dele. Talvez que ele um dia pudesse escrever uma nota a dizer qualquer coisa como “perhaps i still didn’t quite strange habits at all, but i’m trusting myself more than giving myself a try”. E eu ficaria feliz por saber que uma conversa inesperada, contribuíra afinal para o que de mais importante existe na crise da afectividade: amar a fundo perdido.

28.1.09

OLÁ, PAI


Um amigo blogista insurge-se no seu blog (Prazer Inculto) sobre a decisão judicial de dois anos de pena suspensa sobre a mãe afectiva da menina conhecida por vários nomes, entre eles, Esmeralda.

Todas as opiniões são válidas e merecedoras de respeito e, por natureza, os pais afectivos são sempre melhores do que os pais biológicos. Mas há excepções. Ninguém duvida do amor e do cuidado que o casal afectivo terá pela menina (o nome é discutível), - apesar do relatório de que os pais afectivos teriam personalidade distorcida e paranóica e convenhamos que se comportaram sempre como uns outsiders-, mas o facto é que, quando o verdadeiro pai (este não como os outros que não se importam dos filhos) toma conhecimento do caso e, após testes de paternidade conclui ser sua filha, não argumento que valha para não entregar a menina ao seu legítimo pai.

Digo mais: se os pais afectivos gostassem TANTO da menina que adoptaram, não a teriam sonegado todo este tempo, fugido à justiça e ao mais elementar direito do pai em ter a filha. (Estamos a falar de uma pessoa de bem, não de um alcóolatra). SE gostassem TANTO da menina, tê-la-iam entregue quando ela tinha DOIS anos e não agora por via da justiça com seis.

Trata-se de poder, de afirmar a sua posição sobre a dos outros e de uma forte corrente pública em torno deles que se gerou e que lhes deu força para continuar uma batalha que, se virmos bem, visa mais os próprios ( Luís Gomes e mulher) do que a menina. Em tê-la, não em amá-la apenas.

De resto, a menina tem estado bem com o pai. Parece que até isso se quer tirar à criança... O SEU verdadeiro pai. Para mim, a parentalidade partilhada logo no início quando o sargento e a mulher se mostraram inamovíveis quanto à pretensão do pai e às decisões judiciais, como se a criança fosse um automóvel e não um ser humano, teria sido o mal menor.

Mas folgo em saber que ela se encontra bem (demais do que se esperava) com o seu pai biológico, mais do que em saber se houve sanção por uma mulher ter subtraído sem razões validas a criança a tudo e a todos. Não sabia ela que quando crescesse a menina podia perguntar quem eram os seus verdadeiros pais?

Talvez um Dia...


Talvez um dia. Sempre. Quando a morte te fizer conhecer as entranhas do sofrimento. Talvez nunca. Marejar-te-ão os olhos de infâncias perdidas. Quererás morrer sem um sentido ou procurar em vão o sol que já não vês.

O mar é longo e lindo, e o céu outra passagem de infinito. As nuvens dão-te a cor, e sentir-te-ás filho do universo. Não receeis, então, a lógica humana. O sublime guarda-se e sente-se no mais sagrado dos silêncios, ainda que contenha dor.

O mundo ensombra-te com a fúria da agitação constante e forçada. Ris e falas, mas a tua alma solta lágrimas de exaustão e intranquilidade. O inverno empatiza-se contigo, molha-te e sopra-te no rosto como que a dizer que também ele se acostumou à dor, mas não percebes que a noite também tem o seu silêncio e o seu encanto.

Tornas-te ainda mais insatisfeito, e o teu existir agarra-se visceralmente à tua carne. A razão fecha-te os olhos e impiedosa obriga-te a avançar.

Nos dias mais quentes, a brisa afaga-te o rosto tentando acalmar a tempestade que sempre escondeste, mas mais uma vez não consegues ler esses sinais, e julgas-te apenas mais um, entre milhares de seres vivos!

Acorda. Sorri. Deixa que o mar e o céu e as nuvens e o vento e a brisa te devolvam à vida a que sempre aspiraste e a quem tens direito. Então não sabias? O céu continua lá, e a vida mantém-se, mas és tu que a tem de polir, de lhe dar o brilho do encanto, fazendo de cada dia uma esperança renovada. E tens tantos exemplos à tua volta. Tantos!

Por isso renasce. Muda de nome, de atitude, e solta o teu espírito prisioneiro. Alegra-te, sorri, adormece e ouve o som das fadas. Elas existem se tu deixares que sim. Como tudo o que é luz a que nós fechamos a janela. O mundo que gira à tua volta não é um mundo absoluto. O mundo que gira à tua volta tem tanto medo de ti como tu dele. Ah não sabias? Não sabias que o mundo é apenas a soma das partes?

Deixa toda essa inquietação. Vive em cada dia o que puderes, sem te esqueceres que nada és a não ser aquilo que sentires ser.
... Sentirás a Vida!

27.1.09

Poema Teu


A noite cai
a vida aquece
ou talvez arrefeça nos teus olhos cintilantes
( sim os teus, sejas quem for )

O barco passa
o pássaro vai dormir
só tu vigias.

Como é maravilhoso seres alguém
( sim tu, sejas quem for )
sentires e saberes
que o universo está sempre aqui...

... Contigo...

Bullying Homofóbico

A rede ex aequo (associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes) enviou à Ministra da Educação, o relatório bianual do Observatório de Educação LGBT, organismo criado com vista a reportar situações de discriminação respeitantes a orientação sexual e identidade de género bem como ocorrências de veiculação de informação incorrecta, preconceituosa e atentatória dos direitos humanos e da dignidade das pessoas lésbicas, gays, bissexuais e transgéneras, que tenham ocorrido em estabelecimentos escolares em Portugal.

O último relatório apresenta os resultados de 92 formulários recebidos entre Outubro de 2006 e Outubro de 2008, de jovens a partir dos 15 anos a adultos na casa dos 30 a 40 anos, na sua maioria alunos, mas também de professores e funcionários. Mais de metade das queixas recebidas são oriundas dos grandes centros urbanos.
Isabel, foi uma das alunas que denunciou o caso de homofobia aos 16 anos através desta instituição, dado que o Conselho Executivo da Escola nada fez (a aluna era cercada por colegas e agredida sem que ninguém fizesse nada, continuando as ameaças físicas e psicológicas noutros anos lectivos mesmo tendo mudado de escola, apesar de mais atenuadas), e hoje com 18 anos vê o Tribunal dar-lhe razão.
A instituição mencionada refere que os resultados vão ao encontro de estudos feitos por todo o Mundo, não podem ser ignorados e demonstram as consequências da ausência de uma educação para o respeito e para a promoção da dignidade das pessoas LGBT nos currículos, nas salas de aula, no espaço escolar e em geral, falando também do bullying homofóbico. E concretiza sintomas: "isolamento, baixa auto-estima e agressividade contra terceiros, chegando, em alguns casos, a ocorrer auto-mutilação e tentativa de suicídio. A adaptação e a integração das vítimas no ambiente escolar é difícil e há mesmo seis jovens que indicam abandono do sistema educativo devido à discriminação sofrida".


Noutra altura poderei escrever aqui sobre homossexualidade (masculina e feminina - a que vulgarmente se dá o nome de gay e lésbica, respectivamente), mas para já importa reflectir que os próprios jovens nas escolas portugueses, devendo ser mais abertos, mais despreconceituosos, mais tolerantes, solidários e inovadores, são afinal muito mais conservadores do que os seus próprios avós, realidade constatada por imensos professores e por mim mesmo, nas escolas portuguesas quando se lida com eles directa ou indirectamente, e não me refiro apenas ao caso concreto da homofobia.
Os jovens que supostamente deviam ser de mente arejada numa sociedade de ipods e computorização, são afinal tão antiquados e agressivos porquê?
Uma pergunta pertinente que os professores em geral debatem, tal como eu.

Se estás só...

Amigo,
se estás só
não guies a noite
para a desilusão...


No frio nocturno
encontra-se, por vezes
o calor do dia

26.1.09

Se partires...

Se partires nas ondas do vento
deixa que a música te invada
que o amor te inunde
que a vida venha a ti...

O ser em ti fecundado
são lágrimas de alguém
que não pôde chorar...

Deus Existe?


Ponho-me a pensar sobre os autocarros que actualmente fazem publicidade, uns a dizer que Deus existe e outros a dizer que não, nomeadamente em Londres e Madrid.

Remonta ao seu próprio aparecimento, a controvérsia que sempre se gerou entra a ciência e Deus. Dizemos que não sendo possível provar Deus, logo não existe, e então a sua validade será igual à do Pai Natal, dos duendes ou das fadas madrinhas. Nada mais falacioso, elementar, simplista e redutor. Acreditar nestes entes faz parte do crescimento psico-afectivo da criança (e mal das que não sonham o mistério), mas uma vez tornada adulta, a criança discerne pela razão, não o absurdo da crença, mas a efabulação necessária que houve, com elementos constitutivos do crescimento como os seres mágicos. Transmitida embora de forma diferente em criança e em adulto, a ideia de Deus não deixa de ser racional, o que já não acontece com os seres míticos das fadas ou duendes.

Não há qualquer lógica em concluir que por Deus não ser uma realidade científica, i.e., mensurável, quantificada, experimentada, não exista. Cientificamente não existe a beleza de uma sinfonia, mas um debitar de decibeís. Não existe estética, nem amor, nem arte, nem nada na ciência que não a mera prova pelo método científico. A ciência é amoral. É-lhe indiferente que amemos ou repudiemos alguém. Ou seja, não podemos legitimar a ciência naquilo que não é seu.

A ciência simplesmente se deve limitar ao seu campo (por natureza restrito). Não podemos forçar a razão para além dos seus limites. O Homem está para além de si. Pretender, por exemplo, que o registo da actividade cerebral na sua vasta complexidade poderia vir a explicar e determinar uma realidade que é transcendente, é sermos intelectualmente arrogantes, deificando a nossa própria existência.

A ciência é o resultado do Homem na conquista do saber. Somos inquietos, queremos mais. Passamos a ver o mundo como ele é, e não como julgávamos que fosse. Tiramos proveito disso. É o progresso. Mas saibamos ter a humildade de não legitimarmos à gastronomia o estudo dos quarks, ou de pedir à religião que se pronuncie sobre as células cancerígenas. E ironicamente até pela mecânica quântica a probabilidade de algo ter surgido do nada é muito remota.

Decididamente, Deus não se alcança pelo esforço intelectual que dele possamos fazer. Porque Deus ultrapassa a finita razão, e o finito não pode conhecer o infinito. A razão é um simples instrumento que não percebe nada de amor. Aceita-o, porque se compreende racionalmente, mas não entende. Razão e emoção são por natureza antagónicas, e no entanto não se invalidam; apenas não se imiscuem. O mesmo com o amor a Deus, que não é um capricho ou um sentimentalismo cor de rosa, mas uma responsabilidade consciente. Entra, então, a fé que mais uma vez supera a razão. Somos, de facto, limitados. Se um homem numa ilha não pescar por desconhecer a existência de peixes, tal não invalida a sua existência.

Como diz Michel Renaud: “O ser humano é hoje confrontado com tantas racionalidades diferentes, que abandona a ideia da unidade da verdade, duvida da razão e torna-se céptico”.

25.1.09

Amar Dói



Amar dói. Faz crescer, apaixona-nos, dá-nos vigor, mas dói! Porque amar é partilhar, empatizar o mundo do outro, saber gerir afectos num tempo continuado. Porque amar é sentirmo-nos interpelados no mais profundo do ser, na razão da nossa existência, no marasmo da nossa vida. Amar dói porque é sempre difícil respondermos racionalmente a apelos sentimentais e instintivos, porque somos seres demasiado bem feitos para algo que seria tão natural e espontâneo: o acto de amar!

A verdade é que somos carne mas também somos espírito. Temos um intelecto que nos dita a razão, mas também temos uma alma que nos insufla do sentido do belo e sublime, do transcendente, do indefinível, de eternidade. É também por isso que amar dói. Porque nem sempre sabemos conviver com estes nossos espaços, com a candura de um sentimento e o pragmatismo da acção. Porque somos seres maravilhosos (talvez demasiado), e por vezes somos subitamente incrustados numa rocha que não sabíamos existir, rebentando um mau humor ou uma indisposição que não sabemos explicar. São zonas racionais e afectivas que se interpenetram e criam uma espécie de redoma vazia da personalidade. Quando isso acontece não sabemos amar, confundimos amor, sentimentos e emoções. Tentamos pensar, articular razões objectivas, e vemo-nos momentaneamente incapazes. É porque existe todo um mundo emotivo que nos comanda e que só ultimamente lhe começamos a dar atenção, provando-se, assim, que a razão é um mero instrumento, nunca um motor.

Amar dói, porque também se ama sem se amar efectivamente. Uma espécie de amor platónico em que muitas vezes o objecto do amor não sabe que o é. Isto confere maior fragilidade ao sentimento de quem ama e, consequentemente, inflige-lhe sofrimento. De resto, existe todo um emaranhado de comunicação gestual, verbal e tácita que leva dois seres a sentirem-se atraídos, retraídos, intimidados, repulsivos, amistosos, cúmplices, empáticos... ainda que sem motivos racionais ou aparentes. Depois não nos podemos esquecer que o princípio é sempre um tempo muito delicado. É para muitos a necessidade da sedução. Enfim, somos assim. E por isso o amor traz sofrimento. Não seria natural dizer que estamos apaixonados à razão dessa paixão e não a diários estéreis? E todavia, não é verdade que a sedução é a embaixatriz por excelência do porto do amor? Mas ainda não é tudo! Há como que um código de silêncio que se for quebrado antes do tempo, inviabilizará quase irreversivelmente um projecto de vida. E, no entanto, não devia ser assim.

Não me refiro à sedução sensual que objectiva momentos de prazer. Refiro-me a uma relação que começa nas teias emotivas de cada um e que pode não ter, (apesar de também poder ter) a ver com uma relação carnal. Não se nutre a amizade do amor? Desinteressado, oblativo e incondicional? Aqui, como nas relações passionais, quando as águas se agitam no fundo por um barco que passa, dá-se a impressão da calmaria à superfície, para não haver manifestação de interesse real. Mas ele existe. Se nos mostramos interessados, os outros tendem a achar-se melhores, mas se ninguém emitir sinais de interesse, acabarão por platonizar. É uma espiral que só termina quando o silêncio é quebrado no momento oportuno, tendo porém presente que nunca sabemos quando é esse momento. E como as circunstâncias não são sempre coincidências (o que, a existir, seria uma óptima fada madrinha que infelizmente não existe), acabar-se-á, nuns casos, por sentir a dor de um amor não partilhado, ou de reeditar o sucedido noutra versão, com tudo o que tem de improvável.

Por isso, o amor dói. Porque somos esquisitos e orgulhosos para querermos sempre dar a impressão de que os outros é que precisam de nós, e que nós, só por acaso, também não nos importamos de estar com eles. Ora, ora! Amar dói porque não sabemos admitir que na fragilidade da emoção não há fortes nem fracos, mas a partilha do amor que passado pelo filtro da razão e do social, recusamos a nós mesmos.

Reflectir sobre o amor é encurtar a distância que vai entre o pedestal em que tantas vezes pensamos estar colocados, e a alegria de uma comunicação espontânea. É não ter medo de sentir. É por isso que o amor dói. Porque preferimos argumentos de defesas doentias. Não somos capazes de dizer “venha daí esse abraço”. Não somos capazes de transmitir que nutrimos simpatia ou algo especial por alguém. É compreensível o medo da recusa num plano amoroso, mas não aceitável para enjaularmos a nossa capacidade inter-relacional, e em última análise, hipotecar o próprio amor. Amar dói, porque não queremos reconhecer que não somos só matéria. E antes que as defesas nos turvem a limpidez do afecto, que tal reaprender a amar?

Astros ou o Ano do Boi




Escreve Sofia Barrocas citando os astrólogos que Urano e Saturno vão estar em oposição durante todo o ano de 2009, para dizer que quem acredita na influência dos astros na vida dos homens tem pelo menos uma grande vantagem em relação aos outros: um bode expiatório para os males que afligem o mundo em geral e as nossas vidas em particular.

É de certeza reconfortante pensar que toda esta crise é resultado de uma conjunção planetária, mas o facto é que não podemos ficar sentados à espera de que passe e que outros planetas tomem o lugar destes. Temos de ser nós a criar as nossas próprias conjugações planetárias, a fazer a nossa astrologia, a elaborar o nosso horóscopo, a transformar a nossa vida e a dos outros, a melhorar este plano em que vivemos. Com astros ou sem eles, temos de ser capazes de entender as novas realidades em que se tornaram antigos problemas.

E acrescento: ano do boi ou do macaco, de Urano ou Neptuno, da cobra ou da lagartixa, o ano faz-se de dias, e os dias são feitos (também) por nós.

O resto é achar piada às diferenças e dizer que o pai natal ou fadas e duendes - infelizmente - não existem...

24.1.09

Onde estão vocês?


Blogues: the final frontier...


Nem pensar... Vejo inúmeros blogues temáticos, e poucos em que os autores se coloquem lá por inteiro, nas opiniões, nos desabafos, nas apreensões, no riso... focando apenas um tema (poesia, astronomia, literatura, engenharia, informática, coleccionismo, arte, eu sei lá... uma miríade infindável de temas e opções).

Um blog devia ser como um jornal: traz de tudo. Sociedade, opinião, economia, politica, desporto, tempo, mensagens... todo um mundo que não sabemos o que vamos encontrar quando o vamos ler.

Legitimamente existem (e ainda bem) blogues temáticos. sabe-se com o que se conta e vai-se lá como se vão às homepages (aos sites de jornais, museus, pessoais, engraçadas, chatas, giras, interessantes, absurdas, bla bla bla...). Mas não devia ser (talvez) a maioria. Os autores estão ali, criaram um blog e, ou se limitam a colocar quase notícias relativas ao assunto em causa (poesia, cinema, artes, etc) ou se limitam de outra maneira: escrevendo apenas um diário virtual.

É precisamente este meio termo que não encontro neste novo mundo dos blogues que agora comecei pelo simples prazer da partilha, que pensava ver na maioria dos blogues deste vasto mundo que é a net. Por favor não me tresleiam: estou apenas a pensar de alto.

O que se escreve é para se ler. Dias com coisas interessantes, dias sem interesse nenhum. Não é também assim a nossa vida? E não devia ser o blogue um reflexo dela?

Partilhemos mais. E claro que isso pode trazer dissonâncias em assuntos de opinião. Os comentários, pela visita geral que tenho feito, são geralmente sempre simpáticos, condizentes. Será por isso que muitos se coíbem de escrever muito a sério ou, pelo menos, com ênfase própria, por receio de deixarem de visitar ou de seguirem o blog?

A frontalidade aqui deve ser entendida como respeito, amizade, e não como debates entre blogs. Mas pode sempre deixar-se uma opinião. Todavia, será esse o principal motivo de tanta gente pouco opinar sobre os chamados temas fracturantes, a mera actualidade, ou o que quer que nos suscite interesse (um filme visto, ma música ouvida, uma discussão tida, uma asneira feita, um gesto que merece elogio...) limitando-se à poesia (que tanto gosto e adoro, e sobre a qual felizmente fico preenchido com os contributos existentes a esse nível na net), e diários pessoais sem opiniões, com pouco mais nas suas páginas?

Ousemos ser. Por inteiro. Na nossa fragilidade e naquilo que pensamos ser o correcto. As ideias discutem-se para isso. Para limar, para alertar, para partilhar, para aprender e informar, até para ensinar...

Desculpem-me se estou a ser emproado como iniciante que sou nestas lides, mas façamos dos blogues o reflexo do que somos (reservas privadas à parte do que se entender, obviamente).

Não é que esteja a primar por diários abertos à intimidade (e porque não?), mas usar o blog como ferramenta de comunicação de si (cada um de nós) como um todo.

Fiquei algo surpreso por talvez pensar que todos davam as mãos numa irmandade bloguista, comungando interesses (como acontece) mas partilhando também mais. Há tanta coisa bela que encontrei, pérolas impressionantes dos mais variados temas, que não têm visualizações, ou são raras, e seguidores são poucos, ou nenhuns... Eu próprio senti vontade de as partilhar aqui, na esperança de que fosse visto por quem me leia. Mas não é nisso que reside o problema.
Ainda bem que existem pessoas que não se interessam se são lidas. Afinal os antigos diários em papel também não eram de mais ninguém. Mas colocar na net um blogue, sendo um acto voluntário, deveria também ser um contributo humano e pessoal nas áreas e temas e vidas que cada um entendesse fazer.

Hoje admiram-nos pelo que escrevemos (e supostamente somos); amanhã não nos ligam nenhuma. Seja. Apenas precisamos de ser fiéis a nós mesmos, actualizando embora, as nossas decisões. Por mim, gostava que houvesse maior partilha. Eu tento :(

Beijinhos e abraços a tod@s os/as amig@s virtuais, com um poema meu já antigo, e que aqui generalizo dedicando a quem me leia:

Encontrei-te, mas não me viste
choravas lágrimas de orvalho

Chamei-te e não me respondeste
quisera comungar do teu silêncio

Partícipe da dor
num absurdo de confissão.

O Ano Chinês


Wang Li Hai, empresário e presidente da Liga dos Chineses em Portugal, diz sobre o ano novo chinês:


"É a festa mais importante para o nosso povo. Na lingua chinesa chamamos ao ano novo Guo Nian. Nian é um monstro que come crianças e que no último dia do ano se dirige às povoações tentando entrar em casa das pessoas para levar comida. Por isso as pessoas têm de queimar fogo-de-artifício e fazr muito barulho para pregar um susto ao Nian. Também não se dorme naquela noite".


Palavras para quê?

Novos provérbios

Eis os novos adágios (adaptados à era da informática)

1. A pressa é inimiga da conexão.
2. Amigos, amigos, senhas à parte.
3. Antes só, do que em chats aborrecidos.
4. A arquivo dado não se olha o formato.
5. Diz-me que chat freqüentas dir-te-ei quem és.
6. Para bom provedor uma senha basta.
7. Não adianta chorar sobre arquivo apagado.
8. Em briga de namorados virtuais não se mete o mouse.
9. Hacker que ladra, não morde.
10. Mouse sujo limpa-se em casa.
11. Melhor prevenir do que formatar.
12. O barato sai caro.
13.Quando a esmola é demais, o santo desconfia que tem vírus anexado.
14. Quando um não quer, dois não teclam.
15. Quem ama um 486, Pentium 5 lhe parece.
16. Quem clica seus males multiplica.
17. Quem com vírus infecta, com vírus será infectado.
18. Quem envia o que quer, recebe o que não quer.
19. Quem não tem banda larga, caça com modem.22.
20.Quem nunca errou, que aperte a primeira tecla.
21. Quem semeia e-mails, colhe spams.
22. Quem tem dedo vai a Roma.com
23. Um é pouco, dois é bom, três é chat ou listagem virtual
24. Vão-se os arquivos, ficam os back-ups.
25. Diz-me que computador tens e direi quem és.
26. O problema do computador é o USB (Usuário Super Burro).
27. Na informática nada se perde, nada se cria. Tudo se copia... e depois cola-se.

23.1.09

De Mim...


Sinto-me tentado a não fazer balanços da minha partitura. Tento observá-la neutralmente como uma simples análise. Nas melodias, nos tons profundos, nas notas suaves! De que servirá esta música? Para que servirá esta pauta? Para ser tocada pela sapiência secular da orquestra do mundo? Para ser dirigida por um maestro que racional e equilibradamente conduza as notas em tons mais sintonantes?

Mas é a minha vida. Uma partitura escrita com andamentos do tempo e da experiência. Com fragilidades que descrobriria a emoção (fazendo chorar) ao mais cruel dos homens, e pujantes ritmos que deixariam boquiabertos os mais convencidos! Não existe interlúdios nem traços contínuos. Existem agudos e graves que se misturam incessantemente na harmonia de um sentimento caótico. Por isso não sei viver, dado que não sei catalogar a música. Não sei compartimentar a vida. Viver é relacionar uma amálgama de experiências a cada segundo actualizadas. E, no entanto, todos os dias perguntam quando sai o disco. Mas pode acabar-se uma vida como se fosse a construção de um prédio?

Caminho para nenhures mesmo sabendo que o faço. Pior é quando pensamos saber o fim mas não conhecemos o meio. Até a morte é um momento, não um passo irreversível. Fica a obra, fica o estilo de música, e novos autores darão enfoque a outros percursores.

Não. O disco não sairá como resultado final. O disco sou eu, diariamente tocado por elegias com coros profundos a lembrar as trevas, e vozes doridas a materializar a dor. Com sons carregados de tristeza e nostalgia, mas não tétricos. Com ritmos enérgicos que convidam à dança, com pulsares de alegria que instintivamente nos fazem mexer o pezinho como quem se embala descontraidamente até se aperceber que na realidade fruía o momento em vez de o formalizar. Com notas brilhantes e distintas, simples e claras, sem junção de intrumentos que não o próprio sentir. Querem ir à discoteca?

A chuva cai lenta, miudinha, transversal. Depois torna-se cinzenta e austera. Assustadora. As vozes calam-se. Por instantes o mundo fica silente. Depois uma nuvem brincalhona afasta-se e empurra o sol para mais perto. As vozes voltam a ouvir-se como um tropel que se insinua.
Outras vezes nada disto acontece. No verão também o tempo fica estático. Como nós. O cheiro intenso a alcatrão de alguma estrada inundada de sol tórrido! Sem angústias. Sem anseios. Doentio. São. E tudo isso é música. O próprio silêncio. Tudo isso é vida. Instrumentos naturais de uma sinfonia tocada mesmo quando dormimos. Universal.

A vida não é um catálogo de compras nem um panfleto eleitoral onde constam promessas de um projecto. Por isso, quando me perguntam quem sou ou o que faço, respondo que a vida não depende do êxito do nosso trabalho, ou limito-me a ser eu, desconcertando as pessoas. Outras vezes digo uma frase que li algures, e que espantando o meu interlocutor, me deixa a mim livre para seguir o que quer que seja. A frase diz assim: Só na escola dos baldões da vida se faz o doutoramento para a tarefa de viver...
Aqui estou: num blog, um espaço virtual falando um pouco de mim, agracecendo alguns e-mails que recebo, e mostrando que sou frágil, como todos os que me estão agora a ler. Sim, por debaixo da nossa sapiência e pujança, existe sempre um ser humano... por essência livre, simples e genuíno. Eu estou aqui...


"O senhor não daria banho a um leproso nem por um milhão de dólares?
Eu também não.
Só por amor se pode dar banho a um leproso".

(Madre Teresa)



*****

Dai-me o dom,
a palavra,
já que me negais a fé.

E se vos aprouver nada me dar,
dai-me nada, Senhor,
fazendo-me crer que nada
Alguma coisa seja

22.1.09

O Espírito da Lei



Só temos o direito de julgar os outros quando temos capacidade de nos julgarmos a nós mesmos. E essa capacidade não é uma virtude, ou tornar-se-ia num dom hipócrita. É uma descoberta quotidiana, pessoal, de conversão interior, i.e., de mudança de atitudes e de valores, pois há que repensar a existência e actualizar as nossas decisões.

Só o amor pode julgar. Por isso é que o caminho aberto no interior das nossas consciências e do coração, em harmonia de paralelismo, nos pode dar a convicção de estarmos certos ou errados - com tudo o que de relativo existe nessas palavras -, na aferição de juízo, quanto mais de um veredicto. Uma coisa é a convicção (realidade subjectiva); outra é a verdade (realidade objectiva).

A justiça é o acto de julgar o comportamento alheio pelas acções exteriores, castigando-o ou premiando-o, e assenta na fronteira mais débil que encontro no ser humano: a lei e o amor.

Julgar implica, antes de tudo, um humilde conhecimento de nós mesmos, já que se nos considerarmos impolutos únicos, símbolos de justiça e de verdade, de estrita obediência à lei, estaremos a ser o nosso próprio bilhete para a viagem à desumanização, ao fundamentalismo e, consequentemente, à injustiça...

Quando fazemos teoria somos os senhores absolutos da dialéctica, mas quando descemos aos factos, sentimo-nos superados por aqueles que os vivem. Sempre hodierna é a afirmação de Rousseau: "O homem nunca é suficientemente forte para ser sempre o senhor, se não transformar a sua força em direito e a sua obediência em dever"... A autoridade da justiça não reside nela mesma e muito menos na subserviência à lei, mas ao espírito que a preside. E é por isso que só o amor entendido na justiça do homem e nos valores éticos e morais, pode e sempre deve julgar.

foto-montagem: Daniel na tomada de posse do blog Sair das Palavras, envergando simbolicamente a toga ;)

21.1.09

Ser


Se não podes ser águia altiva nas nuvens
Sê passarinho brincalhão no vale.
Se não podes ser árvore
Sê cana sóbria e ágil.

Se não podes ser poderoso
Sê homem simples e bom
alimentado dos sorrisos e cantos dos que a teu lado vivem.

A felicidade não chegará
pela grandiosidade do que tu sejas

mas pela verdade que encontres
naquilo que tu possas ser.
(Tagore)

20.1.09

Casamento Homossexual: um tiro de campanha






José Sócrates em campanha para as legislativas deste ano, começa pelo fácil: acena com os casamentos homossexuais.


Não tenho grande opinião quanto à adopção por pessoas homossexuais (masculinas ou femininas) dado existir toda uma zona por se perceber bem no crescimento psico-afectivo da criança, mas ser contra o casamento entre duas pessoas, independentemente do sexo, é atentar contra direitos, liberdades e garantias consagrados na Constituição e que, ainda assim, conseguem ser revogados e adiados por via ordinária (artº 1544 do código civil) que terá de ser alterado caso os casamentos homossexuais sejam aceites.

O que eu digo é que Sócrates é (mais uma vez) hipócrita e demagógico.

Querem uma prova? Em Outubro do ano passado os socialistas inviabilizaram no Parlamento projectos do PCP e do BE neste sentido. Parece que agora lhes dá jeito, e a Sócrates em particular, acenar com uma bandeira para ter votos.

Não gosto do termo gays. Somos pessoas. Heterossexuais, bissexuais, homossexuais, transexuais, heterossexuais, whatever... Mas usar pessoas privadas social e legalmente de uma vida em comum com os direitos inerentes ao casamento (que juridicamente não passa de um contrato) é não se importar se devem casar ou não: é tão-só usar essa legítima pretensão para ganhar votos. Se assim não fosse a lei já estaria aprovada há muito.

God Bless Us All


Sempre apoiei Barack Obama. Inteligente, culto, simples e humilde (raridades raras, passe o pleonasmo num homem político) sem falar no sentido de verdade (ao contrário do nosso Governo), foi eleito um presidente para os EUA e para mundo, porque nada acontece no mundo que não tenha tido epicentro ou origem nos Estados Unidos.

Achei inteligente o convite que fez a Robert Gates, secretário de Estado da Defesa: que passasse o dia fechado numa instalação militar longe de Washington por um imperativo de segurança. Se acontecesse alguma coisa a Obama, Gates assumiria o seu lugar. E isto não foi protocolar.


Recai sobre os seus ombros a "quase" governação do mundo, mas está ciente de que não é portador de pós mágicos e sobretudo faz política com as duas mãos, sem esconder jogo. E estar ciente das limitações e da crise económica, e dos conflitos do mundo árabe, etc etc etc, mas ter optimismo e realismo em dosagens equiparadas, -lo mais responsável e sereno, como mostrou ao longo de todo um ano.


God bless us all!

Da crise


Sim, a crise é de facto tão grande que até chegou aos peixes.
Sobretudo os de aquário...

Do Frio






Continua muito frio há muito tempo.


Até ela se coibiu do charme.






18.1.09

Casar com muçulmanos


A Amnistia Internacional pediu que D. José Policarpo fizesse uma retractação. A Amnistia considera que as declarações de D. José Policarpo fomentam a intolerância. Ora a Amnistia Internacional adquiriu a sua reputação por lutar pelos direitos humanos mais básicos. A Amnistia Internacional devia, por isso, ter como prioridade a luta contra a discriminação das mulheres muçulmanas. Mas, em vez disso, opta por tentar suprimir as críticas a essa discriminação. A Amnistia Internacional devia defender todos aqueles que, nos países muçulmanos, são perseguidos por criticarem a religião muçulmana. Mas, em vez disso, prefere criticar quem faz uma crítica certeira à religião muçulmana. D. José Policarpo identificou correctamente uma das fontes de discriminação das mulheres no mundo muçulmano. Fez uma generalização? Claro que sim. Mas todas as pessoas inteligentes conhecem as vantagens e os limites das generalizações. As generalizações permitem chegar à essência do problema. Neste caso, a essência do problema é que os factores culturais e religiosos são a principal causa de discriminação das mulheres no mundo muçulmano. No entanto, as generalizações não se aplicam a todos os casos particulares, mas como nenhum de nós é estúpido, todos sabemos que não se aplicam. D. José Policarpo não terá sido intolerante? Dificilmente. A crítica cultural e religiosa é parte integrante de uma sociedade livre e tolerante. Tolerar implica também tolerar a crítica.

Sejamos francos e chamemos os bois pelos nomes: hoje em dia, é facílimo e até chique criticar a Igreja Católica, mas ai de nós se criticamos o Islão! Cai o Carmo e a Trindade! Levamos de imediato o carimbo de xenófobos, intolerantes, discriminatórios ou, pelo menos, ignorantes, por sermos «desconhecedores» de uma cultura diferente. Mas afinal, como diria o outro, que raio de democracia é esta?!

O estatuto legal das mulheres no islão dá razão ao patriarca mas levantou uma fúria no multiculturalismo. Ora o multiculturalismo só abre uma excepção na tolerância e no fascínio para abominar o exacto Ocidente que lhes permite existir.

Não é aceitável, por exemplo, que uma alta figura da Igreja recomende cautela aos matrimónios inter-religiosos, mas aceita-se que imãs possessos preguem diariamente a extinção dos infiéis. Não é aceitável a influência da Igreja na sociedade, mas simpatiza-se com diversos estados estritamente submetidos ao Alcorão. Não é aceitável que a Igreja subalternize simbolicamente as mulheres e aceite os homossexuais como pessoas, não como estilo de vida, mas ignora-se e fazemos de conta que não vemos que a sharia reduza as mulheres à animalidade e os homossexuais sejam executados. Não é aceitável impor limites à liberdade individual, mas impõe-se a censura atenta aos críticos do multiculturalismo que sob o verniz ecuménico é completamente totalitário. E acusa-se de eventuais indícios de racismo ou xenofobia, mas promovem-se insultos ao "estado hebraico" em manifestações a apelar à morte...

As pessoas muçulmanas até podem ser tolerantes, óptimas pessoas, com valores de bem, mas porque por natureza não podem crer em nada mais porque nasceram numa família muçulmana, por mais tentativa de diálogo que possa haver, é a doutrina islâmica, o Alcorão, que está por detrás: a palavra do Alcorão prevalece sobre a pessoa, e foi isto que o patriarca tentou dizer. A bem de quem preze a sua própria liberdade e dos filhos que venha a ter, claro, como era o caso da conversa informal com jovens solteiras que o bispo estava a ter no casino da Figueira da Foz.

A Igreja Católica é susceptível de críticas (como tudo na vida), mas preza a liberdade do ser humano, dá orientações gerais e longe dela privar qualquer pessoa de optar em consciência pela crença, pelo agnosticismo, pelo ateísmo ou por outra religião e, sejamos verdadeiros, a doutrina não prevalece sobre a pessoa, apesar de ser firme. Como diz a Igreja: não há pecador: há é pecado. Ou como diriam os antigos nos adágios: "Primeiro a obrigação, depois a devoção, depois a diversão". Ou seja, a oração há-de ser uma manifestação pessoal e religiosa da pessoa na sua esfera íntima, pessoal e comunitária, porque o testemunho não se vive sozinho, mas como dizia S. Paulo "a fé sem obras é morta", i.e., primeiro tratemos das pessoas, do semelhante, e só depois (ou em simultâneo) façamos orações por elas (e por nós).

São estes pedaços de respeito absoluto pela dignidade e liberdade do ser humano, que o islão não tem e, que por isso, o bispo achou por bem, e para bem das próprias jovens que desconhecem a dinâmica que subjaz à doutrina do Alcorão quando casam e que invade todos os campos (religioso, cultural social, familiar e profissional), que D. José Policarpo quis dizer...

13.1.09

Dia Zero

Dia Zero

Fui (há muito) convocado para criar o meu próprio blog, na sequência de algumas coisas que escrevo aqui e ali.
Hoje tinha alguma disponibilidade interior (que a do tempo, vai-se arranjando) e decidi tentar isto.
Será a tentativa do Encontro, e colocarei aqui aquilo que mexer comigo: sensações, poemas, actualidades... Coisas minhas e de outros. Um pouco do que mexer comigo. E fá-lo-ei por gosto e vontade, não por obrigação. A própria disposição gráfica dos blogs é estranha. É como um e-book ou ler um jornal on-line. Nada como o contacto físico com o papel. E as pessoas.
Mas não somos todos estranhos até nos tornarmos amigos? :)